Victorie não tinha tentado falar com Teddy desde a briga pelo telefone. Rob por outro lado evitava qualquer tipo de aproximação da parte dela, sempre que a via olhava para o outro lado ou mudava de direção. Ela imaginava a quantos lugares ele chegava atrasado porque tinha que mudar sua rota toda vez que se viam. Ela achava isso patético.

Mas na verdade, a única coisa patética na vida dela era ela. Ela brigara com o namorado por ciúmes, magoara o melhor amigo e de bônus arranjara um grande, loiro e insuportável perseguidor. Tudo no mesmo dia. Desde a festa de comemoração em que Vic e Lucas deram uns amassos, ele não parava de insistir para que eles voltassem a sair. E é claro, ela não aceitava. Ela sabia onde isso ia acabar.

– Vamos princesa, esse final de semana tem a ultima visita a Hogsmead antes do natal. Venha comigo.

– Eu já disse que não Lucas. – ela e Roxanne faziam seu caminho à estufa onde teriam aula de Herbologia.

– Você sabe que quer. – ele andava atrás delas como um cão sem dono.

– Não, eu não quero. – graças a Merlim, Roxanne já havia aprendido a ignorar os caras que vinham perturbar Vic, eles eram muitos.

– Vic, por favor, como meu presente de natal, o que acha? Nós poderíamos nos divertir antes de voltarmos pra casa.

– Meu pai me prometeu um vestido lindo. Estou muito mais ansiosa por esse presente.

– Você parecia gostar muito mais do meu presente naquela festa. – ele sorriu como um perfeito canalha.

– Vamos deixar uma coisa bem clara. – ela parou de andar e se virou para olha-lo – Eu estava bêbada e perturbada. Foi por isso que aquilo aconteceu, mas não se preocupe, não vai acontecer de novo nem que eu esteja sob a Maldição Imperius! Entendeu?

– Você faz ideia, de quantas garotas nessa escola estão loucas para sair comigo? Como você pode dizer não, pra isso? – ele fez um gesto para mostrar a si mesmo.

– Docinho, vamos ser sinceros, nós já tentamos isso uma vez e sabemos onde termina. Comigo encontrando você e uma dessas piranhazinhas que você acabou de citar em algum canto desse castelo. Então, minha resposta continua sendo não.

Ele ficou quieto encarando-a e muito vermelho olhou para os lados. Ela não tinha notado que estava na frente da Estufa nº4 na frente de todos os outros alunos que teriam aula naquele horário. Sem exceção todos eles assistiam a discussão. Vic deu uma risadinha:

– A vida de vocês é tão sem graça que vocês tem que assistir cada respiração minha? Vão arranjar o que fazer seus desocupados.

Todos disfarçaram e voltaram para suas conversas sussurradas que provavelmente eram sobre ela naquele momento.

– Eu não vou dizer de novo Lucas. – ela olhou para ele seria.

– Esta bem. – ele levantou as mãos em sinal de rendição e foi embora.

Assim que ele estava a pelo menos dez metros ela suspirou de alivio.

– Achei que ele nunca ia embora!

– Você tem que parar com isso Vic. – Roxanne a olhava seria.

– Parar com o que? Ele veio atrás de mim.

Roxanne continuou olhando-a incrédula.

– O que você quer que eu faça? Vire freira?

– Você sabe muito bem do que estou falando Vic. Você nem tentou escrever para o Teddy.

– Achei que eu já tinha deixado bem claro que eu não ia mais tentar falar com ele. Se ele quiser vai achar um jeito de falar comigo.

– Vic..

– Roxy... – ela imitou a voz da amiga – Eu não vou ficar correndo atrás de ninguém.

– E quanto ao Rob? Vai dizer que não sente falta dele?

– Claro que sinto! Mas ele não quer falar comigo, não vou forçar ninguém.

– Você é muito orgulhosa Vic, isso ainda vai te fazer perder gente importante, se já não esta fazendo.

– Quem é você? Minha mãe?

– Sua melhor amiga. – disse ela com o rosto serio – E sua família.

Neste momento o Professor Longbottom abriu as portas da estufa e elas entraram para mais uma aula sobre Plantas Potencialmente Mortais.

...

Logo depois do almoço Vic resolveu ir até a biblioteca achar alguma paz para fazer um trabalho dificílimo de Feitiços que ela tinha que entregar dali a dois dias e Roxanne foi com ela.

– Você bem que podia me ajudar com isso aqui né Roxy? Sei que você esta na turma avançada do Professor Flitwick.

– Não Vic, você tem que fazer seus trabalhos sozinha.

– De que adianta ter uma melhor amiga inteligente se ela não me ajuda! – disse ela fingindo estar nervosa.

Roxanne riu.

– Idiota. – ela lhe deu um empurrãozinho e continuou rindo.

Elas ainda estavam rindo quando um garoto moreno – um dos poucos descendentes de japonês em Hogwarts – de brilhantes olhos castanhos e sorriso encantador usando vestes da Corvinal e um brasão de monitor no peito virou no fim do corredor. Roxanne quase parou de respirar quando o viu.

– Calma Roxy, eles podem sentir o medo. – disse ela provocando a amiga.

– Ah, e você deve saber né?

– Golpe baixo! – Vic deu risada – Você devia ir falar com ele.

– Pra você é fácil falar, é só dizer “oi” e todos os garotos caem aos seus pés com esse seu poder de bisneta de veela. Sabe, isso é golpe baixo.

– Não culpe minha genética ok? E o Charlie não parece ser afetado por isso, ele só tem olhos para você.

– Não seja boba. Ele nunca nem me olhou.

– Oi. – Charlie e seu sorriso encantador estavam parados na frente delas.

– Oi... – a voz de Roxanne saiu como um sussurro.

– Oi! – Vic sorria como se já fosse natal.

– Ah, oi Victorie.

Charlie a olhava como se só tivesse notado sua presença naquele momento. Ok, ele podia ser fofo e estar super afim de Roxanne – e ela apoiava cem por cento – mas como ele podia não nota-la?

– Ei, Roxanne – ele parecia nervoso – eu estou com um pouco de dificuldade no trabalho que o Flitwick passou para o fim da semana. E eu soube que você esta na turma avançada dele então pensei que poderia me dar uma ajuda...

Como a voz de Roxanne parecia ter sumido Vic tomou a iniciativa:

– Ela ia adorar! Ela é muito boa em Feitiços. – Roxanne a olhou como se fosse esgana-la.

– Legal! – ele parecia muito animado – Legal. Então quando podemos...?

– Ela esta livre agora à tarde, eu estava indo para a biblioteca estudar mesmo. – Roxanne ia lhe dar um soco a qualquer momento.

– Ótimo! Então eu vou pegar minhas coisas e eu te encontro no pátio pode ser? Odeio fazer trabalhos na biblioteca, me sinto sufocado lá, tudo bem para você?

Roxanne conseguiu balançar a cabeça para responder e ele abriu seu lindo sorriso.

– Ótimo, ótimo. Eu te vejo lá foram então.

Ele saiu correndo pelo corredor em direção a Sala Comunal da Corvinal.

– Eu juro Victorie Weasley, eu vou arrancar esses seus cabelos loiros a sua linda cabeça e enfia-los pela sua garganta pra ver se assim você cala a boca.

– Ah, Roxy... – Vic começou a andar e deixou a amiga no corredor, se virou e mandou um beijo para a amiga – Divirta-se.

E então ela saiu toda sorridente para a biblioteca.

Chegando lá, ela achou uma mesa perto de uma janela e começou a abrir seus livros, estendeu o pergaminho, pegou o tinteiro e a pena e estava pronta para se concentrar e fazer aquele trabalho chato e complicado. Passaram-se horas até ela chegar na metade do pergaminho com algumas ideias, seus olhos estavam ardendo, a luz que entrava pela janela já estava enfraquecendo e sua cabeça doía como nunca.

Seu pensamento começou a vaguear e ela começou a pensar nas qualidades de quem era escolhido para a Corvinal. Todos diziam que os mais inteligentes iam para lá, isso era verdade, tinham alunos na sua casa que nem precisavam estudar para as provas, outros eram neuróticos que estudavam o tempo todo, mas tiravam suas notas altas no fim do ano. Nenhum desses dois casos era o dela. Ela tinha algumas matérias em que ia bem sem esforço, mas em outras – como feitiços – ela tinha que lutar por sua nota o ano todo. Voltando a pensar sobre sua casa, uma vez ouviu que em grande maioria, os mais bonitos de Hogwarts estavam naquela casa, graças ao fato de que a fundadora era conhecida por sua beleza incomparável. Bem, se esse era uma qualidade dos alunos da Corvinal era ai que ela se encaixava. Não que ela fosse alguma metida convencida – ou pelo menos achava que não era – mas ela sabia que era bonita, ou a sua descendência de veela ajudava muito. Em qualquer um dos casos, ela tinha certeza que esse era o único motivo de estar numa casa como a Corvinal. Se não fosse bonita tinha certeza que acabaria sem casa nenhuma, pois não se encaixava em nenhuma delas.

Ela colocou a cabeça entre as mãos e bufou. Como ela ia terminar aquilo? Já estava quase escurecendo! Ela se forçou a olhar pela biblioteca, estava mais vazia de quando chegou ali, olhou pelos corredores entre as prateleiras e então viu ele. Rob, em pé lendo um livro enorme com seus grossos óculos de leitura. Ela pensou em chama-lo, mas sabia que ele iria correr para o outro lado. Então decidiu só olhar por alguns instantes. Erro dela. Foi ai que ele resolveu tirar os olhos do livro e olhou em volta e seus olhos se encontraram. Ele a encarou e ela voltou a olhar para sua mesa fingindo que nada tinha acontecido. Alguns segundos depois alguém sentava na cadeira logo a sua frente.

– Rob. – disse ela.

– Sentiu minha falta, pequena? – disse ele com seu doce sorriso.

–Que tipo de pergunta é essa? É claro que senti! De mais! Mas só por causa disso você acha que pode vir aqui depois de semanas e esperar que eu te receba numa boa?

– Não. Claro que não. – ele parecia mais velho com aqueles óculos – Eu disse coisas que não devia. Fiz coisas que não devia. Desculpe.

– Bem, eu também não devia usar você como confessionário sempre que um garoto me da o fora. – ela realmente se sentia culpada – Eu devia ter prestado atenção em você também. Desculpe.

– Desculpas aceitas. – disse ele.

– As suas também. – ela sorriu.

– Então... O que você esta fazendo, pequena? – ele olhou todos aqueles pergaminhos amassados e os livros abertos.

– O trabalho do Flitwick para o fim da sexta. Esta me matando!

– Quer ajuda?

– Não seria pedir muito?

– Ei, você é uma merda quando vai falar de qualquer matéria na teoria. Ou eu te ajudo ou você vai pra casa com uma nota “T” de Trasgo.

– AH! Muito bom saber que você levanta expectativas tão altas em mim. – ela riu – você vai me ajudar ou não?

– Claro. Deixe- me ver o que você já tem.

...

Depois de exaustivas horas na biblioteca abafada olhando para livros que deviam ter mais de duzentos anos Vic não podia se sentir melhor. É claro que aquele trabalho tinha feito seus neurônios darem nó como foninhos de ouvido, mas ela tinha voltado a falar com Rob, e achava que isso compensava todo o esforço. Até mesmo porque se ele não tivesse aparecido para salva-la ela estaria até agora parada na metade daquele pergaminho.

Feliz e louca para comer alguma coisa e se jogar na cama ela foi até o Salão Principal ver se ainda conseguia jantar. Chegou lá pouco antes de a sobremesa ser servida e se sentou ao lado de algumas meninas da Corvinal que viviam cobertas de livros e se esqueciam de que um batonzinho podia ajudar e muito a aparência delas. Ela comeu um grande prato de salada e estava louca para comer um pouco da carne assada que tinha bem na sua frente quando os pratos de limparam sozinhos e a sobremesa foi servida. Aquilo estragou um pouco o seu bom humor. Ela se contentou em comer o mousse de maracujá que estava a sua frente e já começou a pensar em sua cama quentinha na sala comunal da Corvinal.

Logo ela estava se levantando da mesa, deu uma olhada pelo Salão Principal, mas não conseguiu achar Roxanne e saiu do Salão para encontrar sua cama. Chegando ao seu dormitório ela trocou as vestes por seu pijama rosa e estava pronta para se deitar quando escutou um barulho na janela. Uma coruja bicava insistentemente a janela ao lado de sua cama. Ela abriu e pegou o bilhete.

“Encontre-me perto das estufas.”

Sem assinatura, sem mais detalhes. Ótimo, ela tinha mesmo que aguentar algum mané misterioso aquela hora da noite? Ela pensou seriamente em ignorar o bilhete. Ai pensou que podia ser mais uma das tentativas de Lucas de fazê-la sair com ele e achou melhor ir dizer ao babaca que ficasse longe de uma vez por todas. Vestiu um roupão por cima do pijama e saiu de fininho pelo castelo. Sair do castelo àquela hora não era nada fácil, Filtch e sua gata viviam xeretando por ai, mas ela já tinha memorizado algumas rotas seguras pelo castelo. Chegando perto das estufas ela diminuiu o passo e ficou mais atenta. Olhou em volta e não conseguia ver nada, estava escuro e ela estava congelando. O inverno estava quase sobre Hogwarts e o vento se tornava muito frio nessa época do ano. Vic estava a ponto de desistir, devia ser só mais uma pegadinha. James podia muito bem estar envolvido. Então fechou o roupão mais um pouco e chamou mais uma vez.

– Olá?

Nenhuma resposta. Ela se enrolou mais no roupão e se virou.

– Oi.

– Ah meu Merlim! Quer me matar de susto?! – atrás dela parado como uma estatua sexy e misteriosa de cabelos azuis estava Teddy – Só pode ser brincadeira! Vocês três combinaram?!

– O que?

Teddy a olhava sem entender. Mas ela estava frustrada demais para explicar agora. Como era possível? Ela brigar com os três no mesmo dia e no mesmo dia os três aparecerem querendo falar com ela.

– Isso é algum tipo de brincadeira doentia?

– Do que você esta falando?

– Nada. – ela se recompôs – O que você esta fazendo aqui?

– Precisava falar com você.

– Assinar aquele bilhete não teria sido má ideia.

– Você não teria vindo.

– Você pode estar certo. O que você quer?

– Escute Vic, nós não tivemos muito tempo para conversar pelo telefone e eu achei melhor vir aqui. Cartas demoram demais.

– Prossiga.

– Eu devia ter atendido ao telefone, desculpe. Lola... Ela é daquele jeito mesmo, mas ela tem namorado, não tem com o que se preocupar.

– Então quer dizer que se ela não tivesse namorado você estaria interessado? – ela ergueu uma sobrancelha.

– Não! Eu só quis dizer que ela não esta interessada em mim entende?

– Ah, porque toda garota ficaria atraída por você se não tivesse outro cara para distrai-la.

– Não. Vic... Olha... Você não esta tornando isso nada fácil. – os cabelos dele começaram a ficar amarelos.

– Ah, desculpe. Eu me esqueci de que eu deveria tornar tudo fácil para você, graças a sua impressionante beleza e poder de sedução.

– O que? Não! – os olhos dele passaram do azul habitual para uma cor entre o laranja e o vermelho e voltaram ao azul.

– Escute aqui, Theodore, isso – ela fez um gesto para indicar os dois – nós, não ia dar certo de qualquer jeito. Você esta lá em Londres, com outros amigos, outra vida. Com certeza tem varias garotas dando em cima de você no seu trabalho. E eu estou aqui, na maior parte do ano. Tenho meus estudos para me concentrar, amigos a que tenho que dar atenção. Nossas vidas são bem diferentes, eu sei disso. Então vamos fazer um favor a nós dois e vamos acabar isso antes que alguém se machuque ok?

– Você... Esta... Terminando comigo? – seus olhos escureceram até chegarem perto do preto.

– Chocado? – ela perguntou irônica.

– Não. – seus cabelos de repente perderam o volume e ficaram azul marinho.

– Adeus. – ela acenou para ele e fez seu caminho de volta ao castelo.

De volta ao dormitório ela se jogou em sua cama. Começou a encarar o dossel azul em cima da cama, era o mesmo azul que os cabelos de Teddy assumiram quando ela terminou com ele. “Terminar” era uma palavra forte. Não se termina algo que nunca começou e eles nunca tiveram nada serio a esse ponto. Era melhor ela esquecer isso e simplesmente focar na sua vida estudantil.

Seus pensamentos passavam a mil e aquilo começou a irrita-la. Ela precisava dormir, tinha aula na manhã seguinte. Virou-se na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro. Em algum ponto acabou pegando no sono, mas isso já foi no meio da madrugada.

...

De manhã, depois de muito esforço para levantar, ela se vestiu e foi tomar o café da manhã. Ignorando os olhares repreensivos de alguns alunos ela sentou-se a mesa da Grifinoria ao lado de Roxanne.

– Você esta péssima. – disse ela.

– Obrigada. Não dormi direito noite passada, Teddy veio me visitar.

– Não acredito! Você esta bem? O que aconteceu?

– Nada demais. Estou bem. Serio. Conte-me como foi sua sessão de estudos ontem.

– Ah! – o rosto de Roxanne começou a ficar vermelho – Foi bom.

– E rolou alguma coisa?

– Vic! Nós só fomos estudar!

– Ah, por favor, Roxy, as notas do Charlie são perfeitas, se ele precisava de alguma ajuda era na arte de beijar.

– Não aconteceu nada! – ela protestou – Ele precisava de ajuda com o trabalho e eu ajudei.

– E todo aquele papo de fazer seus trabalhos sozinha... E blá blá blá?!

– Ah, fique quieta! – Roxy se levantou do banco – Vamos, temos aula em dez minutos.

– Vocês vão se ver de novo? – perguntou Victorie enquanto se levantava.

– Hoje à tarde, para terminar o trabalho. – disse ela casualmente, ao ver o sorriso no rosto de Victorie protestou – Não é nada disso que você esta pensando!

– Esta bem, de noite a gente conversa mais sobre isso. Depois desse seu “encontro de estudos”.

– Não é um encontro!

– Ah, cale a boca Roxy. Vamos nos atrasar.

Vic e Roxy saíram rindo pelo corredor.

Notas finais
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