Noturna - A Maldição dos Criadores
13 Festa
Notas iniciais
As tochas de iluminação esquentavam as bochechas de Kassandra conforme seguiam até o templo. Havia uma fila consideravelmente grande na entrada, onde uma revista estava sendo feita em todos os alunos e, principalmente, convidados. Além disso, vários fotógrafos se espremiam numa área delimitada querendo uma foto exclusiva das pessoas importantes que compareceriam ao evento ou alunos reconhecidos, deixando tudo ainda mais lento.
Lyanna conversava animadamente com Amanda enquanto tinha seu braço enlaçado com o de Kassandra. Ela estava linda, usava um vestido verde claro soltinho, os cabelos presos num coque frouxo e uma maquiagem leve. Quando ela saiu do banheiro completamente arrumada, ainda no dormitório, a protetora da princesa esqueceu-se de como respirar por alguns segundos.
Não que Kassandra estivesse diferente. Os olhares eram facilmente atraídos para a mulher de olhos carmesins usando uma blusa preta curta que mostrava parte de sua barriga definida, calças de algodão soltas na mesma cor e com uma maquiagem simples, porém que destacava seus olhos. Ela não usava um salto como a princesa; preferia o conforto do bom e velho tênis. Nem por isso estava menos elegante.
O pequeno grupo estava quase chegando para a revista quando um dos fotógrafos reconheceu Lyanna, então uma chuva de flashes foi lançada na direção delas. Kassandra ficou levemente atordoada, não estava esperando por aquilo, então sentiu a princesa ainda mais perto. Sua mão foi automaticamente para a cintura dela do jeito protetor de sempre. Todos ficaram enlouquecidos fazendo perguntas sobre quem Kassandra era.
Amanda se juntou a dupla, ficando do outro lado da notava.
— Acostume-se com isso, Coelhinha — murmurou Amanda sem mexer os lábios enquanto sorria para as fotos. — Lyanna é bem mais reconhecida do que parece.
— Eu sei do reconhecimento da princesa. Só não esperava por isso. — disse sem se importar com as fotos.
Kassandra, estrategicamente, virava levemente o rosto em direções diferentes para não conseguirem registrar sua face por completo. Era uma tentativa quase em vão. Os mercenários de seu pai com certeza a reconheceriam, porém queria atrasá-los como pudesse. Na verdade, andava desconfiada por estarem tão quietos assim, pois era impossível que não tivessem sua localização.
Alguns minutos intermináveis se passaram até a Federal acenar para as meninas seguirem até a revista. A dona dos olhos carmesins nunca imaginou que, algum dia, ficaria agradecida a algum Federal. Ela passou pelo detector de metais e, logo depois, pela revista física. Lyanna e Amanda estavam logo atrás, fazendo Kassandra ter que esperar um pouco afastada para não atrapalhar o andamento da fila.
Aproveitando o momento, Kass começou a analisar ao redor do Templo de Lótus. O Colégio Bhakans visivelmente não poupou despesas para aquele evento. A decoração, rica em flores selvagens — verdadeiras — de diversas cores e fitas brancas de seda presas no teto do lugar, transportava as pessoas para os antigos festivais ao ar livre realizados na Primavera há muito esquecidos. Garçons-robôs em trajes brancos circulavam por entre os alunos e convidados servindo as bebidas. No centro do lugar havia uma mesa extensa cheia de comida, abastecida regularmente. No altar fora montado um palco onde uma banda regional famosa tocava animadamente enquanto algumas pessoas dançavam ali perto.
— Perdida, Senhorita Zaskov? — perguntou uma voz familiar.
— Não, Senhorita Owen. Minhas acompanhantes estão logo ali. — indicou com a cabeça onde Lyanna e Amanda estavam sendo revistadas.
— Duas? Você é uma pessoa muito requisitada.
— Deve ser o meu carisma contagiante.
Rachel riu e se colocou diante da novata.
— Seria desespero caso eu perguntasse se tem uma resposta sobre meu convite?
Kassandra, então, olhou para a Presidente pela primeira vez. Estava belíssima em um vestido longo branco com o broche dourado de uma mariposa no lado esquerdo do peito. Seus cabelos rosa estavam soltos numa confusão de cachos harmoniosa. Ela engoliu em seco discretamente, não querendo admitir o quão aquela garota também a afetava. Era de um jeito completamente diferente comparado ao de Lyanna, obviamente, mas mesmo assim surtia efeito sobre si.
— Provavelmente, mas consigo abrir uma exceção para você.
— Exceção para o que? — A voz de Lyanna se fez presente.
— Ah, Alteza! — cumprimentou a Presidente antes de prestar uma reverência em respeito. — Estou aqui tentando convencer Kassandra a aceitar meu convite para ir ao Condessa.
Se olhares pudessem matar, aquela seria a hora em que Lyanna de Terhia seria lembrada por transformar a filha do deus da morte em pó. Apesar de parecer inocente, a informação dada por Rachel poderia causar uma verdadeira guerra e Amanda, com seu sorriso contido, parecia adorar aquela situação.
— Verdade? Kassandra não me disse nada.
Kassandra? Eu estava ferrada.
— Era justamente sobre isso que estávamos falando. Fiz o convite quando ela estava saindo da sala de treinamentos, não acho que tenha dado tempo para que Kass pudesse lhe comunicar.
Estou pronta! Podem me levar quando quiserem! Agora, de preferência!
Lyanna arqueou as sobrancelhas, provavelmente lembrando-se do estado em que sua protetora se encontrava dentro daquela sala. Seus olhos estavam levemente escuros, revelando o tamanho de sua irritação, mas soube disfarçar muito bem ao abrir um sorriso sincero aos olhos de muitos. Exceto de Kassandra e Amanda, essa última ria baixinho da situação.
— Não vejo motivos para não aceitar, Kassandra. — pronunciou o nome com acidez.
— Tenho meus deveres, Alteza. Seu pai deu instruções claras de manter-me em total alerta.
— Não seja por isso. Tenho certeza de que Amanda ou até mesmo algum Federal possa se encarregar dessa tarefa por um dia. — Aquela era a Princesa falando, em sua pose autoritária e diplomática. — Bhakans não se importaria de emprestar um de seus homens ou mulheres, acredito.
— Claro que não, Alteza! — disse Rachel animada.
— Ótimo. Problema resolvido, então.
Kassandra observou a princesa se afastar com uma Amanda risonha ao seu encalço. Até naquele momento totalmente novo, a humana conseguia deixar a semi-deusa encantada e sem palavras. Ficou tentada em provocá-la ainda mais, querendo saber até onde aquilo iria dar.
— Vou agradecê-la depois enviando um dos meus Uivantes para protegê-la. — disse uma Rachel sorridente. — Nos vemos amanhã, Senhorita Zaskov. Encontro você no seu dormitório na hora do almoço.
Ainda estava distraída observando Lyanna caminhar por entre as pessoas que só pode assentir. Não viu quando a Presidente havia desaparecido, mas não importava. Se veriam, contra sua vontade, amanhã num almoço amigável. Sozinha, abandonada por sua protegida, Kassandra caminhou para um pequeno bar onde os Garçons-robôs constantemente buscavam bebidas para oferecer aos convidados. Ela esperou o momento certo para se debruçar no balcão e pegar um copo com a bebida mais forte da festa sem que ninguém visse. Ficou de costas para o balcão, apoiando-se nele enquanto observava o movimento e bebericava o líquido alaranjado do seu copo.
Conseguiu identificar Lyanna com a Líder Esportiva ao seu lado. As duas conversam com algumas pessoas, uma delas era a Diretora Principal. Ela tinha um sorriso verdadeiro nos lábios, vez ou outra acenava positivamente com a cabeça. Iria continuar a observá-la se um cheiro muito familiar não tivesse tirado sua atenção.
Zanur estava com a mesma bebida que a sobrinha nas mãos, apoiando-se no balcão de madeira do bar tranquilamente, olhando para as prateleiras de vidro repletas das mais diversas bebidas. Obviamente não estava ali por pura e simples coincidência.
— Problemas com a humana? — perguntou de repente.
Ela revirou os olhos, tomando mais um gole da bebida.
— Achei que seu trabalho era ficar com o Príncipe Leon e não cuidar da vida alheia. — murmurou olhando para ele.
Zanur estava vestindo um conjunto social preto e colete cinza claro. Estava elegante, parecia até mais jovem, porém os fios brancos penteados para trás denunciavam sua idade avançada. Se os tempos fossem outros, se toda aquela merda não tivesse acontecido anos atrás no Reino de Selletus, Kassandra estaria mais do que feliz de ter seu tio ali.
Ele fora seu treinador durante anos. Ensinou a ela todos os truques com espadas como se fosse um dos seus soldados, não poupando-a de nada. Além disso, a relação entre eles era de pai e filha, coisa que Selletus nunca tivera com Kassandra. Por isso, depois que a deixaram com o deus, o choque do abandono de Zanur a afetara tanto. Se sentiu enganada, abandonada e traída. Ela, por muito tempo, esperou algum tipo de resgate ou uma simples carta com algum plano de fuga, mas nada. Nem um sinal deles recebera.
— O Príncipe ainda está se arrumando, então resolvi checar o lugar antecipadamente. — explicou dando de ombros. — Mas sou um ótimo conselheiro amoroso, por isso estou aqui. Vi o que aconteceu.
— Conselheiro amoroso? Esse é o nome que dão hoje em dia para enxeridos? — indagou com as sobrancelhas arqueadas.
— Vamos, Ell… Kassandra — corrigiu rapidamente. — você sempre foi orgulhosa o suficiente para não admitir suas fraquezas e, nesse momento, sua fraqueza é aquela garota.
— Diferente de você, Zanur, eu realmente estou trabalhando. A proteção da princesa é minha prioridade aqui.
— Mas isso não impediu você de aceitar o convite da Presidente. — murmurou tomando sua bebida.
Kassandra quase quebrou o copo de vidro ao apertá-lo com força. Seu tio sempre adorou provocá-la e aquilo nunca mudaria entre os dois. Quando estavam no Reino de Selletus era a mesma coisa, com o diferencial de acabar sempre com algumas trocas de socos. Então, proibida de ter uma reação violenta, ela respirou fundo e serviu-se de mais uma dose de sua bebida. O silêncio, então, reinou entre os dois, mas não era algo desconfortável. A rápida conversa — atrelada a provocações — fora um grande passo no atual relacionamento conturbado entre tio e sobrinha. Obviamente não iriam se abraçar ou combinar de sair qualquer dia desses, aquilo estava longe de acontecer.
Mas já era alguma coisa.
Enquanto isso, o Templo de Lótus parecia ficar cada vez mais cheio. Federais e Protetores circulavam pelo lugar, com os olhos atentos. Qualquer falha na segurança poderia acarretar em sérios problemas. A Diretora Meredith, como anfitriã da festa, cumprimentava os convidados rodeada por seus Protetores. Ninguém sabia ao certo como aquela mulher conseguira tal privilégio, pois pouquíssimas pessoas eram importantes o bastante para terem os serventes dos deuses ao seu lado. O fato era tão misterioso quanto sua filha ficar afastada das atividades físicas do colégio.
Kassandra estava perdidas nos próprios pensamentos, aproveitando a bebida levemente amarga em sua língua, que não percebeu quando Sarah se aproximou. Ela ergueu as sobrancelhas, admirando o vestido preto que caía muito bem na garota, então acenou com a cabeça num breve e respeitoso cumprimento a ela.
— Está elegante, Sarah. Preto combina com você. — comentou sincera.
— Fica melhor em você, acredite. — sorriu divertida. — Preciso de sua ajuda em uma coisa.
— Claro. — Kass olhou para o tio. — Volto já.
— Não se preocupe comigo. Estarei bem aqui.
Revirou os olhos. Ela não estava preocupada com ele, apenas o avisou de forma automática. Estava pronta para rebater sua resposta quando sua mão foi puxada por Sarah. Kassandra se surpreendeu com a força da garota, mesmo sabendo que com apenas um puxão e estaria livre. As duas passaram por convidados, alunos e professores durante o trajeto. Os cheiros, as vozes e toda aquela agitação deixou Kassandra confusa por alguns instantes, perdendo seu foco.
Estava pronta para pedir a Sarah que esperasse um pouco quando um corpo chocou-se contra o seu. O cheiro de neve e cerejas muito conhecido despertou seus instintos mais primitivos. Automaticamente sua mão encaixou perfeitamente na cintura fina e torneada, precisando morder o interior da bochecha para não rosnar baixinho em contentamento. Aquele simples contato já era o suficiente para fazê-la enlouquecer.
Lyanna abriu a boca para protestar, mas quando o verde encontrou o carmesim, as palavras desapareceram. Elas se olharam por longos segundos, ignorando qualquer tipo de presença ao redor. Sarah havia desaparecido, satisfeita com o sucesso da missão arquitetada por Amanda que também sumiu do lado da princesa assim que o encontro aconteceu.
Despertada por um esbarrão acidental, a princesa pigarreou dando um passo para trás.
— Precisa de alguma coisa, Senhorita Zaskov? — indagou formalmente.
Kassandra queria rir, mas ainda estava desnorteada demais. Odiando aquela curta distância entre elas.
— Não consigo mais — confessou de olhos fechados. — Juro que tentei com todas as minhas forças, controlei meus impulsos, mas você não sai dos meus pensamentos. Posso empurrá-la para o mais longe possível de mim, ser grosseira ou tentar chateá-la para, talvez, protegê-la de tudo o que fui e de tudo que sou, mas você simplesmente volta.
Estava esperando pela reação negativa vinda da humana. Um afastamento definitivo que poderia salvá-la daquela inconstância entre deveres e sentimentos. Sentimentos esses antes esquecidos no fundo do seu interior para nunca mais serem reanimados. Mas lá estava ela, totalmente rendida como estava anos atrás, talvez mais ainda.
Então, ainda entorpecida pelo momento, sentiu a humana se aproximar. Suas mãos voltaram para a cintura automaticamente, desejando não precisar soltá-la nunca mais. A testa quente da humana encostou-se contra a sua, o cheiro inebriante ficando ainda mais forte. Lyanna passou seus braços finos ao redor do pescoço dela, fazendo com que ficassem mais próximas ainda.
— Dance comigo. — sussurrou a princesa.
Não eram as exatas palavras que Kassandra esperava ouvir, mas assentiu mesmo assim. Elas permaneceram daquele jeito, as testas unidas e olhos fechados, conforme balançavam os corpos no ritmo da música calma que tocava ao fundo. A banda local estava no intervalo, deixando o som por conta do DJ do evento. Os casais ao redor também aproveitavam o momento, totalmente alheios ao que acontecia entre as duas, porém os convidados faziam esse papel. Principalmente um príncipe em questão.
Apesar de estar concentrada naquele momento, aproveitando a maravilhosa sensação de ter a humana em seus braços, os instintos de Kassandra a alertaram da aproximação rápida. Ela abriu os olhos irritada, amaldiçoando quem quer que fosse, então colocou Lyanna delicadamente atrás de si. A humana se assustou com a manobra, engasgando com as palavras, para só, então, compreender o que se passava.
— Leon.
Fale com o autor