Nova Geração - Ano 1
14 O Berrador
Ele estava deitado no quintal de sua casa assistindo as nuvens se moverem lentamente. Era o tipo de coisa que ele gostava de fazer nas tardes quentes de verão. Simplesmente ficar ali, deitado. Nada podia preocupa-lo. Nada podia machuca-lo. Não existiam valentões ali. Nem mentiras ou o olhar de desapontamento de seu pai.
– Alvo! – uma voz feminina chamou.
Ele olhou em direção a casa, mas não era sua casa. Era Hogwarts. E lá no fundo, onde a escola dava saída para os jardins, sua mãe o olhava de longe, desapontada.
– Alvo! – chamou outra voz.
Ele não vira a boca de sua mãe se mexer. Então quem tinha dito o nome dele?
– Alvo! – gritou a voz.
Ele olhou em volta. Nada.
– Alvo! Alvo! Alvo! – varias vozes começaram a chamar juntas.
Ele tentou se levantar, mas algo o empurrou para o chão com força e ele se viu imóvel, preso em baixo de um garoto loiro de olhos entediados.
– Alvo! Alvo! Acorde! Alvo! – as vozes insistiam.
Fabian ergueu a mão e se preparou para meter-lhe um soco no meio da cara. Ele não tinha pra onde fugir. E então a mão do menino desceu.
Ele acordou assustado e suado na enfermaria de Hogwarts. Rose e Scorpio dormindo nas cadeiras ao lado de sua cama. Rose estava com a cabeça apoiada no ombro de Scorpio e quando viu aquilo Alvo não entendeu por que, mas sorriu. Pela luz que entrava pelas janelas ele deduziu que estivesse amanhecendo, o que significava que ele tinha apagado por muito tempo. Ele se sentou na cama e sentiu uma leve dor no abdômen, mas era uma dor fraca, nada que ele não pudesse aguentar e nada que e comparasse a dor que ele sentira antes. Se esticou e balançou os joelhos de Scorpio tentando acorda-lo. Scorpio se mexeu na cadeira e abriu os olhos, olhou para Rose em seu ombro e Alvo pode ver – mesmo com a pouca luz – o rosto pálido do menino ficar mais vermelho que os cabelos de sua prima. Ele olhou para Alvo como se estivesse a ponto de pedir desculpas, Alvo o interrompeu:
– O que aconteceu?
– Hm, bem, você desmaiou.
– Ah! Obrigada gênio. Eu realmente não tinha percebido isso. – disse Alvo sarcástico.
– Olha, eu não entendi direito. Sei que você quebrou alguma coisa ai dentro com as pancadas que levou e se não tivesse sido trazido pra cá naquela hora poderia ter sofrido algum dano irremediável até com magia.
Rose deve ter despertado com o som das vozes deles, pois abriu os olhos e então se deu conta de onde estava deitada – só agora Alvo notara que Scorpio não tinha tirado ela dali – e se endireitou na cadeira com um pulo. Olhou para Scorpio e Alvo com grandes e arregalados olhos cor de mel e seu rosto começou a ficar vermelho o que só realçou suas sardas.
– Ah! Alvo! Você esta bem? – perguntou ela ansiosa por mudar de foco.
– Hm, estou. Por quanto tempo estou aqui?
– Umas doze horas... – disse ela pensativa como se estivesse fazendo as contas.
– Oque?! E vocês ficaram aqui o tempo todo?
– Claro que não. – disse Scorpio – a diretora não deixaria. Viemos escondidos.
– Mas... E o Filch?
– Ah, James nos ajudou. Ele nos guiou até aqui por umas passagens secretas. — disse Rose abaixando a voz – Me pergunto como ele sabia delas.
O olhar dela para Alvo indicava que ela achava que ele sabia a resposta e estava determinada a consegui-la dele.
– E madame Pomfrey? Não viu vocês aqui?
– Bem, não. Se viu ela nos ignorou. – disse Scorpio olhando por trás do ombro procurando a enfermeira da escola.
– Lizzie e Violet?
– Lizzie esta me acobertando no dormitório. Caso alguém pergunte por mim, ela dirá que estou na biblioteca, dormindo ou passando mal.
– E Violet esta fazendo o mesmo por mim. – disse Scorpio como se aquilo encerrasse o uma discussão e olhou para Rose.
Por que Alvo tinha a impressão de que aqueles dois andaram tendo alguma desavença enquanto ele estava apagado? Bem, aquilo não importava naquele momento. Tudo o que ele queria saber era: em quanto tempo ele poderia sair dali. Quando fez a pergunta aos dois amigos nenhum deles sabia a resposta. Eles ouviram um barulho e Madame Pomfrey saiu de sua sala do outro lado da enfermaria. Rose e Scorpio se apressaram para entrar atrás de uma cortina estendida entre a cama e Alvo e a da esquerda.
– Se sentindo melhor jovenzinho? – disse a enfermeira ao chegar perto de sua cama.
– Ah, sim. Muito melhor, posso ir? – disse Alvo ansioso.
– Oh, não antes de eu ter certeza que sua costela esta inteira novamente querido. Por pouco você não fura um pulmão sabia? Devia tomar mais cuidado. E aprender a correr para cá sempre que estiver com problemas.
Alvo assentiu em concordância para acalmar a enfermeira. Ela o sentou na cama e apalpou suas costelas e ele sentiu aquela dorzinha fraca de novo, mas nada serio. Ele viu Scorpio e Rose passando de fininho por trás da enfermeira e se empenhou em não parecer muito alarmado com aquilo. Eles se apressaram em direção a porta e saíram. O alivio de Alvo era palpável.
– Você esta ótimo querido. Talvez sinta uma pequena pontada por mais algumas horas, mas até de noite já estará novinho em folha. – ela se virou para ir embora e então voltou-se para ele – Ah! Já ia me esquecendo, avise seus amigos que da próxima vez que passarem a noite na minha enfermaria, não tem necessidade de sair escondidos. Se eu quisesse eles fora teria posto no momento em que entraram.
Alvo ficou olhando para o rosto daquela senhora por alguns instantes. Até notar que sua boca estava aberta e ele estava parecendo um idiota. Fechou a boca e assentiu novamente. Pegou suas coisas na mesa cabeceira da cama e foi embora. Encontrou Scorpio e Rose no final do corredor esperando por ele.
– Ela viu vocês. – avisou ele.
– O que?! – perguntaram os dois surpresos – Como?!
Alvo deu de ombros.
– Como eu poderia saber? Estava apagado até agora pouco lembra?
Scorpio balançou a cabeça como se aquilo fosse razoável, mas Rose não gostou de saber que tinha sido pega.
– E ela não vai fazer nada? Não vai nos entregar?
– Parece que não. Disse que se quisesse vocês dois fora de lá teria posto quando entraram.
– Mas... Como ela viu a gente?! – Rose exclamou irritada.
Meu estomago roncou e ele percebeu o quanto estava faminto.
– Deixe isso pra lá! Vamos comer. – eu disse ansioso para chegar ao Salão Principal.
– Hm, Alvo. São seis da manhã. Não tem nada ainda no Salão Principal. – disse Rose.
– Mas eu estou com fome! – resmungou ele.
– Vai ter que esperar.
Eles resolveram fazer hora por ali mesmo. Sentaram no corredor e ficaram jogando conversa fora. É claro que eles poderiam se meter em encrenca, claro que Filch poderia aparecer a qualquer momento e mandar os três para a diretoria, mas, com exceção de Rose, o quanto mais eles podiam ficar encrencados? Depois de ficarem lá por quase uma hora Alvo sentia seu corpo duro de ficar na mesma posição por tanto tempo, mas reparou que o desconforto que sentia no abdômen se fora. Animado ele chamou os amigos e os três correram para o Salão Principal.
Chegando lá o estomago de Alvo se manifestou com mais força do que antes. Quando ele sentiu o cheiro da comida parecia que iria desmaiar se não comesse. E ele não estava afim de desmaiar de novo. Alvo e Scorpio se despediram de Rose e foram para a mesa da Sonserina, assim que seus pratos estavam cheios de comida Alvo perguntou entre uma colherada e outra de cereal:
– Já teve noticias de seu pai?
– Não... Estou esperando que chegue alguma carta da minha mãe na hora do correio. Com certeza ela vai mandar alguma coisa sobre a briga, espero que ela se lembre de me dizer como o papai esta também.
– Relaxa cara. Com certeza ele já deve estar melhor.
– Pelo o que a Diretora disse ontem, acho que não.
– Ela só estava nervosa. Nada de mais.
– Hm... – resmungou Scorpio colocando um monte de panquecas com calda a boca.
Eles se concentraram em comer a partir dali. Assim como Alvo, Scorpio também estava com fome. Afinal passara a noite ao lado da cama dele sem comer nada. Quando eles estavam terminado de comer Violet sentou no espaço vago ao lado de Alvo que um menino tinha acabado de liberar.
– Ai estão vocês! Estive preocupada com você Al, como esta? Alguma dor?
– Não. Na verdade estou ótimo. Nem parece que apanhei um dia.
– Estranho. Você, seu irmão, os amigos, todos estão ótimos. Até mesmo Goyle 1 e 2 estão bem... mas o olho de Fabian ainda esta um pouco roxo e seu dente ainda esta faltando.
Alvo olhou para o menino loiro do outro lado da mesa. Realmente não parecia que tinha havido muita melhora no estado do menino. Alvo tinha quebrado uma costela com as pancadas que levara e estava sem dor alguma, como Madame Pomfrey não tinha conseguido se livrar de um olho roxo e refazer um dente quebrado?
– Algo me diz que madame Pomfrey não quer que o Fabian melhore... – disse Violet como se soubesse o que Alvo estava pensando. Como ela fazia isso?
– Parece que sim. – disse Scorpio colocando outra porção enorme de panquecas com calda na boca.
Alvo escutou um bater de asas e olhou para o alto, varias corujas entravam pelas aberturas no alto do Salão Principal carregando cartas. O estomago de Alvo embrulhou e ele sentiu que não deveria ter comido os waffles depois do cereal. Uma coruja desceu em sua direção e largou uma carta em seu prato, outra soltou uma na cabeça da Scorpio e foi embora. As mãos de Alvo tremiam, ele tinha medo do que seus pais iriam dizer na carta.
– Vocês vão ficar encarando as cartas ou vão lê-las? Também estou curiosa! Andem, abram!
Alvo olhou para o lado e viu que Scorpio encarava a carta em suas mãos da mesma forma que ele. Olharam um pro outro e fizeram um acordo silencioso. Ambos começaram a abrir as cartas juntos. Na letra desajeitada que ele reconhecera como a de seu pai ele leu: “Alvo, recebemos uma carta da diretora McGonagall dizendo que você se meteu em uma briga. Ela disse que James e alguns outros garotos também estavam envolvidos e que você acabou com algumas costelas quebradas. Gostaríamos de saber o que ocorreu exatamente já que a diretora não nos explicou em detalhes. Mande-nos uma carta assim que possível, estamos preocupados. Desejamos melhoras. Abraços, papai e mamãe.”
Aquilo era... Surpreendentemente bom! Eles não estavam zangados! Pelo menos não ainda, isso era a melhor coisa que poderia acontecer. Pelo menos ele pensava que sim. Ele e Scorpio trocaram de cartas e Alvo leu numa caligrafia fina e caprichada como se fosse uma daquelas letras desenhadas: “Querido Scorpio, espero que esteja bem, a diretora me disse que você se envolveu em uma briga com uns garotos mais velhos. Disse que você estava defendendo seu novo amigo, Alvo Potter. Bem, espero que tenha valido a pena, mas querido, tente não causar mais problemas. Seu pai ainda esta no hospital e não tenho tempo para brigas de crianças agora. Beijos, mamãe.”
Alvo sentiu seu coração apertar em favor do amigo. A mãe dele não tinha brigado com ele ou ameaçado traze-lo de volta pra casa, mas aquela carta era bem pior. Ela expressara claramente sua reprovação quanto a amizade deles e disse que não tinha tempo para o filho agora. Aquilo chateou Alvo e ele se sentiu culpado.
– Espero não ter metido você em muitos problemas – disse ele entregando a carta de Scorpio para Violet ler enquanto Scorpio entregava a dele para ela também.
– Não se preocupe. Ela só não sabia ainda que tínhamos nos conhecido. Quer dizer, eu te expliquei como nossos pais eram na época da escola.
– É, explicou.
– Seu pai pareceu não se importar. – disse Scorpio tentando fazer com que parecesse um comentário casual, mas soou ressentido.
– Talvez ele só não queira discutir isso por carta. E acredite, enfrentar meu pai pessoalmente é bem pior...
– É que você não sabe como é o meu.
Eles ficaram em silencio por um tempo e então o silencio foi interrompido por Violet.
– Como assim ela não tem tempo pra você?! Você também é família dela sabia? Você é filho dela! Sangue do sangue dela! Parte dela! Como assim ela não tem tempo pra você?! – Violet parecia simplesmente histérica – Eu sei que é sua mãe Scorpio, mas eu queria ter uma bela conversinha com ela sobre ser mãe! E eu nem tenho filhos!
Alvo tinha a impressão de que Violet continuaria a falar sobre como a mãe de Scorpio era horrível, mas ela foi interrompida por uma voz grave, entediada e arrastada que ecoou por todo o salão.
– SEU MOLEQUE INCOPETENTE! – gritava a voz – EU NÃO TE CRIEI PARA BRIGAR E PERDER! EU SÓ NÃO TE ARRASTO DE VOLTA PARA CASA POR QUE NÃO SUPORTARIA TER UM NÃO-MAGICO DENTRO DESTA CASA! MAS ERA ISSO QUE VOCE MERECIA! – Alvo procurou pela origem da voz e a encontrou em uma carta vermelha, um berrador, que urrava em frente a Fabian – SE EU RECEBER MAIS UMA CARTA DA ESCOLA A SEU RESPEITO EU JURO QUE AS CONSEQUENCIAS SERÃO MUITO MAIORES DO QUE VOCE IMAGINA SEU INUTIL! ENTÃO ANDE NA LINHA OU IREI PESSOALMENTE DA PROXIMA VEZ! – o berrador explodiu e seus pedacinhos caíram na mesa, deixando um Fabian com o rosto enjoado encarando o lugar onde a carta estava antes. Ele viu Alvo olhando e lhe dirigiu um olhar de morte, se levantou e saiu do Salão Principal.
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