Notas iniciais
Heey pessoas, como vão? Essa é mais uma história e espero que estejam preparados hahahaha. Sejam muito bem-vindos e sintam-se em casa ^^' Bora ler!

Naquele ano, o frio parecia dez vezes pior. Quase não havia movimento pelas ruas outrora lotadas de comerciantes e compradores que vinham de todas as partes das terras do Reino de Terhia.

Uma jovem arrastava-se pela estrada no meio da neve. Ela não sentia dor, embora as solas dos pés estivessem mutiladas pelos caminhos onde passaram. Em seu estado atual, lembrava um animal selvagem. As roupas rasgadas, sujas e com um fedor insuportável, se colavam à pele enegrecida pelas crostas de sujeira e sangue tanto seus quanto de outras pessoas e animais. O cabelo loiro pálido estava embaraçado, mesmo curto. Em suas costas, presa por tiras de couro e enrolada com um tecido grosso, jazia a arma mais temida por todas as criaturas vivas: a espada devoradora de almas.

A jovem cedeu ao cansaço, caindo de joelhos. Estava fugindo por tanto tempo sem um rumo que suas esperanças de achar um lar pareciam tão distantes. Podia deixar o frio consumi-la ali sem se importar. Ninguém se importaria, nem mesmo sua família que deixara para trás depois do que descobrira.

Lembrava-se de quando saiu de casa. Estava a um passo de passar pela porta do castelo e ouviu seu pai bradar alto para que todos os presentes ouvissem:

“Ellisse Caunder foi banida do Reino Selletus para sempre.”

Talvez ele pensasse que conseguiria pará-la, mas só deu forças para que continuasse a seguir em frente. Agora, caída em uma estrada qualquer, esperava pela paz eterna sabendo que ninguém lamentaria sua perda, apenas sua espada, sua companheira silenciosa e mortal. Quando a vida deixasse o corpo de Ellie, o aço negro viraria metal como todas as outras armas e perderia seu poder de absorção de almas.

Estava pronta para desistir sem uma única lágrima escapar de seus olhos carmesins opacos. Sentia-se fraca. Então, ouviu um grito feminino de desespero a dois quilômetros de onde estava. Sua espada, Noturna, vibrou em suas costas em uma antecipação conhecida. Ellie obrigou suas pernas obedecê-la, nem que fosse pela última vez. Quando recebera Noturna, uma sede por sangue e poder crescera dentro dela. Todas as vezes que surgiam essas “oportunidades” de suprir a vontade avassaladora, ela não hesitava.

Ellie respirou fundo e canalizou suas últimas energias. Fechou os olhos e se concentrou nos ruídos ao seu redor para achar quem gritara. Uma pequena lebre saltitava no meio de pequenos arbustos em seu lado esquerdo; passarinhos piavam baixinho enquanto seus pais os alimentavam. E alguém era arrastada, gritando, choramingando, arranhando.

Ela desatou o nó da espada e segurou o punho prateado enfeitado por uma esmeralda oval brilhante. As almas ficavam presas ali até Ellie absorvê-las em um ritual que exigia muita energia e deixava-a debilitada.

Seus pés se moveram na direção dos sons de luta. Movia-se tão rápido que tudo não passava de um borrão ao se redor.

Enquanto passava por entre as árvores, os galhos mais baixos e espinhosos se dobravam, mas não quebravam. Chegou perto o suficiente para sentir o fedor repugnante de três homens usando trajes sujos: coletes de couro baratos, botas velhas, espadas grotescas em bainhas comuns e, também, colares com anéis pendurados que mostravam quantas vítimas mataram ao longo dos anos. Ellie lançou-se para um dos milhares de pinheiros e parou em um galho forte e viu uma garota caída no centro da formação.

Mercenários.

Novamente, sentiu a espada vibrar. Era tão conectada a ela que seus pensamentos passavam para a lâmina.

E tudo o que pensava era acabar com aqueles desgraçados.

— Vamos, Alteza! Deixe a gente mostrar como homens de verdade tratam uma dama! — disse o mais velho dentre os monstros em pele de humanos. Ele deu um passo em direção à garota.

Imaginar aquela moça sendo machucada por aqueles desgraçados fazia a raiva consumir Ellie rapidamente e, como consequência, perdia o controle de suas ações.

Ellie pousou no minúsculo espaço entre os dois. Mantinha o olhar abaixado, encarando as botas engorduradas do homem parrudo com uma barriga redonda.

— Ora! Temos mais uma convidada! — Comemorou junto com os outros dois, que se cutucavam animados como predadores observando suas presas indefesas.

Uma poderia ser, mas Ellie tinha o fogo da ira queimando em seu peito e vibrando na lâmina larga em suas costas.

— Vão embora — murmurou em um rosnado irritado.

Os homens continuaram parados, encarando-a com sorrisos nos rostos cheios de fuligem.

— Nossa festa ainda nem começou, gracinha! — disse o mercenário.

Ellie puxou a espada e descreveu um arco no ar. A lâmina parou a poucos centímetros da pele do pescoço do homem.

A monstruosidade da espada assustava a todos por causa da lâmina larga que se afunilava na ponta. Seu aço negro com finas ranhuras esverdeadas e luminosas pulsavam como veias.

Como se a espada estivesse viva.

De fato estava, mas apenas nas mãos de Ellie.

O homem gargalhou ao ver a disparidade entre o tamanho da espada e a forma física da garota. Um erro comum, vivenciado várias vezes.

— Gracinha, essa arma é para homens. Dê aqui para não se machucar.

As mãos de Ellie se apertam no punho da espada, e ela girou o corpo para talhar um corte em diagonal no peito do mercenário.

Com o ferimento, ele gritou como um porco, e os outros dois avançaram contra Ellie; no entanto, ela plantou os pés descalços no chão e desejou enfrentá-los também.

Vendo o ódio nos olhos dela, eles tremeram, hesitaram e correram para longe.

No chão, o homem engasgava com o próprio sangue e usava as mãos para tentar estancar o sangramento no peito.

— Que sua alma vagueie para sempre nos rios de lava do Reino dos Tormentos, verme. — Ela cravou a espada no coração dele.

A lâmina vibrou, e as ranhuras se tornaram vermelhas enquanto a alma dele era sugada.

Ellie suspirou com a onda nova de energia. A alma não era tão forte assim, mas conseguira um pouco de poder. O homem tornar-se-ia pó em alguns instantes. Todos os órgãos, ossos e carne seriam queimados pelo fogo esverdeado das ranhuras de Noturna. Ela largou a espada, caiu de joelhos e fitou a garota de olhos verdes marejados diante dela.

— Eles te machucaram? — perguntou.

— Não. Graças a você. — Mesmo com a testa franzida, parecendo ponderar se podia confiar, ela se aproximou de Ellie — É uma Julgadora. Veio de Selletus?

Ela bufou. Esperava mais da garota, mas todos os humanos copiavam suas reações diante de criaturas descritas através de histórias. Querendo acabar logo com aquilo para seguir em frente, encarou a quase vítima dos mercenários de maneira amedrontadora.

— Pode sair correndo agora. — Ellie agarrou o abdômen com força. Fome. A fome amaldiçoada por sangue. Não iria ferir aquela garota, não poderia. Ela era inocente. Puxou a bolsa de couro amarrada à cintura e tirou um pequeno frasco de vidro contendo um líquido vermelho denso. O último. Agitou três vezes e tomou tudo de uma vez só. Limpou os lábios com as costas da mão e percebeu o olhar preocupado da garota.

Ao longe, cascos contra os cascalhos da estrada surgiram altos e ecoaram pela mata densa. Ellie levantou-se com um pulo ágil, e as armaduras douradas reluziram com a luz fraca que atravessava as nuvens grossas do inverno. Conhecia o brasão do dragão entrelaçado a uma rosa de espinhos. Eram os guardas reais de Terhia. Eles formaram um círculo ao redor das duas; um saltou da sela do seu cavalo e correu em direção à garota que Ellie salvara.

— Princesa Lyanna! — ele exclamou. — Como fugiu daquele jeito?! O Rei Gallydus estava quase arrancando os próprios cabelos. — Verificou com olhos rápidos o estado da garota, sem realmente notar Ellie. Ao vê-la segurando Noturna tão forte que os nós dos dedos estavam brancos, ele tirou a própria espada da bainha.

A princesa, no entanto, segurou-se a ele.

— Não! — ela gritou. — Brandon, ela salvou minha vida!

— É uma Julgadora... — murmurou Brandon com o rosto contraído.

Ellie não se lembrava de muita coisa após isso. Desmaiou pouco depois de ouvir as ordens do guarda para que ela fosse colocada em um cavalo para ser levada ao castelo. Acordou muito tempo depois e viu uma face bondosa sorrindo, enfeitada por uma barba negra salpicada com alguns fios brancos. Os olhos eram idênticos aos da princesa, mas maduros.

— Qual o seu nome, criança?

Naquele momento, Ellie sentiu. Sentiu que teria uma segunda chance depois de vagar por incontáveis dias esperando pela morte. Olhou fixamente para o homem bondoso sem dar uma resposta, mas ele fez novamente a pergunta:

— Qual o seu nome?

— Kass — murmurou.

E apagou por completo.

Notas finais
Até a próxima e não se esqueçam de comentar! S2