Descubro que estávamos numa espécie de cela subterrânea. Debaixo de um museu.

Quando saímos, o museu está vazio. Fósseis, quadros e poeira pra todo lado.

–Adoro museus. – o ruivo diz.

Algo nele chama muito a minha atenção. Talvez porque as pessoas de onde venho tem cabelos pretos e castanhos, e não vermelho sangue. Mas seu cabelo é um vermelho muito vivo. Vivo demais para ser natural.

A porta principal entreaberta chama minha atenção.

–Por aqui. – digo e vou até ela.

Isto está ridículo. Não me lembro da última vez que estive com tantas dúvidas. A porta foi obviamente deixada aberta. Meu relógio sumiu e não sei quanto tempo fiquei inconsciente, mas museus abrem todos os dias.

Descemos a escadaria de mármore e nos deparamos com uma Kombi branca. Há vários outros carros estacionados na rua e pessoas andam por todo lado, mas na maçaneta da porta tem um cartaz onde se leem as letras pichadas “N H”.

–Entrem. – ouço a mesma voz surgir em minha cabeça novamente – É especial para vocês. Jeff, você ainda está com sua carteira de motorista. Você dirige.

O bigodudo se dirige ao banco do motorista onde estão as chaves do veículo. Ele é o Jeff, aparentemente. Os outros entram pela porta lateral e fico com o banco do passageiro. A mulher pega o cartaz e bate com força a entrada.

Informo Jeff de onde fica a Herança para que cheguemos lá rápido e sem interrupções da voz.

–“N H”... – a mulher lê o cartaz – Nova Herança, provavelmente.

Enquanto ela debate com o ruivo e o velho, penso com meus botões. Como a voz consegue aparecer em todos os lugares. Um filme de ficção brota em minha cabeça. O herói da história morava num planeta dominado por um ser sombrio que colocou chips nos cérebros das outras pessoas e...

–Implantação cerebral. – penso alto.

–O que disse? – Jeff sussurra para mim.

–É como a voz se comunica conosco. – explico e vejo que ele está olhando para mim como se eu fosse um tipo de gênio – Enquanto estávamos desacordados, colocou chips em nossos cérebros. Ou sou só eu que estou com dor de cabeça?

Comentários entre os três no banco de trás da Kombi rolam e Jeff sorri para mim.

–Vamos nos livrar dessas coisas. – ele diz e faz um retorno brusco quando faltavam apenas alguns metros para chegarmos à Herança – próxima parada, Emergência. Temos que tirar isto logo.

–O que você está fazendo, seu imbecil? – a mulher grita – Ele está com a minha mãe, temos que fazer o que ele manda!

Ela solta seu cinto e se atira para o banco da frente. Arranha o rosto de Jeff e tenta forçar um retorno com o volante.

Enquanto a Kombi barateia na estrada, vejo um imenso carro preto com vidros fumê vindo em nossa direção.

Tento tirar esta mulher louca de cima de Jeff para que ele nos ponha na direção certa, mas é inútil. Ela grita e me dá uma cotovelada no nariz. Enquanto recuo para evitar outro golpe, o velho e o ruivo tentam puxá-la de volta para seu lugar.

Quando eles finalmente conseguem, o carro preto passa numa velocidade absurda na frente da Kombi, que estava ocupando duas faixas, e arranca o para-choque.

–Se desobedecerem de novo, não vou errar. – a voz diz.

Isso está ficando perigoso demais.

Jeff nos reencaminha para onde eu mandei.

Assim que o velho desce da Kombi, uma quadrilha nos aparece. Não têm armas, apenas estão com os rostos cobertos com máscaras de ski. Nunca se deve revidar, de qualquer forma.

A mulher grita para que eles não a machuquem e se esconde atrás de mim.

Eles não machucam nenhum de nós, apenas levam a Kombi. “Tudo planejado pela voz.” Penso.

–Obrigada por me proteger. – a mulher diz – Estamos correndo perigo e nem perguntei seu nome.

–Leonel. – respondo e ela sorri – E o seu?

–Olivia. – ela me diz.

Este lugar está muito pior do que anos atrás. As janelas estão todas quebradas e a porta está tão desgastada que o cheiro de ferrugem quase me faz desmaiar. Eu e Jeff empurramos a porta até que dê para todos passarmos.

Tudo está destruído aqui dentro.

Não se vê as paredes internas porque estão derrubadas. Alguns tijolos jogados, móveis empoeirados e um cheiro pútrido fortíssimo. O corrimão da imensa escada principal está sujo com uma gosma marrom que tento ignorar o aroma.

Só algumas coisas estão boas para usar aqui dentro.

Cinco cadeiras, uma mesa e um lustre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.