Nova Eternis - Vl.01

5 Capítulo 5 – Não Mais Sozinho


Parte 1

A luz do portal engoliu a gente num clarão. Por um instante, não existia chão, nem corpo, nem ar — só o vazio.

Quando a visão voltou, estávamos numa arena redonda e imensa, o piso parecendo vidro rachado tentando refletir nossos próprios pés.

O teto sumia no escuro. Pilares enormes cercavam as bordas, cobertos por correntes negras que mexiam sozinhas, como se respirassem. Espelhos flutuavam sem lógica, girando devagar. Cada superfície mostrava versões quebradas da gente — reflexos distorcidos, multiplicados... alguns até sorrindo quando a gente não sorria.

— Esse lugar lembra um pouco aquela câmara de antes... só que mais bizarra. — Rieli apertou a lança, a voz firme para controlar a ansiedade.

Liliani mordeu o lábio. Os olhos dela tremiam, refletindo o brilho frio dos espelhos.

— Não esqueçam: tudo aqui é ilusão. — Dei um passo à frente. — O que vier, a gente aguenta.

As duas soltaram o ar devagar e assentiram. A coragem mal se firmou quando um rugido metálico ecoou — ferro arranhando ferro. As correntes estremeceram.

Do centro da sala, uma forma começou a emergir. Seu corpo era grande, feito de vidro rachado e fumaça escura. O peito estalava a cada movimento, fissuras vermelhas pulsando como pequenas feridas abertas. Correntes pesadas se arrastavam pelo chão, riscando o piso. Os olhos eram fendas rubras, fixos na gente como brasas vivas.

O sistema anunciou com aquele som seco de alerta:

[Boss da Dungeon — Carrasco do Espelho — Lv. 16]

[Derrote-o para liberar o Portal 02]

Liliani recuou um passo.

— Nível dezesseis...

Rieli cerrou os dentes, firme.

— Tá tudo bem, loirinha! Eu cubro você. Cubro os dois!

Girei as adagas nas mãos. As lâminas vibraram. Adrenalina e raiva queimavam no sangue.

— Eu tanko! Esse é o primeiro muro. Bora derrubar!

O Carrasco ergueu as correntes. A arena inteira tremeu.

— Aí vem ele!

Os elos de aço deslizaram pelo chão, rangendo como trovões presos.

— Recuem! — puxei as duas comigo.

O impacto rachou o piso; a onda de choque atravessou a arena como um terremoto digital, fazendo o corpo vibrar por dentro. O ar me empurrou como uma parede invisível. Fui jogado contra a lateral, as adagas quase escapando da mão. As meninas também foram ao chão.

O boss não deu pausa. Um dos braços explodiu em estilhaços de vidro negro.

— Cuidado! — rolei pra frente e cobri a Liliani, as lâminas cruzadas frente à cabeça.

Alguns cacos passaram bem perto. Um raspando meu ombro. [HP: -6%]

— Kyato! — Ela arfou, pálida.

— Tô bem! Só tenta não ficar na mira dele!

— Eu cubro vocês! — Rieli gritou, forçando as pernas e avançando.

Dessa vez não parecia impulso cego. A lança cortou o ar em diagonal e bateu no torso do boss. O baque foi seco. Praticamente nem arranhou.

— Droga! — ela recuou, quase esmagada por uma corrente que caiu como machado.

O impacto abriu novas fissuras no piso, espalhando reflexos de rostos estranhos — como se o próprio chão tivesse olhos.

— A gente precisa de uma abertura maior!

Apontei as adagas pra cima.

— Ei, bicho feio! Olha pra mim!

O rosto de vidro se virou, os olhos rubros se estreitando, enquanto o braço dele se regenerava, colando novos fragmentos.

As correntes subiram outra vez, ecoando como sinos fúnebres.

Respirei fundo. O padrão começava a se revelar.

— Escutem! Plano A: eu seguro os golpes. Rieli, só ataca depois do terceiro balanço. Liliani, foca só na cura.

As duas assentiram, determinadas.

A primeira onda de ataques: duas correntes despencaram como guilhotinas. Cruzei as adagas em X; aparando uma por vez. O choque reverberou pelos braços até o ombro.

— Um!

A segunda onda: as rajadas de vidro. Rolei pro lado, os estilhaços ficaram sobre o chão atrás de mim.

— Dois!

A terceira: o aço cortou em diagonal. Saltei pra trás, o piso se abrindo onde eu tava. Uma brecha mínima, mas o timming era um pouco melhor.

— Agora, Rieli!

Ela avançou, a lança brilhando na fissura do ombro. Errou o tempo. O Carrasco girou, e a corrente pegou em cheio.

— Rieli! — corri, mas já era tarde.

O corpo dela voou contra a parede. Seu HP caiu para a zona amarela.

— Eu vou ajudar! — Liliani ergueu o cajado, mas o círculo de cura se desfez antes de fechar. — P—por quê?!

— Eu tô bem! — Rieli se apoiou na parede, sangue escorrendo pelo nariz. — Foquem no boss!

Foi quando o Carrasco levantou o braço e atirou mais estilhaços. Uma quarta onda de ataques. Empurrei Liliani no chão; os cacos explodiram atrás.

— Se a gente perder a chance do dano, esse puto vai atirar! — Segurei a adaga com força. — A gente precisa entrar no ritmo!

O monstro arrastou as correntes de novo. Três golpes, depois a abertura. Estava confirmado.

— De novo! O terceiro movimento é nosso. — Apontei as lâminas. — No meu sinal!

A corrente caiu como martelo. Segurei firme.

— Um!

A rajada de cacos veio logo depois. Inclinei o corpo, quase tropeçando, mas evitei.

— Dois!

O terceiro golpe estourou o piso. Saltei pra trás.

— Agora!

Rieli gritou e avançou — cravou a lança com tudo na fenda exposta do peito. O vidro rachou um pouco mais com um estalo seco, faíscas vermelhas no ar.

O HUD piscou: [HP do Boss: -3%]

Pouco, mas real. E suficiente para cancelar o ataque extra do Carrasco.

Ela recuou, o braço trêmulo, mas sorriu. A confiança surgia aos poucos.

— Entendi... é nesse tempo!

Liliani apertava o cajado contra o peito, olhos fixos.

— Eles estão conseguindo...

O Carrasco rugiu de novo, mas a segunda rajada de vidro não veio, confirmando o cancelamento pós—dano.

Já sabíamos a dança. Primeiro golpe, bloqueei. Segundo, deslizei por baixo. Terceiro, aparo e abro espaço.

— Outra vez!

Rieli atacou de novo. A fenda alargou um pouco mais. [-6%]. O HP do boss caía pouco a pouco, mas caía.

— Bom trabalho! — gritei, puxando a atenção dele.

A batalha virou ritmo. Eu atraía os golpes, Rieli aproveitava a abertura, Liliani mantinha posição. O ciclo se repetia, rodada após rodada. Cada brecha arrancava mais vida. Demorou, mas o HP do Carrasco já beirava o amarelo.

Mas aí o corpo começou a pesar pelo cansaço.

Primeiro golpe, bloqueei.

Segundo, deslizei por baixo.

No terceiro, a stamina drenada me atrasou. A corrente enrolou na minha perna como cobra.

— M—merda!

O HUD piscou:

[Status aplicado — Paralisia (20s)]

Os músculos travaram. Caí de joelhos; as adagas escaparam da mão.

O Carrasco ergueu a outra corrente, mirando esmagar minha cabeça.

— KYATO! — Rieli gritou, aflita.

Eu sabia, o estrago seria grande. Se aquela corrente me acertasse em cheio, talvez fosse... hit kill.

Mas um vulto passou à minha frente. Rieli se atirou entre nós, levantando a lança sobre a cabeça. O impacto desceu como avalanche. Aço ressoou, faíscas explodiram, o chão abriu em pequenas crateras. Mas ela resistiu.

As botas deslizaram no vidro, os braços tremiam, o HP já baixava pra zona perigosa.

— Hhhhnnn! — o grunhido dela misturava dor e esforço.

E eu... nada. Travado. Sem conseguir mover um dedo. Só olhando.

O Carrasco ergueu o braço de novo. A corrente subiu, pronta pra esmagar nós dois.

— Lili, lança proteção! — Rieli gritou.

Liliani piscou rápido, como se acordasse de um pesadelo. As mãos trêmulas ergueram o cajado na nossa direção. O medo estampava seu rosto, mas os olhos... estavam firmes. Ela ia tentar — de verdade.

O sistema reagiu. O monstro congelou na posição, correntes suspensas no ar. Espelhos deslizaram em volta dela, atraídos pela brecha. O brilho aumentou até se moldar em reflexos.

Vi a imagem dela se multiplicar. Em cada uma, o mesmo destino: ser deixada pra trás. Amigos virando o rosto. Gente passando sem enxergá—la. Vozes afiadas ecoando:

"Fraca."

"Inútil."

"Sempre um fardo."

Liliani quase caiu de joelhos, o cajado escorregando. Os olhos marejados presos nas imagens.

— Não... não de novo...

Rieli manteve a lança erguida, sem olhar pros espelhos. A voz firme para trazê—la de volta:

— Escuta aqui, loirinha... isso é mentira! Eu tô aqui! Sempre vou estar! Você é minha melhor amiga, entendeu!?

Pude ver o olhar de Liliani vacilando, ainda preso ao reflexo.

Com esforço, virei mais o rosto pra ela. Os músculos travados, mas consegui forçar um aceno lento.

— Eu também... quero te proteger!

Os olhos dela se arregalaram. As lágrimas desceram.

— M—mas eu... pessoal, eu não...

— Sem "mas"! — Rieli sorriu por cima do ombro, mesmo no meio do caos. — Você é capaz! Não precisa ser perfeita! Só dar o seu melhor!

— Rieli...

E com todo esforço, consegui dizer:

— A gente confia em você... Até o fim...

Nossas palavras pareceram acender algo nela. Seus olhos brilharam mais. A expressão confusa e amedrontada mudou para uma que parecia mais firme.

— Não... preciso ser perfeita...

Ela repetiu, como se um nó dentro dela finalmente tivesse se soltado. Os olhos azulados estreitaram, ganhando brilho.

Aquilo era coragem.

O mundo voltou ao normal. A corrente sibilou no ar, pronta pra cair outra vez. Liliani pegou o cajado do chão, ergueu e o segurou com firmeza.

— Já chega!

A runa se formou, desenhada com contornos fortes e cintilantes. Um círculo perfeito se fechou diante da gente, sólido como cristal vivo.

[Barreira de proteção menor]

O impacto do aço ressoou, mas não quebrou. Fagulhas correram pela superfície e ricochetearam no chão, forçando o Carrasco a recuar.

O brilho varreu a arena inteira, queimando os ecos falsos nos espelhos. Liliani puxava fôlego rápido, mas mantinha os braços firmes e a voz clara:

— Eu não vou ser um fardo sempre! Eu também posso lutar! Eu vou cuidar de vocês!

— Lili... — Rieli sussurrou, admirada.

O HUD piscou:

[Status — Paralisia: 8s]

Um segundo de fôlego entrou no meu peito.

— Segura firme, Liliani! — Minha voz saiu rouca. — Agora a gente tem chance!

A barreira ardia à nossa frente. O Carrasco recuava em passos pesados, as correntes vibrando como grilhões.

[Paralisia: 6s]

Rieli, limpando o sangue da testa, ergueu a lança.

— Beleza... agora é comigo.

O monstro investiu. A corrente caiu em linha reta, mirando a barreira. Rieli ergueu a lança outra vez, sustentando a barreira. O choque explodiu como trovão.

— Hhhhnnn! — ela grunhiu, o corpo recuando pelo impacto. Mas continuava sorrindo.

— Não vou deixar a loirinha tomar minha frente assim!... Eu também... vou proteger vocês!

Liliani apontou o cajado, e a luz percorreu o corpo dela, restaurando o HP da amiga em ondas verdes.

[Cura menor]

[HP de Rieli: 18% → 42%]

— Força, Rieli!

— Tô aguentando! — ela respondeu, tremendo pelo esforço.

A magia de antes havia alterado o padrão. A corrente recuou pra outro golpe, agora lateral. Rieli girou o corpo, cravou a lança no chão e deixou o aço raspar por cima, cuspindo faíscas.

[Paralisia: 3s]

Cerrei os dentes, impotente. Ver as duas carregando o peso que devia ser meu era insuportável. Mas faltava pouco agora.

O terceiro ataque veio em diagonal, mirando a cabeça dela. Rieli cruzou a lança no alto, braços trêmulos. Liliani reforçou a cura, o cajado brilhando quase ofuscante.

A arma resistiu. O golpe perdeu força. O monstro recuou, rugindo.

[Paralisia: 1s]

Respirei fundo. Os músculos começaram a responder.

Rieli cuspiu sangue, mas sorriu entre os dentes cerrados.

— Ainda vivo, bicho dos infernos? Então espera só um segundo!

O ícone piscou uma última vez:

[Status removido]

O corpo voltou. Enchi os pulmões, peguei as adagas do chão, me ergui num salto. As lâminas brilharam contra o boss. A raiva contida virou foco puro.

— Tira um tempo, Rieli! Agora é comigo!

Avancei contra o Carrasco. Ele rugiu e deixou a corrente cair verticalmente. Esquivei pro lado; a lâmina de vidro cortou o piso onde eu estava. Outra corrente veio em arco — mergulhei por baixo, rolando no chão rachado. Dois desvios limpos.

[Habilidade Ativa — Lâmina Sombria]

Levantei do giro com as adagas miradas contra o boss e saltei na brecha do ataque. A lâmina afundou na fissura do peito; o vidro trincou com som seco.

Um [CRÍTICO!] brilhou no canto da visão. O Carrasco recuou, deixando um grito medonho.

— Boa, Kurohane! — Rieli veio na sequência, abrindo o flanco.

A lança dela entrou numa das fendas que eu abrira, aprofundando a rachadura.

Uma chuva de estilhaços voou em nossa direção, mas Liliani também estava lá. Se concentrou e uma barreira translúcida surgiu; as lâminas ricochetearam, virando fagulhas.

— Consegui! — a voz dela tremia, mas havia uma nova força ali.

O Carrasco, em fúria, tentou esmagar com as duas correntes ao mesmo tempo.

— Deixa comigo! — Rieli plantou os pés e segurou um dos elos, a lança cruzada no cabo.

A outra corrente veio; recuei no fio do perigo, a adrenalina queimando como ácido.

Os movimentos ficaram leves, automáticos. Saltei chutando o braço do boss para ganhar impulso, subi na corrente e enterrei as adagas no ombro rachado. Ele urrou, sacudindo o corpo; Rieli já contra-atacava, e Liliani sustentava a cura, a luz verde envolvendo nossas feridas.

Senti o trio pulsar em um só ritmo: eu abrindo as brechas, Rieli cravando a lança nas feridas, Liliani mantendo a gente de pé.

Era certeza — não estava mais brigando sozinho.

[HP do Boss: 64% → 51%]

— É assim que se briga! — Acho que acabei sorrindo, confiante de verdade.

O ritmo se manteve: adagas cortando, lança perfurando, luz curando. A barra de vida do boss derretia até cruzar o amarelo.

Quando chegou ao crítico, o rugido final estourou. Espelhos ao redor explodiram.

Cacos giraram no ar, refletindo mais imagens distorcidas — Emi despencando, Liliani ignorada, Rieli cercada por corpos.

— Ilusões! — gritei. — Essa porcaria não é real! Chega de se afundar nessa merda! Bora acabar com isso!

As garotas assentiram. Ignoraram completamente os truques baratos que antes nos paralisavam.

O Carrasco mudou. O corpo pulsou mais vermelho e as correntes se multiplicaram em tentáculos velozes.

Um dos espelhos pairou à minha frente, refletindo algo que não devia — eu mesmo, ajoelhado no chão, segurando o corpo da Emi. O reflexo me olhava com ódio, seu sussurro ecoando seguidas vezes:

"Você não pode mais salvá—la."

Balancei a cabeça e voltei a encarar o boss.

— Cala a porra da boca... Eu não vou parar! É por ela também! Vou te arrebentar, seu puto!

O vidro à frente se partiu — os fragmentos se perderam, como se desistissem daquele truque lixo.

O padrão lento do Carrasco virou frenético: agora golpes seguidos, vindo de todas as direções.

Cada golpe parecia cobrar o peso do meu pecado. Cada defesa, uma promessa de que eu não ia perder ali. Eu continuaria avançando.

Meus pés deslizaram sob a pressão, mas segurei firme.

Liliani ergueu uma barreira às pressas, mas rachou no impacto. Rieli rodopiou a lança, repelindo elos, mas o ritmo era insano.

A parte crítica não era o fim — era a nova provação. Correntes martelavam chão e defesas dando pouco tempo para respirarmos. A arena vibrava como se fosse ruir. Os espelhos lançavam miragens de dor, tentando nos sufocar.

Rieli caiu de joelhos, segurando por pouco.

— Que pesado... tá difícil demais!

Liliani refez a proteção; a luz agora oscilava.

— Meu MP... não vai durar!

Trinquei os dentes e apertei as adagas. A determinação veio junto.

— A gente não perde agora! Falta pouco, vamos ganhar essa porra!

Esquivei por baixo; uma lâmina raspou meu ombro. Cravei a adaga num elo e abri espaço.

— Eu vou vingar a Emi! Nem que eu precise cortar esse mundo inteiro!

Rieli ergueu a lança, olhos ardendo com lágrimas presas.

— Eu não vou deixar ninguém morrer!

Liliani gritou lá atrás, a voz trêmula mas firme:

— Eu não vou ser fraca! Vou ajudar vocês!

O ataque seguinte caiu sobre nós com força, mas não recuamos.

Nossas vozes se misturaram num só ataque.

[HP do Boss: 34% → 22%]

O Carrasco tentou um ciclone de correntes. Eu vinha lendo o novo padrão, vendo as aberturas. O instinto queimava: a esquiva era perfeita, milimétrica, os golpes encaixavam a cada assalto.

Rolei evitando um elo e deixei o arco varrer o ar.

[Lâmina Sombria — Ativa]

No terceiro golpe, mergulhei por baixo e finquei as adagas no centro do peito de vidro — usando toda minha força.

[CRÍTICO TRIPLICADO!]

A fenda agora estava larga, pulsando irregular, e o monstro cambaleou; o peito se escancarou em rachaduras.

O fim parecia próximo. Era tudo ou nada.

— Rieli, agora! Usa aquela habilidade!

Ela não hesitou. A lança brilhou em azul, energia correndo pelo cabo até a ponta, a custo de algum MP.

— Toma essa!

[Impacto Perfurante]

O grito dela cortou a arena junto com o golpe. A lança atravessou completamente o peito do Carrasco, com a ponta aparecendo nas costas.

O corpo estremeceu; os olhos rubros se apagaram.

E segundos depois... o boss explodiu em estilhaços; fragmentos digitais se desfizeram no ar. O rugido final ecoou e sumiu, deixando poeira vermelha suspensa no vazio.

Por alguns segundos não houve som — só o pulsar acelerado do meu coração tentando gritar que eu ainda estava vivo.

Ficamos imóveis, arfando. O silêncio pesou.

Até que o HUD surgiu diante de mim:

[Boss derrotado!]

[XP: +1.200 | Level Up > 17]

[Recompensa em Eternis: +350]

[Chave do Portal 02 adquirida]

— A chave... pro segundo mapa. — Li a descrição e um sorriso cançado escapou. — Finalmente estamos avançando.

Como se o mundo comemorasse junto, uma luz caiu sobre nós. O HP voltou ao verde; a stamina se encheu. No fundo da arena, abriu uma porta de energia clara: o portal de saída.

Rieli riu alto, meio nervosa, meia feliz. O HUD dela brilhava à frente.

— A gente... conseguiu! E ainda upamos também, né, Lili? Dois níveis de uma vez!

Liliani mal olhou pra notificação. Apertou o cajado contra o peito, lágrimas escorrendo junto do sorriso.

— É... conseguimos... passamos pela primeira dungeon!

Rieli e Liliani se abraçaram, rindo e chorando ao mesmo tempo. Era vitória de verdade.

Soltei o ar devagar. Os ombros relaxaram finalmente.

As notificações ainda piscavam quando um som metálico ecoou no centro da arena. Um baú dourado surgiu, brilhando em partículas digitais que se espalhavam como poeira de estrelas.

— Um baú especial... — Rieli arregalou os olhos, sorriso incrédulo.

Me aproximei devagar, ainda meio desconfiado. Toquei o metal frio e cintilante, e nada de ruim aconteceu.

Virei pra ela.

— Abre você.

— Eu...? — piscou, surpresa. — Achei que você ia meter a mão primeiro.

— Você deu o dano final. É justo. Mas não se acostuma, não.

Rieli hesitou, puxou a trava. O clique seco ecoou. A tampa se abriu e o holograma subiu em espiral, revelando um colar prateado com uma gema azul brilhando no centro.

[Item obtido: "Colar da Lâmina Clara" —

Inteligência +10 | boost leve para regen de MP]

Ela ergueu o colar; a luz refletiu nos olhos. Sem pensar duas vezes, virou-se:

— Lili. É seu.

— O q—que...? Mas... eu nem...

— Você salvou a gente aqui dentro. — A voz de Rieli falhou, mas o sorriso ficou. — Você é forte. Mais do que acredita.

Liliani levou as mãos ao rosto; as lágrimas correram sem controle. Rieli a abraçou forte, o colar entre os dedos.

Fiquei parado, observando. A lembrança da Emi veio como faísca — ela dizendo que eu devia dar chance às pessoas, que existia gente boa de verdade.

Fechei os olhos e sussurrei, quase sem voz:

— Obrigado, Emi...

Quando abri de novo, Rieli e Liliani ainda estavam abraçadas, rindo entre lágrimas. Pela primeira vez desde que entrei em Nova Eternis, a raiva pesou um pouco menos que o alívio.

Respirei fundo; o corpo latejava. Cada músculo gritava, mas estávamos de pé.

Era isso. Conseguimos mesmo.

As partículas douradas do baú sumiram no ar. No fundo da arena, o portal pulsava, respirando quase como um ser vivo — convidando.

— Aí, meninas... vamos? — minha voz saiu rouca.

Rieli ajeitou a postura, os olhos brilhando por dentro.

— Bora sair logo desse lugar.

Liliani segurou o colar junto ao peito.

— Juntos.

Mas o mundo de Nova Eternis não era condescendente a esse nível.

Um som fino cortou o ar — uma risadinha infantil, doce e venenosa que me gelou até a alma. Girei na hora, adagas em riste.

No alto de uma coluna rachada, empoleirada como se sempre tivesse estado ali, uma figura balançava as pernas. Vestido branco, cabelos prateados brilhando como pó digital, olhos vivos demais.

— Eu sabia que seria você. O primeiro jogador a completar minha primeira dungeon. Meus parabéns... "gatinho de rua".

Aquela frase. Aquele sorriso cheio de ironia. Meu peito apertou tanto que faltou ar. Queria arrancar aquele sorriso da cara dela com minhas próprias mãos.

— Você... — rosnei, carregando todo o ódio na voz.


Parte 2

Noova levou um dedo aos lábios, fingindo charme.

— Shhh. — riu, inclinando a cabeça. — Que cena linda... vocês três, juntinhos, rindo, chorando, se matando. Eu adorei assistir.

Rieli engoliu em seco e ergueu a lança.

— Você... tava observando desde o início?!

— Claro! — Noova respondeu com uma inocência teatral. — A dungeon é um brinquedo meu. Um teste pra ver se os jogadores conseguem enfrentar seus fantasmas. E vocês foram divertidos. Meus "quase melhores amigos".

Ela exibiu um sorriso satisfeito, quase orgulhoso.

— Morcegos e lobos... Eu costumava ter medo, sabiam? Uma vez, um cachorro mordeu minha mão quando tentei fazer carinho. Fiquei tão triste... e tão brava. — fez beicinho, mas o sorriso logo voltou. — Acho que por isso gostei tanto quando vocês destruíram aqueles mobs. Bom trabalho!

— O que ela quer dizer com "mordeu minha mão"? — perguntou Rieli, mas a IA apenas riu baixo, o som ecoando por toda a arena.

Liliani deu um passo à frente.

— Por que faz isso?! Por que não liberta todo mundo?!

Noova inclinou a cabeça, expressão de criança pensativa.

— Porque não é a vontade do papai. Ele criou este mundo pra mim, e eu adoro brincar aqui.

O sorriso se desfez de repente; a voz ficou fria.

— Onde estavam todos quando eu precisei? Ninguém pra me ajudar. Sem amor. Sem misericórdia.

Aquelas palavras... Por um instante, pareceu haver verdade ali. Verdade humana — não só uma IA sarcástica, mas uma criança ferida, alguém que conheceu abandono.

— Que merda você tá dizendo!? — cuspiu Rieli, impaciente.

Noova sorriu de novo, apagando o momento como quem apaga um rabisco no quadro.

— Mas não vim só pra brincar. Tenho um recado do papai.

Antes que eu pudesse reagir, o sistema brilhou. Uma janela de áudio surgiu, vibrando com uma frequência grave.

A voz que ecoou pela arena era firme, direta... mas parecia cansada.

— Parabéns, jogadores. Eu sou Haruya Norikawa, criador de Nova Eternis.

Por um segundo, achei que tivesse ouvido errado. O som parecia atravessar o ar e grudar dentro da cabeça.

A ficha caiu. Era ele. O assassino desgraçado.

— Vocês devem estar intrigados com o tipo de desafio até aqui. Saibam que este mundo não é apenas um jogo. É um espelho. Aqui, cada um deverá provar o verdadeiro gosto do arrependimento, não só lutando contra monstros, mas contra si mesmo. Contra os atos egoístas que os trouxeram até aqui.

— Isso não faz sentido! — gritei, a garganta vibrando.

Mas a voz seguiu, indiferente:

— A dor raramente faz sentido. O desprezo, a falta de compaixão... não precisam fazer sentido. Precisam apenas ser sentidos, punidos, superados. Vocês provarão do mesmo amargor que eu provei. Do mesmo que ela provou... aquela que eu tanto amava.

O silêncio caiu. Denso. Sufocante.

— Você, jogador Kyato Kurohane, me parece o que mais se aproxima da compreensão absoluta. Você também sentiu a dor de perder. De ver a pureza escorrer por entre os dedos. Desprezada pelos outros, sozinha, indo pra debaixo da terra fria... Eu respeito isso... de verdade.

Meu peito travou. As palavras que soavam como elogio queimaram até virar raiva pura.

— Eu não perdi nada! — berrei. — Você arrancou ela de mim! E eu não vou descansar até arrancar tua vida com as minhas próprias mãos!

Apenas o eco da minha voz por um instante, até que a resposta veio, direta, fria, com o HUD cintilando como se gravasse nos códigos do próprio jogo.

— Isso é uma promessa. Se sobreviver, nós nos encontraremos em breve.

Então o HUD fechou sozinho.

— Espera, seu desgraçado! — gritei, mas o vazio respondeu só com silêncio.

Noova deu um risinho baixo.

— Eu disse que seria divertido. Vou continuar observando vocês, meus novos amigos. E prometo... vamos brincar mais vezes.

Ela se ergueu, flutuando devagar. Rieli ajeitou a lança, pronta pra qualquer trapaça. Eu não me segurei mais. Avancei, mas a garota já se desfazia em partículas de luz.

O último sussurro ecoou pela arena:

— Continuem me divertindo, vocês três.

O som se perdeu. A arena ficou quieta outra vez.

Apertei as adagas até a pele arder, os dentes cerrados.

— Que merda...

— Isso tudo não faz sentido nenhum. — Rieli completou, amarga.

— E ainda assim, parece real demais. — Liliani abaixou o olhar. — Às vezes, ela nem parece uma IA.

Senti o sangue ferver.

— Foda-se o que ela é… Eu vou acabar com os dois... eu juro!

Antes que a raiva me cegasse de vez, senti mãos tocarem meus ombros — Liliani à direita, Rieli à esquerda.

— Kyato... calma. — Liliani falou, suave.

— Não adianta ficar puto aqui. — Rieli completou, firme. — O que importa é zerar o jogo.

Fechei os olhos e soltei o ar devagar.

— ...É. Vocês têm razão. Vâmo vazar daqui.

Levantei o rosto pro portal que ainda pulsava no fundo da arena.

Nos aproximamos. A cada passo o círculo vibrava, mandando ondas azuladas pelo piso. O ar pareceu estagnar ali.

Ao tocar a borda com a ponta da bota, o sistema apareceu:

[Deseja teleportar para o próximo mapa?]

Assenti pra elas.

— Teleportar.

O círculo rasgou em clarões. A luz subiu pelas pernas e devorou o mundo. O chão, o som, o peso — tudo sumiu.

Por um segundo absoluto, não existíamos.

E quando voltamos a ser, havia grama prateada sob os pés, cintilando sob uma luz suave. Um vento morno passou, trazendo perfume doce e artificial. O céu era azul translúcido, sem nuvens, sem pássaros — perfeito demais pra ser real.

Ao longe, torres brancas formavam uma cidade serena, onde poucos NPCs caminhavam devagar, sorrindo.

Tudo ali era bonito demais. Bonito o bastante pra parecer errado.

A interface brilhou diante de nós:

[Primeira dungeon principal concluída — Portal 02 liberado]

[O segundo mundo está aberto a todos os jogadores]

Rieli assobiou, surpresa.

— Caramba... imagina o choque lá na cidade inicial.

Liliani apertou o colar contra o peito, os olhos marejados.

— O medo deles vai diminuir... talvez a esperança volte.

Rieli deu um passo à frente. Disse com voz baixa:

— Eu tô mais perto de voltar... pra minha irmãzinha.

As palavras dela bateram fundo. Ela tinha alguém esperando lá fora. Eu também já tive. Por um segundo, acho que uma inveja apertou — mas logo virou alivio por ela, que se foi num suspiro contido.

Então o sistema piscou:

[Condição estipulada atingida — Party temporária dissolvida]

O peito afundou. A confirmação cruel da regra que eu mesmo criei: não me apegar. Sempre soube que esse grupo não ia durar. Só não esperava que o motivo fosse a minha própria solidão.

O aviso esfregou na minha cara o que eu já sabia — no fim, eu estaria sozinho. De novo.

Desde que perdi a Emi, a raiva tomou o volante. O ódio virou bússola. Vingança, meu combustível.

Caminhar sozinho era mais fácil. Menos seguro pra vida. Mais seguro pra consciência.

Um jogador solo.

Um delinquente à margem.

Suspirei e forcei um sorriso sem graça.

— É... já é mais do que eu esperava.

Mas antes que esse sentimento novo me engolisse, outra notificação brilhou:

[Convite para Party permanente recebido — Jogadoras Liliani e Mayumi]

Levantei os olhos. As duas estavam ali, mãos estendidas. Liliani me fitava com aquele olhar meigo; Rieli, com o sorriso teimoso.

— Você não tá sozinho. — disse Liliani.

— Achou que ia se livrar da gente? — Rieli emendou. — Esse grupo é bom demais pra acabar agora.

— Eu...

— Aceita logo, cabeça-dura. — Rieli cortou.

— Kyato... fica. — Liliani sorriu.

O rosto da Emi atravessou minha mente — o sorriso, a voz suave:

“Maninho, dá uma chance para as pessoas. Ainda existe gente boa de verdade.”

Pensei em cada passo desde que esse inferno começou, em quantas vezes andei sozinho, repetindo pra mim mesmo que era o único jeito.

E, sem perceber, elas tinham quebrado isso.

Não fui só eu naquela dungeon. Não era só eu contra o mundo. Alguém dividiu o peso comigo.

Talvez eu não precisasse carregar tudo sozinho.

— “Você não precisa ser forte o tempo todo…”, né?

Tais palavras da Emi ecoaram na cabeça. Coisa que ela sempre me dizia quando meu mundo estava pra ruir. E ela o remendava.

Um sorriso nervoso escapou. O nó no peito apertou. Puxei o ar e, sem pensar demais:

— Tá...

O sistema reagiu:

[Party permanente formada]

As duas comemoraram, rindo e se abraçando. Rieli cutucou meu ombro, com aquela cara de deboche só dela.

— Bora, delinquente. A cidade não vai se explorar sozinha... e eu ainda quero te provar que sou mais durona que você.

Sorri de lado. Guardei as adagas no cinto, e depois de muito tempo elas não soaram como correntes presas ao meu ódio. Pareciam parte de algo maior.

Um passo a mais — não só rumo a zerar esse jogo, nem só por vingança.

Um passo a mais rumo a quebrar o isolamento que eu mesmo impus.

Um passo a mais rumo a algo que achei ter morrido com a Emi: acreditar que ainda há gente que vale a pena proteger.

Eu ainda carrego a raiva — mas agora ela ganhou direção. Minha força se estende através dessas duas.

Avançarei com elas.

O vento prateado levantou na nova planície. Meu olhar perdeu-se no horizonte. Rieli e Liliani, alguns passos à frente, devolveram o olhar.

— Anda, Kurohane! Tá esperando tropeçar num baú secreto?

— O segundo mapa… Vamos juntos, Kyato.

Meus pés se moveram. Caminhei lado a lado com elas, e a certeza que carregava era simples e concreta:

Norikawa... cedo ou tarde, eu vou te achar.