Nova Geração - Ano 1
30 O Jogo Decisivo
O jogo ia para começar em vinte minutos e James estava no vestiário da Grifinoria com todo o resto do time já com todo o equipamento e sua vassoura em mãos. Mas pela primeira vez na vida ele não estava pensando no jogo que estava para começar. Ele só conseguia pensar em Dominic, no vestiário ao lado, escutando um discurso de motivação parecido com o que ele ouvia de Olivia – capitã do time – e sem ter a mínima ideia que seu melhor amigo o traira.
A culpa estava consumindo James, ele precisava falar com Dominic o quanto antes. Quando Olivia terminou o discurso com sua frase habitual – “mostrem a eles como os leões jogam!” – e todos saíram gritando do vestiário James ficou para trás e foi na direção do vestiário da Corvinal. No meio do caminho ele sentiu unhas compridas apertarem seu braço quando uma mão de dedos finos e longos o puxou para trás. Ele se viu de cara com Danielle.
– Olá gatinho. Você anda me evitando. – ela se aproximou dele e colocou as mãos em seus ombros.
– Sim. Achei que você tivesse entendido o recado. – disse James se afastando.
– Que recado? – ela se aproximou dele novamente.
– Eu não quero mais te ver Dani. Não posso fazer isso, ok?
– Eu não acredito nisso. – ela sorriu e passou as mãos no quadril dele e o puxou pela camisa para perto dela. Droga, essa menina parecia um polvo.
– Dani, me solte. – ele tirou as mãos dela de si e se afastou.
– Se fazendo de difícil, amor? – ela andava na direção dele como um felino que espreita sua presa.
– É sério. Não chegue mais perto.
James andava para trás e quando sentiu suas costas baterem na parede ele sabia que estava perdido. Danielle se aproximou com um sorriso no rosto, passou as mãos em volta do seu pescoço e quando chegou bem perto de sua boca disse:
– Perto, assim?
E então ela o beijou. E para a infelicidade dele, ele correspondeu. O beijo era incrível, ele tinha de admitir. Essa menina sabia como deixar um cara sem noção. Mas parecia que o universo tinha decidido que o tempo de James tinha acabado porque de algum lugar longe ele ouviu alguém pigarrear, como se quisesse chamar sua atenção. Quando o som se repetiu ele abriu os olhos e olhou para o lado.
O time inteiro da Corvinal estava no corredor. Dominic estava à frente. O garoto o olhava com tanto ódio que seus olhos azuis pareciam ter perdido qualquer vestígio do bom humor. Tudo o que transmitiam era uma sensação de frio. Os outros membros do time pareciam estar esperando o primeiro movimento para ver quem teriam que segurar primeiro.
Danielle se afastou de James e ameaçou ir na direção de Dominic. Ele apenas lhe lançou um olhar tão frio que ela ficou onde estava. James se adiantou:
– Dom eu não... Não é o que...
– Não é o que parece? Você só pode estar me achando com cara de idiota se vai usar essa desculpa!
– Eu não queria...
– Cala boca. – Dominic o olhava como se fosse uma aberração e então ele começou a andar em direção a James.
O garoto jurava que Dominic lhe daria um soco na cara, mas tudo o que ele fez foi bater o ombro no dele quando passou por ele e foi em direção ao campo de Quadribol. Todo o time da Corvinal passou depois dele, todos o olhavam com um olhar misto de pena e decepção.
James se viu sozinho com Danielle no corredor.
– Nunca mais chegue perto de mim. – a raiva em sua voz era palpável.
Ele saiu pelo corredor também em direção ao campo.
...
Fred e Lisa iam de mãos dadas para o campo de Quadribol. Claro, não antes de muita discussão.
– Se alguém ver... Se meu irmão vir!
– Eu já disse que vou correr o risco. Eu quero que todos saibam que estamos juntos. Quero que todos vejam como sou o cara mais sortudo da escola inteira.
– Isso é fofo, mas...
– Mas nada.
Lisa por fim desistiu de teimar com ele dizendo “quando você tiver um nariz quebrado e muitos hematomas não venha me procurar para cuidar de você!”.
E lá estavam eles. Descendo a colina em direção ao campo de mãos dadas. A felicidade de Fred não cabia nele, ele sorria toda vez que alguém passava a batia o olho nas mãos juntas.
– Pare de sorrir, você esta parecendo uma criança em dia de natal. – disse Lisa com um leve sorriso no rosto também.
– Eu estou tão feliz quanto, pode ter certeza.
– Como você consegue ser tão irritantemente fofo? – ela sorriu e lhe deu um selinho.
Fred se sentiu flutuando numa nuvem até chegar à arquibancada e se sentar ao lado de Alice e Rachel.
– Eai! – disse Rachel para ele tentando falar mais alto que a multidão que torcia antes mesmo do jogo começar.
– Eai! – ele cumprimentou de volta.
Ele e Lisa se sentaram e ela se curvou por cima dele na direção de Rachel ao seu lado de disse:
– Você viu a Lucy?
– Não.
– Estranho. Ela nunca perdeu um jogo da Olivia... – Lisa olhava para os lados na esperança de ver Lucy chegando ou apenas sentada em outro lugar.
O barulho era alto e incessante, o time da Grifinoria saiu dos vestiários e ficaram se alongando na espera do outro time. Fred não viu James entrar com o time.
– Ei, por que James não está em campo? – ele disse a ninguém em especial.
Todas as meninas se encararam, ninguém soube responder. Alguns minutos depois o time da Corvinal saiu dos vestiários e pouco atrás vinha James. Fred relaxou um pouco, mas ainda sentia que tinha algo errado.
Os times se posicionaram, o pomo de ouro foi solto, a goles jogada para cima e o apito soou.
O jogo tinha começado.
...
O jogo começara e James como batedor assumira sua posição. O outro batedor da Grifinoria era um menino do terceiro ano chamado Morgan. Ele era grande para a idade e jogava bem. Colocava medo no time adversário com facilidade. James viu um balaço se aproximando, olhou o jogo por um instante e rebateu a bola na direção de um artilheiro que se preparava para roubar a goles do artilheiro da Grifinoria, um menino do quinto ano chamado Jackson.
O jogo parecia correr bem, apesar de Olivia estar tendo dificuldade de localizar o pomo – o que não era comum – o placar estava 70 a 50 para a Grifinoria. Foi depois que a Grifinoria marcou o oitavo gol da partida que James viu o primeiro balaço vindo na sua direção.
Ele desviou a tempo e a bola enfeitiçada passou reto. Ele olhou na direção da onde tinha vindo o balaço e viu Dominic – que era batedor da Corvinal – com o bastão estendido e um olhar assassino no rosto.
Enquanto eles se encaravam outro balaço passou por Dominic que o rebateu na direção de James novamente. Dessa vez James cometeu o erro de rebater de volta.
E assim se iniciava a partida de ping-pong mais violenta de todas. Dominic rebatia de um lado e James do outro e o jogo desaparecera da cabeça deles. James não tirava os olhos dos de Dominic que o encarava como um cão raivoso.
– Qual o seu problema? – gritou James.
– Você!! – berrou Dominic batendo no balaço com tanta força que James soube que não conseguiria rebater dessa vez. Ele tentou sair da frente, mas sua vassoura não teve tanta sorte. O balaço bateu na traseira do cabo fazendo com que ele despencasse em direção a grama lá em baixo girando como um avião desgovernado.
Ele caiu capotando na grama e jogou os pedaços de sua vassoura longe com raiva.
– Desça aqui e vamos resolver isso de uma vez por todas! – ele gritou para Dominic.
O garoto loiro com as vestes azuis da Corvinal parecia um anjo lá em cima, se não fosse à expressão de raiva que o deixava mais como um anjo assassino. Ele desceu e pulou da vassoura quando estava a um metro do chão caindo de pé com o olhar de alguém que ia estrangular o primeiro que encontrasse.
– Eu pensei que você fosse meu amigo seu miserável! – gritou Dominic quando foi pra cima de James que desviou.
– Eu sou! Aquilo foi um erro!
– Você é um traidor! – Dominic tentou ataca-lo de novo. Mais uma vez James saiu da frente.
– Eu não quero brigar com você, cara! Mas eu não fiz sozinho sabe, a sua namorada quem deu em cima de mim.
– Ah, por favor! – disse Dominic com escárnio.
– O que você quer dizer com isso? – James sentiu seu orgulho ferido naquela hora – Foi ela sim! Ela veio dar em cima de mim dizendo que vocês não dariam certo.
– E você espera que eu acredite nisso?
– Você vai duvidar de mim? Eu sou seu melhor amigo!
– Você era meu melhor amigo. Agora você é o cara que beijou minha namorada. – Dominic tentou mais uma investida e James escapou por pouco.
– Eu acho que você nem liga para isso, só está ressentido por que ela me preferiu a você. Acho que você não é tão bom assim afinal! – James não devia ter dito isso, mas seu orgulho falou mais alto.
– Vá para o inferno! – gritou Dominic indo para cima de James novamente, só que James não saiu da frente dessa vez.
...
O jogo estava bem normal até o oitavo gol da Grifinoria acontecer. Fred estava todo animado quando viu um balaço quase acertando James e ao procurar o agressor para exigir uma falta aos berros sentiu sua voz sumir. Era Dominic quem tinha jogado o balaço.
– Mas o que... ?
– Ah, não. – resmungou Rachel ao seu lado.
Dominic lançou outro balaço e James rebateu. Ambos entraram numa disputa que só poderia terminar de um jeito: um dos dois sairia dali bem machucado e Fred não fazia ideia do que estava acontecendo. Eles eram melhores amigos! Os jogadores tentavam continuar normalmente o jogo o que resultou em mais três gols para a Corvinal e apenas um para a Grifinoria.
Quando a vassoura de James foi atingida e ele caiu o jogo finalmente parou e Fred se levantou de onde estava e viu Rachel levantar junto.
– Você sabe o que está acontecendo?
– Tenho uma ideia... – ela fez uma cara de quem previa uma confusão ainda maior e saiu correndo em direção ao campo. Fred a seguiu.
Chegando lá no campo Fred viu Dominic avançando na direção de James varias vezes enquanto James o evitava. Fred escutou Dom gritar algo sobre “traidor” e “beijou minha namorada” – aquilo não podia ser bom.
Ele e Rachel estavam quase perto deles quando finalmente eles se atracaram e socos começaram a rolar. Fred olhou para Rachel e ambos correram. Fred agarrou Dominic e o puxou para longe de James. James tentou ir para cima dos dois, mas Rachel se colocou na frente. Ele tentou passar pelo lado, mas aquela menina ela era rápida.
– Parem vocês dois! Parem agora! – gritou Rachel empurrando James para trás.
James parou, mas olhava para Dominic fixamente, sua boca estava cortada. Dominic não estava muito melhor, um corte na sobrancelha e um olho que estava ficando levemente roxo era o mínimo dos problemas dele. A Diretora tinha entrado no campo e vinha na direção deles.
– Vocês vão me dizer o que aconteceu aqui?
Nenhum dos dois se manifestou.
– Ótimo. O jogo acabou. Voltem todos para seus afazeres. Vocês dois, para a minha sala. Agora.
– Mas Diretora o pomo... – tentou intervir Olivia.
– Não foi capturado. Mas ambos os times estão faltando batedores, vocês não podem continuar. O jogo acabou.
– Sim senhora. – concordou Olivia olhando para os pés.
A diretora saiu do campo em direção ao castelo e James olhou para Fred e Rachel formando a palavra “desculpe” com os lábios antes de ir atrás dela. Dominic se soltou de Fred com um puxão e foi emburrado atrás da diretora.
O caminho até a sala tinha sido silencioso. Já na sala, James se jogou em uma cadeira enquanto Dominic ficou de pé alguns passos atrás. Nenhum dos dois se olhava.
– Vocês dois brigando foi a coisa mais absurda que já vi naquele campo de quadribol. E eu já vi trolls jogando numa partida beneficente. – vendo a expressão dos meninos ela continuou – Vocês são amigos, e sei que vão se resolver. Mas eu não posso aceitar esse comportamento de bárbaros na minha escola. Vocês dois estão de detenção por um mês com o Prof. Binns. – quando viu que eles ameaçaram protestar ela ergueu um dedo – E vão cumpri-la juntos.
Dominic encarou a nuca de James que não levantou o olhar dos próprios joelhos e depois saiu pisando fundo da sala.
– Desculpe. – disse James antes de sair da sala sem saber se dissera aquilo para a diretora ou ao amigo que havia saído.
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