Nova Eternis - Vl.01

4 Capítulo 4 – Labirinto dos Ecos Quebrados


Parte 1

O frio bateu primeiro. Pedra úmida, cheiro de mofo. O corredor se estendia como a garganta de algo que dormia há séculos.

Atravessamos o portão, e a escuridão nos engoliu num gole só. Aos poucos, tochas azuis começaram a piscar, respirando devagar, como se o lugar tivesse pulso.

O eco estava errado. Nossos passos voltavam atrasados, distorcidos, como se outro grupo invisível marchasse logo atrás. Não sei se era bug, ou loucura pura daquela pirralha IA.

As paredes se curvavam pra dentro, lembrando costelas gigantes. Era como andar dentro do peito de uma criatura indecisa entre engolir e cuspir.

Liliani se agarrou em mim, segurando o cajado como se fosse um guarda-chuva numa tempestade. Os dedos tremiam mais que a voz.

— M-meio sinistro... a gente só precisa atravessar, né?...

A fala dela sumiu e voltou quebrada, como se outra Liliani tivesse falado por cima.

Rieli girou a lança no ar, tentando parecer confiante. O metal raspou, testando a pedra.

— Se for pra assustar, esse lugar vai ter que se esforçar mais.

O eco repetiu, mas com as palavras trocadas, zombando. Ela fingiu indiferença, mas também tava tremendo.

Na primeira curva, mensagens rasgadas em vermelho, ainda úmidas:

"O eco está ouvindo vocês."

"O reflexo interior se revelará."

"São só brinquedos feitos de arrependimento."

— Algum jogador deixou isso? — Rieli sussurrou tensa, mordendo o lábio.

— Não. — respondi. — É coisa daquela IA psicopata. Tá brincando de ferrar com a nossa cabeça.

Liliani recuou meio passo.

— Mas... por que ela faria isso?

— Porque pode. — cortei. — E porque gosta de ver a gente quebrar.

As tochas apagaram de repente. Símbolos finos surgiram na pedra, linhas azuis correndo como veias, pulsando até reacender as tochas adiante.

Ela estava ali — observando de algum canto.

Borboletas digitais quando queria brincar. Glitches no céu quando queria aparecer. Frases em sangue quando queria lembrar que qualquer um podia morrer só porque ela quis.

Esse era o jeito dela de dizer que está no controle.

O jeito doentio do Norikawa fazer as coisas.

Por um segundo, o som do sistema chiou — estático, como se alguém digitasse dentro da parede. Um riso de criança se misturou ao ruído.

Nos entreolhamos, prendendo a respiração.

— Isso foi—

— Olhos abertos e foco nos passos. — cortei Liliani de novo, antes que o medo dela se espalhasse. — Se o chão mudar de textura, para. Se o eco mudar demais, para. Se ficar fácil demais, nem respira.

— Sim, senhor capitão. — Rieli, tentando soar corajosa.

Ela deu um tapinha no ombro da loira, ajeitou a lança e tomou posição na minha diagonal.

Conforme avançávamos, o corredor afunilava e alargava sem padrão, alternando trechos estreitos com bolsões de pedra onde o teto sumia na sombra. Em um deles, outra frase rabiscada:

"Brinquem comigo, enquanto se escondem de vocês mesmos."

— Eu não gosto disso... — Liliani sussurrou.

— Esse é o ponto — respondi.

O eco repetiu "é o ponto" três vezes, cada vez mais fino, até virar um sussurro que não era meu.

Respirei. Um cheiro metálico me acertou o nariz, vindo de pequenas gotas no rodapé, guiando pro fundo. Sangue fresco.

Noova sabia montar cena.

Rieli se aproximou mais.

— A cidade inicial, as planícies, a floresta... tudo parecia conto de fadas. Por que uma dungeon inicial parece filme de terror barato?

— Sei lá. Humor excêntrico dela? Por que você perde tempo tentando entender aquela pirralha maluca?

— Isso é coisa do criador, né? Do Norikawa? — Liliani sugeriu.

Ela tinha razão. No fim das contas, Noova era só a extensão da mente podre daquele homem.

— Seja como for, já estamos aqui. Vamos.

O piso mudou sob nossas botas: o liso virou mosaico granular, cheio de frisos. Levantei a mão e encostei a ponta da bota no limite. O solo cedeu na hora.

— Chão movediço. Se a gente contornar pela borda... — Estendi a mão pra Rieli. — Me empresta a lança. Dá pra testar o caminho.

Ela abraçou a arma contra o corpo, cara de criança mimada.

— Tá maluco? É minha única lança! Um asno como você derruba no buraco fácil.

— Então vai na frente, espertona. Se cair, morre.

Ela engoliu em seco, inclinou o corpo e me lançou um olhar curto, sem ironia. Liliani andava nas pontas dos pés, tentando aliviar o peso.

— Tá. Eu dou conta. Deixa comigo.

Rieli foi na frente, batendo a ponta da lança no solo a cada passo. Atravessamos encostados na parede, mais devagar do que o necessário, de olho em qualquer mecanismo ou armadilha surpresa.

Outra curva. O frio voltou. O corredor abriu num átrio pequeno, teto rachado e sombras pingando como teias. No chão, marcas de arrasto: garras? Correntes? Um palco cruel pra três atores mal pagos.

— I-isso não pode ser real... — Liliani murmurou, encarando as marcas.

— Real o bastante pra te matar. — respondi, seco.

Rieli bufou; o eco devolveu igual. O lábio dela tremeu só um pouco, como se tivesse esquecido a fala.

No centro do átrio, uma frase escrita com calma demais pra ser coisa de quem foge:

"Prometam que vão brincar até o fim."

A tinta — ou sangue — escorria formando um coração torto. Tive vontade de arrancar a pedra com as mãos. Fechei o punho nas adagas.

— Andando. — dei a ordem. O eco devolveu minha voz original. — Linha fechada. Eu na frente. Rieli, diagonal esquerda. Liliani, dois passos atrás. Se as tochas apagarem, lança uma luz baixa.

— E-entendi... — Liliani assentiu, voz fraca.

— Não precisa me ensinar a andar. Sei usar as pernas. — Rieli reclamou, mas já se colocou na posição certa.

Seguimos pelo arco oposto. O corredor não começou — se arrastou pra frente, feito uma língua de pedra saindo da boca do labirinto.

Contornamos o piso e avançamos. O caminho estreitou, quase fila única. Logo três passagens se abriram. A do meio chamava atenção: larga e limpa demais pra ser suave.

— A gente vai... — Liliani começou.

— Nada de separar. Seria burrice.

Ela suspirou de alívio.

Rieli sorriu de canto e ergueu a lança.

— Finalmente um caminho decente.

Deu dois passos, mas segurei o ombro dela.

— Fácil demais.

— Você vê perigo em tudo. — O olhar dela era puro incômodo. — Se a gente desconfiar, é só voltar.

— Você é amadora, ou só burra?

Peguei uma pedra solta e joguei no corredor. A ilusão se estilhaçou em pixels cinzentos, revelando estacas e espinhos prateados prontos pra receber pés desavisados.

— Meio difícil "voltar" se você estiver empalada, feito carne no espeto — falei sem emoção.

Rieli congelou, olhos arregalados.

— E-eu sabia. Só queria confirmar.

Liliani segurou a mão dela.

— Tenha mais cuidado, Rieli!

— Tá, já sei, que saco. — reclamou, ainda tentando disfarçar o susto. — E agora, mestre das dungeons?

Analisei o terreno e joguei outra pedra. Nada. Forcei a pisada com a ponta da bota. Nada também.

— Direita. Pelo menos o chão não cedeu... ainda.

As duas estremeceram com minha piada. Segui pelo caminho sinuoso — a única passagem que parecia verdadeira. O espaço apertava; a pedra roçava nos ombros. Liliani vinha colada em mim, o cajado raspando no meu braço. Rieli fechava a fila, passos contidos.

— Só continuem. Não desviem do caminho. Não toquem em nada.

Mas um estalo seco cortou o ar.

Porra... devia ter seguido meu próprio conselho. Mas acabei apoiando a mão esquerda na parede, e algo foi acionado — um mecanismo. As paredes abriram fendas, cuspindo dardos com algo que deveria ser... veneno?!

— Barreira! — gritei, recuando pra cobrir Liliani.

— T-tá bom! — ela respondeu, erguendo o cajado. A luz surgiu, trêmula, e quebrou como vidro.

— E-eu...

Os projéteis voaram direto pra cima da gente. Puxei o braço dela pro lado. Os dardos cravaram na pedra, passando a centímetros dos nossos rostos, e se desfizeram em fagulhas.

Liliani arfava, pálida.

— Eu... eu quase... desculpa!

— Concentra! — minha voz saiu mais dura do que eu queria. — Se não fizer sua parte, a gente morre!

Rieli avançou até a minha frente, ainda ofegante, rosto fechado.

— Você também não é perfeito! Escolheu o caminho errado e ainda acionou a armadilha, então para de bancar o fodão!

Não respondi. A raiva fervia por dentro, mas segurei.

Voltamos pelo corredor.

— Último caminho. — Eu disse, ainda azedo com o sermão da ruiva.

— Será que é seguro? — perguntou Liliani, ainda mais tímida agora.

— Só tem um jeito de descobrir. — Rieli deu um passo mais perto dela. — Desde que "ninguém toque em nada", deve dar certo.

Estalei a língua. Ela soltou um "hum!" como quem tava pouco se lixando. Acho que a gente já se odiava.

E seguimos pra esquerda, cada passo valendo uma vida.

Dessa vez, sem sustos. O corredor terminou numa câmara ampla. O teto irregular parecia mordido por dentro. O ar estava mais denso, um cheiro ácido grudando na garganta.

Primeiro vieram sons baixos, distorcidos, lá em cima. Poeira caiu das frestas. Depois, o som estridente de centenas de asas cortou a escuridão.

— Merda... — rosnei, erguendo as adagas.

Primeiro, só olhos vermelhos pipocando no teto, dezenas deles, brasas acesas no breu. E então o teto desabou em asas — uma nuvem viva despencando sobre nós.

[Morcego Sombrio — Lv. 5]

Pequenos sozinhos. Mortais em bando. Pelos roxos, presas saltando das bocas, pontas das asas brilhando feito lâminas. Devia ser uns trinta? Quarenta?

Foda-se. Avancei por instinto. Cruzei as lâminas, cortei dois, três... mas outros dez já vinham pelas costas.

— Eu pego os do canto! — Rieli gritou e disparou, deixando minhas costas expostas.

— Não! Sua imbecil!

Tarde demais. Ela girava a lança em círculos largos, afastando o enxame no impulso, mas perdeu o equilíbrio.

Liliani tentou conjurar uma esfera de luz. O feitiço falhou no meio — um clarão breve, depois nada. Os morcegos passaram direto, arranhando o braço dela.

— Eu... eu não consigo! — choramingou. Era irritante.

Por um segundo, hesitei. O medo no rosto dela me puxou pra trás, lembrou a Emi. Mas não havia tempo pra palavras suaves.

— Cala a boca e tenta de novo! — rosnei, golpeando sem parar.

As asas batiam no meu rosto; garras raspavam a placa sobre meu peito.

Rieli estocou contra a parede, cravando três de uma vez, mas quase caiu com o recuo. Puxou de volta com esforço, bufando.

— Essas pragas não acabam nunca!

Aquilo tava virando desastre. Rieli correndo sozinha. Liliani encolhida, tremendo. E eu... eu sempre fui péssimo em falar, em guiar, em interagir. Só sangue e movimento. Nada de ordens decentes.

Cada arranhão arrancava HP. O meu já tava amarelando. O delas também. Por sorte, a maioria se focava em mim, o mais resistente do grupo.

— Liliani! Sua magia! — gritei, lutando pra abrir espaço. — Só uma esfera de luz, igual fez contra os alces da outra vez, e esses malditos ficam cegos!

— E-eu... — ela mal abria os olhos.

— Se não fizer, a gente morre aqui!

Naquele momento, o grito de Rieli cortou o zumbido.

O HP dela piscava em vermelho.

— Alguém! Eu não quero morrer! — a voz dela quebrou, perdendo a pose de marrenta diante do risco real. — Por favor!

O enxame cercava ela por todos os lados.

Procurei os olhos da Liliani no meio daquela confusão.

— Vai deixar isso terminar assim? — minha voz cortou o caos. — Não quer voltar pra casa? Pra sua família?

Ela abriu os olhos e sacudiu a cabeça, negando.

Me pareceu estranho. Mas não havia tempo para pensar naquilo.

— Então vai deixar a Rieli morrer aqui?! — pressionei. Os olhos arregalados dela buscaram a amiga.

Mas ainda precisava mexer mais com ela. Engoli em seco. A voz saiu fria demais, mesmo em meio ao caos.

— Vai me deixar morrer também, depois de já ter abandonado minha irmã?

Algo quebrou dentro dela. Medo virou outra coisa — raiva, talvez, ou culpa virando força.

— Eu... não quero abandonar ninguém! — ela gritou, a voz embargada.

Respirou fundo, levantou-se, ergueu as mãos e apertou o cajado. Encontrou uma fresta de foco. A luz da ponta explodiu: um feixe largo rasgou o teto.

— Fecha os olhos! — berrei, e elas obedeceram.

A claridade encheu a câmara. Os morcegos ficaram cegos e desorientados, bateram uns nos outros e se dispersaram em pânico.

Quando o brilho cedeu, avancei. As adagas dançavam no ar, cortando sem parar — frenético, automático — até o último cair.

O chão ficou coberto de cadáveres digitais, que estouraram em fragmentos luminosos, um após o outro. No fim, só nossas respirações ecoavam.

O peito ardia. Minhas adagas pingavam sangue negro e espesso.

— Cacete... Que bosta foi essa? — Falei mais para mim mesmo, indignado com o rumo daquele briga. — Sério que eu quase morri assim?

Rieli se apoiou na lança e desabou de joelhos, tremendo.

— Isso foi ridículo... — murmurou, a voz quebrando.

Liliani deixou o cajado cair e chorou sem vergonha, lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Eu só atrapalhei... não sirvo pra isso!

Não era verdade. Se ela não tivesse encontrado aquela abertura, estaríamos mortos. Mas a vergonha já tinha tomado conta dela. E a frustração, tomado conta de mim.

Virei o rosto; um peso subiu no peito. Droga. Trouxe as duas até aqui achando que podia mudar alguma coisa, e percebi que continuo o mesmo idiota de sempre: sozinho, brigando com o mundo, sem manual pra lidar com gente.

Rieli engatinhou até Liliani, tentando forçar um sorriso que morreu rápido.

— Ei... não faz essa cara, loirinha. — a voz saiu rouca. — Eu... eu também não consegui proteger ninguém.

Liliani soluçava baixinho. Rieli me olhou de lado, as bochechas coradas de vergonha. A sensação era clara: o peso nos esmagava.

Afrouxei a pegada nas adagas. Deixei os joelhos cederem.

Esse grupo não vai durar. E se durar, vai ser mais culpa pra carregar.


Parte 2

Ainda zonzos do enxame, um som metálico rasgou a parede.

Uma fissura digital abriu, revelando uma salinha estreita com tochas verdes.

Ficamos em alerta. Nada aconteceu. No centro, um baú de madeira com runas.

— Não pode ser... um prêmio?! — Rieli apertou a lança, olhos faiscando. — Talvez algo que ajude agora!

— Ou outra armadilha. — minha voz saiu áspera.

O silêncio pesou. Liliani tremia, exausta; mal podia segurar o cajado, o que significava nada de magia de cura por um tempo.

Sem poções, stamina no zero — se viesse luta, virávamos carne moída.

— Eu entro sozinho. — Respirei e levantei devagar.

— Tá maluco?! — Rieli se virou pra mim. — E se for armadilha?

— Então eu reajo. Vocês nem teriam tempo de gritar.

Liliani balançou a cabeça, insegura.

— Mas... e se você...

— Se algo der errado, saiam da dungeon. Voltem pra cidade. — repeti, firme. — Entendido?

O olhar das duas pareciam suplicar para que eu ficasse. Mesmo assim atravessei o arco, testei o piso com a ponta da bota — nada cedeu. O baú me esperava.

Me agachei. Abri devagar, pronto pro pior.

Um clarão dourado me cegou por um segundo. Fechei os olhos, esperando dar ruim.

[Você encontrou: 5x Poção de Cura Menor]

[Deseja adicionar ao inventário?]

Soltei o ar devagar. Peguei uma das garrafas — fria, real — e aceitei. As cinco poções apareceram no menu.

Um holograma na parede declarou: "'Safe room". A luz verde se espalhou, macia. Enfim, desde que entramos na dungeon, os ombros baixaram.

— Podem entrar. — a voz saiu cansada, mas aliviada.

Liliani e Rieli se apoiaram uma na outra, desabando de joelhos quando entraram na sala. A respiração pesada das duas misturou com o brilho reconfortante.

— Finalmente um descanso decente. — Rieli largou a lança no chão e sorriu torto. — Com essas poções a gente tem mais chance contra o boss. Se souber usar direito...

Abri o menu e conferi o loot e XP dos morcegos.

Liliani, ainda pálida, ergueu os olhos pra mim. Parecia tentar decidir se me interrompia ou não.

— Desembucha.

Ele tremeu de leve.

— A-acho que devíamos usar algumas na Rieli. O HP dela tá quase zerado. É perigoso e deve doer... — desviou o olhar, envergonhada. — D-desculpa por não conseguir curar agora.

— N-não, eu tô de boa! Sou mais forte que muito jogador por aí, sabia? — Rieli piscou, mas a voz vacilou no fim.

MP cheio, stamina vazia. Assombroso como esse mundo copia o que a gente sente por dentro. Não é só barra de status — é espelho da cabeça.

Na vida real também é assim: medo, estresse, insegurança. Se a pressão te amassa, o corpo pifa, pior que se tivesse corrido uma maratona.

A Liliani tava nesse ponto. Exausta. Não pelo esforço físico... pela mente.

Olhei pras duas e depois pros meus próprios ferimentos. Minha cara fechou sozinha.

— Esse grupo foi um fracasso. — saiu frio demais pra um lugar chamado "Câmara Segura".

As duas me fitaram, sem entender.

— Se eu continuar com vocês, a gente não passa do próximo corredor. — cerrei os punhos. — Tenho uma maga que trava no meio da magia e uma pirralha que se acha pro-player, mas não aguenta três minutos sem fazer merda.

A resposta veio na hora. Claro, a ruiva explodiu:

— Quem você pensa que é?! Você também não ajudou em nada! Não tem direito de falar assim com a gente!

— Antes de vocês, eu avancei mais que qualquer jogador. — cruzei as adagas no colo. — Agora, com vocês me arrastando, eu quase morro a cada esquina.

— Moleque arrogante! — Rieli se ergueu, o rosto vermelho. — Se não fosse a gente, você já tava morto na Floresta do Alvorecer!

— E se não fossem vocês, eu não estaria quase morto aqui dentro. — olhei frio. — Vocês são peso inútil.

Liliani arfou, assustada.

— Kyato... vai nos abandonar?! Vai deixar a gente pra trás?!

Puxei o ar com impaciência, sem encarar.

— Safe rooms regeneram HP e stamina aos poucos. — Apontei para nossas barras, que aumentavam bem devagar. — Vou esperar vocês se recuperarem. Depois, vocês voltam pra cidade. Contra o boss, eu sigo sozinho. As poções ficam comigo.

Rieli arregalou os olhos, incrédula.

— Então é isso? Você só quer ficar com a recompensa e se livrar da gente. Egoísta de merda!

— Parem de bancar as aventureiras. — deixei as palavras saírem como lâmina. — Deixem isso pra quem briga de verdade. Eu vou zerar esse mundo. Vou enterrar essa prisão. Não vou carregar duas crianças que brincam de RPG. Eu vou ter minha vingança.

Rieli avançou um passo; Liliani recuou.

— Você é um iludido! — Rieli gritou. — Acha que vai zerar tudo sozinho?! Cego nessa vingança estúpida... você nem percebe que não luta por ninguém além de você!

O sangue ferveu. Fiquei de pé antes de pensar.

— Não ouse... — minha voz veio baixa, tremendo de ódio. — Não ouse diminuir a morte da Emi!

— E-eu não quis...

— Cala a boca! — berrei. O peito queimava. — Eu não vou morrer por tua culpa! Você não é nada, Rieli! Para de bancar a fodona na frente da tua amiguinha e deixa a briga pra quem aguenta sangrar!

Ela congelou sob meu olhar. A marra sumiu; o tremor apareceu. Tentou manter a pose, mas as lágrimas ferveram nos cantos dos olhos.

— V-você não tem direito de julgar quem pode ou não lutar! — a voz falhou, mas ela não recuou. — Eu luto pra proteger quem não pode sozinho! Nem que eu vá até o boss sozinha, eu continuo!

— PARA!

A voz da Liliani se elevou acima da nossa, mesmo tremida pelo choro. Ela se atirou na Rieli e agarrou firme.

— Não me deixem! Eu não quero ficar pra trás!

O silêncio caiu. Meu olhar travou nela.

— Eu não quero ser deixada sozinha de novo!... — sussurrou Liliani, quebrada. — Já bastou aquela vez!

"Bastou aquela vez"?

Aquelas palavras atravessaram. Não era a maga hesitante falando. Era a menina por trás da tela — a Liliani real — ferida e assustada e remoendo algo por dentro.

Rieli a segurou pelos ombros, confusa.

— Como assim "de novo"? Eu tô aqui, Lili! A gente sempre esteve juntas!

Liliani baixou a cabeça, hesitante. Não respondeu.

Deu pra sentir. Era coisa pesada, daquelas que ficam no peito, cobrando todo dia.

Nunca fui de me meter no drama dos outros, mas, sei lá... tinha algo na loirinha que me fazia querer entender.

— Falar da vida lá fora é tenso. — baixei o tom. — As lembranças, a saudade... doem aqui dentro. Você não precisa contar se não quiser. Mas diz aí: tem alguém te esperando lá fora?

Rieli me lançou um olhar de reprovação, mas Liliani confessou, balançando a cabeça.

— Tem... Uma pessoa.

— Pai? Mãe? — perguntei.

— ...Eles não ligam — respondeu ela, baixando o olhar para o chão cintilante.

Ergui a sobrancelha e olhei para Rieli, que parecia tão surpresa quanto eu estava confuso.

As lágrimas desceram sobre o rosto delicado dela. Não disse mais nada. Eu também não.

Ela se encolheu no peito da Rieli.

— Eu só não quero perder vocês. Não quero ser descartada de novo.

Por um instante, me enxerguei em Liliani. Depois da Emi, cheguei a achar que meus pais me odiavam tanto que iam querer que eu sumisse. Teve um momento em que temi que um dos dois arrancasse o console da minha cabeça só pra vingar a Emi.

Eu devia mesmo voltar pra casa quando isso acabasse?... Eu ainda tinha uma casa?

Talvez a Liliani carregasse a mesma dúvida.

Rieli me olhou de novo. Balancei a cabeça como quem diz: "não força". Ela entendeu, abraçou a amiga e afagou o cabelo dela.

— Desculpa. Eu não devia ter dito que ia sozinha. — sussurrou. — Tudo que eu quero é ficar com você. E te proteger.

A cena acertou em cheio. As palavras da Emi voltaram à minha mente feito oração: "Você não pode machucar pessoas bondosas."

— Assim que é, né, Emi? — murmurei.

Um sorriso apagado escapou, sem eu querer.

Abri o menu. Selecionei as cinco poções. Elas flutuaram, o líquido verde brilhando. Fechei o punho; os frascos se desfizeram em partículas de luz. Estendi a mão — a cura pousou sobre as duas.

O sistema anunciou:

[Você usou 2x Poção de Cura Menor na jogadora Liliani]

[Você usou 3x Poção de Cura Menor na jogadora Mayumi]

A cura foi na hora. As feridas sumiram, o HP voltou pro verde.

Liliani me encarou, surpresa.

— Por que fez isso...?

— Meu jeito de agradecer. — desviei o olhar. — Como a ruiva já disse umas trinta vezes, se não fosse por vocês eu não teria passado da Floresta do Alvorecer.

— Mas... você não disse que a câmara ia curar sozinha? — Liliani franziu a testa.

— Huh...? — congelei.

Rieli riu de canto, sem maldade.

— Não teria sido melhor guardar pro chefe? Quem é o imprudente agora?

— Ah, c-cala a boca. — cocei a cabeça, tentando conter a vergonha que ameaçava queimar minhas bochechas.

As duas se olharam e caíram na risada. Som leve demais pra esse mundo — e necessário.

Eu acabei rindo junto, pra valer. Acho que desde que caí nesse inferno não ria assim, solto. Por um instante, deu um alívio por dentro.

Relaxamos por longos minutos. Comemos um pouco também. Depois, decidi: a gente dorme aqui. Mesmo se vencêssemos o boss, seguir madrugada adentro seria pedir pra morrer.

Liliani me encarou com olhos suaves.

— Obrigada, Kyato...

— Huh?

— Por cuidar da gente. Mesmo depois de tudo.

Desviei o rosto, sem jeito. Pesou mais do que devia. Respirei e, antes de me arrepender, soltei:

— Quero ver os status de vocês.

Liliani piscou surpresa. Rieli arregalou os olhos.

— É pra bolar um plano. Vai ser mais fácil reagir ao que vier se eu souber.

— Tá maluco?! Mostrar status é pedir pra ser enganada!

Mas um HUD cor-de-rosa surgiu de repente. Liliani abriu o menu sem hesitar.

— Tá tudo bem.

— Lili! — Rieli quase puxou o braço dela. — Você não pode mostrar suas informações pra qualquer um!

— Ele não é qualquer um. — disse firme, raro nela. — Ele curou a gente quando não precisava. Salvou dos morcegos. Eu confio nele.

Aquilo me pegou, confesso. Tossi, bebi água pra disfarçar. Confiança sincera... não ouvia isso desde a Emi.

Rieli bufou, cruzou os braços, mas acabou abrindo o menu também.

— Você é impossível…


[Status — Liliani Arisawa]

[Classe: Maga Aprendiz | Level: 4

HP: 101/113 | MP: 41/70

Ataque: 5 | Força mágica: 24 | Defesa: 9 | Agilidade: 13 | Stamina: 14

Atributo especial: Inteligência — 33

Equipamento: Cajado de madeira | Traje de aprendiz

Magias: Fulgor | Cura menor | Barreira menor]


[Status — Mayumi Takasumi]

[Classe: Lanceira | Level: 8

HP: 187/233 | MP: 39/39

Ataque: 35 | Força mágica: 9 | Defesa: 21 | Agilidade: 30 | Stamina: 25

Atributo especial: Destreza — 35

Equipamento: Lança de ferro | Placa leve de ferro

Habilidade de classe: Impacto Perfurante]


Analisei os menus rosa e vermelho em silêncio. A Rieli tava melhor do que eu esperava pra alguém que não foi tão longe quanto eu. Deve ter focado em monstro fraco até dizer chega.

A destreza dela, somada à habilidade de classe, prometia quebrar bloqueio e armadura com facilidade. Útil de verdade.

Já a Liliani... evolução abaixo do que eu esperava pra maga. Se segurar o medo, vira suporte de primeira. A luz e a cura dela decidem quem respira.

Liliani brincava com os dedos entrelaçados, o jeito dela de esconder o nervoso.

— Vou tentar não hesitar mais. Principalmente nas curas...

Outro sorriso pequeno escapou de mim, raro. Ela piscou, surpresa. Rieli arqueou a sobrancelha, desconfiada.

— A gente precisa se organizar. Ter sincronia. — falei. — Vou pensar em algo pro boss. Agora... dormir seria uma boa.

Abri o menu e materializei um saco de dormir simples. Craft improvisado com o que eu tinha: pele de lobo, tiras de corda e penas de "Ave bico-de-broca". Coisa que catei nas minhas raids solo. O tecido caiu no chão com um brilho leve. Meio zoado, mas funcional.

As duas estalaram os olhos, vendo a cena.

— Vocês dividem esse. — Me recostei na parede.

— Isso aí era pra ser uma cama? — Rieli provocou, soltando um risinho nasal irritante.

— Não vou gastar tempo upando craft. É isso ou gelar a bunda nesse chão.

— N-na verdade, tá ótimo. — Liliani inclinou a cabeça. — Mas e você?

— Já dormi em chão pior, e não só dentro do jogo. Tô de boa. — Apontei pra Rieli com o polegar. — Além disso, se eu deitar no meio de vocês, capaz de a ogra ruiva me empalar bem onde o sol não bate.

Liliani me encarou, quatro, cinco segundos, depois cobriu a boca e riu de verdade.

Rieli pigarreou, olhos esmeralda arregalados.

— Q-quem é ogra aqui, seu delinquente sem noção?!

Mas, vendo a amiga relaxar, ela cedeu. Um sorriso escapou.

— Pelo menos você sabe o que te espera se pagar de engraçadinho, Kurohane.

Elas se ajeitaram juntas. Eu fiquei junto à parede fria. O silêncio tomou a câmara. A luz verde pulsava no teto, calma, como respiração lenta. Olhei pras duas e me perguntei se eu ia conseguir ajudar de verdade.

Alguns minutos se arrastaram.

— Ai, Kurohane... — a voz da Rieli cortou a quietude, baixa, cautelosa. — Ela já apagou.

Fitei a Liliani, os cabelos dourados espalhados no colchão improvisado. Respiração calma, certinha.

— Queria dormir fácil assim. — suspirei.

— Nem sempre é assim. — Rieli olhou pro teto, pensativa. — Geralmente, ela dorme mal. Pesadelos. Mas... com você por perto, parece tranquila. Valeu por isso.

O silêncio voltou, confortável. Por um instante, não parecia prisão. Parecia um lar emprestado.

Rieli ergueu a mão e fechou o punho, encarando como quem faz promessa.

— Eu preciso ficar mais forte. Tenho alguém me esperando no mundo real também. Alguém que eu tenho que proteger... minha irmãzinha.

Parou um segundo, os olhos brilhando de lágrima presa, o punho firme.

— Se eu morrer, ela fica sozinha. Eu não posso deixar.

Senti o peito apertar de leve. Ela tinha alguém. Uma irmã também. Ainda esperando por ela.

Eu não. A Emi... não tava mais em lugar nenhum.

Rieli baixou o braço e desviou o olhar pra mim, talvez arrependida de falar.

— E-eu sei o que aconteceu com você. Eu lembro do primeiro dia... quando você carregou ela nos braços. — a voz dela vacilou, mas não correu. — Eu não quero que a minha irmã passe por aquilo.

Não respondi na hora. A garganta fechou. Metade de mim queria mandar calar a boca. A outra metade... entendia.

A gente carregava a mesma coisa, de jeitos diferentes: medo de perder quem não merecia. Pra mim, tarde demais. Pra ela, ainda dava.

— ...Então luta direito. — foi o que saiu.

Ela assentiu, firme. Antes que a lágrima caísse, secou com o dorso da mão.

— Desculpa. — soltou, baixa, sincera.

— Pelo quê?

— Pela teimosia. Por deixar suas costas abertas. E... por falar da tua vingança daquele jeito. Eu não quis diminuir tua perda. Falei sem pensar. Como sempre.

Olhei pro teto esverdeado.

— Tá de boa... Eu também... Não sou confiável. Aposto que vocês já se decepcionaram me seguindo.

— Hah. — ela riu baixo. — Você é tão cabeça quente quanto eu. Achei que seria mais sério... Mas é forte. E se importa, mesmo fingindo que não. Isso basta.

Ela me encarou com olhos serenos, mas algo travesso brilhava neles.

— Ei, a gente soube o que você fez por aquela garotinha, sabia?

— Quê? — pisquei, confuso.

— Não finge demência... A Nozomi. A gente conheceu a Tomoko, que cuida dela... Elas falaram de você. O "maninho Kyato".

— Cala a boca. — senti o rosto esquentar enquanto a Rieli ria baixo. — Aquilo foi pela recompensa.

— Quem recompensou quem? Trezentos NEs até dá pra chamar de recompensa... mas no seu caso eu chamaria de coração mole.

— Tch. Aquelas duas falam demais.

— Muita gente finge ignorar, mas a gente sabe que você salvou ela. E que também avançou sozinho. Mesmo do seu jeito... isso tá motivando outros jogadores. Motivou a mim e a Liliani.

Fiz careta. O incômodo cresceu.

— Alguns morreram tentando me imitar.

— É. Mas não é culpa sua. — Rieli balançou a cabeça. — Uma hora todo mundo vai ter que escolher: ficar esperando a morte certa ou se arriscar pra tentar viver. Você só deu o exemplo. O que cada um faz com isso não tá nas suas mãos. Nem nas minhas.

Ela voltou a encarar o teto. O semblante pesado.

— Proteger os outros. Salvar o máximo de pessoas. Zerar o jogo... É o meu maior desejo.

Entendi. Rieli é cabeça dura e explosiva, mas é leal. O instinto de proteger puxa ela pra frente, mesmo morrendo de medo.

Todos nós estávamos com medo. Eu também. Só não admito fácil.

— ...Começa protegendo você. Fica forte. Pronta. Aí você protege os outros. Começando por essa dorminhoca aí.

Rieli me encarou, surpresa de ouvir isso de mim.

— Eu tô dizendo isso, mas...

— Não foi sua culpa. — ela cortou o que eu ia pensar. A culpa com a Emi. — A culpa é daquela IA e do desgraçado que criou essa merda.

A câmara ficou em silêncio um tempo. Depois, ela voltou com o tom marrento de sempre:

— Eu vou dar o meu melhor pra ser parte da equipe. Ficar forte. Proteger a Lili... e até você, delinquente solo.

Soltei o ar, resignado.

— Eu tento coordenar direito, pelo menos. — saiu sincero.

Rieli voltou os olhos pro teto.

— Vamos fazer isso, Kurohane. Vamos chutar a bunda daquele maluco. Vamos proteger todo mundo.

Não respondi. Ela fechou os olhos.

— Boa noite, Kurohane.

— Boa noite.

Fechei os meus também, deixando o corpo pesar na pedra.

Não sei se quero proteger todo mundo. Nem se quero salvar jogador nenhum. Mas zerar Nova Eternis? Isso eu vou fazer. Custe o que custar.

Por agora... Manter essas duas vivas já basta.

Amanhã, essa dungeon cai. Dessa vez, nada me impede.


Parte 3

Acordamos quando a luz esverdeada da câmara começou a sumir. O sistema anunciou: a noite passou. HP cheio. Stamina no máximo. Quase mentira depois do inferno de ontem.

Repetimos a refeição manjada — pão e água.

— A gente precisa melhorar o cardápio! — Rieli comentou com a boca meio cheia, depois de abocanhar o último pedaço.

— Na verdade, me sinto meio mal por te fazer dividir sua comida, Kyato — disse Liliani, baixando o olhar.

— Eu não ligo pra conforto. Só pra sobreviver.

Olhei de canto pra Rieli e um sorriso sacana pulou na hora.

— Eu até tenho carne no inventário, só que aqui não tem fogueira... mas pra uma certa ogra ruiva, carne crua deve servir, né?

Rieli congelou no movimento de limpar a boca com as costas da mão e me encarou, olhos arregalados.

— Me chama de ogra de novo e eu enfio esse pedaço de carne bem no meio...

— Rieli! — Liliani cortou, tampando a boca da ruiva com as duas mãos.

Rieli ainda tentou resmungar alguma coisa, mas desistiu; os ombros murcharam e ela ergueu as mãos em rendição.

Por alguns segundos, silêncio. Depois, a risada veio — primeiro da Rieli, depois da Liliani e, por fim, a minha.

— Fala sério... — Mas quando olhei pra elas, os olhos já não tinham culpa nem o medo de antes.

Terminei de engolir o último pedaço. As duas me olhavam, esperando meu veredito. Respirei fundo.

— Vamos tentar de novo.

Rieli ergueu o queixo.

— Beleza! Eu vou dar o meu melhor pra agir em equipe.

Liliani abraçou o cajado contra o peito.

— Eu... vou controlar o medo dessa vez. Eu prometo.

— Então vamos fazer isso direito.

Elas assentiram. E nós deixamos a câmara.

O corredor que antes tinha sido tomado pelos morcegos agora estava vazio. Mas quem garante que aquelas pragas não podiam dar respawn a qualquer momento?

Liliani acelerou o passo. Rieli fez careta. Eu só segui.

Depois de algumas curvas, um rosnado baixo ecoou. Silhuetas surgiram da névoa rasteira. O sistema exibiu:

[Lobo da Névoa — Lv. 6]

Magros, pelagem cinza translúcida, olhos azuis brilhando. Uma variação dos lobos que enfrentei pra salvar a Nozomi, só que com uma vibe fantasmagórica.

— Hora do show. — Ajustei as adagas. — Eu na linha de frente. Rieli, só ataca no meu comando. Liliani, cura e barreira — nada de improviso.

— Pode deixar! — Rieli ergueu a lança.

— Tô pronta! — Liliani respirou fundo, os dedos apertando o cajado.

Os lobos dispararam. Avancei contra o primeiro e cortei a garganta antes de encostar em mim.

— Rieli, esquerda!

Ela esperou o tempo certo, girou a lança em diagonal e prendeu outro na parede.

— Boa. — murmurei.

Mais dois vieram pelo flanco. Rolei pra frente e abri espaço.

— Agora!

Rieli avançou. Estocada precisa. O lobo se dissolveu em névoa.

A luta seguiu nesse ritmo: desajeitada as vezes, mas coordenada no geral. Eu atraía, ela respondia. Pela primeira vez, não precisei olhar por cima do ombro a cada segundo.

Quando o último caiu, não estávamos feridos, nem ofegantes, e o MP seguia cheio.

Rieli limpou o suor da testa.

— Fui lenta quando vieram dois de uma vez... — ela baixou o olhar. — Desculpa.

— Não. Mandou bem. — respondi sem pensar.

Ela me encarou, surpresa, e desviou o olhar, escondendo um meio sorriso.

Liliani se aproximou com a mão no ombro dela.

— Beleza, vamo embora daqui logo.

Mais à frente, o corredor se abriu num salão circular. Paredes e teto cobertos por espelhos rachados, do chão até o alto. Cada fragmento refletia nossos rostos, borrados, distorcidos, como se o vidro tivesse memória própria.

Ali começava a próxima provação.

— Que merda de lugar... — murmurei, lendo a inscrição na parede. — "Câmara dos Ecos Quebrados"...

O ar era frio, parado, mas carregava um sussurro constante. Palavras soltas, quebradas, vindo de todos os lados.

— Fracasso... sozinha... você não protege ninguém...

Dei um passo. O reflexo à frente mudou — e o estômago virou gelo.

Era a Emi. Sorriso vivo, mãos estendidas. Ela abriu a boca, chamou meu nome... e o corpo foi lançado ao alto.

O grito nunca terminou. O vidro pareceu chorar sangue.

— "Não é como se ela fosse morrer por causa de um jogo..." — a minha própria voz devolveu, debochada.

A frase se multiplicou, cada voz uma caricatura da minha. Apertei os punhos até doer.

Então, atrás da imagem da Emi, surgiram novas silhuetas — meu pai, minha mãe, duros como estátuas rachadas, olhando direto pra mim pelo vidro. As vozes frias e ácidas, sincronizadas:

— Foi você quem a trouxe pra este mundo.

— Você a matou.

— Tudo o que toca vira pó e sangue.

As vozes se sobrepunham, cortantes.

— Você foi a causa da ruína do nosso casamento.

— Você arruinou a família.

— Nada sobrou por sua culpa.

Recuei meio passo.

— Que caralhos?!...

Ainda atordoado, ouvi ao lado o soluço da Liliani. O reflexo dela mostrava dezenas de figuras cercando-a: gente de uniforme escolar, adultos de terno e vestido, jogadores com armaduras digitais. O mesmo olhar de desprezo em todos.

— Fraca.

— Sempre atrapalhando.

— Não precisamos de você.

A Liliani do reflexo caiu de joelhos, mão estendida. Ninguém tocou nela. Todos recuaram até deixá-la sozinha no vazio. Ao meu lado, ela tremia, a mão no peito.

— Eu... eu não quero... — a voz dela falhou.

Lá no fundo, a lança da Rieli bateu no chão — alto demais. Olhei na hora.

O reflexo dela mostrava um tapete de corpos. Eu e Liliani no meio. Depois, jogadores empilhados feito bonecos quebrados. E, quase escondida, uma menina pequena. Rosto borrado, impossível de distinguir. Rieli estendeu a mão pra ela, desesperada. A figura recuou, engolida pelo monte de cadáveres.

— Você não protege ninguém.

— Todos morreram por sua culpa. Até ela.

— Você mata quem quer proteger, não é?

Rieli levou a mão ao rosto, tentando apagar o reflexo. Nada.

O sussurro virou coro. As três ilusões se sobrepunham, repetindo culpas e falhas. Liliani chorava. Rieli gritava pro reflexo parar. E eu... eu só via a Emi cair.

— Desista! — repetiam, cada vez mais forte.

As duas caíram de joelhos, entorpecidas. Eu fiquei de pé. Não porque fosse imune — mas porque o que queimava em mim não era medo. Era ódio.

O ódio me segurou.

E foi ele que me fez notar a sombra acima, por trás do espelho.

— CHEGA! — urrei.

As adagas vibraram, o HUD piscou, a barra de stamina firmou. O chão tremeu.

Na rachadura central, uma sombra escorreu pra fora. Corpo de vidro quebrado, olhos vermelhos em brasa.

[Miragem Sombria — Lv. 10]

Uma foice cinzenta rasgou o ar, descendo sobre elas — mas eu já tava lá, bloqueando.

— Então é você... — rosnei.

O monstro sibilou e recuou.

Os espelhos estouraram, cuspindo luz e novas ilusões. Eu só via o alvo.

Avancei. Desviei do corte que mirou meu braço, saltei e cravei as adagas na fissura do peito. O corpo tremeu, rachando.

— Isso não vai me quebrar! — empurrei até ouvir o estalo. — Eu não caio nesse teatro fuleiro!

A criatura gritou. O som explodiu vidros. E pouco depois as ilusões sumiram como fumaça.

Liliani permaneceu no chão, ofegante, rosto lavado de lágrimas. Rieli tremia, tentando se levantar apoiada na lança.

O Miragem Sombria tentou se erguer. Arranquei as adagas de seu peito e cruzei o golpe em X. O corpo rachou inteiro, virou poeira negra e evaporou.

— Você só me deixou mais puto com esse mundo, seu lixo. — murmurei.

Silêncio. Os espelhos não refletiam nada. Só pedra nua.

Puxei o ar devagar. A raiva queimava a garganta.

— Como se uma ilusão fosse me parar... — cuspi. — Nenhum merda feito de códigos precisa me lembrar do meu pecado.

Fechei os olhos.

— Eu vou te achar, Norikawa. Não vou parar de enfiar o punho na tua cara até te matar, seu fodido...

Olhei pra trás. Liliani ainda soluçava, encolhida. Rieli se agachou do lado dela, mão no ombro, tentando parecer firme com as mãos tremendo.

— Não era real... — murmurou, mais pra si do que pra Liliani. — Não era real...

Liliani balançou a cabeça, respirando melhor.

— Mas doeu... como se fosse.

Engoli seco. A Emi caindo queimava atrás dos olhos. Puxei ar, forcei firmeza na voz.

— Esse lugar vai quebrar a gente se a gente deixar. E não vai ser a última vez que tentam mexer na nossa cabeça. Precisamos firmar nossa stamina.

— Mas por quê? Que prazer em brincar com o psicológico das pessoas? — Rieli perguntou, travada na frustração.

— Depois do que a IA do Norikawa fez, eu não duvido de nada. Esse jogo é insanidade pura. Igual à mente fodida daquele bastardo.

A raiva latejou de novo. Segurei.

— Seja como for, a gente precisa avançar.

As duas me olharam em silêncio. Eu não tinha resposta nem consolo. Só a promessa efervescente batendo por dentro.

— Ilusão ou monstro, eu vou esmagar tudo. Nenhum deles vai ferrar com a gente.

Não era muito, mas bastou. Liliani respirou melhor. Rieli fechou o punho, como se pegasse coragem de mim.

Seguimos. Não porque a dor tivesse passado, mas porque parar não era opção.

O corredor depois da Câmara dos Ecos era estreito, sufocante. Cada passo ecoava como se fôssemos intrusos num templo proibido. A cada curva, a sensação crescia: a gente tava sendo puxado pra algo inevitável.

E então vimos.

O portal do boss.

No centro do salão circular, símbolos vermelhos pulsavam no chão como veias vivas. A superfície brilhava, líquida, refletindo nossas silhuetas tortas. O ar saía em ondas abafadas, fazendo a pedra tremer.

Rieli mordeu o lábio. Liliani cerrou os punhos pequenos.

— Essa é a última chance. Depois daqui, não tem volta. — Me virei e encarei as duas. — Certeza que vão comigo nessa?

Liliani buscou fôlego. A voz ainda baixa, mas firme:

— Eu vou. Não vou fugir. Dessa vez, eu vou ajudar.

Rieli ajeitou a lança, olhos estreitos.

— Se a gente chegou até aqui, não é pra correr agora. Vamos encarar.

Suspirei, decidido.

— Plano de sempre: linha de frente; suporte e contra-ataque; cura e proteção.

Elas assentiram, olhos brilhando, tentando segurar o medo.

Rieli bateu a lança no chão.

— Vou me concentrar ao máximo. Não vou falhar.

Liliani deu um passo à frente — olhar decidido.

— Pode contar comigo.

Demorei um instante, mas deixei escapar um meio sorriso.

— Então é isso.

O círculo brilhou como se tivesse ouvido. Símbolos vermelhos acenderam ao redor. O ar pesou.

— Vamos ferrar com esse boss!

Avançamos juntos. Passo a passo. Até que a luz do círculo engoliu nossos pés.

O clarão se espalhou, rápido. O cenário atrás sumiu — e, num piscar de olhos, a gente foi tragado pelo portal.