Notas iniciais
Hello, Guys! Capítulo curtíssimo, mas necessário. Bora ler ♥

O cheiro de sangue, excrementos e putrefação dominava cada canto na masmorra do castelo. Pragas carniceiras esgueiravam-se pelos canos de escoamento, adentrando nas celas para comer restos de comida ou os corpos jazidos nelas. Não havia luz ambiente, apenas tochas que iluminavam os pontos onde Julgadores e Soldados Reais faziam as vigílias, mas os presos vivam na escuridão eterna. As leves brisas do vento, que passavam por entre frestas das paredes de pedra, causavam uivos arrepiantes; como se fossem lamentos fantasmagóricos.

Brandon estava conformado com seu fim. Todo seu corpo tremia febril, as costas em carne viva, pelas chibatadas recebidas, latejavam dolorosamente e ele lutava para ficar consciente. Após o jantar com os seguidores mais importantes do deus-rei, o Capitão fora levado para um “interrogatório” pela General Luna ao se recusar a revelar qualquer tipo de informação sobre sua filha; foi algemado num gancho preso no teto sem ter como se defender. Foram cem chibatadas pelas cem perguntas não respondidas.

Ele iria desistir, estava completamente esgotado, então a porta da cela foi aberta. O som agudo da ferrugem nas dobradiças o fez gemer em desconforto. A escuridão impossibilitava de saber quem estava ali e Brandon só esperou por mais uma sessão de tortura.

— Seu silêncio não vai protegê-la para sempre – uma voz feminina, doce, sussurrou na escuridão. — Selletus encontrará a Princesa com ou sem sua ajuda.

— Mas posso atrasá-lo. — sorriu cansado.

Aquela voz era nova. Não reconhecia das Julgadoras ou soldados que faziam sua vigília. Além disso não enxergava nada, nem seus próprios pés descalços naquele lugar, mas ouvia muito bem. Ele escutou os passos se aproximando, indo para suas costas e parando ali. Brandon fechou os olhos, imaginando qual seria a tortura daquela vez, então sentiu um leve frescor nas feridas que latejavam e ardiam.

— O que…

Ele quer você vivo. — disse firme, interrompendo-o. — Respire fundo.

As mãos da mulher roçaram em suas costas levemente. Brandon ouviu ela sussurrar alguma coisa e, então, uma queimação tomou conta das suas feridas novamente. Era como se estivessem sendo cauterizadas, fechadas e cicatrizadas de uma vez só. Ele rosnou de dor, segurando com força nas correntes em seus pulsos. Aquele processo durou poucos minutos, mas parecia interminável para o Capitão.

Porra. — ofegou no fim do processo; esgotado. — Eu… não consigo entender... como vocês seguem alguém como Selletus.

— Poder, ganância… medo. Você pode escolher.

Brandon olhou por cima do ombro numa tentativa de conseguir enxergar a mulher, porém só conseguia ver uma massa escura. Abriu a boca para dizer algo quando o som da porta da cela se abrindo chamou atenção dos dois. Daquela vez, mesmo não tendo muita luz, o Capitão sabia muito bem quem era ali: General Luna.

— Saia.

A mulher esgueirou-se pelo mínimo espaço entre a General e a saída sem dizer nada. Luna acendeu uma pequena tocha presa na parede da cela por um suporte de ferro; Uma luz trêmula alaranjada iluminou pobremente o lugar, mas Brandon quase sorriu satisfeito ao ver luz pela primeira vez depois de algum tempo.

— Ellisse sempre foi persuasiva, mas estou surpresa com o quanto – Luna caminhou ao redor de Brandon lentamente. — O que ela prometeu? Liberdade? Poder? Sua família de volta?

— Ela não precisa ameaçar ou prometer algo para as pessoas ficarem ao lado dela. — ele encarava um ponto fixo qualquer no chão, não temendo a presença da mulher.

— Humanos são patéticos. Não sabem onde estão se metendo e vão causar a própria extinção – disse tocando as costas cicatrizadas do Capitão. — Ellisse não conseguirá deter Selletus mesmo tendo aquela espada sobre seu domínio.

Brandon respirou fundo. Estava incomodado com toda aquela aproximação.

— Eu não vou falar nada.

— Ah, não estou aqui por isso – disse lentamente, percorrendo o dedo indicador sobre a cicatriz mais protuberante. — Vim apenas ver a minha mais nova obra de arte. Não consigo dormir de tanto prazer que sinto ao ouvir seus gritos contidos durante a punição.

Uma simples pressão do toque daquela mulher fez o homem ofegar. Precisou engolir o bolo da repulsa que formou-se em sua garganta.

— E também… — ela chegou perto de seu ouvido para sussurrar — Nós sabemos onde elaestá.

Era como se todo seu sangue congelasse em suas veias. Não conseguiu dizer uma só palavra enquanto a General apagava a tocha e saía da cela, deixando-o na escuridão novamente. Lágrimas rolavam por suas bochechas imundas, com crostas de sujeira e sangue, então gritou. Gritou furiosamente, expressando todos seus sentimentos acumulados durantes esses dias. Brandon conseguiu ouvir a risada da General ecoando por toda masmorra enquanto desmaiva, sucumbindo a total exaustão física e mental.

Não sabia por quanto tempo vagou pela inconsciência, mas quando acordou não estava mais na cela fria. Castiçais dourados iluminavam o ambiente de maneira agradável, dando conforto aos olhos pela presença das luzes serenas. Era um quarto grande, confortável e de poucas cômodas. As paredes continham alguns quadros com molduras delicadas, esculpidas pelas próprias mãos dos artistas de cada obra. Também não estava frio, uma pequena lareia acesa aquecia muito bem o cômodo naquela noite fria de chuva intensa.

O cheiro de sopa de legumes com frango invadiu seus sentidos, remetendo a um passado conturbado. Ele ergueu-se, sentando na cama confortável para tentar entender o que estava acontecendo ao seu redor. Não tinha ninguém por perto, mas imaginava os soldados e Julgadores de Selletus atrás da porta do quarto. Seu corpo estava bem mais descansado mesmo com algumas dores atingindo pontos específicos.

Brandon estava pronto para se levantar quando delicadas mãos pousaram sobre seus ombros fortes e desnudos. Ele ergueu o olhar assustados, querendo fugir daquele toque por temer passar por mais algum tipo de tortura. Estava no limite.

— Está tudo bem – falou a desconhecida com calma. — Aqui eles não podem te ferir.

Ela era linda. Sua pele negra brilhava majestosa sob a luz dos castiçais localizados na pequena estante ao lado da cabeceira da cama. Os olhos escuros analisavam atentamente cada uma das suas expressões, mas um sorriso gentil permanecia nos lábios carnudos. Seus cabelos volumosos estavam presos numa cascata cacheada e escura. A mulher usava um vestido solto, branco, de detalhes dourados bem discretos e estava descalça.

— Eu morri – murmurou Brandon desnorteado. Tinha plena certeza de que aquela mulher era uma das almas escolhidas para guiá-lo até o fim.

— Ainda não. Estamos na sua mente e criei esse lugar para que tente descansar um pouco antes de realmente acordar. — ela desviou o olhar rapidamente. — Os deuses precisam da sua ajuda para guiar a filha de Selletus.

Brandon revirou os olhos.

— Kassandra. Esse é o nome dela e não “a filha de Selletus”. — rosnou. — E achei que tinha deixado claro aos deuses meu descontentamento anos atrás.

A mulher suspirou inclinando-se para mais perto, puxando o Capitão um pouco contra seu próprio corpo. Ela olhou as costas do mesmo cuidadosamente, mas sem tocar nas cicatrizes grotescas formadas pela magia da serva de Selletus.

— Você pode ter desistido dos deuses, mas eles não desistiram de você. — ela o colocou de volta para a mesa posição. — Sou uma mensageira e curandeira, enviada pela deusa Tory.

Brandon bufou, estava irritado por toda aquela situação. Anos atrás, segurando a filha e a mulher nos braços, ele implorou aos deuses para que não as tirassem dele. Rezou fervorosamente, oferecendo tudo, até sua alma, para pouparem as vidas das duas mulheres que mais amava no Universo. Mas só recebeu silêncio e uma dor aguda, amarga, por todos esses anos.

— Não estou interessado em saber. Pode ir embora e me leve de volta.

— Nós sabemos, você sabe, que é um marcado – explanou tranquilamente, sem desviar seus olhos dos dele. — Seu destino já foi traçado, Capitão, e ele se entrelaça ao de Kassandra.

O som borbulhante da sopa, junto com o bater da tampa da panela, chamou atenção dos dois. A mulher correu para a lareira onde, só agora, Brandon notou o suporte de ferro segurando um pequeno caldeirão de ferro. Ele observou a mensageira pegar uma colher de concha e servir a sopa em um prato fundo.

— Espero que esteja boa.

— Tudo isso para me convencer?

— Coma e tente descansar um pouco enquanto conversamos. Se no fim você não mudar de ideia, pedirei aos deuses para deixá-lo em paz.

Notas finais
Volto logo e espero que tenham gostado hihi