Nothing Left To Say
4 Cap. 4 - The Woman I Love
Notas iniciais
3:38 AM
— Annabeth! — exclamou Percy com um sorriso enorme ao ver a garota sentada na cama com a expressão confusa. — Tudo bem com você?
— É sério, você precisa parar de me perguntar isso — falou ela ao abrir um sorriso, se é que era possível, maior que o de Percy.
Thalia empurrou Percy para perto da cama de Annabeth enquanto ela mesma saía com o namorado do quarto. As sombras pequenas de Annabeth na parede não assustavam Percy. De fato, preferia que elas estivessem ali: não achava que suportaria ver sombras da forma de Annabeth deitada.
Mas ela não estava! Annabeth acordara, os quatro poderiam seguir viagem e encontrar com Leo no final da tarde. Percy não queria pôr Annabeth em perigo, mas, da mesma forma que tirar ela do hospital era necessário, tirá-la daquela casa no meio do parque florestal também era indispensável.
Percy não sabia por que, mas sentia que Annabeth estava bem. Ele não queria arranjar um motivo — e também porque provavelmente Thalia iria ficar zoando ele pelo resto do apocalipse zumbi por causa disso —, mas uma conexão entre ele e Annabeth tinha se formado. Desde os tempos em que tudo estava bem, sem nenhum acidente ou coma para atormentá-los.
— Eu estou bem, se quiser saber — murmurou Annabeth, brincando distraidamente com o lençol que a encobria. Percy sentou-se ao lado dela. — Minha cabeça ainda dói, não mencionando minhas costas, mas acho que posso viver até chegar à casa de Leo.
— É uma fazenda — disse Leo estupidamente, lembrando-se do tempo em que ficava envergonhado por fazer algo perto de Annabeth. Não ajudou muito perceber que esses tempos jamais tinham passado.
Annabeth soltou uma risada rouca. Percy não soube dizer quantos minutos ficou observando a fragilidade dela. Queria puxá-la para um abraço, como em tantas outras vezes, mas novamente não sabia se podia.
A incerteza era o que mais lhe machucava. Por mais que seus instintos lhe dissessem para seguir tal caminho, ele sempre tinha que perguntar à razão se era o certo a fazer. Não queria estragar o tão pouco tempo que já tinha com Annabeth com movimentos errôneos da sua parte.
— Onde estamos? Que casa é essa? — indagou Annabeth franzindo a testa para a lamparina. — Quando eu desmaiei, estávamos na estrada.
— Thalia a achou. É um bom lugar para ficarmos se não fosse o parque florestal. Matamos alguns walkers agora a pouco.
Annabeth arregalou os olhos, e Percy se arrependeu ter dito aquilo tão levianamente. Claro, estava acostumado em matar zumbis antes do café da manhã ou na madrugada dentro de uma floresta, porém Annabeth tinha acabado de chegar àquele mundo. Para ela ainda era tudo muito novo, muito assustador.
Percy se perguntou quanto tempo aquilo duraria.
— Seria bom se fôssemos embora por agora — disse ele, tentando esconder a tensão crescente. — Vai demorar um pouco para Nico colocar tudo de volta ao carro, mas antes do dia amanhecer estamos de novo na estrada.
Percy olhou para Annabeth, que continuava com aquela expressão em pânico, se tornando comum a ela, provavelmente se perguntando como Percy aprendera a pensar rápido daquela maneira. Ele deu um sorriso e abaixou os olhos, surpreendendo-se o quanto um tênis pode se tornar interessante quando se está num momento constrangedor.
— Percy... — Annabeth pronunciou o nome com cuidado, chegando perto à garoto. — Eu posso te perguntar qualquer coisa, certo?
Ele levantou os olhos e se deparou com o rosto de Annabeth muito próximo ao seu. Pigarreou assustado, sentindo as bochechas corarem fortemente, e se afastou alguns centímetros, encostando-se na beirada da cama.
— Hum, claro que sim... — ele disse entre gaguejos, inquieto.
— Como era... — Annabeth parou por um segundo, voltando a mexer nos lençóis nervosamente — Como era nossa, hm, relação antes disso tudo? Nós estávamos juntos?
Annabeth encarou Percy com olhos pedintes. Toda a força que tinha ganhado por ver a garota que amava de pé novamente pareceu se esvair. Ele engoliu em seco. Poderia mentir. Contar que eram namorados, que viviam juntos. Era um plano ótimo, ajudaria muito seus sentimentos complicados naquele momento.
Porém, não era o certo. A razão mais uma vez estava lhe deixando maluco. Estava correto — de novo. Não poderia falar aquilo para Annabeth, seria horrível. Mentir para a pessoa que ama, era tão...
— Éramos... — respondeu lentamente, escolhendo as palavras. — Mais ou menos. — Percy desistiu de subestimar a grande conexão que tinha com Annabeth ao vê-la encarando-a com curiosidade e um meio sorriso no rosto. — Na verdade, nós éramos melhores amigos. Do tipo, melhores. A gente brigava muito, é claro.
A mão de Percy ficou quente quando a de Annabeth apertou-a. Seus dedos transmitiam entre si carinho e ternura. Ele não queria quebrar o silêncio — parecia que ele sempre era seu ajudante, e também seu pior inimigo, quando o assunto se tornava Annabeth. Por isso, apenas deu um suspiro fraco enquanto sentia a mente ficar admiravelmente mais leve.
Annabeth voltara. Estava viva, ao seu lado, de mãos dadas com ele e fazendo perguntas sobre como era a vida delas antes do apocalipse. Tentou memorizar cada segundo, cada sentimento que passou por sua cabeça, cada expressão que chegava ao rosto de Annabeth. Assim como fizera meses antes de ela ficar em coma.
Mas, daquela vez, tinha certeza de Annabeth ficaria com ele.
Em algum lugar do Tennessee
5:23 AM
— Leo? — chamou Reyna pela vigésima vez.
O garoto forçou-se muito para voltar a terra. Ele piscou algumas vezes e sorriu fracamente para a namorada.
— Não conseguiu dormir, foi? — ela adivinhou.
— Estou preocupado, não posso fazer nada contra isso — disse Leo emburrado. — Eles não mandam um sinal há mais de dez horas. Alguma coisa aconteceu.
Ele não queria admitir para si o pior, mas começava a pensar na possibilidade. Nico e Percy haviam saído de sua antiga cidade há dois dias, e embora a viagem não fosse a mais agradável do mundo, eles deveriam ter chegado às proximidades de Nashville duas ou três horas antes. Perder mais pessoas não era algo bom para ele.
Sua família se resumia à Reyna e aos garotos que o seguiram fielmente durante o caos que se instaurava: Connor, Travis e Zoë. Era estranho pensar que os companheiros de escola na mesma idade que ele o haviam consagrado como um pai, mas agora ele teria de enfrentar as conseqüências.
Protegia-os. Cuidava de cada um como se fosse parte da grande família que perdera. Sentia falta de seus irmãos e pais como qualquer outro ali naquela fazenda no meio do nada, porém aprendera a superar a dor. Tinha outros objetivos, outros rumos, e muitos deles consistiam em trazer Percy e o resto dos sobreviventes para a fazenda.
— Leo, relaxe — tentou acalmar Reyna, virando-o para seu lado e dando-lhe um selinho. — Você conhece Nico e Thalia, eles devem ter parado para, sei lá, arrombarem alguma loja de rock. E Percy, poxa, ela é o Percy, por favor!
— Clarisse! — exclamou Leo de supetão, sentando-se na cama. Ele olhou para Reyna com pavor no rosto. — Nós esquecemos a Clarisse! Puta merda, ela tá com o Chris, Grover e Tyson! E se...?
Reyna fechou os olhos e se deixou cair na cama, bufando. Leo continuou alterado por causa da grande informação que lhe escapara. Esquecera de informar a Grover aonde iam! Que idiota fora, Grover rodaria todos os Estados Unidos à procura da grande propriedade de terra em que moravam e jamais a encontraria.
— Idiota — Leo se xingou, batendo a mão na testa fortemente, o que fez Reyna perceber o que o garoto estava fazendo e pará-lo. — Perdemos o Grover, é isso. Perdemos.
— Leo... — Reyna arriscou novamente acalmar o namorado com uma voz suave. — Ele tem um rádio-comunicador, nós temos um rádio-comunicador, Percy tem um rádio-comunicador. Grover e os outros não estão perdidos, ok? Estão viajando também, talvez tenham chegado ao ponto onde Percy e Nico provavelmente estão dormindo agora.
Do lado de fora, um galo cantou. Leo percebeu que os primeiros raios de sol já saíam e tentou, finalmente, se tranquilizar. Assim que o dia amanhecesse, decidiu, tentaria contato com os dois que ainda estavam na estrada. Não poderia deixá-los a esmo por aí. Cuidaria deles, como um bom líder faria.
Ele voltou a deitar-se, dessa vez, mais sossegado para tirar uma soneca antes recomeçar o trabalho que era cuidar de toda uma fazenda.
***
De volta a Percy e seu grupo
05:53 AM
— Nico, você tinha mesmo que trazer todos os nossos suprimentos aqui para dentro? — reclamou Percy em voz alta, carregando uma enorme caixa lotada de alimentos não perecíveis para fora da casa.
— Ah desculpa, você queria que eles fossem roubados no meio da noite por walkers? — retrucou Nico num tom homicida escondido por uma expressão sorridente. — Ou, quem sabe, por seres humanos?
Percy parou no meio da escadinha em frente à porta de entrada, barrando a saída de Nico, para encará-la com raiva. Thalia, atrás do namorado, ria silenciosamente da cena.
Era sempre assim, eles não passavam um minuto sem brigar. Thalia achava engraçado por que eles jamais tinham admitido se amar, porém sabia que os dois eram unha e carne, nunca deixariam a outra.
O Sol começava a despontar no horizonte, e Percy dizia que havia perdido tempo demais “tirando cochilos ou comendo”. Leo deveria estar morto de preocupação e não descansaria Reyna ou qualquer um dos outros garotos lá até que eles não chegassem.
Nico, por outro lado, discordara e queria esperar por Grover. Sem ter nenhum contato com o garoto durante o resto do dia anterior, ele queria ter certeza de que ele e os outros estavam bem e os seguiam. Faltava atravessar um estado e meio, e Thalia não sabia realmente o que pensar ali.
— Cala a boca, di Angelo — retrucou Percy de mal humor. Ele deu um empurrão em Nico, que agora ria descontroladamente. — E fica quieto, temos que ir embora.
Annabeth, que comia uma tigela de cereal seco em silêncio, sentada no balcão da cozinha, olhou para Thalia em total estranhamento. A morena riu e largou a caixa de remédios nos braços de Nico e foi sentar-se ao lado dela.
— Eles estão sempre são assim? — perguntou confidencialmente. Seus olhos mudavam rápido de direção entre Percy e Nico, que agora brincavam com seus facões como se a briga de antes jamais tivesse acontecido.
— Acredite, quando estávamos todos juntos, era bem pior — disse Thalia tranquila, pegando uma colher e dividindo o cereal de Annabeth. — Nico queria ser a líder, porém Percy tem mais faro pra isso e ele simplesmente não aceitava. Era um saco.
Thalia lembrou-se dos momentos de tensão na casa em que compartilhavam; a primeira vez em que ficou realmente preocupada com a relação dos doiss. A raiva na troca de olhares entre eles era horrível de se assistir, principalmente por ela, que passara boa parte da infância e da adolescência com eles.
Achava que, como vira pessoas que conhecia e ela própria mudar de forma drástica durante o início do apocalipse, Percy e Nico também mudariam, só que para pior, devido ao grande retrospecto dos dois em serem considerados como seriais killers. Felizmente, com o passar do tempo, seu namorado fora aprendendo a respeitar a liderança de Percy e aceitar que não tinha a aura tão poderosa quanto à dele.
Annabeth encarava Thalia, curiosa. Terminava a tigela de cereal calmamente, sem se importar que a garota tivesse comido também, observando tanto a morena que ela começou a se sentir desconfortável.
— Você mudou. — disse Annabeth após uns minutos.
Thalia levantou a sobrancelha. O truque que somente Percy sabia fazer havia passado para ela magicamente, talvez. Fora muito útil durante as invasões a prédios e mercados: as pessoas simplesmente lhe davam o que ela pedia. Suspeitava que a arma em sua cintura ajudasse, mas ela preferia confiar nas suas capacidades.
— Mudei? — Thalia devolveu a pergunta, fazendo Annabeth corar instantaneamente e enfiar a cara de volta à tigela de cereal quase vazia.
— É... — Annabeth se engasgou com as últimas colheradas, ainda observando atentamente a vasilha. — Você não é mais tão irritante e explosiva, eu acho. Você tá... Sei lá, tá madura. E antes que você pergunte Cara de Pinheiro eu não sinto falta da antiga Thalia.
Thalia deu um meio sorriso. Todos tinham reparado na sua mudança repentina quando todo aquele inferno começou. A habilidade com armas, o extenso conhecimento sobre zumbis e sobreviver durante um apocalipse, todo mundo notava aquilo. Porém poucos (o que significa Percy e Nico) estavam se sentindo acostumados com isso para tornar oficial que Thalia Grace tinha mudado, tinha crescido.
Ela se perguntou se essa era a razão de Annabeth estar com eles.
— Valeu, sua Sabidinha irritante. E se você quiser eu posso voltar a ser a antiga Thalia para você. — respondeu Thalia, rindo, dando uns tapinhas nas costas de Annabeth, ignorando sua careta de dor.
— Ei, suas lerdas! — Nico ouviu o grito característico de seu namorado na porta de entrada da casa com sua expressão conhecida de puro desprezo. — Vamos logo! A Miss Está-Amanhecendo-Precisamos-Ir vulgo Percy está esperando!
Thalia riu ao escutar os xingamentos que Percy estava gritando de dentro do Cadillac. Ela pegou a colher e a tigela em que Annabeth comera o cereal seco e as deixou na pia (elas pertenciam a casa) e puxou a mão dela para que saíssem logo dali e entrassem no carro, para que partissem de novo para a estrada.
***
06:25 AM
— Ei, aqui é o Leo.
Annabeth reconheceu a voz no mesmo instante em que ela ressoou pelo carro. Ela levantou a cabeça do colo de Percy, chegando a poucos centímetros de seu rosto, e corou fortemente, se afastando o quanto podia do garoto.
— Oi, Leo — cumprimentou Percy, ignorando o movimento brusco de Annabeth e puxando o rádio-comunicador para mais perto do volante enquanto dirigia. — Tudo beleza?
— Não! — respondeu o garoto parecendo indignado. Ela franziu a testa para Percy, que respondeu com um olhar confuso. Nico e Thalia, no banco de trás, pararam contar piadas antigas um para o outro para prestarem atenção na conversa. — Vocês somem da face da Terra pela porra de uma noite e espera que tudo esteja bem?! Claro que não está!
— Nós estamos bem, não se preocupe! — gritou Thalia, rolando os olhos, entediada. — Paramos por causa de...
Ela e Percy trocaram olhares pelo retrovisor, discutindo algo que Annabeth não sabia o que era silenciosamente. Leo continuou a gritar no rádio-comunicador, desvairado.
— E vocês se lembram do Grover?! Como poderiam deixá-lo na porra daquela cidade infestada de zumbis?!
— Por favor, Leo, se acalme! — exclamou Percy irritado, sendo obrigado a parar o carro no acostamento para lidar com os problemas do garoto. — Primeiro, nós não esquecemos Grover. Ele está a caminho, como nós. Segundo, paramos por que tivemos uma baita emergência, não podíamos continuar na estrada até hoje. Voltamos, estamos bem, e chegamos perto de Nashville em poucas horas, entendeu?
Annabeth ouviu Leo respirar fundo rente ao comunicador, tentando se acalmar. Perguntou-se por que Percy resolvera não comentar que ela estava viajando com eles. Considerava que estava bem, apesar das dores constantes nas costas, mas não achava que pudesse desmaiar ou ter um pequeno coma durante a viagem ou até mesmo na fazenda que Leo arranjara. O que teria que fazer era tomar os remédios que Percy roubara no hospital e estaria ótima como antes.
Ela esperava.
— Leo! — Uma voz gritou do outro lado. Annabeth quase engasgou de felicidade: parecia-se irritantemente com Zoë. Percy lhe falara que ela estava com Leo na fazenda, mas ouvi-la era algo completamente diferente. Dava novas esperanças, informava que não eram somente eles naquele mundo. — Pare de gritar com as garotas, eu disse a você que estavam no caminho!
Thalia e Nico se entreolharam, caindo na risada. Percy riu também e até Annabeth esboçou um sorriso. No meio daquele inferno, era bom achar coisas idiotas para dar risada.
— Parece que achamos nossa mamãe. — murmurou Thalia após Leo ter desligado o rádio-comunicador para voltar a cuidar da fazenda. Ela tinha lágrimas nos olhos e seus ombros ainda sacudiam da tantas risadas. Nico, ao lado dela, parara de rir e tentava acudi-la.
— Melhor que nada, eles têm mesmo faro para isso — retrucou Percy, ficando sério novamente e colocando o Cadillac na estrada outra vez. — Lembra-se da nossa casa? Eles mandaram ali depois que.
Annabeth ficou quieta.
Talvez tenha sido por isso que Percy não comentara muito sobre o período sombrio que haviam passado antes de ela acordar. Talvez ele quisesse que suas memórias fossem as mesmas, que não precisasse se corromper mais do que deveria no mundo em que estavam. De alguma forma, Annabeth estava agradecida.
No entanto, observar Nico, Thalia e Percy falando de coisas que não fazia ideia do que era a deixava com um pouco de inveja. Não que quisesse estar ali, no apocalipse zumbi, Annabeth queria apenas saber do que elas estavam falando, compartilhar as lembranças que eles tinham; ser útil de alguma maneira para eles. Naquele momento, ela se sentia como um grande saco que só trazia problemas.
Obrigara Percy a parar no hospital para resgatá-la. Sequer sabia o que tinha lhe acontecido para estar na maca. Queria perguntar sobre seu mundinho destruído, mas tinha medo das respostas. Sentia dores em todos os lugares do corpo, e isso causara uma noite de atraso por que ela desmaiara por horas.
Annabeth sabia que as intenções de Percy eram boas ao tirá-la da cidade, no entanto ela nunca quis tanto estar em coma. Não poderia com aquele mundo, simplesmente não podia. Era informação demais, coisas demais para aturar em um único dia. Sua vida jamais seria a mesma, ela preferia ficar trancada num quarto de hospital até que tudo ficasse bem outra vez.
Seu olhar e o de Percy se encontraram.
O garoto deu um meio sorriso tímido e voltou seus olhos para a estrada. Annabeth não saberia dizer por que mais tarde, mas algo havia mudado na sua percepção do apocalipse. O sorriso que Percy lhe dera não mudara muita coisa, os dentes perfeitos e boca bem delineada continuavam lá. O olhar cheio de dor e esperança que ela costumava captar antes do coma, tempos antes, ainda era o mesmo.
Então por que, de repente, Annabeth achava tudo mais bonito?
Sempre a admirara, Percy. Ele era perfeita, sem discussões. Às vezes ela pensava que era a única a ver a dor que perpassava nos olhos de Percy quase que constantemente. Annabeth admirava Percy por que ele jamais falava sobre seus problemas. Sempre mantinha um sorriso no rosto por que era aquilo que sua família esperava.
A invasão zumbi podia significar o fim do mundo para muitos, no entanto, para Percy, Annabeth percebeu, era somente um recomeço. Ele perdera algumas pessoas especiais, mas era sempre assim em sua vida. Eles iam e vinham. E ali, na sociedade nova e assustadora que crescia, Percy poderia ser ele mesmo.
O complicado para Annabeth era saber o que Percy era de verdade.
— Uou — assoviou Percy impressionado, sobressaltando Annabeth. Pensara, por um segundo, que o garoto lera todos os seus pensamentos, mas ela acompanhou os olhos dela fixos em frente, ficando também surpresa.
Percy parara de dirigir o Cadillac não por que queria, e sim por que, poucos quilômetros à frente, se erguia um engarrafamento enorme. (N\\\\A: Quem já assistiu TWD, sabe aquele engarrafamento da Season 2, onde aparece vários walkers e Sophia se perde? Então um engarrafamento tipo aquele.) Annabeth via carros saindo fumaça, outros se dirigindo sozinhos e a maioria deles abandonados. Não encontrou pessoas nem walkers à vista.
— Thalia... — chamou Percy. Era impressão de Annabeth ou ela notara um tom medroso na voz do garoto por baixo de toda a coragem que ele tentava transmitir?
— Sem opções — informou Thalia checando o GPS e o mapa. Annabeth franziu a testa, imaginando por que o GPS ainda funcionava se a transmissão fora cortada dias antes. — Vamos ter que remover os carros para passar.
— Que bom, por que eu estava mesmo pensando quando usaria minhas habilidades de fazer carros levitar — disse Nico, sarcástico. Annabeth também percebeu o temor por baixo de sua voz.
— E como vamos removê-los? — indagou Annabeth. Ela assustou ao perceber que sua voz permanecia calma. — Somos apenas quatro, e eu estou inválida.
Ela queria ajudar, queria muito, porém a dor nas costas era mais forte que qualquer pretensão que teria dali pra frente. O que fez Annabeth pensar mais uma vez na possibilidade de ter ficado no hospital.
— Vamos tirá-los com as mãos. — disse Percy decidido, pegando seu facão e abrindo a porta do Cadillac.
— É, então vamos lá. — comentou Nico, sorrindo automaticamente. Ele também pegou sua arma e saiu do carro.
Annabeth e Thalia se entreolharam pelo retrovisor, as expressões confusas. Percy e Nico eram os badass dali, mas elas não podiam ficar no Cadillac por muito tempo sem ter uma arma. Thalia estava madura e crescida, entretanto, Annabeth não achava que ela era boa com armas. O tiro que ela dera num zumbi noutro dia fora demais, porém pensava que era apenas sorte.
— Ei, vocês vão ficar aí? — indagou Nico irritada. Ele abriu a porta de trás do carro e puxou Thalia para perto dele e lhe entregando um machado.
Percy apareceu no vidro aberto do banco do passageiro, fazendo Annabeth dar um gritinho assustado. Depois do susto, os dois riram brevemente, e Percy ofereceu a Annabeth uma pequena adaga de bronze. Abriu a porta do Cadillac e pediu para que ela descesse.
— O quê? — Annabeth olhou para a faquinha e depois para Percy. — Você quer que eu mate zumbis, é isso?
— Não quero que você fique aqui no carro — respondeu o outro, preocupado. — Precisa ficar perto de mim, onde eu possa te ver. Vai saber quantos carros tem aqui. Isso aí — ele apontou para a faca — é apenas uma precaução.
Annabeth acenou em concordância, desejando que suas bochechas parassem que corar. Mordeu o lábio e olhou rapidamente para Percy. Ele tinha seu costumeiro olhar superior, simplesmente por que parara de prestar atenção em Annabeth e observava o horizonte.
Annabeth saiu do Cadillac e bateu a porta, reparando nos pequenos detalhes da faca. O cabo era de couro e macio tinha uns desenhos; o bronze reluzia tanto que o sol da manhã era mais brilhante que o de meio-dia. Havia uma minúscula inscrição no bronze, talvez em latim, que Annabeth não conseguiu ler. Ela olhou para Percy, que saíra com Thalia entre os carros, e imaginou se poderia perguntá-lo o que era assim que voltasse a estrada.
— Está escrito “My Lady, My Beautiful”. — Nico se aproximou de Annabeth ao ver o que ela estava admirando. — Era da mãe de Percy. Um presente do pai dele.
Ela assentiu, ainda com os olhos da lâmina da faca. Ela perdera praticamente todas as aulas de latim durante os primeiros anos de ensino médio — a maioria das vezes por que não conseguia falar o idioma morto sem enrolar a língua completamente. Contudo, em algum lugar dentro da sua cabeça confusa, olhar para a inscrição na faca trazia algumas lembranças.
— Percy ensinou latim para você, sabia? E você grego a ele. — disse Nico para quebrar o silêncio, sentando no capô do Cadillac com os olhos grudados onde Thalia e Nico empurravam o primeiro carro para longe da pista. — Não por obrigação ou coisa do tipo, e sim por que ele gostava. Fazia ele feliz.
Annabeth queria pedir para Nico parar, mas a perspectiva dele dizendo a ela o que acontecera durante grande parte do ano anterior que sumira de sua cabeça era curioso.
Então tomava aulas de latim com Percy. Interessante. Odiava a matéria e Percy provavelmente a ajudara a pelo menos suportá-la. Por um momento, pôde vê-los em seu antigo quarto, rindo e brincando, os materiais esquecidos há muito na escrivaninha. Ela esboçou um sorriso. Algo lhe dizia que não era imaginação o que tinha acabado de pensar.
— Ei! — gritou Percy se aproximando, pingando de suor. Annabeth acordou de seus devaneios, suspirando ao ver Percy limpando a testa suada, sua camiseta curta dos Beatles erguendo alguns centímetros e deixando à mostra seu abdômen. — Nico, nós precisamos de você! Annabeth...
A tensão cresceu. Estavam a poucos metros de distância uma da outra,Percy vinha ganhando espaço rápido com seus passos largos. Annabeth ouviu Nico dar uma risadinha irônica à reação dela enquanto ia se juntar à Thalia. Não se importou. Percy manteve distância, mas ela via nos olhos do garoto um brilho que jamais tinha visto.
— Fique perto de mim — pediu num sussurro.
Havia como ela discordar?
Notas finais
Queria deixar um final com mais suspense só que não consegui. Então SEM COMETÁRIOS/REVIEWS SEM CAPÍTULO NOVO.
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