Notas iniciais
Voltei ♥ Lembrando: todos os capítulos estão sendo postados sem revisão. Não estou encontrando tempo para isso kkkkk mas espero que estejam gostando Bora ler!

O sol nascia imponente ao Leste, levando embora a noite fria. As chamas dos postes eram apagadas por abafadores acionados pelos Designados que faziam a ronda matinal. Poucas pessoas saíam das casas, na maioria comerciantes e caçadores, para começarem seus afazeres. Um vento morno soprava as folhas de palmeiras espalhadas aqui e ali, não trazendo o refresco esperado, mas a anunciação de mais um dia infernal.

A luminosidade banhou o rosto de Kassandra conforme os minutos passavam, incomodando os olhos sob as pálpebras e a despertando aos poucos. Ela demorou para entender onde estava, remexendo-se até sentir algo em seus braços. Olhou de maneira débil, imaginando ser Noturna ali, mas não. Lyanna dormia profundamente agarrada ao seu corpo e com o rosto sobre seus seios, os cabelos nos olhos. Kassandra apreciou a visão do rosto sereno da humana contra a luz matinal e, com cuidado, retirou os fios castanhos avermelhados rebeldes, colocando-os atrás da orelha.

Elas haviam ficado longe de todos, isoladas na laje observando as estrelas sem tocarem em qualquer assunto desagradável. Trocaram carícias tranquilas, beijos cheios de promessas e olhares significativos. Num determinado momento adormeceram sobre a cúpula, agarradas uma na outra como se suas vidas dependessem daquele contato.

Talvez dependessem.

Kassandra voltou a relaxar sobre o vidro convexo, encarando o céu laranja livre de nuvens. Não queria descer até a base. Morreria feliz naquele exato momento, sem mudar uma maldita coisa, mas a sorte dificilmente lhe sorria. As coisas sempre foram difíceis para ela.

Quando o sol apareceu por completo no horizonte, o calor já era insuportável. Num cuidado extremo, Kass pegou a humana nos braços e saltou suavemente para a área descoberta da base, onde a mesa do café da manhã estava sendo montada pelos Designados. Um juk, de longos chifres retorcidos para trás, assustou-se com ela, quase deixando as coisas que levava cair. Seus olhos amarelos, com uma pupila em fenda, ficaram ainda maiores ao, possivelmente, reconhecer quem era, mas ela não poderia ter se importado menos. Kassandra passou por ele, indo para o corredor onde ficavam os quartos.

Ela não precisou encarar muitas pessoas, ainda não havia tanto movimento assim na base. Como a princesa estava dormindo e Kassandra não sabia qual era o quarto dela, foi para o seu. Aïden deu o número no dia anterior, dizendo para desfrutar da suíte. Conhecia o grandão bem o suficiente para saber que estava sendo sarcástico.

Quarto 10.

Kassandra trouxe Lyanna para mais perto e abriu a porta. Era um quarto bem simples, com uma cama, um guarda-roupas e banheiro no fundo escondido por uma cortina surrada. Tinha, também, uma mesinha de canto antiga com uma pequena Tela Interativa que mostrava as últimas notícias da Capital Emblemática Yoskor. Kassandra colocou a princesa na cama devagar e sorriu ao vê-la se ajeitar de maneira adorável, afundando o rosto no travesseiro. Ficou ali até ouvir um sibilo irritado na sua mente. Ela revirou os olhos indo para o lado de fora. Fechou a porta vagarosamente e deixou a humana descansando.

Fez o caminho de volta até a laje rapidamente e viu Noturna no mesmo lugar que deixara na noite anterior.

— Foram só alguns minutos! Eu já estava voltando. — resmungou enquanto ajeitava a bainha das costas.

Estava testando as alças, para ver se não tinha apertado demais, quando sentiu o vento se agitar. Instintivamente puxou a espada, cortando que vinha em sua direção: uma latinha. Ela arqueou as sobrancelhas olhando ao redor.

— Eu disse que ela ainda estava em forma! Ha-há! Conheço minha Kaptein! — exclamou Aïden de cima da cúpula.

O grandão, Aïden Ingvar, tinha seu corpo tatuado por símbolos de uma religião desconhecida pela maioria das pessoas. As laterais raspadas de sua cabeça tinham corvos tatuados, três no total, e sua barba era trançada. Era loiro, vinha dos alpes congelados de Norkru e tinha o sotaque carregado, além de sempre deixar escapar uma palavra ou outra em seu idioma nativo. Se alistou ao Exército Julgador aos trinta e três anos, quando seu irmão morrera por um Federal numa abordagem agressiva na Capital Emblemática Zirkh.

— Foi sorte – disse Mike subindo na laje habilmente, os longos cabelos negros presos. — Erin deveria ter usado algo mais efetivo.

— Tipo o Perfurador? — indagou a mulher debochadamente e apontou a balestra na direção de Kassandra. — Talvez seja uma boa ideia.

Mike e Erin nasceram e cresceram em Fahu, um vilarejo comandado pelo Lorde Tehsa, um dos vários subordinados de Selletus. Como seus pais eram mercadores, acabaram desenvolvendo uma amizade que resultou nos dois se alistando para exército de Julgadores do deus-rei, há anos, em busca de aventuras. Mike Simons era alguns anos mais velho, cabelos negros cumpridos, algumas cicatrizes e olheiras profundas sob os olhos lilases. Erin Walker tinha cabelos castanhos que, na maioria das vezes, eram trançados e era baixa, para a média, mas nunca sentiu-se intimidada diante dos inúmeros oponentes que enfrentara.

— Se conseguir acertar a direção já vai ser um milagre. — zombou Kassandra verificando as próprias unhas.

Erin rosnou e deixou a balestra de lado, no muro baixo da laje onde estava sentada, para se aproximar de Kassandra com os punhos fechados.

— Isso nunca vai mudar… — resmungou Mike, deitando-se ao lado de Aïden na cúpula e colocando os braços atrás da cabeça.

— O que você disse? — perguntou perto do rosto de Kassandra, os olhos lilases faiscando.

— Ficou surda também?

O soco veio certeiro, rápido, no queixo de Kassandra, fazendo-a cambalear para trás. Ela desatou as alças da bainha num puxão e avançou em Erin. Apesar de ser baixa, a Julgadora era rápida e ágil, escapando das suas investidas facilmente. Mudando a tática, Kass desferiu uma rasteira falsa para, no fim, acerta um chute de baixo para cima. Erin voou para fora da laje, atingindo as cadeiras ajeitadas para o café da manhã lá embaixo. Kassandra riu e se inclinou olhando para baixo e acenando.

Pessoas tentaram ajudar Erin a se levantar, mas a mesma dispensou com xingamentos. Ela pegou uma faca da mesa e arremessou em Kassandra com força. Não foi difícil desviar do talher, porém era uma distração. Quando olhou para baixo, não encontrou Erin. Uma forte pancada nas costelas a jogou para o lado. O impacto foi suficiente para quebrar parte do muro rebaixado da laje, fazendo-a cair no meio da rua – fora da base — e rolar até bater num poste. Algumas pessoas que passavam por ali, inclusive guerreiros da Facção Criadora, se assustaram.

Não conseguiu se recuperar quando viu uma sombra surgir. Rolou para o lado, em puro reflexo, fugindo do golpe esmagador de Erin. Kassandra ficou de pé num salto. Agora elas se rodeavam, sujas pela areia das ruas e dos desertos.

— Qual o motivo da luta de hoje? — perguntou Kassandra sem perder o foco.

— Abandono. — disse com peso na palavra.

Kassandra sentiu aquilo e, por milésimos de segundos, hesitou. Hesitou o suficiente para sua adversária a derrubar numa pancada certeira da lateral da cabeça, de punho fechado. Ela tentou bloquear e dava passos errôneos para trás, porém Erin era implacável em atingir seu rosto uma, duas, três e várias vezes. Sangue manchava as duas, o chão e as roupas. Kassandra tinha o nariz sangrando e a visão embaçada, mas conseguia ver lágrimas escorrendo pelas bochechas da Julgadora.

Kassandra desabou no chão semiconsciente.

— Já chega, pequena! — Aïden disse na tentativa de fazer a Julgadora parar. — Erin!

Erin parecia não ter escutado, tinha montado em Kassandra para continuar a sequência de socos, mas algo a tirou arrancou dali. Um vulto cinza claro chocou-se contra o corpo de Erin, a jogando para alguns metros de distância. O rosnado gutural chamou a atenção de Kassandra e viu a loba que resgatara agachada, em posição de ataque, na sua frente encarando a outra Julgadora.

Apesar de não ter se passado mais de um dia, o animal estava bem melhor. Tinha ganhado massa, os pelos foram aparados todos do mesmo tamanho e as patas protegidas por curativos. Kassandra sentou-se na rua, limpando o que podia do sangue na cara enquanto tentava se recuperar. As pessoas olhavam espantadas para toda aquela confusão.

— Hey, garota. Está tudo bem – tranquilizou vendo o animal girar suas orelhas em sua direção. — Erin só estava treinando comigo.

A loba bufou, então relaxou a postura seguindo até Kassandra. Ela abanou o rabo timidamente e se aconchegou contra seu corpo pedindo carinho.

— Vamos, pessoal! Está tudo bem! Voltem ao que estavam fazendo! — Disse Mike, chegando para ajudar.

As pessoas obedeceram rapidamente, talvez por verem que era um Julgador. Kassandra afagava a cabeça da loba quando ouviu passos apressados em sua direção.

— Maia! Deuses, você corre demais! Perdão, senhorita, mas não consegui segurá-la… — dizia um jovem, mas parou ao ver seu estado. — Ela te atacou?!

Kassandra riu.

— Não. Ela me ajudou. — ela se levantou cambaleante. — Deram o nome de Maia?

— Ahn… Sim! Eu tinha uma cadela que se chamava Maia, mas ela morreu. Então achei… — parou abruptamente ao ouvir Maia rosnar. — Isso. Maia. É só Maia.

Aquilo tinha sido, no mínimo, curioso, mas estava com preocupações o suficiente para se importar com aquilo.

— Parece que vocês nunca vão perder a mania de resolverem tudo a base da agressão. — comentou Aïden olhando-a de cima a baixo. — Conversar funciona também, sabia?!

Estava pronta para retrucar quando viu Erin saindo apressada para dentro da base novamente, escapando de Mike que parecia tentar acalmá-la. Kassandra acariciou o dorso de Maia rapidamente e correu, como podia, até Erin. Segurou o braço da mulher antes dela irromper pelo salão onde aconteceria o café.

— Não! Agora não, Ellisse!

Kassandra recuou minimamente ao ouvir seu antigo nome, mas não a soltou.

— Então quando?! Sei que errei, Erin, mas não vou cometer o mesmo erro!

A Julgadora riu sarcástica e virou-se para lhe encarar erguendo o queixo. Seus olhos estavam marejados.

— Não? Tem certeza? Em vez de lutar conosco, vai fugir! Como fez séculos atrás, quando minha irmã morreu! — berrava entre lágrimas. — Eu amava June tanto quanto você, mas enquanto você fugia pra tentar achar sua vidinha perfeita, EU FIQUEI SOZINHA! Precisava da minha melhor amiga comigo, dizendo que iriamos completar nossa missão. QUE A MORTE DE JUNE E DOS NOSSOS AMIGOS NÃO TINHA SIDO EM VÃO!

— EU NÃO PODIA!

— Claro que não – disse debochada.

Ela soltou o pulso de Erin, então arregaçou as mangas e abriu dois botões de sua camisa branca manchada de sangue. Olhou ao redor para ter certeza de que estavam sozinhas e continuou numa voz mais baixa:

— Adonai estava certo quando disse que fui reconstruída – suas veias começaram a escurecer, subindo pelo pescoço até alcançar seus olhos. Ela fazia muito esforço para não perder o controle, unindo as sobrancelhas e trincando o maxilar. — Elas colocaram os piores demônios de Tormenta dentro de mim, os mais fiéis a Selletus, inclusive Thorvraz.

— Ellie…

Os ferimentos causados pela recente briga cicatrizaram rapidamente, sem deixar uma única marca.

— Selletus espera que eu lute. Ele quer isso por saber que, quando a hora chegar, pode me obrigar a destruir todo mundo num estalar de dedos.

Kassandra não aguentou por muito tempo. Ela caiu de joelhos e as veias retrocederem até ficarem normais. Erin estava indo ajudar, mas ela ergueu uma mão para impedir sua aproximação. Noturna apareceu e a usou como apoio para se levantar com esforço.

— Noturna nunca foi a minha maldição. Ela me ajuda a controlar o que tem dentro de mim e as necessidades dela não são nada comparadas as minhas.

— Então a sede excessiva e as almas…

— Demônios são insaciáveis. Para ter um pouco de controle sobre eles, preciso agradá-los.

— Porra.

Ela arrumou sua camisa de novo, desviando o olhar para não precisar encarar Erin.

— As bruxas de Gaddgus, por muito tempo, tentaram tirar minha ligação com Noturna, mas desistiram após inúmeras tentativas fracassadas. Selletus, então, ordenou que colocassem os demônios e deu certo. Sou a destruição que ele tanto queria.

— Quem sabe disso além de Selletus e as bruxas?

— Minha melhor amiga. E talvez o Mestre Adonai, mas por ele ser esquisito e sempre saber das coisas.

Elas ficaram se encarando por alguns instantes. Não eram de compartilhar abraços carinhosos ou demonstrar abertamente como se sentiam, porém entendiam-se muito bem sem palavras. Sempre foi assim e Kassandra ficou feliz por isso não ter mudado depois de tanto tempo.

— Vamos com você depois da missão. — ela ergueu a mão ao ver Kassandra abrir a boca. — Não. Nem tente.

Kassandra balançou a cabeça negativamente.

— Vai ser interessante.

— E a humana? — arqueou as sobrancelhas. — Ora, não me venha com essa cara. Você olha pra ela igual olhava para a minha irmã.

— Ela é… importante pra mim e por isso preciso desaparecer. Se Selletus desconfiar de alguma coisa, não quero nem pensar no que ele poderia fazer pra me atingir.

Erin se encostou com o ombro na parede.

— Lyanna se parece, e muito, com June. Quando a vi, até pensei que fosse algum tipo de miragem, mas ela são diferentes. — ela riu brevemente. — June acabaria você se ouvisse a frase: preciso desaparecer, mas sem você. Adeus. - Erin tentou imitar a voz de Kassandra.

— Eu não falo assim!

— Você…

Uma explosão no céu fez as duas se encolherem por reflexo. Kassandra avistou uma nave de transporte com um dos grandes motores externos em chamas caindo na direção do Deserto Kunrrô. Algumas pessoas da base comentavam desesperadas sobre o acidente que estava prestes a acontecer. Sem pensar muito, Kass começou a correr na direção da nave deixando Erin para trás. Seus olhos acompanhavam o trajeto de queda enquanto seus pés alcançavam uma velocidade inumana.

A nave oscilava, os motores tremiam prestes a explodir, mas aparentemente o piloto tentava ao máximo manter a estabilidade. Quando Kassandra atingiu sua velocidade, emparelhou a ela tentando achar uma maneira de minimizar o impacto iminente, então saltou com Noturna nas mãos para o transporte e cravou a espada no teto para não cair.

Seu primeiro ato foi cortar os dois motores externos com a espada, fazendo-os explodir logo quando tocaram o chão arenoso. Faltava muito pouco para o impacto quando viu Aïden, Mike e Erin ao lado.

— O que vamos fazer?! — gritou Aïden sobrepondo a voz ao barulho caótico.

— Mike e Erin, temos que tirar essas essoas da nave! Aïden, preciso que você tente desacelerar a queda dessa coisa!

— Sim, Kaptein!

— Estamos com você, Capitã!

Kassandra abriu um buraco no teto da nave, jogando o pedaço de metal arrancado para longe. Erin e Mike subiram ao seu lado, entrando ali para resgatar os passageiros. A bainha apareceu em suas costas num simples encantamento, então acomodou Noturna nela antes de entrar junto com seus companheiros. Ao pousar no meio da nave se assustou com o número excessivo de pessoas abarrotadas ali dentro, completamente sujas e algumas feridas.

Erin pegou duas crianças no colo, então abriu as portas laterais da nave. Estavam muito perto das dunas, mesmo assim o piloto fazia esforço para controlar a descida. Kassandra começou a ajudar, vendo quais pessoas estavam menos feridas e, então, as ajudando a saltar para fora da nave. Com sorte a areia amortecia cada uma das quedas. Ela se pendurou para fora da nave e avistou, vindo em aeromotos, os Designados. Alguns paravam para dar suporte aos primeiros passageiros tirados da nave e outros a seguiam esperando mais resgatados.

Os três estavam terminando o resgate quando um solavanco forte jogou Erin e Mike para fora junto com os últimos passageiros. Kassandra segurou-se no que pôde, então caminhou até o cockpit encontrando uma figura familiar.

— Camila?! — indagou surpresa.

Eai, novata! — cumprimentou com esforço, ainda controlando a nave como podia. Seu rosto estava sujo, com cortes e sua perna parecia prejudicada.

— Precisamos sair! Todos já foram resgatados, só falta você. — ela arrancou o cinto da pilota e viu um pedaço de ferro que prendia a humana ali.

— Uma merda, não é? — disse com esforço. — Saia logo daqui.

— Não sem você. — Kassandra enfiou as mãos entre o banco e o painel da nave. Seus olhos acenderam-se conforme fazia força, algumas veias do pescoço escureceram, mas ela não parou até gritar em fúria e arrancar as ferragens que prendiam Camila. — Vamos.

Ela pegou a humana no colo, pronta para sair da nave, quando uma grande duna apareceu no horizonte. Aïden tentava controlar a queda, porém acabou tropeçando e Kassandra viu o grandão rolar descontrolado pela areia. Xingou mentalmente e correu com Camila nos braços até a porta lateral. Estava se preparando para o salto, mas não calculou direito o tempo do impacto.

O bico da nave acertou a grande duna, arremessando as duas de volta para o cockpit. Elas transpassaram o grande para-brisa com seus corpos e seriam esmagadas pela nave. Kassandra protegeu a humana ficando sobre ela, preparada para absorver todo o impacto.

Nada aconteceu.

Ela olhou por cima do ombro um pouco hesitante e sorriu ao ver o grandão segurando toda a nave com bastante esforço. Kassandra se apressou em sair dali com Camila desmaiada, arrastando-a até estarem seguras e Aïden pudesse soltar a nave de uma vez. Iria agradecer o amigo quando o cheiro excessivo de sangue chamou sua atenção. As vozes, seus demônios, sussurraram ensandecidos pela sede e fome. Instintivamente olhou para a perna de Camila, faminta, vendo o sangue fluir do ferimento, mas recuou quando estava perto de perder o controle.

Kaptein…

— Leva ela daqui! Agora! — rosnou abraçando o próprio corpo, tentando parar o tremor.

Suas pernas falharam, fazendo-a despencar de joelhos. Uma gota de sangue caiu na areia dourada, manchando-a de vermelho escuro. Levou o dedo indicador logo abaixo do seu nariz e trouxe a frente dos olhos. Estava sangrando. Kassandra sentiu uma dor aguda nas mãos, como cortes profundos sendo talhados naquele momento, então os viu abrirem diante dos seus olhos. Ela não estava se curando e sabia o motivo disso:

Os demônios estavam famintos.

Kassandra enfiou as mãos feridas sob a areia quente, gritando pela dor e ardência, mas desejando que fosse o suficiente para mascarar sua fome. Seus olhos oscilavam entre acesos e normais, as veias escureciam vagarosamente pelo seu esforço em manter o controle. As presas já aparentes feriram o interior dos lábios quando trincou o maxilar. Ela parecia um animal raivoso, rosnando enquanto tentava controlar seus instintos.

De repente sentiu braços envolvendo seus ombros com firmeza. Pensou em reagir, mandar quem quer que fosse ali se afastar, mas hesitou ao ver Erin lhe encarando determinada.

— Como antigamente, lembra? — sussurrou sem soltá-la. — Respira fundo pra mim, bonitona.

Mesmo com dor, ela seguiu o comando da Julgadora. Mas era diferente daquela vez. Seus pulmões queimaram, assim como sua garganta, a fazendo curvar-se para frente.

— Eu… Preciso… — Tentou falar. — Eu…

— Shh… Eu entendi. Mike está trazendo, mas preciso que você olhe para mim e faça aquela respiração. — insistiu.

As duas ficaram ali por alguns minutos até o Julgador chegar com duas garrafinhas metálicas. Quando destampou, o cheiro de sangue fresco ativou os instintos mais primitivos de Kassandra. Ela avançou em Mike sem hesitar, pegando as garrafinhas e tomando, cada uma, rapidamente. Nem respirava entre as longas, famintas, goladas. Aos poucos seu controle retornou. Quando a última gota foi recolhida pela ponta de sua língua, Kassandra estava recuperada e sem ferimentos. Apenas o rastro do sangue que escorrera do nariz permanecia.

Ela olhou atordoada para Erin, sentindo o corpo pesado.

— O calmante vai fazer efeito. Você precisa descansar, então só relaxe.

— Cal...mante? — murmurou.

— Uma dose mortal para humanos, mas o suficiente para te derrubar, bonitona. — disse Erin com um sorriso reconfortante. — Bons sonhos.

Bons sonhos foi a última coisa que Kassandra conseguira naquela manhã. Ela ficou vagando pelo inconsciente, num lugar completamente vazio e escuro. Conseguia escutar inúmeras vozes ecoando ao redor, chamando seu nome como um mantra ou oração. Num determinado momento acabou tropeçando em algo e, ao cair, suas mãos espalmaram num chão de pedra com runas gravadas nela em espiral. Sabia muito bem onde era.

Ficou alguns segundos atordoada até ouvir uma risada rouca atrás de si. Ela se virou rapidamente, dando de cara com olhos carmesins iguais aos seus. Selletus estava em pé com a Ceifadora nas mãos, mas não parecia pronto para brigar. Estava sereno, esperando, talvez, Kassandra se levantar.

Você cresceu, criança.

Saia da minha cabeça! — rosnou se levantando com ódio.

— Não invadi seus sonhos. Você quem me chamou.

Ela tentou se mexer, dizer algo, porém estava congelada. Kassandra observou o deus, seu pai, se aproximando tranquilamente até segurar seu queixo com firmeza.

— Já está acontecendo, não é? Eles estão tomando o controle. — riu em expectativa. — Acho melhor começar a se despedir dos seus amiguinhos humanos enquanto ainda estão vivos.

Eu vou matar você! — gritou raivosa.

— Você já teve essa chance e a desperdiçou. Agora é a minha vez de mexer as peças desse tabuleiro.

Kassandra foi acordada, expulsa do seu próprio estado inconsciente pelo deus, abruptamente. Ela ofegava, segurando o lençol da cama onde estava com força e quase rasgando o tecido. Estava completamente sozinha num quarto diferente do seu. A voz de Selletus ecoava por seus pensamentos e sem esperar mais, jogou as pernas para fora da cama e começou a caminhar em direção a porta.

Ela cambaleava pelo corredor, usando a parede de mosaico como apoio por não confiar nas próprias pernas. Quando alguém cruzava seu caminho, parava um pouco, disfarçando seu real estado para, logo depois, voltar a andar. Minutos depois alcançou a mesma porta por onde Aïden e Samir a escoltaram. Kassandra usou seu corpo para abri-la, então adentrou ao grande auditório vazio encontrando quem queria em sua grande poltrona. Haviam mais quatro conselheiros ali, mas não importava.

— Eu aceito ajudar vocês! — disse alto, irritada, fazendo as cinco cabeças erguerem em sua direção.

Eleanor arqueou as sobrancelhas e se levantou da poltrona.

— Fico feliz que tenha mudado de ideia. — havia sinceridade em suas palavras.

— Só tenho uma condição para isso.

— Qualquer coisa.

— Que me matem se Selletus chegar até mim.

Notas finais
Até mais! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.