Nova Geração

5 O fogo, o gelo e o vento


Ele sobressaltou quando a porta ressoou em seus ouvidos. Neji não acreditava no que estava acontecendo.

— Tenten? – o rapaz chamou o nome através da porta, batendo mais algumas vezes. – Abre a porta por favor, vamos conversar.

— Você está morto! – ela gritou de volta. – Quem quer que seja o farsante que esteja aí fora, acho que bom sair daí nos próximos 60 segundos, ou eu invoco um machado e te mato, cretino.

Por precaução e por uma vontade muito pequena de ser atingido por um machado, Neji deu alguns passos para trás. Mas então, pensou: não, ela não teria coragem.

— Deixe-me explicar. – Neji colocou a palma da mão pálida na porta. – Abre, Tenten. Sou eu mesmo, juro.

— 36 segundos.

— Você não teria coragem!

Neji ouviu um suave baque do outro lado, então usando seu byakugan ele avaliou o estado de sua companheira. Para sua surpresa, infelizmente, ela parecia realmente ter invocado um machado e encarava o relógio em seu pulso, fazendo a contagem regressiva calmamente.

— Não faz isso, por favor, eu preciso te explicar. Hinata-sama pediu que eu viesse.

— Você é tão cara-de-pau que investigou a vida dele? Um metamorfo esperto, mas eu não caio nessa. Neji Hyuuga morreu há 21 anos atrás. Eu vi.

— Não seja tola. Sou eu. – ele resmungou, enquanto tinha uma ideia. – Faça uma pergunta. Qualquer uma. Que somente o legítimo Neji saberia.

Tudo ficou quieto e Neji sentiu a tábua de madeira onde ele estava levantar suavemente, o que indicava que Tenten havia colocado seu machado-gigante no chão. Era um bom começo, indicava que ela estava pelo menos pensando no assunto.

— Se eu tivesse um filho homem, qual seria o nome dele?

— Hayato. Você só comentou isso uma vez... – Neji ruborizou com o pensamento. – mas ficou na minha mente por muito tempo.

— E porque eu queria esse nome?

— Porque queria que ele fosse forte e corajoso. E também porque era o nome do seu pai, que tinha morrido antes que você nascesse. – ele respondeu lentamente, tenso.

O peso que suspendia a madeira suavemente sumira e seguindo as vibrações no chão, Neji sentiu quando Tenten se posicionou em frente a porta. Ela destrancou a porta, mas ele não ouviu o som da corrente. A porta se abriu e um par de olhos castanhos espiou por ela, alguns fios de cabelo castanho estavam colados na sua bochecha, que estava vermelha.

— É você mesmo, Neji-san? – sua voz soava baixa.

— É exatamente isso que estou tentando dizer. Eu voltei.

Depois que finalmente conseguira convencer Tenten de que era de verdade e que não era um metamorfo charlatão tentando roubar, ele havia entrado e sentado em seu sofá.

O apartamento era simples. Do que Neji conseguia ver, havia uma pequena mesa para quatro pessoas acoplada à cozinha e uma bancada que os separava. Ele havia notado que havia um corredor que pareciam dar nos quartos, mas não conseguia ver mais que isso.

Tenten vinha da cozinha em sua direção. Ela usava uma blusa avermelhada com manchas de fogo vermelhas nas laterais e mangas curtas, uma calça saruel vermelha escura e estava descalça. Não era a roupa de quem estivesse sempre pronta para atender uma missão a qualquer momento. Quando Neji examinou seu rosto melhor, a primeira coisa que notou foi que ela ainda usava coques duplos na cabeça, apesar de haverem muitas mechas escapando e uma franja formada. Seus olhos continuavam grandes e castanhos como a terra, as bochechas quentes. De longe ele podia sentir o calor vindo delas.

Ela se sentou ao seu lado no sofá, completamente ereta.

— O que aconteceu? – até aquele momento, Tenten não o havia olhado nos olhos, mas então, do nada, ela o encarou. Foi como dizer “a partir de agora você não deve mentir”. Foi como se seu olhar selasse sua obrigação de dizer a verdade não importa a que custo.

— Depois que eu morri, eu acordei em uma caverna escura. O estranho é que eu não lembrava de ter morrido. É como se alguém, do meio do campo de batalha, tivesse me transportado de lá e me colocado naquele lugar úmido e escuro. Eu dormia e acordava na escuridão e não me alimentava, não sentia fome, simplesmente. Alguns dias depois eu me feri, não me lembro como. Sakura-chan ainda está trabalhando para reaver essa parte da minha memória, mas não acho que vá conseguir. Mais tempo se passou e eu sequer sentia minhas pernas. – ele suspirou, lembrando dos dias ruins que passara antes de ter encontrado com o time de Mirai. — Acho que foi uma questão de semanas, quando o time da Mirai me achou. Sarada cuidou dos meus ferimentos e é isso. Eu não me lembro de voltar dos mortos, nem de morrer, basicamente.

— Essa é seu resumo de longo-prazo?

— Sim. Quando descobri que se passaram 20 anos, eu realmente me impressionei. Jamais passaria pela minha cabeça que havia se passado tanto tempo.

Tenten assentiu.

— Eu realmente fiquei surpresa com a sua volta. – ela comentou. – Eu não ia gostar de ser a responsável pelo seu segundo assassinato.

— Bem, você não o fez, isso que importa.

— Você comentou que Hinata que o fez vir até aqui, certo?

— Sim. Ela me disse que seria bom eu rever meus companheiros de equipe.

Eles ficaram em silêncio por um tempo. Um tempo que pareceu extremamente longo e excruciante. Neji estava prestes a levantar e se despedir, usando de desculpa que ainda precisava ir visitar Lee e Gai-sensei, mas então ele sentiu um aperto forte nos ombros. No momento em que o rapaz virou de lado para a despedida esfarrapada e vergonhosa, Tenten jogara seus braços ao seu redor, em um abraço caloroso e o que era mais gritante no momento para ele, era que as bochechas de Tenten estavam quentes no seu pescoço enquanto seu rosto se apoiava no ombro de Neji.

O único pensamento que ele tinha naquele momento, com os braços da jovem ao seu redor, era que Tenten era o calor. Os cinco minutos em que você fica no Sol nos dias quentes. As cobertas que o envolvia quando ele era criança. O suspiro de memória mais escasso que Neji tinha da própria mãe. Aquilo era a Tenten.

— Fico feliz que você esteja bem, Neji-san. – ela disse, ainda com a cabeça enfiada entre seu cabelo. – Realmente feliz.

Sem que percebesse, Neji havia movido os próprios braços e os enrolado ao redor de Tenten e uma de suas mãos repousava em sua nuca exposta. Era um apelo máximo para que o abraço não acabasse. Era o gelo encontrando o fogo.

— Fico feliz que ache isso. – ele sussurrou.

Cuidadosamente, como se os dois fosse uma bomba prestes a explodir, Tenten se distanciou, ficando de frente para Neji. Ela exibia o sorriso mais iluminado que o jovem havia visto desde que saíra da escuridão da caverna em qual acordara.

A mão de Tenten, que pousava na própria perna, levantou lentamente e repousou no rosto de Neji. Tão quente e macia. Seu dedão acariciou a bochecha do rapaz e ele se deu o luxo de fechar os olhos enquanto sentia o prazer daquele carinho sendo expressado. O frio se derretendo, a ressurreição das flores após o inverno congelante.

E então tudo estilhaça quando os dedos de Tenten voltam para onde estavam, no seu colo. Neji abriu os olhos, apenas para ver a garota o encarando com aqueles olhos enormes e curiosos. Ela era realmente linda, não importava quantos anos passassem.

— Devíamos ir ver o Gai-sensei. Ele vai ficar bem animado quando descobrir que você voltou. Lee também. – e então aquele momento breve que tiveram, que repuseram, foi embora. Por menos que quisesse e não gostasse de depender disso, Neji realmente não queria que aqueles breves minutos terminassem. Tudo voltaria a ficar frio aos poucos sem o Sol para derrete-lo.

Ele queria ter coragem de dizer tudo aquilo em voz alta. Dizer que a queria por perto. Que queria ela.

— Sim, devíamos. – essa foi a única coisa que disse.

Boruto e Sarada se encaravam no meio do campo de treinamento. Ela estava agachada no chão, de guarda alta e seus olhos vermelhos encaravam Boruto e o analisavam com todo o seu poder e frieza. Quando faziam duelo, apenas por diversão, a Sarada que Boruto conhecia desaparecia. Uma criatura forte e sem mais pensamentos aleatórios assumia seu lugar, apenas usando sua pele. Seu cabelo estava solto e caía em cascata ao redor de seu rosto, dando ainda mais poder ao sharingan que ela possuía, de alguma forma.

E então ela sorriu. Boruto pegou sua kunai na bolsa na sua cintura e Sarada se equipou com sua arma especial, uma espada jian afiadíssima que havia ganhado de Tenten. Ambas se posicionavam imponentes e Sarada a segurava como se fosse uma continuação do próprio braço. Boruto havia achado que não seria adequado ela aceitar o presente sendo que seu ataque principal era a força bruta, mas a garota insistira que era uma boa ideia. Fazia alguns meses que ela treinava sozinha para provar que era possível haver leveza na força bruta que portava, e equilíbrio entre uma espada e um soco.

Estavam ali para comprovar a teoria. Chocho e Inojin sentavam juntos em uma árvore há vários metros de distância, comendo alguma coisa que parecia deliciosa, apenas observando o duelo que começava.

— Isso vai ser interessante. – ele ouviu Chocho comentar.

— A propósito – Inojin se virou para Chocho. – Devemos pará-los se isso sair de controle?

Chocho apenas negou.

— Não somos babás, se eles se matarem problema deles. Somos plateia.

Boruto olhou de cara feia para os dois e Inojin deu um sorriso, mas Chocho só deu de ombros, realmente tentando provar que não se importava. Boruto voltou sua atenção para Sarada, que respirava suavemente e prestava atenção em tudo.

— Pronta?

— Pronta.

E então ele avançou. Sem aviso, sem preparatória, ele só correu na maior velocidade que pode na direção da companheira de time, segurando sua kunai que parecia insignificante em frente à espada de Sarada.

Antes de começar a luta, ambos haviam combinado que a luta era séria e deveria durar até que um deles não conseguisse mais prosseguir, o que significava que era uma luta que deveria dar tudo de si. Foi combinado que golpes mortais poderiam ser aplicados, mas não em áreas que realmente matassem. Nesse caso, se quem houvesse aplicado o golpe o fizer com sucesso, ele ganha.

Boruto começou apenas com taijutsu, colocando as mãos no chão e fazendo seus pés voarem em direção ao estômago de Sarada, o que não aconteceu. Nos últimos segundos ela desviou e acertou com a espada o local onde sua perna estivera segundos antes, rachando o chão em dois e deixando uma rachadura de pouco mais de um palmo. A espada sequer reverberou. Era extremamente resistente, bem longe de quebrar.

Sarada entendeu o que ele estava tentando fazer. O rapaz queria tirar a espada da mão dela de alguma forma, desarmando-a utilizando apenas o taijutsu para que não tivesse que se indispor com sua kunai. Ela manteve a espada firme na mão enquanto rodopiava os braços pelo ar tentando cortar algo, a lâmina ansiando pelo corte que logo viria. Ele ouvia os assovios que se formavam na atmosfera em frente a Boruto quando a espada passava à milímetros do seu nariz.

Ele resolveu usar seus novos truques também. Depois que aprenderam o rasengan e vira que nele se incluía uma súbita mudança de chackra no meio de sua trajetória, Boruto começou a trabalhar na mudança de chackra que seu corpo o obrigava a fazer durante o jutsu. Seu chackra era tipo vento, assim como o do seu pai, o Sétimo Hokage, o famoso rasen-shuriken era prova disso. Boruto usava algo diferente. Ele mesmo passara meses desenvolvendo aquele jutsu e era o único que sabia usá-lo.

O punho de vento era um jutsu em que Boruto manipulava o ar ao redor dos seus dedos – especificamente ao redor dos dedos – de forma que se tornassem afiados e completamente letais. Um pequeno zumbido zunia em seus ouvidos enquanto usava a técnica, mas havia se acostumado depois de algumas semanas.

Ele foi para frente novamente, mas se frustrou. O sharingan de Sarada pegava todos os seus movimentos. Porém, nem sempre o corpo dela era rápido o suficiente para acompanhar a visão. Boruto deixou o braço completamente ereto enquanto cortava o ar logo na frente de Sarada e então uma gota de sangue púrpura escorreu pela sua bochecha. Ela sentiu o quente indo em direção a boca, mas não perdeu tempo limpando.

A mulher correu para frente, agora mais irada que nunca. Ela fez desenhos no ar com a espada com tamanha destreza que surpreendeu todos presentes, usando ambos os braços. Quando ela estava próxima de Boruto finalmente, Sarada segurou a lâmina lateralmente e abriu um corte profundo no braço direito do rapaz. Por um momento o seu jutsu punho de vento enfraqueceu, mas agora ele tinha a opção de desativar o seu uso no braço machucado para poupar energia e concentrar todo o chackra no braço esquerdo, criando algo ainda mais afiado e preciso.

Quando Sarada viu que ele havia aumentado a potência do braço esquerdo, abaixou e com a mão livre socou a barriga de Boruto com uma força monstruosa, remexendo os órgão do rapaz. Ele saiu voando e foi parar na copa das árvores, vários metros de onde estavam anteriormente.

Em meio ao pouso estrondoso e a força do impacto, o seu corpo quebrou uma árvore ao meio. Sarada continuou em posição, esperando que Boruto voltasse, o que ele fez de forma realmente rápida. Mesmo que estivesse esperando que aquilo não fosse derrubá-lo, Sarada não esperava uma recuperação tão rápida.

Recuperada do choque e Boruto da pancada, ambos avançavam com tudo para frente. Boruto ia com o punho de vento ativado e à toda a força e Sarada ia com seu sharingan, espada e super-força.

Porém, naquela situação, Sarada tinha a vantagem. Ela colocou a lâmina que portava num local especial designado para isso que ficava escondido na parte de trás, cruzando suas costas, e, com as mãos agora livres, ela fez um selo e gritou:

— Katon, Grande Explosão de Fogo!

E então do nada tudo era chamas. A visão de Boruto ficou avermelhada e mal houve tempo de desviar. Agora, ele possuía a desvantagem, pois seu jutsu punho de vento apenas reforçaria o katon da garota.

Ele desviou, sentindo o uniforme queimar, e também com uma queimadura feia na canela, que era realmente difícil de ignorar. Agora irado, Boruto correu na direção de Sarada, que suava. No último instante do ataque, ele se armou com uma kunai em cada mão e as cruzou na cintura de Sarada, criando um corte na blusa, que logo saiu sangue em quantidade considerável. Ele tomara cuidado de não ir na região da barriga e não causar um ferimento grave. Apesar de parecer realmente doloroso, não a mataria.

O jovem viu a careta que se formou no rosto da companheira e por quase um momento teve pena dela, mas então o momento passou quando ele sentiu a perna queimada latejar.

Os dois, quando feridos, se recuperavam muito rapidamente, o que dava desvantagem para o ataque dos dois. Assim foi com Sarada. Ela rapidamente se recompôs, quando Boruto ainda estava no chão, com as kunais despreparadas. Para tentar compensar o ataque sentia que ia receber, ele atira quatro shurikens para frente, mas Sarada desvia de todas. A esse custo, ela se distraiu do alvo, dando tempo para Boruto sair de seu campo de ataque.

Antes de pegar a espada mais uma vez, Sarada fez mais selos, mas dessa vez eram mais e então anunciou seu jutsu flor de fênix, estilo katon. Mais uma rajada de jogo se fez, mas agora era um fogo ordenado, que perseguia Boruto onde ia. Aquele ferimento igualou os dois.

O próximo golpe decidiria qual dos dois estava certo. Qual dos dois havia acertado no palpite.

Os dois avançaram novamente, gritando pela vitória. Sarada tentou socar o pescoço de Boruto, mas ele abaixou no momento certo e evitou o golpe. A vez dele de atacar. Ele colocou propulsão nos pulsos e no seu soco usando a minipulação do vento e Boruto usou um pouco da teoria do punho gentil, o qual ele sabia fazer. O golpe ia acertar as costelas do oponente, mas ela deu um passo diferencial para trás, desviando. Com uma rapidez magnífica, Sarada pegou a espada novamente e deu uma joelhada no peito de Boruto, fazendo com ele caísse deitado e batesse com a cabeça no chão. O ar escapou de seus pulmões e esquecer de controlar a respiração foi seu erro fatal. Boruto fechou os olhos, tentando se recuperar e quando os abriu novamente se sobressaltou.

Sarada estava em cima dele. Boruto podia sentir uma gota do sangue de sua bochecha caindo na dele e o cabelo dela formava uma cortina que separava os dois do mundo. Seus olhos estavam arregalados e negros, a pupila super dilatada. Sua bochecha estava vermelha e ele podia sentia a respiração ofegante dela no rosto.

Ele teve um pensamento que não se deveria ter no meio de lutas. Por um breve segundo, enquanto sentia o peso da derrota, Boruto se permitiu admirar a beleza de Sarada. Como admirava um animal selvagem caçando, feroz e cheia de adrenalina. Ela ficava linda daquele jeito.

De alguma forma, seu subconsciente o puniu por esses pensamentos com uma terrível consciência da situação. Sarada estava em cima dele, com cada uma das pernas em um lado de sua cintura.

— Wow. – ele ouviu Chocho ofegar, parecendo abismada. – Isso sim é treino.

Então Sarada levantou e se sentou ao lado de Chocho, começando a curar o grande corte que ia do quadril à coxa. Rápido assim.

Boruto continuou sentado no chão, olhando o céu e deixando a dor dos ferimentos tomarem sua mente para que outras coisas não o fizessem. Depois do que pareceram horas, Sarada disse:

— Vem aqui, deixa eu curar seus ferimentos. – quando ele a olhou, ela o encarava de volta, agora usando seus costumeiros óculos vermelhos.

Sarada estava pegando o caminho de volta para casa sozinha, com o tecido da roupa rasgado e sujo de sangue, apesar do seu ferimento estar completamente curado. Depois de uma rápida avaliação, ela viu que se o ferimento fosse mais alguns metros para cima, rasgaria sua bandana, que ficava posicionada na barriga, como se fosse um cinto.

Aquele conjunto de roupa já estava quase perdido de qualquer forma, mas isso não impediria de que tomasse um pequeno sermão da mãe sobre cuidado em duelos e cuidado com as próprias roupas enquanto o fazia. Já sabia que era isso que a esperava.

Boruto se despedira dela de forma estranha, mas Sarada não queria pensar naquilo. Não ainda. Isso era o que ela andara fazendo nos últimos anos, colocado seus pensamentos mais assustadores para depois. Priorizar o que lhe era cômodo. Uma hora, ela sabia, aqueles pensamentos viriam numa enxurrada e não haveria subconsciente que a salvasse quando isso acontecesse.

Estava escuro e os postes começavam a se acender, manchando a escuridão de amarelo. O caminho que tomava de volta para casa todo dia era o mesmo, mas vindo daquele lado da floresta exigia um caminho diferente, o que fez que demorasse mais tempo para retornar. Mais uma razão para ter uma longa conversa com Sakura. Sua mãe odiava quando ela e Boruto ficavam se desafiando e brigando um com o outro, mesmo que apenas para fins de treinamento. Vivia dizendo que não era saudável, porque ambos saíam feridos, apesar dos cuidados de Sarada. Como quando fizeram aquilo da primeira vez, depois que ambos já eram chuunins e apostavam nas próprias habilidades. Os dois foram parar no hospital com ferimentos graves e foi isso que incentivou Sarada a aprender ninjutsu médico, imaginando situações reais, onde talvez não houvesse hospitais prontos.

Ela andava lentamente, pois, apesar de seu cuidado com as próprias feridas, a menina fez um curativo bem ruim. Ainda dava para ver uma parte do corte na cintura e o corte do seu rosto ainda estava sujo e com casca. Ela havia apenas se dado o trabalho de acelerar sua cura, não se curar completamente. Curar a si mesma exigia uma quantidade de chackra um tanto absurda e uma concentração ainda maior e isso tudo havia se esvaído dela durante a luta. Sarada queria guardar os cuidados mais profundos para Boruto. Afinal de contas, a mãe da menina era uma ninja médica, podia receber um tratamento em casa se fosse necessário.

Andava em um corredor com uma iluminação branca que parecia deixar o local mais frio, combinado com o vento de fim de Inverno e a volta da Primavera. Sarada parou em frente a porta do seu apartamento. Havia um lustroso símbolo do clã Uchiha na porta feito de vidro colorido reforçado. O que chamou sua atenção foi que um burburinho estranho vinha de dentro do local.

As pontas de seus dedos estavam gelados e seu nariz ardia por conta de estar respirando ar frio. As vozes lá dentro ainda a incomodavam, pois não era como se sua mãe estivesse falando no telefone com alguém, mas era como se houvesse alguém com ela. Sarada repensou se não deveria dar mais uma volta por aí e voltar quando a visita fosse embora, mas então refletiu que era ela quem morava ali. Não deveria ter que se privar de entrar dentro de casa apenas porque havia alguém ali.

Apesar dos próprios ideias, Sarada passou os dedos entre os cabelos, para desembaraçar e para seu lamento, seus dedos vieram com cascas de sangue seco. Provavelmente em algum momento ela houvesse se ferido e não tivesse visto. Aquilo lhe daria uma dor de cabeça no dia seguinte que começava a doer só de pensar. É, certamente tomaria bronca da mãe.

Depois de respirar fundo, ela girou a maçaneta e abriu a porta, entrando cuidadosamente.

Logo de cara, Sarada se encontrava na cozinha, que tinha um cheiro forte de comida, como se fosse hora do almoço e chá. O bafo da chaleira fervendo água descongelou o nariz da menina e ela pensou na possibilidade de acender o fogão e ficar com a mão ali até sentir calor. Não era uma má ideia, mas essa teria que ficar para depois do banho. Um bem quente.

As vozes claramente vinham da sala de estar e mais uma vez Sarada pensou em contornar a cozinha e ir direto para o quarto, mas era mais seguro avisar a mãe que estava em casa, se não as coisas ficariam piores.

A sala de estar não estava tão quente quanto a cozinha, mas ainda era agradável, já que as portas e janelas estavam fechadas. Na mesa da sala de jantar – que na verdade era junto com a sala – sua mãe estava sentada inclinada em direção ao convidado, que estava de costas para Sarada. Ambos tomavam chá e usavam roupas quentes.

O convidado usava uma capa preta longa, que arrastava no chão e parecia ser aveludada e confortável, o tipo de coisa que o seu primeiro intuito era tocar e sentir a textura. O cabelo preto meio longo pontiagudo na nuca era inegável. É claro que ela conhecia quem estava sentado ali. O havia visto muito poucas vezes na vida, mas ele era um homem inesquecível.

— Pai? – sua voz ressou no local, e ambos, Sakura e Sasuke olharam para Sarada. Ele estava com seu rinnegan ativado – quase não era possível vê-lo por conta da franja que o cobria – mas o outro olho, o olho do sharingan, estava preto e parecia muito com o da filha, um pensamento que a agradou pessoalmente.

Sasuke Uchiha estava de volta.

Notas finais
Apenas para comentar e não soar tão "misterioso", queria esclarecer para os que já leram o capítulo, a razão do seu título. Se chama "O fogo, o gelo e o vento", porque foram esses três elementos que representam os personagens que se destacaram. O fogo é a Tenten e a Sarada, o gelo é o Neji e o vento é o Boruto. Era só isso mesmo. Até a próxima :)