Nothing Left To Say
2 Cap. 2 - Stronger
Notas iniciais
Então chega de baboseira e vamos para o cap.
Nós vemos lá em baixo. (Não esqueçam de escutar a música do cap Stronger - Demi Lovato. E se possível ver a tradução)
Flashback On
1:30 PM
— Annie, você tem certeza disso? — perguntou Percy lá de baixo, olhando preocupado para a amiga, que subia lentamente os degraus da escada. — É muito alto!
Annabeth olhou para baixo e sorriu radiante, continuando a subir. Ela estava pendurando o pôster gigante para a campanha de Thalia à presidência do grêmio estudantil com certeza arrancaria votos da maioria dos jogadores de futebol.
Era uma estratégia de marketing estar ali, durante o treino dos garotos, para colocar a faixa no prédio alto do colégio. Alguns haviam parado para observar, e depois serem gritados pelo treinador Gleeson Hedge para continuar o serviço. A primeira parte do pôster já tinha sido colocada, faltava apenas ajeitar o lado esquerdo e tudo estaria pronto.
— Annie... — ela ouviu Percy gemer, o tom medroso da voz do garoto a fazendo rir. Sua amizade com Percy tinha começado de forma estranha no verão quando eram crianças. Percy praticamente fazia tudo o que ela pedia. — Por favor, desce daí logo!
Percy bufou, começando a se arrepender de ter deixado Annabeth se apoderar da escada do zelador para colocar aquele cartaz gigante idiota. Suas mãos tremiam ao segurar a madeira do objeto, esperando que isso não fosse afetar a confiança de Annabeth a quase dez metros de altura.
Annabeth encaixou a última parte do pôster no prego posto antes pelo zelador da Half Blood e virou-se para dar um sorriso vitorioso à Percy. O garoto, apesar de todo o medo e revolta por ter a sensação de que algo poderia dar terrivelmente errado, não deixou de sorrir também.
Annabeth era maravilhosa, Percy se alegrava por ter uma amizade com ela. Claro, suas intenções eram outras quando apareceu na varanda da casa dela no começo do verão para pedir algumas dicas de estudo, mas estava contente por ser amigo dela.
Então, o mundo de Percy parou por um segundo.
Ele não viu a bola de futebol voando alto por ele, não ouviu o grito desesperado de algum jogador idiota de futebol americano. Só entendeu o que estava acontecendo quando seu instinto a tirou do caminho ao ver Annabeth Chase caindo em câmera lenta em sua direção.
O baque surdo do corpo pequeno de Annabeth ao cair na grama despertou Percy. Ele também estava deitada no chão, mas não hesitou nenhum segundo ao levantar-se e correr para a garota que amava.
As pernas de Annabeth formavam um ângulo estranho. Ela estava desacordada, e Percy caiu no gramado ao lado dela, sem saber o que fazer, sem saber como afastar os jogadores curiosos, lançando olhares à Annabeth de pura pena.
— Ela não está morta, ela não está morta — Percy se pegou repetindo enquanto sacudia veementemente o corpo imóvel de Annabeth na estúpida tentativa de acordá-la
— Percy, deixe o treinador Hedge levá-la ao hospital! — exclamou alguém, Percy reconheceu como Luke. Mas não, ele sacudiu a cabeça em negação e tentava muito controlar as lágrimas. Ainda balançava Annabeth à procura de algum sinal de vida.
Ao contrário de Luke, o treinador Hedge não hesitou em tirá-la dali.
— Calma Percy — disse a voz grave de Luke em seu ouvido.
Mas Percy não queria estar calmo. Não, não podia deixar Annabeth morrer, não podia... Se aquilo acontecesse, seria culpa dele.
***
Flashback Off
11:10 AM
— Meu Deus, meu Deus — Percy ouviu Annabeth murmurar, balançando para frente e para trás rapidamente, num ritmo contínuo.
Ele tentara confortar a garota, mas Annabeth se encolhera perto da janela, o mais longe possível dele. Queria perguntar o que estava acontecendo, mas a imagem ainda fresca na memória de Nico dando dois tiros certeiros em Quíron e Dionisio explicou tudo.
Nunca tinha visto Nico garota daquela forma, pelo menos não desde a recente morte de sua irmã, Bianca. Tinham se afastado pelo menos trinta quilômetros da pequena estrada e Nico ainda se sacudia no banco do carona, chorando torrencialmente. Thalia agora dirigia, com um olho na estrada e outro no namorado, acariciando seus cabelos negros e lhe dizendo palavras de consolo.
Mas Percy sabia que não existia consolo para aquilo. Ele havia matado um amigo também — embora não gostasse muito de Luke, a história que eles tinham era demais para ser ignorada —, já tinha sentido o que Nico estava passando naquele momento: a indignação de vê-lo transformado, o horroroso ato de atirar nele e observá-lo cair enquanto tem de correr pela própria vida, e mais tarde, onde a mente a leva a pensar que poderia ter dado certo se um pequeno erro atrás fosse corrigido.
Thalia queria confortar Nico, fazer a dor que ele estava sentindo passar, dizer que estivera na pele dele, quando lembrou que ela tinha passado por aquilo duas vezes, em menos de um mês. Como dormia na cama ao lado de Nico na casa enorme em que se hospedavam, às vezes ela o ouvia chorando, tão baixinho que nem dava direito pra escutar. No dia em que encontrara Jason, Bianca e Piper na saída da cidade, Nico e Thalia chorara a noite inteira, e tudo o que Percy queria fazer era se juntar à vigília de Leo para não precisar escutar os amigaos sofrerem tanto.
— Percy...
Annabeth ergueu os olhos para ele. Estavam vermelhos e inchados. Quando o garoto abriu a boca para responder, Annabeth prontamente se grudou no corpo dele, soluçando e tremendo tanto quanto Nico.
Percy não fez nada além de englobá-la em seus braços, fazendo sons que ouvia sua mãe imitar para ele quando criança. Eles aoacalmavam durante a noite quando tinha seus pesadelos estranhos. Esperava realmente que tivesse o mesmo efeito em Annabeth.
Ele tentava não chorar, tentava permanecer forte para Annabeth, para Thalia e Nico por que era o verdadeira chefe ali, mas ter Annabeth em seus braços, tão machucada, tão sofrida, ainda doente por causa dos meses em coma, lhe causava uma dor imensa. Tinha que permanecer forte, uma voz dizia em sua cabeça.
Permaneça forte, Percy.
— Thalia — chamou Percy, impressionado por sua voz ter saído enérgica. — Acho que precisamos parar um pouco.
Thalia, que oferecia colo à Nico, concordou. Ela andou mais alguns quilômetros até parar numa nova estradinha de terra, que, felizmente, não tinha nada além do Cadillac e dos quatro garotos. Percy imediatamente saiu do carro com a pistola a tira colo e pegou as chaves com Thalia para abrir o porta-malas, tirando de lá quatro banquinhos de madeira e os colocando ao lado do carro.
Percy carregou Annabeth até um deles e se agachou perto dela. Ofereceu um pouco de água, que também pegara do porta-malas, e tentou dar um sorriso. Doía ver Annabeth — a grande Annabeth Chase, a garota cheia de sonhos e sorrisos que poderiam iluminar toda a cidade — daquela forma. Ela parecia aturdida, com os olhos cinzentos sem brilho, olhando para os lados como se esperasse que um zumbi fosse sair da mata que encobria a estradinha e atacá-la. Estava aterrorizada, e Percy sinceramente não sabia o que fazer com aquele torpor que passava pela cabeça dela.
A poucos metros deles, Thalia conseguira algum sucesso com Nico. Ele parara de chorar e bebia a garrafa de água num gole só. Seu olhar estava tão confuso quanto o de Annabeth, e ele apenas mudou a direção de seus sentimentos quando Thalia lhe deu um selinho e a abraçou.
Percy observou tristemente a cena das doiss. Desejava poder fazer isso com Annabeth um dia. Pegá-la deprimida e fazer cócegas nela até conseguir ouvir a risada escandalosa dela. Queria muito sorrir para ela e melhorar tudo ao seu redor. Suspirou, abatido pelas lembranças da época em que ele e Annabeth pasaram antes de ela entrar em coma. Nenhum apocalipse zumbi iria impedi-lo de ter aquilo de volta.
— Vai ficar tudo bem, não vai? — soluçou Annabeth após alguns minutos, deixando que Percy enxugasse suas lágrimas. — Vamos cuidar um dos outros, e nada vai nos acertar, certo?
Percy mordeu o lábio, desejando responder àquela pergunta com sinceridade. Mas sabia que não podia. Não queria ser o culpado pelo retorno da choradeira de Annabeth. Desviando o olhar daqueles grandes olhos cinzas pedintes, ele disse:
— Nós vamos cuidar um do outro, isso eu prometo. Eu lhe disse que iríamos nos safar dessa, e não vou descansar um minuto até que nós estejamos salvos no local onde Leo está.
A boca de Annabeth se entreabriu num pequeno sorriso, e Percyachou aquilo um começo. Ele beijou a testa da garota e se levantou ao ouvir o chiado conhecido do rádio-comunicador dentro do porta-luvas do Cadillac. Sentou-se no banco do passageiro e o ligou, ouvindo a voz de Leo quase que instantaneamente.
— Câmbio... Leo falando, tem alguém aí?
— Sim, Leo, é Percy — o garoto respondeu, achando graça da seriedade dele. Podiam estar no fim do mundo, mas ver Leo Valdez agindo seriamente continuava estranho. — Aconteceu alguma coisa?
— Você tem que falar câmbio, Percy, faz parte do negócio — reclamou ele, e Percy deixou escapar uma risada. Esperava que chegassem a Nashville logo. — Mas enfim... Estamos bem. Encontramos uma fazenda longe de tudo... Os donos simplesmente sumiram. Tudo está em perfeita ordem, parece que eles saíram apenas com a roupa do corpo. Tem comida, energia elétrica, uma horta... Acho que poderemos viver aqui por uns tempos.
— Esqueceu de falar câmbio — brincou Percy, rindo. Leo bufou do outro lado da linha, irritado. Tinha se esquecido do quanto era bom importunar o garoto.
— E vocês, como estão? Câmbio. — Ele enfatizou a última palavra.
— Não muito bem... — o sorriso de Percy sumiu. Ele olhou para fora do carro e encontrou Thalia estava consolando Annabeth. Franziu a testa, observando que Nico procurava algo no porta-malas, provavelmente alguma das bolachas que trouxera. — Nico acabou de matar os zumbis Quíron e Dioniso.
Leo ficou em silêncio, e Percy não sabia se ele estava apenas esperando que ele dissesse câmbio ou se estava digerindo a notícia. Decidiu esperar, lançando outro olhar ao lado de fora do Cadillac, vendo agora que Annabeth começar a conversar com Thalia e Nico, animada. Ele se perguntou o que estava acontecendo.
— Cara, que péssimo. — Percy tinha que admitir que Leo talvez não fosse o melhor com palavras de consolo. Ele ouviu gritos durante a transmissão e arregalou os olhos, imaginando um ataque de walkers na fazenda que Leo achara. — Merda... Tenho que ir, Zoë e esta querendo matar Connor e Travis por causa de suas pegadinhas. Vejo vocês em breve. Câmbio e desligo.
O rádio ficou mudo. Percy respirou aliviado, sorrindo por que problemas idiotas como aquele eram rotina. Ele gostara de saber que coisas normais, como Travis e Connor ainda fazendo pegadinhas, continuava acontecendo. Mantinha o espírito humano em todos eles.
Percy continuava conversando animadamente com Thalia. Na antiga realidade delas, elas eram melhores amigas. Era bom saber que elas continuavam do mesmo jeito de sempre.
De qualquer maneira, seu coração apertou ao ouvir a risada das duas combinando perfeitamente. Ele não fora capaz de fazer Annabeth rir no seu pior momento, e só o fato de Thalia ter se aproximado causou nela uma combustão espontânea de risadas. Percy sabia que aquilo era bom tanto para Annabeth quanto para Thalia, que nos últimos meses estava mais distante que o normal.
— Leo? — indagou Nico quando Percy se juntou a eles.
— Sim. Encontraram uma fazenda no meio do nada. Vão ficar por lá. Estão nos esperando. Zoë estava querendo matar Connor e Travis como sempre — disse Percy de forma monótona e rápida.
Annabeth olhou para elaee riu.
— Não parece bom para você — disse ela, arrancando risadas de Thalia e Nico, o que fez Percy franzir a testa e se perguntar porque eles começaram a compartilhar piadas internas.
— Qual é... Cabeça de algas, estamos tentando arranjar algo para sorrir aqui, você deveria fazer o mesmo — falou Thalia, bagunçando o cabelo de Percy.
— Acho melhor irmos, não? — sugeriu Nico, pegando seu banco de madeira e levando até o porta-malas. — Não queremos perder a morte de Connor e Travis.
Fazia muito tempo que Thalia não ria daquela forma. Dividir aquela alegria contida com Annabeth, tornava tudo muito melhor. Sentia que poderia passar por todo aquele inferno com sua amiga ao seu lado.
***
12:37 PM
Thalia continuou a dirigir o Cadillac quando eles partiram mais uma vez pela estrada. Os ânimos ainda não eram os dos melhores, mas ela conseguia ver um futuro para os quatro.
Quando os zumbis começaram a atacar a cidade, Thalia espantou a todos. Ela sabia como lidar com eles, como usar as espingardas, as metralhadoras, as pistolas... Acima de Percy, ela era a garota mais poderosa do grupo de sobreviventes que tinham montado.
Thalia aprendera a maioria do que ensinara aos garotos em jogos de videogames e em livros que pedia emprestado a Annabeth. É claro que fora difícil ler aquelas letras minúsculas dos livros gigantes sobre zumbis que a amiga tinha, mas com a ajuda de Annabeth, ela foi se aperfeiçoando.
Durante os poucos meses em que o mundo se transformara de forma radical, Thalia decidiu que precisava mostrar pro mundo quem ela realmente era, e ajudando pessoas durante um apocalipse zumbi era uma boa forma de começar.
— Thalia, me diz o que está acontecendo — pediu Nico num sussurro, tirando Thalia de seu devaneio. — Por favor.
A verdade era que não estava acontecendo nada. Thalia não escondia segredos de Nico desde que se conheceram — a época em que se conheceram. No entanto, por alguma razão, ela achava que algo estava se passando por baixo de sua cabeleira morena. Perguntou-se se a grande pressão dos últimos dias — Leo ter ido embora, Percy salvando Annabeth, eles fugindo da cidade, e agora os zumbis Quíron e Dionisio — estavam lhe causando também delírios.
— Estou bem, Nico — respondeu Thalia, tirando os olhos da estrada por um momento e dando um sorriso bondoso à Nico. — Confie em mim, estou bem.
Nico assentiu e sorriu de volta, dando um beijo na bochecha de Thalia. Ela voltou a ficar séria e a encarar a estrada como se tivesse algum objetivo ali. Tinha, por enquanto, pensou. Chegar a Leo, se abrigar na fazenda dele e salva a pele de Connor e Travis. E sobreviver, é claro. Não poderia esquecer aquele item.
— Não vamos parar? — Annabeth indagou alguns minutos mais tarde, onde o silêncio foi preenchido por um cassete do Guns ‘N Roses. Nico cantava Sweet Child O’Mine em voz alta.
— Por quê? — Percy devolveu a pergunta, sinceramente curioso.
Thalia adorava observar os dois juntos. Sentados no banco de trás do Cadillac, Annabeth antes discutia com Percy sobre arquitetura, sonho que Thalia sabia que tinha sido completamente destruído, porque Annabeth sonhava em se torna uma arquiteta famosa. Eles estavam distantes uma do outro, mas suas mãos se tocavam distraidamente, os dedos brincando entre si. Annabeth não percebia nada, porém Thalia notou o sorriso pequeno que se formava nos lábios de Percy, e não pôde deixar de se sentir um tanto orgulhosa.
Antes de o mundo virar de cabeça para baixo, quando Annabeth ainda era Annabeth e estava em coma, Thalia viu Percy desabar. O garoto forte, líder de todos e durão não existiu por um longo tempo. Percy apenas queria passar maior parte do dia ao lado da cama de Annabeth no hospital, sem se importar com os xingamentos de seu pai dizendo que ele não deveria estar ali ou sua mãe implorando para que ele voltasse para casa.
Uma vez Percy voltou à sua casa com cabelo com um corte novo mas, estava começando a crescer novamente, mas ninguém notou. Percy apareceu no outro dia na escola com roupas que nenhum de seus amigos jamais pensaria que ele usaria e o cabelo com um tamanho maior que o normal. Todos ficaram particularmente chocados, mas Thalia aprovou. Aquele Percy era o mais verdadeiro que ela já tinha visto desde que se conheceram na infância.
— É quase uma da tarde — disse Annabeth como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Percy franziu a testa, e Nico até baixou o som para ouvir a discussão com mais clareza. Thalia mudou a marcha do carro e acelerou um pouco mais.
— E…?
— Não deveríamos ter parado para almoçar?
Nico e Thalia se entreolharam com ar de riso. Percy pigarreou, também controlando sua risada, e respondeu:
— Não temos tempo para isso, Annie. Se não percebeu, estamos com sérios problemas. Os restaurantes na beira da estrada podem nos servir comida, claro, mas nós podemos virar a comida, entende?
Desapontada, Annabeth concordou. Percy fez uma expressão de como sentisse pena e tirou do bolso de sua jaqueta de couro uma barra de chocolate e entregou à Annabeth.
— Coma — disse. — Ao pararmos pela tarde, eu esquento algo para você.
Percy esquentaria algo para todos, Thalia se pegou pensando. Ela era uma negação na cozinha, Nico mal sabia fazer gelo. Percy era o único ali com jeito para encarar um fogão e não fazer nada pegar fogo. Os dois mini-bar, que magicamente funcionavam sem uma tomada, que tinham trazido estavam lotados de comida congelada, água e vodka, que Nico insistira em trazer.
A outra parte da comida que não precisava de nenhum gelo para continuar gostosa estava enrolada em grandes vasilhas plásticas, agora escondidas no porta-malas dentre as roupas e armamentos. Thalia esperava que houvesse armários na fazenda que Leo encontrara, pois o grande porta-malas do Cadillac tinha possibilitado que eles trouxessem várias coisas, inclusive objetos esquecidos por Leo e da sua trupe.
O rádio-comunicador chiou outra vez, sobressaltando os garotos. Annabeth, que dividira a barra de chocolate entre os quatro, olhou para Percy, como se a garota soubesse quem era daquela vez.
Percy deu um peteleco na cabeça de Nico, mandando ele atender.
— Não precisava fazer isso, cara! — exclamou o outro indignado. Thalia parou o carro no acostamento da estrada vazia para que não tivesse tanta interferência. — Nico falando, câmbio.
— É o Grover aqui — a voz se fez ouvir no interior do carro, cheia de preocupação e pesar. Percy esperava uma notícia boa, talvez que eles já estivessem no carro em direção a Nashville, mas o tom de Grover não demonstrava aquilo. — A cidade foi sitiada.
Thalia mordeu o lábio. Não sabia o que era sitiada, mas pelas expressões de Annabeth, deveria ser algo muito grave. Ela olhou para Annabeth, pedindo uma explicação do que estava acontecendo. Falou num tom estranhamente calmo.
— Eles estão presos lá.
— Arranje um jeito de sair, Grover! — exclamou Percy. — Você não pode morrer! Nem o Tyson, muito menos Chris e Clarisse, pelo amor de Deus!
— Eu sei... — Grover parecia mais perdido que nunca. Nico tentou extravasar a raiva socando o porta-luvas enquanto Percy tinha um semblante dolorido no rosto e era consolado por Annabeth. — Por isso, então, eu e o Chris burlamos todo o sistema de segurança e saímos agora a pouco.
A atmosfera do Cadillac mudou drasticamente. Percy levantou os olhos e olhou incrédulo para o rádio-comunicador; Thalia notou que Annabetg apertava com tanta força a mão de Percy que os nós de seus dedos estavam brancos. Nico forçou-se a inspirar e expirar três vezes antes de conseguir ouvir a risada longa e rouca de Grover pelo rádio.
— Filho-da... — Mas Percy não completou o xingamento, pois Annabeth o encarava com severidade. — Onde vocês estão?
— Perto de Fletcher — respondeu Grover, ainda rindo. Annabeth distinguiu a voz de Chris e as broncas de Clarisse por trás da voz do garoto. — Tá bom, tá bom! Tyson mandou um oi. Estamos indo para Nashville, certo?
— Exatamente, Grove — confirmou Nico, com uma raiva exagerada em seu tom.
— Beleza. Vejo vocês daqui a pouco então.
E desligou.
***
1:20 PM
— Desgraçado! — exclamou Percy assim que Nico guardou o rádio-comunicador. — Me passou um susto do caralho, filho-da-mãe!
Annabeth arregalou os olhos. Não se lembrava da grande boca suja que Percy tinha. Ele sempre parecia bondoso e legal, não era o tipo de garoto que saía por aí falando palavrões.
É claro que muita coisa mudara. Percy não tinha a pose de bom garoto mais. A jaqueta de couro e os cabelos compridos ainda causavam sérios tremeliques em Annabeth. Ela não sabia exatamente o que era, mas ter aquele Percy perto dela era muito mais interessante do que o antiho Percy. Pelo menos seu estilo punk dizia o que poderia vir dele.
— Percy, menos palavrões — ralhou Thalia, olhando o garoto pelo retrovisor do Cadillac. Pode parecer mentira mas Thalia odiava palavrões tanto quanto Annabeth.
Annabeth controlou a risada ao perceber que Percy atendera a bronca da motorista, assim como Nico, que permanecia quieta em seu canto, resmungando palavras em italiano que Annabeth tinha certeza que Thalia não entenderia.
O mundo poderia estar indo de mal a pior, mas Annabeth se sentia bem perto dos seus amigos. Ver seus antigos professores Quíron e Dionisio transformados em walkers tinha sido uma experiência assustadora e traumática, porém a presença de Percy, o jeito maluco de Thalia demonstrar carinho (como falar mal de você na sua frente) e a atitude estranha porém carinhosa de Nico, ajudou a dar um sorriso naquele dia aterrorizante.
— Foi mal, Thalia — desculpou-se Percy, baixando a cabeça. Ele virou-se para Annabeth e lhe deu uma piscadela divertida. — Tudo bem aí?
— Você tem que começar a perguntar isso para os outros dois — disse Annabeth sorrindo, sentindo uma pontada de dor nas costas que acabou ignorando.
— Ah, eles estão ótimos — murmurou Percy descrente, acenando displicente para Thalia e Nico. Ele se aproximou alguns centímetros de Annabeth, e, estando num Cadillac, aquilo era muita coisa. — Você só viu o caminho do hospital até a estrada. O interior da cidade tinha coisas piores. Dói dizer isso, mas depois de um tempo você acaba se acostumando.
Percy deu um sorriso triste. Annabeth fez uma careta por causa da dor, que tentou transformar num sorriso. Não queria que Percy se preocupasse ainda mais com ela. Por baixo daquela cabeleira longa, um mundo inteiro se escondia, Annabeth sabia disso.
— Quando tempo fiquei em coma? — perguntou de supetão.
Percy se enrijeceu. Levou alguns minutos para que ele movesse a boca, e quando o fez, murmurou:
— Quatro ou cinco meses. Não sei dizer.
Ele tentava passar indiferença à Annabeth, mas tudo que o garoto conseguiu captar foi aflição na voz de Percy. Parecia mais dolorido para ela falar sobre o tempo em que Rachel ficara em coma do que matar walkers que eram seus amigos antes.
Os olhos de Percy se fixaram na paisagem que passava pela janela do carro. Annabeth mordeu o lábio, a dor nas costas ficando mais forte a cada segundo. Ela não sabia se queria chorar pela dor ou pelos olhos apáticos de Percy. Descobriu que a dor que sentia naquele momento não era nada comparada à dor com que Percy teve de lidar todos aqueles meses.
Annabeth podia não se lembrar de nada que havia acontecido antes do acidente, mas aquela conexão que tinha com Percy nas últimas horas não era algo de momento. Sua necessidade patológica de estar perto dele quando se encontrava desesperadamente perdida diante do mundo apocalíptico onde estavam não vinha só por que ela a havia salvado do hospital.
Annabeth sabia que tinha alguma coisa acontecendo entre eles antes do acidente, algo que fez Percy ir salvá-la, que a fazia perguntar para Annabeth toda hora como ela se sentia, o que fazia ele a encarar tão ternamente. Ela só queria saber o que era. Percy não parecia tendencioso a contar algo, e Annabeth não desejava colocá-laonovamente no mar de angústia por qual passava toda vez que tentava retornar ao passado.
— É muito tempo — comentou Annabeth estupidamente, quebrando o silêncio. A dor em suas costas estava agora se tornando insuportável. Tentava ignorar, mas Percy também parecia ter notado que algo estava acontecendo e franziu a testa para ela, esquecendo de sua amargura.
— O que foi? Annie, o que tá acontecendo? — questionou Percy alarmado, o olhar de preocupação voltando a seu rosto.
Annabeth exprimiu uma careta de dor, se contraindo no banco do carro. Percy olhava para ela perdidamente, como se fosse encontrar uma forma de salvá-la apenas balançando as mãos num ritmo louco.
Quando Annabeth gritou, Thalia e Nico finalmente se viraram para ver o que acontecia no banco de trás. Annabeth queria dizer que estava tudo bem, mas obviamente as coisas passavam longe disso. Ela não sabia o que tinha lhe acontecido para ter entrado em coma por cinco meses, mas a execrada dor nas costas dava uma dica.
Seus ossos doíam, os órgãos internos se remexiam violentamente. Que estúpido Percy fora ao tirá-la daquele hospital. Tinha saído do coma, mas não estava inteiramente bem. Os tratamentos, as vacinas, todas as coisas que precisaria para seu corpo sentir-se novo outra vez estavam esquecidos há muitos quilômetros de distância.
Antes que pudesse pensar que morreria no Cadillac velho do avô de Thalia, Annabeth sentiu os músculos relaxarem por completo e os olhos se fecharem por conta própria.
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