Nova Nippon
4 Parte Três
3
Sexta-feira 8h da manhã, todos estavam na sala acompanhando a primeira aula. O dia amanheceu chuvoso e provavelmente continuaria assim até o final do dia. As gotas de chuva dançavam exuberantes do lado de fora as vezes podia se ouvir uma fraca trovoada, estava chegando o final do verão e nesses dias a chuva sempre vinha com mais freqüência. O ano letivo recém tinha começado não fazia nem duas semanas e logo já entrariam no inverno.
O sinal toca, fim da primeira aula, até a chegada do próximo professor sempre tinha uns dez minutos para os alunos, uns usavam esse tempo para navegar na internet, geralmente os garotos, as garotas gostavam mais de botar o papo em dia, fofocar.
Scott era o único que não fazia nada, literalmente, as vezes ele ficava olhando para fora e outras vezes cochilando.
– E então como esta indo as coisas com ele? – perguntou Julia a Akemi que estava distraída olhando Scott já no terceiro sono.
– Não sei acho que bem – respondeu Akemi. Ela se lembrou do dia que o encontrou no terraço da escola, Scott era mesmo o rapaz que havia salvado ela no vagão aquele dia e também ajudado ela com aquela caixa pesada.
Eles vinham para a escola juntos e iam embora juntos desde então, mas Scott sempre muito calado poucas vezes eles se falavam, o que deixava Akemi um pouco triste, ela queria se aproximar mais, porém a barreira do silêncio parecia impossível de derrubar, ainda mais que sua timidez atrapalhava.
– Yoo e aew garotas – vociferou Dione.
– Você não sabe chegar de outra maneira a não ser gritando? – Resmungou Julia.
– Não enche – retrucou Dione – saca só ontem no final da aula fui pro clube de karate como sempre – disse ele fazendo uns gestos com as mãos, como que golpeando o ar – então o presidente do clube me veio com essa, ele ta louquinho pra conhecer você Akemi e pelo jeito dele, ta amarradão.
Akemi não reagiu à aquela informação, parecia nem se quer interessante, ao menos para ela.
– Hey você me ouviu, eu acabei de falar que o cara mais maneiro da escola, praticamente o cara mais popular entre as garotas está afim de você – exclamou Dione intrigado com a reação da amiga
– hunf.. Akemi não está interessada – Disse Julia – Ela já tem alguém que ela quer – completou ela fazendo um leve movimento com a cabeça indicando o lugar onde estava Scott. Akemi ficou um pouco corada em suas bochechas, mas não disse nada.
– Que, sério isso? – Dione estava surpreso em ouvir aquilo, ele sempre foi ligado a elas, mas agora ouviu algo que até então elas não haviam compartilhado com ele – É brincadeira né? Olha pra ele o cara nem é bonito e muito menos simpático, ele só fica lá no canto, não fala com ninguém. Sem conta que ele tem um jeito de que vive com vontade de matar alguém.
– Não força Dionii – Julia apoiava os sentimentos da amiga, sempre a defendia e a incentivava.
– Não estou forçando nada, pra mim ele combina mais com a esquisitona daquela crente ali, que é outra cheia de não me toque, não posso fazer isso, não faço aquilo – Dione fez uma careta ironizando enquanto falava.
Ayumi Nanako a garota que Dione se referiu era muito bonita, porém devido a sua crença e maneira de se vestir os outros alunos não tinham muito contato com ela. O uniforme que as garotas usavam eram saias curtas, acima da metade da coxa sempre e as camisas decotadas, já ela usava saias sempre compridas até os joelhos e blusas ou camisas nada decotadas, geralmente de mangas compridas. O cabelo dela era liso e comprido da cor castanhos, os seus olhos cor de mel. Ela era tão encorpada quando Julia, mas não dava pra notar muito suas curvas por causa de sua maneira de se vestir.
– Chaga Dione, mais uma palavra sua e vou arrancar os dentes da sua boca – contestou Julia, ela odiava esse tipo de atitude nas pessoas, querer julgar os outros, isso a incomodava muito – Se você acha o karateka lá tão incrível assim, por que não fica você com ele, hum?
– tshi .. meu negocio é mulher, só não sei o que Akemi viu naquele esquisitão.
– Ai gente parem de brigar, eu sei que vocês estão preocupados comigo, mas deixem as coisas acontecerem naturalmente – disse Akemi interrompendo a discussão dos dois, ela odiava ver eles brigando, mas isso acontecia quase que direto.
– Sentem-se – Falou a professora entrando na sala, estava pra começar o segundo período.
O barulho das trovoadas ficaram um pouco mais altos e mais freqüentes, a água da chuva escorria pelo vidro das janelas, o barulho de da água correndo pelas calhas da escola, isso deixava Scott ainda mais sonolento, pouco provável que iria prestar atenção não aula. Dione estava um pouco inquieto, a idéia de Akemi estar gostando de Scott o incomodava, de vez enquanto no decorre da aula ele olhava para Scott tentando descobrir como ela poderia gostar dele. Ele sempre achou que Akemi era do tipo de garota que estava a espera de um príncipe ou alguém não humano, foram tantos os foras que ela deu nos garotos que Dione ate perdeu as contas e quando finalmente aparece um que meche com o coração dela ele não consegue entender. Mais uma vez ele vira a cabeça para traz e olha por cima dos ombros para Scott, só que desta vez seu olhar se encontrou com o olhar de Scott, rapidamente ele virou para frente, aquilo penetrou na alma dele, Dione começou a suar frio, sua respiração ficou mais forte, seus batimentos cardíacos também. “mas o que foi isso?” pensou ele, por alguns segundos foi como se aquele olhar estivesse vendo a mente dele, ele se sentiu em um daqueles pesadelos que você quer acordar, mas não consegue, como se a qualquer momento fosse morrer.
Akemi achou estranha a agitação do amigo, percebeu que ele tremia um pouco, mas não estava tão frio para isso, mesmo com a chuva ainda assim era quente. A garota vira-se para traz também olhando por cima dos ombros, ela vê Scott, olhando para fora, pensativo talvez ou simplesmente desinteressado pela aula. Que ao contrario dele era a matéria favorita de Akemi, Noções de medicina, a escola realmente preparava os alunos para o futuro, já saiam praticamente doutores dali, o valor pago pelos pais era muito bem investido.
A idéia de conhecer o corpo humano, suas funções, seus segredos, mexia muito com Akemi, futuramente ela pensa em ser médica, ela já esta com seus planos todos feitos saindo da escola preparatória direto para faculdade.
Era por volta de dez e meia, quando acabara o segundo período, a próxima matéria era Ed. Física. Essa os garotos gostavam afinal de contas adoravam ver a professora Claudia Linhares, ela era uma mulher muito linda e atraente, com seus apenas 26 anos, pele morena, bem acentuada, típico corpo violão, seus cabelos crespos, negros e um sorriso de se apaixonar.
A professora Claudia entrou na sala, ela estava vestindo uma calça suplex preta, com um moletom rosa, tinha um apito pendurado no pescoço.
– Bom dia pessoal – disse Claudia, e como num som de um coral ou uma torcida no dia de jogo os garotos cumprimentaram ela.
– Bem parece que estão bem animados hoje, ok vamos para o ginásio, como podem ver com essa chuva usar a área de treino da rua não da, então todos comigo.
Um a um foram juntamente com a professora Claudia até o ginásio, tinham até perto do meio dia para aproveitarem a aula depois os alunos iriam tomar seus banhos para voltarem pro almoço e assim então pra aula novamente do próximo período.
Chegando no ginásio os garotos e as garotas se dividiram, foram em direção aos vestiários para trocar de roupa e participar da aula. Alguns garotos sempre ficavam trocando pensamentos pervertidos sobre as garotas trocando de roupa no vestiário ao lado já outros falavam da professora e outros apenas animados para fazer algum esporte. Scott porem não falava nada. Do lado onde estavam as garotas, algumas se indignavam com a paixão dos garotos pela professora, outras ficavam vendo suas medidas e comentando o quanto perderam peso ou o quanto ganharam. Akemi ficava sempre com Julia, ao ver a amiga trocando a roupa não deixou de notar em como ela tinha seios grandes, enquanto os dela eram pequenos, mas não era só ela as outras garotas ali também estavam olhando e com uma certa inveja daquelas proporções.
Todos estavam já arrumados, saíram do vestiário e foram para a quadra, no centro a professora Claudia explicava como seria a atividade naquele dia, que incluía correr, saltar, atividades com bola e outras coisas mais. Todos foram logo pros exercícios, Scott porem ficou mais afastado, sentou-se no chão e ali ficou, ele não gostava muito de exercícios ainda mais fazer algo com aquela gente toda olhando, mesmo sendo só seus colegas, era desconfortante para ele. Claudia percebeu que ele estava lá, foi para perto dele e começou a conversar, Akemi não podia ouvir sobre o que falavam, acreditava ela que a professora estava tentando convencer Scott a participar da aula, ela não estava muito enganada sobre isso, porem algo a deixou um pouco desconfiada, pois o modo que a professora olhava para ele com aquele sorriso, “pra que chegar tão perto?” pensou ela observando os dois. Sem perceber ela não viu a bola que estava vindo em sua direção e que acertou ela em cheio, o estouro foi forte, suas vistas ficaram embaçadas e aos poucos tudo ficou escuro, ela acabou desmaiando.
Como se tivesse se acordando de um sono tranqüilo ela começou a voltar si, sua visão ainda um pouco distorcida, mas aos poucos voltando ao normal e aquela sensação de dor na sua cabeça, estava latejando um pouco. Ela podia ouvir o som da chuva lá fora e da água escorrendo.
– Akemi você esta bem?
Akimi viu que Julia estava ali com ela, olhando ao redor percebeu que estava na enfermaria.
– O que aconteceu? – perguntou Akemi, com o tom de voz baixo e fraco.
– Você foi atingida com uma bola, os garotos estavam treinando passes e com um chute errado a bola foi na sua direção.
– Entendo. Quem me trouxe pra cá?
Julia deu um leve sorriso, o que ela ia contar ela tinha certeza que ia deixar a amiga contente.
– Foi o Scott.
– Scott? Mas ele estava longe de mim e nem sei se ele estava me vendo.
– Foi tão lindo amiga... Só deu o estouro ele saltou e veio correndo, te pegou no colo e trouxe você pra cá.. ai parecia cena de filme, xonei ao ver aquilo. – Julia estava mesmo empolgada e muito animada em relação a amiga.
– Pena que eu estava inconsciente, não vi nada. – Akemi pôs a mão na cabeça e logo ajeitou o cabelo. – mas onde ele esta agora, não era pra ele estar aqui?
– Ele estava aqui até agora, a doutora falou que logo você ia acordar, então ele me disse que ia buscar algo pra você tomar assim que você despertasse.
– Quanto tempo eu fiquei assim?
– Uns 30 minutos.
Um barulho no trinque a porta se abre e Scott passa por ela, como uma garrafinha de suco e outra de água ele se aproxima da cama onde estavam as garotas, ele larga as coisas na mesinha ao lado e se senta na cadeira que ele mesmo tinha colocado ali quando estava esperando ela acordar.
– Esta se sentindo bem? Tem alguma dor? – perguntou Scott.
– Eu estou bem. – Akemi mesmo naquela situação e com um pouco de dor, ficou contente por ele estar ali.
– Bem eu vou voltar pra aula, ainda tem mais uns 20 minutos, a gente se vê no almoço, bjo amiga ate daqui a pouco. – Disse Julia saindo, queria deixar os dois conversarem um pouco. Não queria ficar ali segurando vela.
Mesmo Julia saindo mais uma vez o silencio tomava conta do lugar, Akemi queria acabar com essa barreira, queria falar com ele mais a vontade, assim como ela falava com Julia e Dione, mas parece que os seus nervos não contribuíam nenhum pouco para isso. Ela queria falar de coisas simples só pra ver se surgia um assunto, mas ela poderia falar sobre o que? Sobre a chuva? Ou do miko que ela pagou levando a bolada na cara. Sentada na cama ela segurou firme o lençol que estava cobrindo suas pernas, estava reunindo forças para falar, ela se perguntava como ela conseguiu falar com ele aquele dia no terraço? Hoje ela pensava devia ter congelado aquele dia e ficado lá falando com ele pra sempre.
– Você é bem distraída. – Disse Scott tentando quebrar aquele silêncio.
– É parece que eu sou. – concordou ela rindo de si mesma.
– Eu não sabia que você era tão leve, achei que você fosse mais pesada.
– Você esta querendo me dizer que olhava pra mim e me achava gorda? – Akemi entendeu que Scott queria quebrar essa barreira, deixou se levar pela conversa.
– Não, não, não foi isso, eu sabia que você devia ser leve só não imaginava que era tão leve.
Finalmente eles estavam falando sem medo, Akemi via que podia falar com ele sobre tudo, eles estavam ali rindo um para o outro, lembrando da cena e tirando sarro, ela se sentiu mais próxima dele quem sabe agora poderiam conversar mais vezes. Aqueles 20 minutos passaram tão de pressa que parecia que foram apenas 2 minutos, o sinal estava quase tocando e eles teriam que ir almoçar e depois voltar pra aula. Na verdade Akemi não queria isso, ela queria ficar ali com ele, mesmo que pra isso ela tivesse que levar outra bolada na cara, mas algo que ela não esperava aconteceu e que faria muito bem a ela.
– Escuta – disse Scott olhando nos olhos dela. Akemi sentiu o calor do seu olhar era aconchegante, e ele continuou. – Você quer sair comigo no final de semana? Pegar um cinema quem sabe, — ele deu uma risada tímida – eu iria gostar muito, mas se tiver problema pra você eu entendo.
O coração de Akemi parecia que tinha parado, seu pensamento ficou branco, aos poucos preenchido com o barulho da chuva que caia lá fora. Uma vez seus pais fizeram uma festa de aniversario surpresa para ela, quando ela estava fazendo dez anos, ela ficou muito feliz, ela lembrava como aquele sendo o dia mais feliz da vida dela, mas esse momento foi substituído pelo o que estava acontecendo agora com ela. Será que ela ainda estava desmaiada e estava sonhando com aquela cena toda, daqueles olhos meigos olhando para ela, aquelas palavras doces saindo daqueles lábios que aparentavam ser macios e delicados. Uma coisa era certa para ela, se fosse um sonho ela não queria acordar.
– Eu acho que não deveria ter dito isso, me desculpe, eu...
– Sim.. sim é sim eu quero sim – disse ela antes que Scott terminasse de falar, eufórica, com um grande sorriso no rosto.
Ambos se olhavam, dava pra ver o ar de felicidade estampado no rosto deles. O sinal tocou era hora do intervalo precisavam ir, saíram juntos e retornaram para sala e pegar suas coisas, Akemi ia pegar o lanche que sempre trazia de casa feito por sua mãe, já Scott ia pegar o dinheiro para comprar comida na cantina, como ele morava sozinho a idéia de acordar bem cedo para preparar um almoço não estava nos seus pensamentos e vontade alguma ele tinha pra isso.
Akemi pegava suas coisas quando Julia se aproximou dela, notou o rosto de felicidade da amiga, veio pronta para saber das novidades de como foi o papo.
– Hum... e essa carinha ai? Sinto que aconteceu alguma coisa, vai me conta tudo.
– Bem... – Akemi estava tímida e ainda não acreditava – a gente conversou e.... Ele me convidou pra sair no sábado, vamos ao cinema juntos.
– Aiiii que legal amigaa, nossa to super feliz por você, que bom... – Julia parecia mais empolgada que a própria Akemi.
– Calma eu disse a ele que tenho que ver com os meus pais primeiro.
Nesse mesmo momento entra na sala Takashi Rei, juntamente com Dione. Takashi era o garoto que ele falou que estava interessado em Akemi e que também era presidente do clube de karete. As outras garotas que ainda estavam por ali, ficaram nervosas, pois admiravam Takashi, tinha umas que iam todos os dias no clube ver ele praticar e ficavam torcendo por ele e incentivando-o. Takashi tinha um bom porte, músculos definidos, uma boa aparência, um rosto que botava inveja ate em algumas garotas, ele tinha 1,70 de altura e bem educado. Eles chagaram perto de Akemi e Dione os apresentou.
– Bem Akemi eu vim aqui com um único objetivo, — Disse Takashi com aquela voz angelical, as garotas perto se arrepiavam toda só de ouvir. – eu quero convidar você pra sair comigo esse final de semana, o que me diz?
– Bem, me desculpe, mas eu já tenho compromisso pro final de semana. – respondeu ela.
– Entendo, mas quem sabe você possa desmarcar, eu pensei em levar você no parque que estará abrindo é bem bonito lá você vai adorar.
– Eu acredito, mas é que....
– Não diga mais nada, se aprovação dos seus pais eu ligarei pra eles, tenho certeza que iram adorar, todos sabem quem eu sou e quem é minha família. – A família dele eram donos da maior empresa de informática, tanto no Japão como no Brasil.
– Sim mas é que... – Akemi tentou explicar.
– que falta de educação a minha, é claro você vai querer ir com sua amiga, eu entendo sem problema pode levar ela também.
– O que ela esta tentando dizer que ela já tem um par pra esse final de semana e não é você – Julia quase que gritou, mas se conteve um pouco, tinha que fazer algo pela amiga que não conseguia falar.
– Como? – Takashi ficou confuso não espera isso, era tipo um fora que ele estava levando e se tinha uma coisa que ele odiava era perder. – como assim com outro? Com quem?
– Com ele – disse Dione apontando para Scott, que estava meio que ouvindo a conversa e esperando pra ver o final do assunto.
– Ele? Mas quem é ele? – perguntou Takashi.
– Ele é o aluno novo, Akemi está interessada nele – falou Dione, gostando da situação.
– Dione o que está fazendo, não tinha que dizer nada – Julia ficou brava com ele de novo, não via motivo de Takashi saber com quem Akemi ia sair.
Takashi se aproximou de Scott, mesmo sendo mais baixo que ele ainda assim não se sentiu intimidado, afinal ele era faixa preta em karate, sua confiança nas artes marciais era indescritível, tanto quanto suas habilidades. Ele foi campeão mundial juvenil, dois anos seguido, muitos diziam que seria campeão mundial na modalidade dos adultos também.
– E você quem é? – perguntou ele à Scott. – pouco me importa, mas só estou te avisando que seus planos foram cancelados ok, Akemi ira sair comigo no final de semana.
Scott queria apenas sair dali e ir compra o almoço, mas ao olhar a expressão no rosto de Akemi, ela parecia querer que ele demonstrasse pra ela, que se importava e que ela sairia com ele, ela queria muito ouvir Scott dizer isso. Scott apenas respirou fundo, como que incomodado com tudo aquilo, não queria se expor a nada, odiava chamar atenção, mas aparece que estava sem opções.
– Olha, não estou nem ai pro que você quer, ela decide com quem vai sair. – disse Scott.
– Não nós iremos decidir – contestou Takashi.
Scott sabia que aquelas palavras soaram de uma maneira que ele não iria gostar, mas não falou nada. La fora a chuva caia e as trovoadas ficavam mais fortes, o clima estava tenso ali dentro, como Scott queria agora estar dormindo em algum canto da escola, aproveitando o barulho da chuva ou até mesmo em casa. Ele chegou a pensar que talvez não foi uma boa idéia ter vindo a aula hoje, suas meias ainda estavam molhadas, por causa da rua quase toda alagada quando saiu de casa, mesmo trocando o calçado ele não tinha trazido um par de meias a mais, tinha tudo pra acabar pegando um resfriado. O resfriado seria o de menos do que a incomodação que poderia acabar dando ali.
– Nós vamos resolver isso no tatame, você e eu, quem vencer sai com a garota, se você não quiser a vitoria já é considerada minha. O que você vai fazer, topa ou prefere desistir agora? – Takashi lançou um desafio que para ele seria fácil era sua área sua especialidade, Scott estava em completa desvantagem.
– Isso não é justo Takashi! – vociferou Julia – Karatê é sua especialidade, não tem por que Scott aceitar isso, você está sendo infantil.
Scott preferia desistir e deixá-lo levar a garota, ou apenas dizer que desistia e depois Akemi dava um fora no cara e ambos marcavam de novo para sair, simples e sem problemas. Ao olhar de novo para o rosto de Akemi mais uma vez ele sentiu que ela queria que ele fizesse algo ali e agora, de novo foi jogado contra a parede, por um segundo ele chegou a pensar, “ou ela acha que posso mesmo vencer ele ou então esta louca pra me ver apanhar”. Com um ar bem desanimador Scott falou.
– Que seja vamos fazer o seu jogo.
4
Quase meio dia e quinze, ia passando pelos portões da escola o detetive Nicolas dividindo o guarda-chuva com sua assistente Ayori, a gola do seu sobre tudo estava levantada, andando a longos passos se dirigiam para a porta principal. O porteiro já havia informado o diretor que eles estavam a caminho, que por sua vez fez questão de receber os detetives pessoalmente. Fechando o guarda-chuva Ayori balançava ele um pouco para as gostas saírem e não ficarem pingando escola a dentro, porém o diretor informou que poderia deixá-lo com o pessoal da recepção, que ficavam em uma sala bem próxima a porta.
Nicolas tirou o seu sobre tudo e deixou com as moças da recepção ficando apenas com o paletó.
– Quando recebi aquela mensagem, sobre a visita de vocês, no começo achei meio estranho virem ate aqui, nossa instituição e uma das mais renomadas do país e a mais renomada do Estado, mas tudo que estiver ao meu alcance para ajudar a resolver o caso da pobre Karin ficarei bem contente. – disse o diretor desconfortável com a situação, pois poderia trazer inquietação para os alunos, porem temeu mais ainda em se recusar, pois era de um assassinato de que se tratava.
– Não se preocupe queremos apenas ver como era o dia-a-dia da garota na escola, quero tentar entender o comportamento dos jovens de hoje e também conhecer quem eram seus colegas de classe – respondeu Nicolas, em uma tentativa de deixar o Diretor mais a vontade e não se importar tanto com a presença deles ali.
– Então por onde querem começar? – perguntou o Diretor.
– Bem pode começar nos mostrando como são as atividades deles sem ser na sala de aula.
– É claro por aqui.
O detetive Nicolas não estava prestando muita atenção no que o diretor falava enquanto caminhavam. Nicolas apenas ficava olhando ao seu redor, realmente aquela instituição era enorme, totalmente diferente da escola pública que ele estudou na sua infância, com a chuva lá fora ele lembrava que pra estudar em tempos assim tinha que fazer um desvio pelo bairro vizinho, pois a ponte que ligava seu bairro a outro ficava interditada. Mesmo que naquela época o Japão já era bem desenvolvido, certas surpresas da natureza eram inevitáveis, mesmo sendo um bairro bom, ruas ótimas, não se podia evitar a força que a água vinha pelos rios e lá uma vez que outra não dava pra passar pela ponte.
O refeitório realmente era grande, o diretor mostrava com orgulho as instalações e ficava falando a toda hora como os alunos eram bem tratados e que era prioridade da escola manter esse ambiente sempre agradável. Nicolas ainda se perguntava por que eles tinham mesmo que ver a cozinha, olhando a expressão no rosto do diretor ele entendia que por puro orgulho, Nicolas mesmo querendo sair dali e começar a ver as salas de aula, mais precisamente a sala em que a garota morta estudava, ainda assim preferiu deixar por conta do diretor.
Quando finalmente saíram daquele enorme saguão, o SB de Nicolas vibrou, uma nova mensagem ele tinha recebido, enquanto o diretor falava algumas coisas para Ayori sobre a segurança da escola, o detetive aproveita para olhar de leve seu SB, tentando não chamar a atenção do diretor.
Assunto: Novas pistas
De: Kazuo, Central
Temos imagens de uma câmera de segurança da estação, você vai gostar de ver talvez tenha alguma ligação, estou deixando em anexo aqui...
Não esqueça que no find tem aquela cerveja... convida Ayori, vai ta um pessoal la do escritório.
O detetive ia clicar para salvar o anexo, mas foi interrompido por uma agitação, vozes, baixas por causa da distância, mesmo assim ele conseguia ouvir. Ele para e olha para um corredor que estava a sua esquerda e mais a frente vê uma movimentação de certos alunos, praticamente uns vinte alunos estavam ali.
– Desculpe interromper diretor – Disse Nicolas, ainda olhando para o grupo de jovens agitados – mas poderia me dizer, o que tem ali? parece que está acontecendo alguma coisa os alunos parecem bem agitados.
O diretor deus alguns passos na direção de Nicolas para olhar melhor, ele estava caminhando mais a frente junto com Ayori já tinha alguns minutos, não tinha notado até então que o detetive estava mais atrás.
– Ah ali, é o clube de Karatê... uma das coisas que nossa escola também promove são várias atividades extracurriculares – ele chegava a estufa o peito quando falava da instituição – e clube de karatê é uma delas, gostamos das tradições do Japão e queremos manter muitas delas aqui.
– Será que podemos dar uma olhada? – Nicolas estava curioso, tinha ali uma boa oportunidade para ver como eram os alunos, ainda mais agitados.
– A sim claro sem problema, nosso jovens gostam da competição, esses ai devem estar vendo algum treino – disse o diretor apontando para o grupo de jovens enquanto andavam e se aproximavam deles. – seria muita sorte se fosse o nosso jovem talento, Takashi... ele foi já campeão nessa modalidade, um orgulho para nossa instituição, depois posso mostrar também a sala de troféus se quiserem.
– Isso não é perigoso, digo deixar os alunos praticarem assim? E se algum deles se machucar? – Falou Ayori.
– A não se preocupe, nessas atividades sempre fica um professor responsável, já pra evitar esse tipo de coisa, o clube só abre com a presença do professor, fora isso nenhum aluno possui a chave para a sala... Então se está aberta quer dizer que o professor encarregado está ali.
Eles se aproximaram dos alunos que pareciam estar empolgado com o que estava acontecendo ou com o que ia acontecer. Nicolas ao olhar para dentro da sala vê de um lado um rapaz alto bem encorpado usando o uniforme da escola, do outro lado um rapaz um pouco mais baixo, usando um kimono e aparentemente com um bom porte físico, típico de alguém que pratica a arte marcial já a algum tempo. O detetive não deixou de ouvir os murmúrios de alguns alunos ao seu lado sobre os dois rapazes que estavam prestes a duelar.
“Coitado não tem a mínima chance contra Takashi” disse um. Nicolas automaticamente já identificou que aquele usando kimono e faixa preta era Takashi. “Ele foi campeão ano passado... esse outro ai, mal começo o ano aqui, nunca vi ele frequentando nada, vai ser fácil essa heehhee” disse outro e com isso Nicolas já imaginou que o outro não passava apenas de um garoto normal. A pergunta era o que passa pela cabeça de alguém que não luta nenhuma arte marcial desafiar alguém que é praticamente um mestre? Nicolas queria continuar ouvindo mais e ao olhar em volta percebia que praticamente todos ali estavam torcendo para o tal Takashi, os gritos de empolgação de certas garotas ao dizer o nome Takashi eram mesmo chatos de se ouvir, isso se você se colocar no lugar do que ia enfrentar ele. Olhando mais a frente Nicolas percebem uma garota que estava um tanto preocupada, notou que sua amiga ao lado estava tentando anima-la, ele sentiu uma vontade muito grande de se aproximar dela, mas antes que ele pudesse se mexer, a voz do professor que iria avaliar a luta interrompeu seus pensamentos, parecia que o duelo iria começar.
– Olha que sorte a nossa, vamos poder ver o nosso campeão fazendo uma demonstração hoje, queria que fosse com alguém mais qualificado, mas assim está bom também – disse o diretor enquanto olhava para Ayori com um sorriso no rosto, não tinha como não notar nele o orgulho que ele tinha da escola que administrava.
Todos que ali estavam já sabiam praticamente o resultado, olhavam mesmo simplesmente pela empolgação e não era todo dia que Takashi ficava se exibindo na frente dos outros, para as garotas era uma oportunidade de ver seu ídolo em ação e para os rapazes, a ideia de ver alguém apanhar do campeão poderia ser engraçado. Sem ninguém esperar, um grito fez que por alguns instantes todos se calassem.
– Estou torcendo por você Scott! – Akemi gritou, usando suas mãos na boca para se certificar que Scott realmente iria ouvir.
– Comecem – disse o professor, fazendo um gesto com o braço, indicando o início da luta.
Takashi estava com aquela postura de artista marcial, porem bem confiante, ele iria acabar com aquilo com apenas um golpe. Do outro lado Scott parado sem postura de luta nenhuma apenas esperando seu oponente, ambos se olhavam por alguns instantes, típica cena que você veria em um filme. Takashi apenas sorriu com o canto da boca e disparou na direção de Scott, muito rápido, com um salto e um giro no ar, esticando a perna o golpe certeiro vinha na cabeça de Scott, que até então permanecia parado e um pouco cabisbaixo. Não tinha erro a luta nem tinha começado e já estava acabando, com um movimento ainda mais rápido para baixo Scott se desvio, a perna de Takashi passou por cima de sua cabeça e enquanto ela voltava ao chão, antes mesmo de tocar a ponta do dedo no solo, Takashi foi atingido no peito com um golpe usado pela perna de Scott, o impacto foi grande, Takashi foi jogado para traz, quase que uns seis metros de distância.
O trovão gritou bem alto lá fora, ou talvez o silencio que estava ali fez com que parecesse mais alto. Ninguém acreditou naquilo, com um golpe o garoto considerado o melhor do mundo estava no chão gemendo de dor, incapacitado de se levantar, o professor encerrou a luta. Alguns outros que faziam parte do clube de karetê foram ajudar o garoto ferido a se levantar, enquanto o resto olhavam apavorados para Scott que ainda estava parado no mesmo lugar, ele nem se mexer para executar o movimento. O diretor da escola estava paralisado quando se deu por conta do que aconteceu mandou levar o garoto para a enfermaria.
– Sabe ai está uma coisa que não se vê todo dia – Disse Ayori, chegando perto de Nicolas.
– Realmente isso foi muito interessante – os olhos de Nicolas estavam fitados em Scott, as chances de algo assim acontecer era pra uma em um milhão, mas não podia negar seu estado de prazer ao ver um garoto metido perder na área em que é especialista, ou simplesmente estava contente por finalmente algo na tão maravilhosa escola que o diretor passou o meio dia todo descrevendo deu errado.
Aos poucos os alunos foram se dispersando, uns acompanharam o garoto ferido até a enfermaria, ele era ajudado por outros dois colegas enquanto massageava o próprio peito, ainda com aquela cara de dor. Akemi foi ao encontro de Scott, contente com a vitória dele.
O vento sopra em uma janela que estava aberta fazendo um pequeno zunido, o detetive Nicolas se lembrou que tinha recebido uma mensagem e que não chegou a ver o anexo. Ele aproveitou o momento que o professor estava distraído e lamentando pelo seu campeão ter perdido a luta, se retirou mais para um canto fora da sala, protegendo com seu corpo ele abriu na palma de sua mão uma tela holográfica do seu SB. Nicolas começa a ver a imagem captada pela câmera de segurança, no que ele percebeu era a estação N2, atentamente ele fica olhando o vídeo, consegue reconhecer alguns rostos naquelas imagens e uma delas era Karin, que estava acompanhada de mais outra colega, até então ele desconhecia aquele vídeo, como que algo assim não veio à tona antes, já fazia quase uma semana desde o assassinato da garota, mas por um lado ele entendia, afinal aquelas imagens não foram captadas perto do local do crime e talvez para a polícia era tão pouco relevante. Ao fundo ele consegue perceber um rosto família, que ele acabara de ver no meio daqueles jovens, mais uma vez ele repassa o vídeo dando mais uma conferida, escreveu algumas anotações rapidamente ao perceber que o diretor juntamente com Ayori estavam vindo ao seu encontro, mas para Nicolas aquele passeio escolar poderia terminar ali mesmo, precisava ir de volta para o escritório trabalhar em algumas pistas que encontrou naquele vídeo.
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