Noturna - A Maldição dos Criadores
16 Controle
Notas iniciais
Condessa era um bistrô aconchegante com decoração em tons pastéis. Não havia muito movimento, apenas três das dez mesas do lugar estavam ocupadas. Um rapaz recebeu as duas educadamente, informando quais mesas estavam disponíveis. Kassandra não prestava atenção na conversa entre ele e a Presidente. Estava encantada com os detalhes da arquitetura que lembrava, vagamente, o cômodo de um castelo tradicional: cortinas suntuosas, louças decoradas a mão, quadros belíssimos enfeitando as paredes e cadeiras acolchoadas que lembravam tronos.
Era um lugar bonito e reservado, como Rachel prometera durante o trajeto até o bistrô. As pessoas pareciam usar o espaço para trabalhar ou, simplesmente, ler um livro enquanto apreciavam a, aparente, boa comida. Uma música ambiente, calma, tocava nas caixas de som perfeitamente camufladas nos cantos das paredes.
O rapaz começou a se afastar, chamando a atenção de Kassandra. Ela olhou para o lado encontrando a Presidente encarando-a com um sorriso discreto. Rachel indicou para que seguissem o rapaz até uma mesa afastada, próxima a janela, onde ficariam ainda mais isoladas. Um silêncio estranho as sondava.
Kassandra queria, realmente, acreditar nas palavras na garota de cabelos rosa, mas algo lhe dizia para ser cuidadosa. Além disso, Rachel Owen tinha seus mistérios e Amanda não revelou uma única pista do motivo dela ser proibida de participar das Aulas. Sentando na confortável cadeira, Kass analisava o que todo aquele encontro poderia significar e como “jogaria” diante das possíveis perguntas que Rachel faria. Obviamente revelar-se estava fora de questão.
Uma entrada de pães frescos e molhos diversos fora deixada na mesa pelo rapaz para, então, ficarem completamente a sós. Rachel colocou um dos pães em seu prato, depois passou um molho amarelado nele antes de morde um pedaço. Ela fechou os olhos, apreciando com gosto e soltando um fraco gemido de satisfação.
— Faz tanto tempo desde minha última vez aqui. Estava com saudades. – disse após comer.
— Hm... Acho que pude perceber. – zombou arqueando suas sobrancelhas enquanto a encarava. – Quer ficar a sós com os pãezinhos?
Rachel riu balançando a cabeça negativamente.
— Ora, vamos! Prove um destes com o molho Resh’ao e entenderá um dos motivos por gostar tanto daqui.
A Presidente fez o mesmo processo, cortando outro pedaço. Kassandra esticou a mão para pegar, porém a garota desviou e aproximou o pão com Resh’ao até tocar em seus lábios. Ela surpreendeu-se diante daquele ato, mas logo abriu a boca. O pedaço derreteu em sua língua e um gosto leve de camarão, alho e outros temperos se fez presente. Algo simples, nada surpreendente, e maravilhosamente saboroso.
Um gemido satisfatório também escapou dos lábios de Kass.
— Certo. Isso é divino.
As duas riram diante da constatação.
— Eu realmente achei que tinha me abandonado, Chell. – uma voz reclamou.
— Vanessa! – exclamou Rachel antes de levantar-se e abraçar um senhora de cabelos grisalhos.
Com todos os avanços estéticos famosos da Capital Emblemática Losva, Kassandra surpreendeu-se ao encontrar uma senhora livre de manipulação genética para esconder suas rugas ou a descoloração do cabelo. Tinha os olhos escuros levemente opacos pela idade avançada e a pele manchada pelo sol. Ficou por alguns segundos observando a senhora quando notou o abraço sendo finalizado, então fingiu estar olhando os talheres.
— Então essa é a garota de quem tanto falava! – exclamou de repente.
— Kassandra, essa é Vanessa Sellt, dona do bistrô e a chef de cozinha; Vanessa, essa é a Kassandra Zaskov, nova aluna de Bhakans.
Kass levantou-se da cadeira e curvou-se ligeiramente para a senhora.
— É um prazer conhecê-la, Senhora Sellt. Nunca estive num lugar tão agradável como este e com um molho tão divino!
— Ah! Então aprovou o molho da casa! Fico feliz em ouvir esses elogios e, por favor, apenas Vanessa. Se minha Chell a trouxe aqui, significa que é alguém especial para ela.
— Deuses! Você adora me envergonhar na frente dos outros. – murmurou. — Não precisa voltar para a cozinha?
Vanessa riu, mas concordou com a Presidente.
— Claro. Vou deixá-las sozinhas. – tranquilizou. –Apenas avise quando quiser o almoço para eu começar a preparar.
— Pode preparar em dez minutos. Não sei Kassandra, mas estou com muita fome.
— Com uma entrada dessas, meu apetite só aumentou. – disse educadamente.
— Maravilhoso! Então vou logo começar a separar as coisas para preparar os pratos.
Elas observaram Vanessa se afastar, seguindo em direção a uma porta branca, atrás do balcão onde ficava o caixa, então sumiu de vista. Kassandra sentou-se, assim como Rachel, e pegou mais um dos pães.
— Estou esperando pelo momento em que você dirá o que, realmente, se trata esse almoço. – Kassandra perguntou sem desviar sua atenção do pão, cobrindo-o com o molho lentamente.
— Não pode ser apenas um almoço entre amigas?
Kassandra deixou escapar uma breve risada sarcástica e encarou a Presidente.
— Amigas? É isso o que somos? – tombou a cabeça para o lado. – Da última vez que conferi, meu círculo de amizade resumia-se em: uma Princesa, um robô, uma Líder Esportiva e uma garotinha adorável chamada Sarah. O resto considerava apenas...pessoas.
— Entreguei o colar a você e tudo o que me considera é uma...pessoa?
— E aí está aonde quero chegar, Presidente. Você não entregaria o colar para qualquer um, entregaria?
Rachel parecia preste as falar algo, porém recuou com um sorriso derrotado.
— Não.
— Não... Então por que você me escolheu, Rachel?
— Porque você pode ser minha única salvação, Kassandra.
— Como?
A menina de cabelos rosa ajeitou-se na cadeira, deixando metade do pão em seu prato. Ela parecia repentinamente ansiosa e até um pouco nervosa. Seus dentes maltratavam os lábios inferiores, o coração estava disparado e a respiração descompassada.
Por fim, Rachel respirou fundo e começou:
— Amanda já deve ter explicado para você que não posso participar das Aulas.
— Superficialmente. Não me disse o motivo especifico.
— Já ouviu falar nas Bruxas de Gaddgus?
Kassandra recostou-se na cadeira ao ouvir aquele nome. O passado lhe atingiu forte, transportando-a para as inúmeras sessões que sofrera nas mãos dessas mulheres na tentativa de separá-la de Noturna. Felizmente não conseguiram, mas por muito pouco.
— Sim. – disse num fio de voz.
— Minha mãe, tempos atrás, era uma delas. Treinou incessantemente suas habilidades como bruxa, achando que as ajudaria em missões nobres e não obscuras. Mas foi quando a chamaram para seu primeiro trabalho como uma Gaddgus que ela descobriu a verdadeira missão das bruxas: serem donas das trevas.
— Continue.
— Minha mãe trabalhou por algum tempo em uma sessão que demandou o esgotamento de algumas bruxas: era da criança amaldiçoada a carregar Noturna, a filha de Selletus. Ela dizia que não conseguia dormir, pois os gritos da criança ecoavam por sua cabeça quando se deitava. Kassandra, as bruxas queriam, de alguma forma, a alma da menina para que se tornassem deusas.
Noturna começou a queimar em seu braço num avisou desesperado, parecia não querer que ficassem ali, mas Kassandra a controlou na hora. Se havia uma bruxa de Gaddgus tão perto assim, seria sua chance de confrontá-la, obter respostas que lhe atormentavam por séculos e, principalmente: descobrir como eliminar uma por uma.
— Ainda não explicou o motivo de eu poder ser sua salvação, Presidente.
— Estou chegando lá. – disse num suspiro. – Depois que minha mãe fugiu, recusando-se a continuar com aquele tipo de atrocidade contra uma criança e completamente devastada ao descobrir qual era a missão das bruxas, tudo parecia bem. Nenhuma das Bruxas de Gaddgus fora atrás de minha mãe...até que ela ficou grávida.
Rachel começou a brincar com um pequeno pedaço de pão. Parecia querer se distrair um pouco para continuar.
— No dia em que minha mãe entrara em trabalho de parto, as quatro irmãs fundadoras das Bruxas de Gaddgus apareceram e jogaram uma maldição sobre o ventre dela.
— Que maldição?
— Que a criança seria, em algum momento de sua vida, a verdadeira encarnação das Trevas. – a Presidente encarou-a
— E como eu posso ser a sua salvação?
— Quero treinar, controlar o que tem dentro de mim e, quando vi você lutar, pensei que poderia me ajudar. Você é diferente, sei disso, mas não estou querendo nada mais do que sua ajuda para tentar ser normal. Pelo menos até eu me formar.
— Você será uma Protetora.
— Sim. E pedirei aos deuses que me curem.
A conversa parecia ter durado poucos minutos, mas quando Kassandra avistou Vanessa se aproximando com o almoço disposto em dois pratos, percebeu que durou bem mais. Ela sorriu da maneira mais sincera para a Senhora, agradecendo pela comida.
— Tenham uma boa refeição, meninas. Estarei na cozinha e, caso precisem de algo, podem pedir para o rapaz ali.
— Obrigada, Vanessa.
O prato era uma massa com molho branco e camarões. Seu cheiro estava tão divino que fez Kassandra salivar. Ela nunca esperava ficar tão faminta ao ver um prato humano, mas algo naquele lugar e na comida a faziam reagir daquele jeito. E antes de dar sua total atenção ao prato, encarou a Presidente.
— Nosso treinamento será sigiloso. Não quero o colégio inteiro comentando sobre nós e continuo com minha resposta negativa sobre entrar no Mariposas.
— E Lyanna?
— Treinaremos na madrugada. Como Presidente, creio que possua algumas mordomias e vamos usufruí-las. Essas são as minhas condições.
— Aceito todas elas.
...
Eram quase cinco horas da tarde quando as duas retornaram ao colégio. O céu estava num tom alaranjado e, atrás dos inúmeros prédios, o sol desaparecia lentamente sem nenhuma nuvem para atrapalhar aquele espetáculo natural. Não havia muita movimentação de alunos naquele horário e Kassandra podia seguir tranquilamente para o seu dormitório sem precisar aguentar os olhares de sempre.
Ela se despedira de Rachel assim que passou pelo portão do colégio, avisando que começariam o treinamento dentro de um dia. Os Federais faziam suas rondas no pátio principal e pareciam mais tranquilos desde a passagem da cerimônia, mas não menos atentos.
Em poucos minutos alcançou seu dormitório, pronta para tomar um banho relaxante depois do dia intenso. Também estava levemente ansiosa em encontrar Lyanna e só de pensar em vê-la o sorriso automaticamente surgia nos seus lábios. Kassandra abriu a porta distraída com os pensamentos quando algo macio atingiu sua face com força. O travesseiro caiu aos seus pés num baque suave, atraindo seu olhar por alguns segundos até encarar uma Princesa de expressão irritada: sobrancelha unidas e lábios pressionados numa linha rígida.
Estava encrencada.
— Alteza?
— Não me venha com Alteza! Onde você estava?! – indagou furiosa enquanto se aproximava. — Fui buscá-la no hospital, mas adivinhe?! Você. – deferiu um tapa no braço de Kassandra. – Não. – outro tapa. – Estava. – mais um. – Lá! – um último e mais forte.
Kassandra queria rir naquele momento diante do ataque da humana. Os tapas fizeram seu braço arder, mas nada insuportável. Elas se encararam por alguns segundos antes de Kass responder:
— Fui almoçar com Rachel. Estava devendo depois que você respondeu ao convite por mim.
Lyanna arqueou as sobrancelhas desviando o olhar para baixo.
— Então... Por isso aquela fingida ofereceu seus Uivantes! Falsa! Ah! Como fui burra?!
Silêncio.
— Acabou o interrogatório?
— O que ela queria? – perguntou ignorando Kassandra.
Ela arqueou as sobrancelhas para a Princesa e revirou os olhos, sabendo que não tinha acabado.
— Apenas conversar e me apresentar ao bistrô.
— Não acredito que foi somente isso! Impossível!
— Sinto muito se você não acredita, mas é problema seu.
— Às vezes você se esquece com quem está falando, Kassandra.
Noturna, pela primeira vez desde o bistrô, fez-se presente ao queimar o braço de sua portadora, mas novamente foi ignorada. Num movimento rápido, Kassandra colocou Lyanna contra a porta onde estava recostada. Ela pousou as mãos ao lado da cabeça da humana, encarando-a com dureza. Seus olhos vermelhos brilhavam como brasa, mostrando sua irritação.
— E com quem, exatamente, estou falando? – rosnou.
— Lyanna de Terhia, herdeira do trono de Terhia e sua futura Rainha. – respondeu com firmeza.
Kassandra abriu um sorriso perigosamente sedutor, tombando a cabeça de lado.
— Minha rainha? – observou a humana assentir uma única vez. – Não acha prepotente da sua parte pensar que tem algum controle sobre mim, Alteza?
— Eu não penso; Eu tenho controle sobre você.
— Como pode ter tanta certeza disso?
A Princesa ficou na ponta dos pés, escorregando sua mão pelo pescoço de Kassandra e afundando seus dedos nos cabelos pálidos. Elas se entreolharam, como se pedissem a permissão uma da outra, então a humana aproximou com cautela. Os lábios roçaram-se vagarosamente, numa provocação e confirmação de que queria mais. Então Kassandra, jogando seu controle para longe, capturou os lábios quentes de sua humana com os seus fervorosamente.
Ela passou os braços ao redor da cintura de Lyanna, dando-lhe apoio para aprofundarem ainda mais o beijo e o contato de seus corpos. A humana ofegou quando a língua de Kassandra acariciou a sua antes de começarem uma dança lenta e quente. E embora a princesa puxasse com certa força os cabelos de sua nuca, Kass não se incomodava nem um pouco.
O gosto era muito melhor do que imaginara. Kassandra rosnou baixinho quando se afastaram para a humana retomar o fôlego, mas logo continuaram. Suas mãos deslizaram até a lateral da cintura de Lyanna, apertando a pele quente que encontrara ali quando a camisa do colégio subira alguns centímetros. Iriam continuar caso, num esquecimento por conta do momento, Lya não houvesse colocado suas mãos bem nos machucados de Kass ao buscar um novo apoio.
— Ugh!
— Deuses! Kass, me desculpa! – pediu apressada.
— Estou bem, não se preocupe. – disse sorrindo. – Pode demonstrar novamente o seu controle sobre mim?
Elas riram e Lya deu um selinho demorado sobre seus lábios.
— Vá tomar o seu banho. Preciso buscar Yass com Amanda.
— O que aconteceu?
— Nada. Ela só estava preguiçosa o suficiente para pedir Yass emprestado e usá-lo como mordomo.
Kassandra revirou os olhos antes de seguir em direção ao banheiro.
— Sobre o beijo...
— Conversaremos em outro momento. Só...deixe como está. – disse Lyanna antes de passar pela porta sem olhar para trás.
Sua reação fora estranha, mas ela não pensaria sobre isso agora. Precisava tomar um banho para relaxar de vez.
...
Depois que Lyanna retornara ao dormitório, as duas conversaram sobre assuntos variados enquanto relaxavam em uma das camas. Decidiram deixar o acontecimento da cerimônia para outro dia, assim como o beijo, com o intuito de aproveitarem o tempo juntas. Mas, num determinado momento, a humana adormecera recostada em Kassandra que lhe acariciava as costas. Ela observou a princesa por alguns segundos antes de beijar sua cabeça e sair da cama.
Yass estava no modo descanso em sua plataforma de carregamento, então ninguém veria sua fuga pela janela. Kass havia decorado todas as rotas possíveis para escapar de rondas e câmeras, cada ponto cego. Foi fácil para ela chegar até a sala que queria no prédio principal.
Notou, pela fresta inferior da porta, uma luz alaranjada vindo de dentro. Sabia que ela estava ali. Respirou fundo, afastando todas as suas inseguranças do passado perturbador para adentrar na sala.
A mulher estava de costas para Kassandra, com uma taça de vinho na mão enquanto observava Losva da única e enorme janela daquele lugar. Ela fechou a porta tranquilamente, caminhando até o meio sem desviar o olhar das costas da mulher.
— Esperei por você desde que minha filha avisou sobre o almoço. – disse ainda sem se virar.
— Imaginei que sim.
Deixando sua taça na mesa, a mulher, finalmente, virou-se. O reconhecimento agora atingira Kassandra. Apesar da semelhança com sua filha, aquela não fora a razão por ter sentido como se a reconhecesse de algum lugar.
— É bom revê-la, Ellisse.
— Digo o mesmo, Meredith.
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