Nova Geração - Ano 1
29 Amigos, Amigos, Beijos a Parte
Notas iniciais
Desde que Olivia resolvera fingir que nada acontecera entre ela e Lucy parecia que tinha sempre algo incomodando quando elas estavam juntas. Era como um pacote enorme e invisível que ficava ali parado sem que ninguém tivesse coragem de tocar nele. É claro, Lucy não se atrevia a tocar no assunto também, mas aquilo estava incomodando e ela não sabia muito bem como resolver e nem tinha com quem discutir, já que sua melhor amiga era o assunto.
Na manhã do sábado seguinte à visita de Hogsmead Lucy estava sentada nas escadas do saguão de entrada do castelo comendo batatinhas Ruffles que Fred contrabandeara para ela e lendo um livro chatíssimo de Feitiços que ela precisava terminar a tempo para os NOM’s e ela mal havia começado. Ela estava tendo dificuldade de passar de um parágrafo por conta de se distrair até com a própria unha quando alguém se sentou no degrau acima do seu.
– Olá prima.
– Ãn... Vic é você?
– Da ultima vez que chequei sim.
– O que você...
– O que eu quero?
– Bem, sim. Você não costuma conversar muito comigo e com a Molly.
– Bom, eu e a Molly temos nossas desavenças. Mas nunca tive nada contra você.
– Hm. – Lucy mordeu a boca incerta. O que ela poderia estar querendo?
– Eu não quero nada Lucy. Só estou numa fase bem difícil e queria passar um tempo com alguém que não faz ideia disso para que eu não precise receber olhares de pena o tempo todo.
– A Roxanne, ela...
– Me olha como se eu tivesse uma doença terminal.
– Rob, aquele seu amigo da Lufa-Lufa...
– Não quer falar comigo por que acha que eu traí ele por voltar com meu namorado.
– Você... Está namorando? De novo?
– Ei, não pareça tão surpresa. Eu sei que tive muitas experiências ruins com namorados, mas você não acha o cara certo sem ficar com alguns errados antes.
– Você namorou o Lucas. Eu não chamaria aquilo de erro, chamaria de desastre.
– Ok. Aquela foi uma péssima decisão mesmo.
Ambas riram e Lucy começou a se sentir mais a vontade. Era estranho, sua prima era quase uma estranha para ela e mesmo assim era quase normal conversar com ela.
– Você realmente gostou de todos eles?
– Dos meu namorados? – Lucy assentiu – Por Merlim, não! Alguns deles gostavam mais de mim do que eu deles.
– Você se apaixonou por algum deles pelo menos?
– Acho que estou apaixonada agora. – Vic corou. Lucy deu risada.
– E quem é o sortudo?
– Acho melhor deixar o nome dele fora disso. – Vic mordeu o lábio. Era estranho como a maioria das meninas da família tinha essa mania.
– Ora, vamos! Pra quem eu contaria?
– Sua irmã.
– Ei, nem tudo que acontece na minha vida eu conto para a minha irmã.
– Aé? Tipo o que?
– O fato de eu ter beijado uma garota por exemplo. – a frase saiu da boca de Lucy antes mesmo que ela pudesse se impedir – Ah meu Merlim! Você não pode contar isso para ninguém!
– Ei, ei, ei! Acalme-se. Eu não vou. – ao ver que Lucy não se acalmava ela completou – Eu prometo.
– Meu Merlim! Por que eu fui dizer isso em voz alta?!
– Pelo jeito estava preso dentro de você a muito tempo.
– É bem, realmente é difícil quando a sua melhor amiga esta indisponível para conversar com você por que ela sabe que você gosta dela e acha que se não falar no assunto vai simplesmente desaparecer.
– Espera. Você esta falando da Oliv...
– É! Ela mesma. E por favor, não conte isso a mais ninguém, ou ela me mata.
– Uau! Você realmente esta numa confusão só não é Lucy?
– Obrigada capitã obvio. – Lucy revirou os olhos.
– Olha, eu só tenho uma coisa a dizer, se essa é realmente você não adianta evitar o assunto. E se ela te ama, mesmo que seja só como amiga, ela vai te aceitar como você é.
– É, fica bem difícil ver isso quando ela mal consegue me olhar nos olhos desde que eu a beijei...
– Dê tempo ao tempo Lucy, vocês vão se resolver. – Vic se levantou e começou a descer as escadas.
– Ei, Vic.
– Oi.
– Obrigada.
– Não foi nada. – Vic sorriu e se virou novamente.
– Vic! – Lucy chamou de novo, ela se virou – Você não me disse o nome do garoto misterioso.
– Teddy. – Vic sorriu ao ver o espanto no rosto de Lucy, ela piscou e foi embora. Os longos cabelos loiros balançando para lá e para cá no rabo de cavalo.
...
– VOCÊ FEZ O QUE?! COM QUEM?! – gritou Rachel mais alto do que pretendia.
James estava andando por um corredor no quinto andar apenas para esvaziar a cabeça quando viu Rachel virar o corredor vindo em sua direção furiosa seguida por uma Alice desesperada que tentava segurá-la pelo braço. Rachel chegou dando um empurrão nele apesar de ser evidentemente bem mais baixa e menor do que ele a fúria dentro dela parecia transforma-la num troll raivoso.
– Como você pode? – ela perguntou depois que conseguiu controlar a voz.
James olhou para Alice que se escondia atrás da amiga.
– Desculpe. – ela murmurou.
– Não tem problema Alice.
– Você consegue prestar menos do que eu imaginava sabia? Beijar a namorada do seu primo e melhor amigo? Pedir para a Alice mentir por você?!
– Eu não pedi... Eu só disse para ela me dar um tempo para consertar as coisas.
– Consertar? Você esta tendo um caso com a Danielle!
– Eu não estou tendo um caso! Foi ela quem deu em cima de mim, ela quem me beijou!
– E você, pobre coitadinho, estava sob o feitiço petrificus totalus e não podia fazer nada para impedir?
– Por que você liga afinal?! Não é como se você fosse a melhor amiga do Dominic!
– Tem razão, eu não sou. – era impressão dele ou ela estava corando? – Você é. E ainda assim, saiu por ai beijando a namorada dele.
– EU NÃO QUERIA BEIJAR ELA OK? EU NUNCA QUIS! – James percebeu que estava gritando e então respirou fundo antes de continuar – Eu nunca faria isso com o Dominic, Rachel. Quer você acredite ou não!
– Então por que você não disse pra ele ainda que a namorada dele está por ai beijando os amigos dele?
– Por que... Eu estou com vergonha do que eu fiz. Eu não queria beija-la, mas eu retribui! Eu não... Parecia que eu não tinha controle de mim mesmo. Quando eu me dava conta estava beijando ela e... E eu não consigo me perdoar. – James encostou-se a uma das paredes do corredor e escorregou para o chão – Como posso esperar que ele me perdoe?
– Eu acho que eu vou... Deixar vocês conversando... – disse Alice enquanto saia de fininho. Nem James, nem Rachel tentaram impedi-la.
– Você tem que dizer isso para ele James. – Rachel se sentou ao lado de James no chão.
– Eu mal consigo olhar para ele.
– Ele é seu amigo. Ele vai entender.
– Não ele não vai! Ele vai me odiar para o resto da vida, eu traí a confiança dele!
– Foi aquela piranha da Danielle que fez isso com você. Ela tentou tirar vantagem desse seu jeito despreocupado, só que você liga para os outros mais do que permite que as pessoas vejam. Ela não sabia disso e deve estar frustrada agora. Pode ter certeza que se você não for falar com o Dominic logo, ela vai inventar alguma historia que a inocente nisso tudo. É como meu pai sempre disse, “mentiras são como anões, elas tem perninhas bem curtas, mas correm como o vento.”.
– Mentiras são como o que? – James não conseguiu segurar a risada.
– Ei! Vejo que o seu humor babaca ainda esta intacto. – ela sorriu levemente, com o canto da boca.
– Você pode tirar a minha dignidade e o meu orgulho, mas não o meu humor babaca. – ele sorriu cheio de si.
Rachel soltou uma risada e um ronco, como o de um porquinho, saiu de repente. Ela cobriu a boca e começou a ficar vermelha como um pimentão, o que contrastou bem com os cabelos e olhos negros e a pele clara.
– Você... Ronca? – James gargalhou.
– Pare de tirar sarro de mim, Potter. – ela lhe deu um soco no ombro.
– Na verdade, eu achei bem fofo, Shaw. – ele bateu o ombro no dela.
Rachel corou de novo e desviou o olhar do dele.
– Bom, eu fico feliz que tenha te animado Potter. E talvez, com sorte, colocado algum juízo nessa sua cabeça dura. – ela começou a se levantar apressada e James se levantou atrás.
– É. Quem sabe. – ela se virou para ir embora, mas ele puxou seu braço – Ei, Shaw. Você não esta esquecendo algo?
– E o que seria isso? – ela o olhou, desconfiada.
– Meu beijo de boa sorte. Tenho um jogo de quadribol importante hoje depois do almoço contra a Corvinal.
– Beijo de boa sorte? – ela ergueu uma sobrancelha – Tenho certeza que você consegue alguém para te dar esse tipo de sorte. Não precisa ser eu.
– Mas eu quero a sua sorte, Shaw.
– E por quê? – James não respondeu, mas sentiu o rosto ficar quente. Ela sorriu.
Rachel deu um passo para frente, ficou na ponta dos pés e lhe deu um beijo na bochecha e sussurrou:
– Boa sorte, Potter.
Ela se afastou com um sorriso envergonhado e o rosto bem vermelho. Rachel se virou e foi embora. James não tentou impedi-la.
...
Era dia de jogo. Lucy sabia exatamente onde encontrar Olivia, mesmo que ainda faltassem horas para o jogo começar. Ela estaria no campo de quadribol, verificando equipamentos, pensando em jogadas. Fazendo o que uma boa capitã faz: surtar antes do jogo longe de seu time.
Por esse motivo, pouco depois da conversa que teve com Victorie, Lucy resolveu que iria conversar com a amiga. Resolver a situação de uma vez por todas. Ela estaria sozinha, seria o momento perfeito.
Ao se aproximar da entrada para o vestiário dos times sua determinação começou a falhar. Era bem mais fácil ser corajosa mentalmente. Ela estava pronta para desistir e voltar para o castelo, mas algo a fez ficar. Ela empurrou a porta de madeira a sua frente e entrou.
O vestiário era um lugar abafado e com pouca iluminação, cheio de armários, equipamentos, vassouras e bolas de treino. Demorou um tempo para os olhos de Lucy se acostumarem com a pouca luz, mas logo ela viu Olivia, com o uniforme completo da Grifinoria, andando para lá e para cá.
– Ansiosa?
– Ah meu Merlim! – Olivia deu um salto – Você me assustou.
– Desculpe.
– Eu estou uma pilha de nervos! Se a Grifinoria não ganhar esse jogo estamos fora da competição pela taça de quadribol. – Lucy viu que as mãos dela tremiam.
– Ei, ei. Calma, Liv. Vem cá. – ela pegou Olivia pelas mãos e a colocou sentada num banco de madeira no centro do vestiário, Lucy se sentou em frente a ela – Vai dar tudo certo. Você é a melhor capitã que a Grifinoria já teve. Vocês vão vencer.
– É, bem, eu queria ter tanta certeza.
– Liv, eu odeio colocar mais coisa na sua cabeça num dia como hoje, mas eu preciso conversar com você. – Lucy mordeu o lábio esperando que Olivia tivesse um ataque ao ouvir isso.
– O que foi? – ela perguntou finalmente olhando para Lucy com atenção.
– Eu sei que você pode ficar com raiva de mim, por que você me pediu para nunca mais falar disso, mas... Eu preciso me abrir. E você é minha melhor amiga. – Olivia ainda a olhava fixamente – É que eu... Eu gosto de garotas. Eu descobri durante as férias de verão e não sabia como te contar, especialmente depois que eu... Meio que fiquei afim de você. Eu não queria te colocar numa posição desconfortável, eu juro. E eu não devia ter tentado te beijar também. Eu sei que você não gosta de mim desse jeito e você tem o seu namorado e eu respeito isso. Se você quiser eu posso me afastar, descobrir como lidar com esses... Sentimentos. Eu só não quero te magoar.
O silencio se instalou no vestiário. Olivia encarava as próprias mãos que apesar do discurso não tinham soltado as de Lucy. O coração de Lucy batia forte no peito a ponto de ela ter certeza que a menina a sua frente ouviria. Foi um silencio torturante e Lucy não aguentou muito tempo.
– Por favor, diga alguma coisa.
Olivia apertou levemente as mãos de Lucy e então levantou a cabeça e a olhou nos olhos. Os olhos castanhos dela como duas poças de chocolate, a pele amendoada refletindo a luz fraca do sol que entrava pelas janelas minúsculas do vestiário, os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Era um rosto que Lucy conhecera a vida toda e vira evoluir, mas mesmo assim, era como se sempre fosse possível descobrir algo novo toda vez que a olhava.
Mas se o coração de Lucy já estava acelerado, ele ultrapassou todos os limites de velocidade do universo quando Olivia se inclinou e a beijou. A sensação dos lábios de Lucy nos dela não era exatamente nova, mas era inegavelmente eletrizante. Todo o corpo dela parecia vibrar.
Ela ergueu a mão para o rosto de Olivia e a acariciou, elas se beijavam lentamente, Lucy teria toda a paciência do mundo, ela não queria acabar com aquele momento incrível. Mas paciência não era o forte de Olivia, surpreendendo Lucy mais ainda, a menina levou a mão a sua nuca e a puxou para mais perto, aumentando também a intensidade do beijo. Lucy estava definitivamente no céu... Ou pelo menos chegou perto.
Da mesma forma repentina com a qual tudo havia começado, terminou. Olivia de repente se afastou como se tivesse tomado um choque e olhou para Lucy como se não soubesse quem era a menina na sua frente.
– Eu não... Nós não... Isso foi... – gaguejava Olivia, olhando em volta como se esperasse encontrar uma multidão ali, pronta para rir dela.
– Incrível! – suspirou Lucy.
– Não! – a voz de Olivia saiu mais aguda do que o normal – Isso foi um erro. Eu não devia...
– Você não vai conseguir me fazer acreditar que não sentiu isso também. – disse Lucy, sentindo uma pedra de gelo se formar em seu estomago.
– Acho que você devia ir embora. – Olivia disse isso olhando para os pés, segurando os braços como se Lucy fosse ataca-la a qualquer segundo.
– Liv, eu... Você não pode fazer isso. Não assim. – Lucy tentava ao maximo segurar as lagrimas em seus olhos.
– Vá embora. – Olivia não levantou a cabeça para olha-la.
E sem forças para argumentar, brigar, gritar ou chorar, Lucy se levantou e saiu do vestiário. Pensando que talvez em algum lugar daquele castelo enorme ela conseguisse um buraco onde pudesse se esconder para sempre para sentir aquele aperto agonizante no peito sozinha.
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