Notas iniciais
Gente, é com dor no coração que venho aqui postar agora o epílogo desta fic.
Quem me conhece, sabe que esse é um tema muito e muito íntimo meu e que de certa forma, resolvi compartilhar como fanfic com vocês.
Nunca pensei que NGGYD fosse chegar a repercussão que ela tem hoje, afinal, há mais ou menos dois anos atrás eu somente a beta para as minhas amigas desse fandom. Porém, aos poucos essa estória começou a gritar para ser escrita e bem... chegamos até aqui.
Dizer que fiquei emocionada com muitas reviews e PMs de vocês seria eufemismo. Graças a Deus, perdi as contas de quantas pessoas me procuraram dizendo que a minha fic os fizeram abrir os olhos em relação ao preconceito, não só em relação a Sindrome de Down, mas também a outras crianças excepcionais. Relatos de homens e mulheres que aprenderam a respeitar aqueles que são considerados especiais por conta de NCGYD.
Respeitar, porque Downs não precisam de pena, nem dinheiro e tampouco piedade. A única coisa que eles pedem é respeito.
Eu só posso estar muito feliz por ter conseguido isto. Missão comprida, Aline!
Enfim, tive a sorte de ter muitas e muitas pessoas que me incentivaram a dar início a essa fic. Dentre elas, meu carinho especial à Lele Marques, que foi minha beta nos seis primeiros capítulos de NCGYD. Velha, com certeza, sem suas preliminares, eu nunca estaria hoje postando esse epílogo. Obrigada por ter me ajudado tanto no início.
Meu carinho especial a Renata Nunes, que me ajudou pra caramba nas partes mais críticas da fic. Acho que boa parte das lágrimas que ela derrubou no ano anterior foi por conta dessa fic. Obrigada por sua ajuda também, negão.
Como também não posso deixar de destacar, meu agradecimento eterno a Luciana Michelutti, a melhor ginecologista de Alfenas e obstetra da Bellinha também. Sem sua generosidade de fazer consulta particular pelo Skype na madrugada, falando TUDO relativo a gestação, com certeza NCGYD não seria um terço do que ela é hoje. Eu te devo muito, mulher. Obrigada por tanto carinho por essa fic e pela autora dela!
E nessa reta final, eu nunca poderia deixar de lado a sister que a vida me deu, Liz Negrão.Obrigada por se disponibilizar com tão bom coração, dando dicas imprescindíveis nessa reta final. Apesar de ter pegado já no finalzinho, percebo que seus conselhos me ajudaram e muito para que eu coloque o ponto final aqui com muito mais consciência. Também estou lhe devendo essa, viu?
E claro, tenho que agradecer do fundo do meu coração a uma pessoa: você leitor! Que leu, se emocionou, indicou, comentou, esculhambou, amou, postava coisa fofa no grupo do Facebook, mandou ameaça de morte pra mim no twitter, que descobriu o endereço da minha casa e mandou Antrax pelo correios... kkkkkkkkkk! Brincadeiras a parte, sem não fosse por vocês e a repercussão que vocês fizeram com minha fic, com certeza eu sequer estaria aqui agora. Muito, muito, muito e MUITO obrigada a cada um de vocês por ter me dado a satisfação que eu tenho hoje, de encerrar minha primeira fanfic!
E antes de por um fim no meu blá, blá, blá costumeiro, que apenas dedicar tudo o que eu fiz a uma única pessoa: Guga, eu não sei se um dia você poderá (ou terá coragem) de ler tudo isso, mas saiba que cada palavrinha que existe aqui foi feita para você.
Bem, é isso. Espero que vocês curtam o que eu preparei!
Beijos
Line
PS.: Só para não perder o costume... Boa leitura!

Cinco anos depois.

Fazia quase vinte minutos que eu a esperava.

Eu sabia disso porque já tinha tocado duas peças inteiras de Mendelssohn, um dos pianistas favoritos de Bella. Em uma delas, enquanto meus dedos fluíam pelas teclas de marfim, quase não precisei mais ver a partitura pousada à minha frente no piano. Provavelmente, isso se devia ao fato de que agora eu podia me dedicar com mais tempo a esse velho hobby meu. Tenho que admitir que estive bastante enferrujadopor alguns meses, mas a prática constante me fez voltar a ser como antes; talvez até melhor do que eu era na adolescência.

De fato, eu sou um homem de muita sorte. Afinal, não é toda pessoa antes dos 40 anos que consegue estar em casa em pleno meio da tarde, matando o tempo tocando piano enquanto aguarda sua garota.

Não que eu tivesse me tornado um completo relapso no trabalho: na verdade, acho que nunca poderei ser alguém completamente ocioso. Mas a demanda de atribuições e compromissos que haviam me sufocado há quase cinco anos atrás já não mais existia. O trabalho de consultoria havia me dado a liberdade de escolher meus próprios horários. E fora isto, tive a oportunidade de voltar a trabalhar com aquilo que eu realmente gostava de fazer: advogar. Lutar e ganhar por certas causas era o maior prazer que existia em minha vida profissional e sem sombra de dúvidas, eu tinha muito mais ímpeto e afinco de trabalhar por isso que no início da minha carreira.

Ao mesmo tempo em que estava realizado no campo profissional, não podia reclamar em relação a vida pessoal. Com tempo sobrando, pude dedicar mais tempo à minha família; a parte mais importante de mim mesmo. Minha prioridade total era Bella e as crianças. Ensinar e aprender com os meus filhos a cada dia era a maior felicidade para mim. Talvez, eu tivesse demorado a aprender isto, mas hoje sei que a tarefa mais importante que detinha em minhas mãos era ser o pai.

Aprendi a dar valor às coisas que não fazia com muita frequência, como levar meu filho às práticas de baseball, e até arriscar auxiliar meu primo Emmett no treino dos garotos. Ter mais tempo de ensinar as lições de matemática que ele tanto odiava e escutar suas dúvidas e receios antes de ele ir dormir. Às vezes, eu custava a acreditar que daqui a poucos anos, aquele garotinho que carreguei tão pequeno em meus braços, logo após seu nascimento, se transformaria em um adolescente.

E claro, havia também a única garota que rivaliza espaço com Bella em meu coração: Grace.

Se existia alguma palavra que pudesse explicar com perfeição o que sentia por essa menininha, eu desconhecia. Amor ou devoção chegavam a ser banais diante dos meus sentimentos por minha filha. E levando tudo o que tinha acontecido comigo após seu nascimento, só podia acreditar que Grace era minha redentora. Foi por conta dela que eu era esse novo homem.

Eu tinha vivido com uma falsa ideia do que era perfeito e saber que minha própria filha não seria exatamente da maneira que imaginava foi um baque para mim. Em pensar que até cheguei a cogitar abrir mão da pessoa mais doce que já conheci por conta da falta de informação. Entretanto, bastou apenas que eu a olhasse uma vez para ter certeza que eu estava tomado por ela. E eu sempre seria grato a minha mulher por ter coragem e garra por mantê-la, contra qualquer coisa.

Todos os dias, quando vejo o sorriso aberto da ruivinha que me tinha em suas mãos, eu só podia agradecer aos céus por ter me casado com a mulher mais teimosa do mundo.

Não vou negar que não é uma tarefa fácil, no entanto, desde muito bebê minha filha se mostrou ser uma lutadorazinha. Cada pequeno avanço, cada coisa nova que aprendia todos os dias, Grace se mostrava tão capaz quanto qualquer outro bebê, apenas com um pouco mais de lentidão. A cada nova descoberta, Bella e eu éramos tomados de um orgulho imensurável por ela.

Inúmeros momentos marcantes aconteceram desde que voltamos da maternidade, naquela manhã clara de Fevereiro. Com um pouco mais de um mês depois de nascida, nossa filha aprendeu a mamar sem a sonda, já não precisando de nós dois durante aquele ato. Aos dez meses, quando grande parte dos bebês já está arriscando os primeiros passos, Bella e eu comemoramos o fato dela ter conseguido se sentar completamente sozinha e somente um ano depois disto, foi que podemos escutar seus primeiros passos trôpegos ao redor da casa.

Apesar dessas dificuldades físicas, era incrível perceber como Grace, desde as primeiras semanas, era geniosa e completamente diferente daquilo que muitas pessoas pensam, que os portadores de Síndrome de Down não tem personalidade. O maior exemplo disso, Grace nos deu aos seis meses, quando Bella descobriu que o choro repetitivo durante as madrugadas que vinha acontecendo por duas semanas seguidas nada mais era do que um pouco de manha de nossa filha. Como todas as vezes que ela chorava, eu a trazia para nosso quarto, ela se acostumou a isso e não queria mais mudar esse hábito.

Lembro que essa fase foi um tanto que complicada para nossa família: como se não bastasse os dias agitados levando Grace para as sessões particulares de fisioterapia e as feitas na instituição La Rabida, Bella estava estudando para voltar a faculdade no próximo semestre, Richie tinha insistido em fazer artes marciais com alguns outros colegas de escola e eu tinha pego um importante caso contra uma empresa renomada. Com dias tão agitados, o tempo que nós tínhamos como casal era justamente durante o período que nossa filha insistia em chorar. Hoje, é um pouco ridículo admitir que solucei tanto quanto minha filha no dia em que Bella decidiu por um fim nesse pequeno vício da Grace.

Outra mostra do quanto minha filha tinha sua própria opinião foi durante seu último aniversário. Nós queríamos comemorar em uma casa de festa, como fazíamos todos os anos, porém Grace havia insistido em fazer um aniversário ao ar livre, em pleno inverno de Chicago. Como não houve conversa nenhuma que pudesse tirar essa ideia de sua cabecinha, Bella e eu nos desdobramos para celebrar seu quarto aniversário sob uma temperatura de cinco graus, apenas por nossa menininha.

A verdade era que minha filha, apesar dos esforços de Bella para atenuar isto, era muito mimada por mim. Certa vez minha prima Alice comentou que talvez essa minha atitude devia ser algum tipo de remorso por eu não ter aceitado minha filha desde o início da gravidez. Algumas vezes, até achava que ela tinha razão, mas a verdade era que simplesmente não conseguia resistir quando seus olhinhos cor de avelã me olhavam de um jeito que só ela sabe fazer e me pediam, o seu famoso "pufavô, Papa?"

Até Richie não era forte o suficiente para se impor diante dos caprichos de Grace. Era impressionante como ele fazia qualquer coisa que sua irmãzinha desejava, mesmo que em algumas situações exigisse uma discussão entre eles antes.

Richard era surpreendentemente maduro em relação a Grace. Bella havia o instruído muito bem em relação a condição mental de sua futura irmãzinha e desde que ela nascera, ele se tornou seu pequeno protetor. E, por mais que tivesse ocorrido esse preparo prévio, nós temíamos que ele se sentisse negligenciado devido a atenção redobrada que Grace exigiu em seus primeiros meses de vida, por isto, tentamos o máximo possível incluí-lo em nossa rotina. Tanto que foi segurando as mãos de seu irmão mais velho que nossa filha arriscou ficar de pé pela primeira vez.

Tanto Bella quanto eu não tínhamos irmãos, portanto, era surreal assistirmos esse amor fraterno entre Richard e Grace. Eles discutem, brigam, sentem ciúmes um do outro, mas basta apenas algumas horas para que eu os veja unidos como se nada houvesse acontecido. Era uma relação de confiança e carinho tão magnânima que tudo o que eu podia sentir era agraciado por ter sido escolhido para ser o pai desses dois.

O som de uma vozinha catalorando no andar de cima chamou minha atenção. Mesmo sobre o tom alto das teclas, podia reconhecer o tom desafinado e alegre que sempre me encantava nesse horário, quase todos os dias. Esse era o nosso momento: o Richie estava na prática de Taekwondo e Bella na agência, trabalhando empenhada em uma nova campanha publicitária.

Da mesma maneira que eu me sentia muito mais completo hoje, tinha certeza de que minha mulher também havia conseguido alcançar esse patamar. Desde que ela tinha voltado a estudar e consequentemente, trabalhar, Bella parecia radiar felicidade.

Logo após ela se formar, até cogitamos voltar a morar em Washington, como era nosso plano antes mesmo de nos casarmos. No entanto, Bella havia recebido uma oferta de emprego irrecusável de uma importante agência aqui em Chicago. Quando levamos em consideração que Richie iria trocar de colégio e assim perder a convivência com todos os seus amigos e o fato de Grace ter muito mais assistência às suas necessidades aqui em Chicago, abdicamos esta opção. No entanto, passar boa parte do verão na Costa Oeste era um hábito que eu estava passando para os meus filhos

Magistralmente, Bella conseguia sincronizar seus horários. A maternidade nunca deixou de ser a prioridade em sua vida. Era óbvio que ela parecia muito mais realizada agora, do que quando se dedicava apenas a nossa casa, mesmo que houvesse dias em que ela chegasse visivelmente esgotada.

E quando isso acontecia, eu me utilizava da minha recém-descoberta aptidão: o melhor massageador de pés de mundo, segundo as palavras de minha própria esposa.

Escutei as palavras desconexas da canção ficarem cada vez mais altas e me voltei do lugar onde estava, prestando atenção na garota que descia a escada. Observei a maneira cuidadosa que Grace descia as escadas, como sua mãe sempre enfatizava para que ela fizesse. Ela usava o vestido de daminha que tinha sido feito especialmente para o dia do casamento de Alice há algumas semanas atrás. Finalmente minha prima havia superado sua aversão a casamento e tinha finalmente dito sim ao Jasper. E náo preciso nem dizer que Grace tinha roubado a cena, ao fazer um discurso de menos de 10 palavras par sua tia durante a recepção.

Mas, apesar de minha filha estar produzida com seu melhor traje, seus pés descalços mostravam o quanto ela se sentia a vontade naquele instante. Ela tinha tentado fazer algo diferente com o cabelo, mas eu tive que prender o riso quando vi o emaranhado de fios no alto de sua cabecinha. E pelo visto, ela tinha usado mais uma vez o conjunto de maquiagem que a sua madrinha Rosalie havia lhe dado de presente. As bochechas estavam mais rosadas do que o comum e os lábios ostentavam um brilho excessivo.

Simplesmente adorável.

Em sua mão direita, ela segurava Boo-boo, nome com o qual tinha batizado a pequena boneca de pano que eu lhe comprara antes mesmo de nascer. Aquele presente estava praticamente acabado: uma das pernas já havia sido arrancada e recosturada tantas vezes que já havia perdido as contas, faltava-lhe um olho no rosto e o vestido branco que adornava, estava mais parecido com u tom de amarelo, devido ao tempo. Porém, Grace não largava aquela boneca de forma alguma. Acho que, de certa forma, nem eu poderia abandonar aquele presente: esse foi o primeiro presente que eu dera a ela; minha primeira demonstração de que eu queria ser uma parte efetiva na vida de minha filha.

Assim que me viu, Grace abriu um enorme sorriso que era impossível para mim não deixar de retribui-lo. E por mais que tivesse um carinho excessivo por Boo-Boo, ela não teve receio algum em largá-la no chão e vir correndo em minha direção. Abri meus abraços e fui recebido por um grande abraço, como se não tivéssemos nos visto há semanas, e não há poucos minutos atrás. Essa era uma das características principais de minha filha; a forma afetuosa com a qual tratava a todos, demonstrando seu carinho o tempo todo, seja lá com quer que fosse.

– Isso tudo é saudades de mim, princesa? – eu perguntei, logo depois de deixar um beijo sobre sua testa macia e acomodá-la ao meu lado do piano.

Grace assentiu com veemência, e foi impossível me conter de deixar de plantar mais alguns beijos em seu rosto e pescoço. Isso fez com que ela risse alto e tentasse se esquivar de meus avanços, sem muito sucesso nisso.

– Papa, tá bom, já! – ela protestou entre as risadas. – A balba tá fazendo coçar

– É mesmo? – inquiri inocentemente, – E como é que eu não estou sentindo nada?

Ela colocou suas mãozinhas em meu peito, numa fraca tentativa para me empurrar. – Tá fazendo coçar em eu, Papa. Pala!

Soltei-a devagar, me certificando se ela ainda estava bem apoiada no lugar para logo em seguida encostar meus lábios uma última vez na ponta de seu nariz. – Pronto, eu já parei, gatinha.

Em resposta, Grace se ajoelhou em cima do banco onde estávamos e antes que eu pudesse mesmo protestar ela se inclinou em minha direção e deixou um beijo demorado em minha bochecha. – Bligada, Papa.

Talvez isso fosse uma característica de minha filha que eu nunca me acostumaria. A maneira doce que ela sempre tinha de demonstrar carinho quando eu menos esperava. Grace era tão pura que estava me agradecendo simplesmente por que eu parei de fazer cócegas nela. Em momentos como este eu era pego desprevenido tamanho o coração e bondade dessa garotinha.

Quando ela fazia algo espontâneo desse jeito, demonstrando o quanto me amava em pequenos gestos, como pedir para que eu lesse sua estorinha antes de dormir ou me oferecendo o primeiro pedaço de bolo em seus aniversários, não podia evitar de sentir um autodesprezo. Eram mais raros, contudo, ainda assim existia momentos em que eu me odiava por um dia ter pensado em descartá-la de minha vida.

Vida esta que hoje em dia sequer cogito imaginar sem a presença dela. Grace tinha conseguido deixar aquilo que já era perfeito, algo muito melhor.

A pergunta resignada de Grace chamou de volta a minha atenção – Papa, num vai ensiná eu a tocá piano hoje?

– Vou sim, princesa. Pronta para começar?

– Sim! – ela disparou empolgada à medida em que eu a puxava para o meu colo.

– Ok então, você lembra da música que estávamos praticando ontem?

– A da estelinha?

Eu sorri. – Essa mesma. Ainda sabe como é que começa?

Grace confirmou e esticou a mão direita para o piano, que agora tinham sido temporariamente adesivadas com cores em cada uma das teclas, da mesma forma que minha mãe tinha feito quando eu comecei a aprender a tocar. Percebi seu cenho se franzir e ela morder o lábio em concentração enquanto arriscava os primeiras notas de Brilha,BrilhaEstrelinha, sem errar nenhuma delas durante a primeira estrofe da música.

No entanto, quando a segunda parte da música começou, minha filha trocou um Sol por um Fá, destoando a canção. No mesmo instante, ela percebeu seu erro e bufou resignada, voltando a música desde o início.

Era chocante perceber que a determinação era uma traço muito forte de Grace, fosse em qualquer coisa que ela fizesse. Se é desafiada, ela apenas se dá por satisfeita quando vê aquilo que foi pedido concluído: seja nas brincadeiras que os monitores da La Rabida lhe apresentavam, nos jogos de montar que ela tinha aqui em casa ou até mesmo se nós convencêssemos de que ela ganharia dose dupla de sobremesa se acaso ela organizasse sua bagunça. De fato, parecia que a palavra desistir não existia no dicionário de minha garota.

Todavia, eu estava inseguro quanto ao próximo desafio que minha pequena teria pela frente. A escola.

Na próxima semana, Grace começaria a estudar em um colégio dito como normal. Sabíamos que o intelecto de minha filha era suficientemente bom para que ela aprendesse no mesmo ambiente de ensino que as outras crianças, porém temia este dia devido ao preconceito que talvez ela possa sofrer.

Não que isso nunca tivesse acontecido, pelo contrário; eu já havia perdido as contas (e a cabeça) das vezes que isso aconteceu com a nossa filha. Fosse em um olhar estranho quando saíamos com ela de casa ou até mesmo ver pais afastando outras crianças dela, como se Grace tivesse algum tipo de doença terminal transmissível. E todas as vezes que isso acontecia em minha presença, um ódio sem precedentes me possuía a ponto de eu ter que sair do mesmo ambiente para não cometer qualquer tipo de besteira.

Tinha plena consciência que essas atitudes eram baseadas na ignorância, algo que eu mesmo já tive no passado. Mas ao mesmo tempo em que entendia esse sentimento, não podia deixar de sentir raiva, porque a minha filha era alguém inocente que não entendia porque seus novos coleguinhas estavam sendo afastados tão brutalmente. E isso era o que mais me doía: ver seus olhinhos interrogadores, me perguntando o que ela tinha feito de errado para merecer tal tratamento.

E udo isso já acontecia antes mesmo de levar em consideração o stress até escolhermos o local onde ela iria estudar. A primeira opção tinha sido uma escola bastante próxima ao trabalho de Bella e que tinha um excelente programa educativo para crianças na idade dela. Porém, já na primeira visita, assim que a coordenadora viu a minha filha, eu sabia que ela não seria aceita. Sequer deixaram-na fazer os testes necessários; apenas nos levaram e vieram com milhares de argumentos, alegando que ela não seria capaz de acompanhar o ensino deles.

Azar deles, que não sabiam que eu era advogado e que apesar de não ser mais dono de um dos escritórios mais importantes do Estado, ainda tinha minhas influências e contatos. Duas semanas após aquele maldito encontro na sala da coordenação do colégio, havia uma matéria de capa no Chicago News, apontando a intolerância e preconceito dos gestores da escola. E no que dependesse de mim, essa história não pararia por aqui.

Após essa primeira barreira, eu cogitei seriamente a possibilidade de Grace ter aulas particulares em casa. Bella foi absolutamente contra, alegando que nossa filha não tinha motivos para ficar escondida dentro de casa, quando ela poderia muito bem socializar como qualquer outra pessoa. Então, fizemos o que deveríamos ter feito desde o início: perguntarmos a outros pais de crianças especiais por referências. Por fim, encontramos um pequeno jardim de infância nas proximidades do La Rabida, onde muitos colegas de minha filha já tinham estudado. Não era nenhum colégio renomado, porém tinha professores dedicados e com experiência no ensino inclusivo à excepcionais.

Muito embora, meu receio ainda continuava, agora por outros motivos. A preocupação principal era que minha filha estaria em um ambiente novo e sem a minha presença. Ela seria a única diferente na sala. E se ela fosse repudiada por causa disso? E se alguém a criticasse ou a julgasse só por não ser tão rápida e esperta quando os outros? Será que ela saberia lidar com tudo isso sozinha?

Eu tentava ao máximo proteger minha filha disto. Se eu percebia alguém a encarando de forma diferente, eu me afastava o mais rápido possível para um outro local onde ela não pudesse ser observada somente por ser como ela é. Com a convivência, alguns amigos de Richie que vinham até a nossa casa já se acostumaram com Grace e já percebiam que ela era uma menina como qualquer outra. Já no La Rabida, ela estava rodeada por outras crianças como ela, em um lugar onde ser diferente era normal. Mas como minha princesa se sentiria em um local onde ela era a diferença?Aexceção?

Involuntariamente, senti a meu abraço ao redor de minha filha ficar mais firme. Desde que ela tinha chegado ao mundo eu era o seu protetor, e agora, a partir da próxima segunda-feira, teria que deixar minha filha sozinha. Não era algo tão simples para se acostumar.

Grace bufou alto, e afastou suas mãozinhas do piano para colocar no meu braço que rodeava sua cintura. Ela tentou se afastar de mim, no entanto, não permiti ao voltar minha atenção outra vez pra ela.

– O que foi, filha? – perguntei, desconfiando de sua atitude enfezada.

Grace voltou seu bico de frustação para mim, para depois acrescentar. – num que ensiná! Tô elandoe elando e cê não ajuda, Papa!

Eu tive que segurar o riso por conta da indignação que ela demonstrava por meu relapso diante de seus erros. – Desculpe, meu amor. Quer que eu vá te dizendo quais as cores que você terá que apertar?

Pufavô, Papa? – ela pediu, de um jeito que era impossível resistir.

– Tudo bem. Vamos começar do começo.

– Tá bom.

Grace voltou para sua posição anterior e esperou que eu desse início a pratica.– Azul, azul, verde, verde, rosa, rosa... – comecei, sussurrando as palavras à medida em que ela teclava a cor correspondente adesivada no piano. – verde, verde, vermelho, vermelho, roxo, roxo, cinza.

Continuamos assim até que desta vez ela conseguiu concluir sem errar nenhuma vez. Assim que terminou, Grace bateu palmas para si mesma, empolgada por ter acertado tudo e antes mesmo que eu pudesse parabenizá-la, ela tinha retomado ao piano, sem sequer esperar por minha ajuda. Contudo, quando a segunda parte da canção chegou, percebi que ela vacilou novamente, sem saber ao certo como terminar. O mais rápido que eu pude, coloquei minha mão sobre a dela e juntos conseguimos terminar a música.

Desta vez, o som dos aplausos não vieram de minha filha, mas de pessoas atrás de nós. Viramos os dois ao mesmo tempo apenas para ver Bella e Richie, que assistiam a nossa interação com sorrisos idênticos em suas faces.

– Mamã, Ichie! – Grace gritou, pulando do meu colo e correndo em um rompante na direção deles.

Bella se agachou para acolher a nossa filha, abrançando-a ao mesmo tempo que Richie bagunçava ainda mais o cabelo dela. No mesmo instante, Grace se desvencilhou da mãe, para mostrar sua língua para o irmão mais velho que retribuiu o gesto da mesma maneira. Do meu lugar, eu ria vendo a interação entre eles, me sentindo a pessoa mais sortuda do mundo por ter esses três como parte de minha família. Por poder amar e ser amado de volta por todos eles.

– Mamã, eu aprendi a música da estelinha! Papa, só ajudou eu um tiquinho.

– Eu vi, meu amor! – Bella disse empolgada, exibindo em enorme sorriso para nossa filha e depois olhando de relance para mim, – Meus parabéns, filhota.

– Parece que agora eu finalmente tenho alguém para dividir o piano comigo. – comentei, virando-me no banco para ficar de frente para eles.

Richie rolou os olhos, hábito que estava se tornando cada vez mais comum com a aproximação da adolescência. – Ah, pai, tocar isso aí é chato pra caramba!

– Né chato, não! Eu gosto. – minha filha disse, cruzando os braços sobre o peito.

O movimento teimoso de Grace finalmente chamou a atenção de Bella para o que nossa filha estava usando – Bebê, porque você está com esse vestido? – ela inquiriu, enquanto franzia o cenho. – Você sabe que ele não é para ser usado em casa, certo?

– Eu quilia ficar bonita, Mamã. – Ela explicou e deu um giro sobre si mesma. – E esse vestido e tãaaao lindo!

Bella suspirou – Eu sei que ele é, filhota, mas você deve guardá-lo para usar em outro lugar... de preferência num casamento, por exemplo.

– Mas, Mamã, eu gosto dele! – Grace respondeu, fazendo agora um biquinho de indignação.

Meu filho suspirou alto como se tivesse entediado com a discussão das meninas e passou direto por elas, vindo se sentar ao meu lado. – Grace você tem que tirar isso. Você tá parecendo uma boboca.

– Mamã, o Ichie me chamou de boboca!

– Eu não te chamei de boboca, eu só disse que você tá parecendouma!

Ergui as mãos, afim de evitar que o caos se instalasse dentro de nossa casa por conta de uma bobagem. – Grace, princesa, porque você não coloca algo mais confortável para podermos ir brincar lá fora? O Richie pode te ajudar a encontrar algo.

Do meu lado, pude perceber meu filho quase saltar do lugar onde ele estava. – Eu?!

– É claro, filho. – disse, olhando enfaticamente para ele. – Tenho certeza que você pode escolher alguma coisa que a sua irmã use, certo? E depois quem sabe, você pode tomar um banho talvez. – brinquei, fanzindo meu nariz em direção ao seu quimono.

– Ah pai, eu sei que tô fedido por causa do treino. – E então, Richie sorriu amplamente e me deu um abraço suado antes de chamar a atenção de sua irmã. – Vem, Grace. Vamos procurar algo bem rosapara você.

Losa não, Ichie, eu quelooxo! – Grace resmungou, enquanto Richie a guiava em direção as escadas.

Bella limpou a garganta, antes de erguer apenas uma sobrancelha para nossa filha. – Grace Valentina, você não acha que está esquecendo alguma coisa, mocinha?

Grace que já estava no primeiro degrau da escada, virou-se em direção a sua mãe com uma cara um tanto receosa. Vi suas sobrancelhas se franzirem até que ela percebeu o dedo de Bella apontado em direção a boneca esquecida no meio da sala. Rapidamente, Grace soltou a mão de seu irmão e voltou correndo até sua Boo-Boo esquecida e a abraçou contra o peito. E com isso, ela sorriu brilhantemente para sua mãe, soltando um beijinho no ar antes de voltar correndo para o degrau onde Richie a esperava pacientemente.

Assim que as crianças haviam saído do nosso campo de visão, minha mulher suspirou, – Sabe, as vezes eu tenho inveja de você. – afirmou, largando a bolsa no aparador. – Você viu o sorriso descaradinho dela? Duvido que ela teria feito o mesmo se fosse você quem tivesse pedido.

– Eu duvido. – retruquei rapidamente. – No mínimo, ela teria dado de ombros e dito: "pega pra mim, Papa".

Bella riu. – E você teria feito isso prontamente.

Dei de ombros. – Eu prefiro que você assuma essa parte chata de ter que educar e por limites.

– Ah é? – ela sibilou, caminhando lentamente em minha direção. – Quer dizer que eu posso ser taxada como a mãe chata enquanto você fica com o título do melhor pai do mundo?

– Eu não vejo problemas nisso.

Ela bufou dramaticamente, – Você é incrivelmente besta, Edward.

– É um dom. – eu provoquei, esticando minhas mão para puxá-la até que ela se sentasse ao meu lado. Assim que ela o fez eu não pude resistir em deixar um beijo demorado sobre os seus lábios.

O beijo deveria ser algo simples e rápido, no entanto, a atração pela minha mulher não havia mudado nem um pouco, desde quando nos reencontramos no campus da North Central College, há tantos anos atrás. Logo, o ato que deveria ser algo simples se tornou muito mais profundo e desejoso. Sua língua tomou posse de minha boca, em uma carícia lânguida que me fez gemer e apertar sua cintura com muito mais força.

Parecia que os anos juntos só serviam para fazer com que eu a amasse cada vez mais. Tinha a impressão que nunca me cansaria dos seus lábios nos meus ou da maneira que ela se derretia enquanto eu sussurrava o quanto a amava em seu ouvido. Nós já havíamos passado por tantas provações nesses quase quinze anos, e parecia que a cada dificuldade superada o nosso amor ficava ainda mais forte.

Apesar do nosso casamento ter acontecido em uma capela ladeada por um cassino em Las Vegas, eu não podia estar mais feliz por ter tomado essa decisão. Mesmo sabendo que ela merecia algo bem melhor que isso, eu nunca poderia me arrepender de ter tomado essa decisão. De ter feito dela a minha mulher. Para sempre.

Quando foi necessário o fôlego outra vez, Bella afastou lentamente, suspirando alto antes de revelar outra vez seus olhos cor de chocolate, o mesmo tom que nossa filha havia herdado. Apesar do tom pálido, havia um brilho diferente em sua pele, deixando-a quase que radiante e os lábios cheios estavam um pouco mais avermelhados e úmidos devido ao recente beijo.

– Então, – ela disse, levando suas mãos até minha nuca ao mesmo tempo em que eu abraçava sua cintura. – o que você e a Grace fizeram de interessante hoje?

– Bem, depois que você saiu com o Richie de manhã, eu tive que ir ao escritório revisar alguns documentos para o Bears.

– Não é ele que está cuidando sobre o caso de assédio a favor daquela jornalista do Times? – ela perguntou.

Assenti levemente. – Estou achando que ele está um pouco inseguro quando ao processo e Tanya sugeriu que eu assumisse tudo.

– E você vai aceitar?

– Provavelmente não. Você sabe que eu não quero me envolver com mais coisas daquele escritório além do conselho.

– Humm... – ela murmurou, até que de repente, sua expressão alarmada. – Peraí: você levou a Grace com você para o escritório?

Senti minhas sobrancelhas se cruzarem com a pergunta dela. – É claro que sim. Por acaso você acha que eu a deixaria aqui em casa sozinha?

Ignorando minha pergunta, ela acrescentou com o ar de riso. – E o que ela fez quando viu a Tanya Denali?

Rolei os olhos assim que eu entendi em que ponto minha mulher queria chegar. – Grace não chorou desta vez, mas ficou escondida o tempo todo atrás de minha perna.

Bella riu alto. – Pobrezinha da minha bebê. Eu compreendo muito bem porque ela tem tanto pavor de olhar para aquela mulher. A Denali parece mesmo uma bruxa velha e má.

– Você só diz isso porque antes de conhecê-la, achava que a Tanya fosse algum tipo de caso meu.

– Isso também. – ela resmungou, franzindo seus lábios numa expressão que só podia ser de nojo. Eu ri e não pude deixar de colocar outro rápido beijo sobre o bico que ela fazia. Logo em seguida, Bella perguntou – E depois, você levou a Grace para o fonoaudiólogo?

Meneei a cabeça positivamente. – O Dr. Steves disse que ela melhorou bastante nas últimas semanas, mas que precisamos continuar praticando aqui em casa as palavras comR.

Bella assentiu, mas manteve uma expressão pensativa. – Eu percebi isso. E notei também que às vezes ela consegue falar direito, mas no instante seguinte comete o mesmo erro.

– É só questão de paciência, amor. – falei, brincando com as mechas soltas de seu coque. – Quando menos esperarmos, Grace estará tagarelando.

– Acho impossível que ela fique mais tagarela do que já é. – Bella sibilou, olhando para cima com um ar de riso.

– Você entendeu o que eu quis dizer. – retruquei, antes de mudar o foco do assunto – E então, como foi seu dia, baby?

Bella sorriu, e tomou uma de minhas mãos e levou até a sua barriga. – Você está se referindo a mim ou a ele?

Sem poder conter um sorriso, comentei ao esfregar a pequena protuberância em sua barriga.

– Aos dois.

– Bem. Nós estamos perfeitamente bem. – ela suspirou, olhando com carinho para minha mão que descansava tranquilamente sobre sua blusa de seda

Uma nova gestação nunca esteve em nossos planos. E apesar de tanto eu quanto Bella estarmos satisfeitos com o número de integrantes de nossa pequena família, nenhum dos dois pensou em fazer qualquer tipo de meio contraceptivo definitivo. Afinal, com uma vida atribulada como a nossa, passar por um processo cirúrgico era a última coisa que nós dois precisávamos.

Porém, há três meses atrás Bella tinha decidido trocar de anticoncepcional devido às seguidas crises de TPM que ela vinha enfrentando. A troca de sua pílula coincidiu com a mesma época em que as crianças estavam aproveitando o início das férias em Forks com seus avós. Aquele era a primeira semana que teríamos só nós dois em muito tempo. Nem é preciso dizer que camisinha foi a última coisa que passou por nossas mentes naqueles dias.

O resultado disso Bella carregava agora em seu ventre.

Quando descobrimos, ambos estávamos receosos. A primeira coisa que passou em minha cabeça era se o nosso bebê seria normal ou se seria também excepcional. Poderia ser um pouco hipócrita pensar desse jeito depois de já ter tido uma criança especial, contudo não podíamos evitar.

Entretanto, no primeiro pré-natal, quando a obstetra perguntou se gostaríamos de fazer o exame do cariópito outra vez, eu fui o primeiro a negar. Saber antecipadamente sua condição mental não me faria amá-lo mais ou menos. Podia ser imprudente, mas eu já tinha aprendido minha lição: não era um cromossomo a mais que mudaria o que eu sentiria por um filho meu.

Até agora, tudo parecia estar abusolutamente normal segundo o último ultrassom. Bella entraria em seu segundo trimestre em duas semanas e milagrosamente ela não foi assolada pelas ondas de enjoos como nas gestações anteriores. O bebê estava crescendo forte e saudável e eu mal podia esperar o próximo ultrassom para tentarmos descobrir o que teríamos. E por mais incrível que pareça, eu não estava curioso em relação ao sexo: o fato é que independente de ser menino ou menina, Bella teria que suportar os mimos excessivos que eu daria ao mais novo Masen.

– Sabe o que eu estava pensando? – Bella disse, retornando a massagear os cabelos de minha nuca. – Que talvez esteja na hora de contar às crianças sobre o novo bebê.

– Você tem razão. E talvez seja hora de avisar aos seus pais também.

– Talvez nós poderíamos ir para Forks. – ela comentou, dessa vez ficando mais animada. – Contarmos pessoalmente a Charlie e Renee sobre o novo bebê. Quem sabe fazer disso uma tradição.

Ergui uma sobrancelha – Quantos filhos você ainda pretende ter comigo, Sra Masen?

Suas bochechas ganharam um belo tom de rosa ao mesmo tempo em que ela estapeava levemente o meu ombro. – Você entendeu o que eu quis dizer. Acho que o papai e a mamãe ficariam felizes ao receber essa notícia pessoalmente ao invés de um telefonema.

– Ou então seu pai decide acabar de vez com minha raça, já que eu engravidei a filha dele pela terceira vez. – eu resmunguei.

– Você é muito dramático. O Charlie gosta de verdade de você, sabia?

– Não brinca... – comentei com todo sarcasmo possível.

Bella simplesmente rolou seus olhos – Edward, você não pode negar o quanto o relacionamento de vocês melhorou nesses anos. Ele não teria te convidado para pescar das duas últimas vezes que estivemos lá se ele não gostasse nem que fosse um pouco de você, seu bobo.

Eu bufei. – Você tem razão. Mas ainda assim você não pode achar meu receio injustificado. – ela abriu a boca para replicar, no entanto, eu a impedi ao perguntar. – Quando é que você quer ir?

– Eu estava pensando na próxima sexta. – ela divagou – O escritório já bateu sua meta esse mês com a campanha da Boeing, portanto nós não temos muitas demandas na próxima semana... Edward, o que foi?

Não percebi que meu cenho tinha se franzido até sentir o toque quente de seus dedos sobre o vinco que tinha se formado entre as minhas sobrancelhas. Respirei fundo, tentando conter minha indignação, afinal Bella não estava tão compenetrada nessa missão quanto eu. – Bella, nós não podemos viajar essa sexta.

Sua expressão se tornou dúbia. – Porque não?

– Porque essa sexta é o dia do julgamento do processo contra a Curie School, lembra?

– Ah...

Curie School era a escola que havia considerado Grace inapta para eles, sem sequer fazer os testes específicos. Dentre todos os casos que já haviam passado em minhas mãos durante os meus anos de carreira, este nem de longe era o maior porém, sem sombra de dúvidas era o mais importante.

Desde que Grace entrara no La Rabida, eu tinha me candidatado como advogado voluntário da instituição. Apesar de ter trabalhado em diferentes ocorrências de intolerância contra aquelas pessoas que sofriam por que simplesmente eram diferentes do restante da sociedade, nunca pensei que um dia isso pudesse acontecer com minha própria filha. Assim que saí daquele colégio, prometi a mim mesmo que iria lutar para que nenhuma outra criança recebesse a mesma descriminação que minha Grace tinha passado.

Eu não poderia socar a cara da coordenadora, como gostaria de ter feito quando ela chamou minha filha de inapta. Porém, eu faria todos os gestores ali se arrependerem de se considerarem melhores do que minha filha. E faria isso sem precisar mexer em um fio de cabelo de alguém; tudo conforme as normas da lei.

Esse tinha se transformado em meu principal foco nas últimas semanas. Havia negado todas as tentativas de acordo, por acreditar que nada poderia apagar a humilhação que minha garotinha sofreu. E por mais que nossa situação financeira fosse bastante confortável, eu não me importava em ganhar mais alguns milhares de dólares em cima da atitude preconceituosa daquela escola.

E, se acaso eu viesse mesmo a ganhar essa causa como eu esperava, eu conhecia diversas instituições que ficariam mais do que satisfeitas em utilizar, com muito bom senso, o dinheiro que eu ganharia.

– Desculpa, Edward.– ela sussurrou, acariciando lentamente o minha bochecha. – Eu tinha me esquecido completamente da audiência.

Suspirei pesadamente, tentando lembrar o tempo todo que fui eu o mais interessado em seguir a diante com esse processo. Bella havia sim, ficado revoltada, mas acho que ela nunca pensou que eu iria levar adiante e com tanto ímpeto esse processo. Essa era uma qualidade que eu chegava até a invejá-la; a maneira fácil com a qual ela sempre conseguia perdoar aquele que sempre a machucavam, mesmo que profundamente.

– Tudo bem, Bella. Foi decisão minha ter levado esse caso a diante.

– E eu estou sendo duas vezes relapsa por conta disso. – ela ralhou consigo mesma, desviando o olhar em direção ao chão. – Primeiro com você e depois com a Grace. Como mãe e esposa, eu devia estar mais inteirada nesse assunto. Agora eu me sinto péssima por conta disso.

Ergui seu queixo em minha direção, fazendo com que eu a fitasse. – Você não ouse ficar com raiva de si mesma por causa disso, baby.

Ela puxou o ar com força para logo em seguida acrescentar. – Será que eu poderia ir com você ver o julgamento? Sei que não entendo nada, mas eu quero estar lá por você e por nossa filha, claro.

– Eu vou adorar que você esteja lá para me ver humilhar aqueles idiotas. – eu disse com um sorriso, colocando um beijo em sua testa. – E nós podemos ir para Forks no próximo final de semana, aproveitando para comemorarmos também o seu aniversário.

– Ótimo, comemorar o fato de que eu estou ficando mais velha! – ela resmungou, fazendo uma careta. – Dá para acreditar que eu vou fazer trinta e quatro anos?

Lentamente, minhas mãos escorregaram de sua cintura e desceram lentamente pelo seu quadril até parar em suas coxas, onde apertei com um pouco mais de firmeza. Um som gutural saiu dos lábios de minha mulher à medida em que eu me inclinava para sussurrar em seu ouvido. – Não, baby, não dá mesmo para acreditar que você é a balzaquiana mais sexyque eu conheça.

Senti os dedos que estavam em meus cabelos se fecharem em punho, enquanto ela puxava minha boca em direção a sua, no entanto, milésimos de segundo antes de nos beijarmos, uma vozinha muito enfezada nos interrompeu.

– Mamã, o Ichietá me chamando de pedelha! – Grace gritou no topo dos seus pulmões do alto da escada. – Vem cá, Mamã, passar castigo nele, vem!

– Eu não tô te chamando de fedelha, Grace! – Richie replicou, mais irritado ainda. – Pára de ser chata e vem logo escolher sua roupa!

– Tá ecutando, Mamã?! Coloca ele de castigo!

Bella bufou alto e eu não pude deixar de rir de sua cara de frustração. – Mais tarde, amor.

– Se tivermos sorte... – ela retrucou enquanto se levantava do banco.

– Hoje de manhã não foi o suficiente? – perguntei brincalhão, lembrando da maneira como ela tinha me atacado poucas horas antes do amanhecer.

Ela estendeu sua mão para mim, que eu peguei de bom grado enquanto também ficava de pé. – Você sabe que não, amor. Agora, vem me ajudar com esses dois antes que eles joguem um ao outro pela janela.

Eu ri e a abracei pela cintura enquanto juntos caminhávamos em direção as duas pequenas razões de nossas vidas. Apesar de exigir bastante paciência de nossa parte, de certo modo era bom ver aquela discussão entre irmãos: mostrava que Richie a tratava como igual assim como Grace não se sentia acanhada diante do irmão mais velho. Era um tanto absurdo, mas eu via nesse gesto o quanto Richie respeitava sua irmã como alguém igual a ele e que Grace também podia muito bem replicar em sua própria defesa.

E eu já ansiava pela terceira pessoazinha que iria se juntar a essas brigas.

Quando via as crianças normais interagirem com as que são Down, percebia que não existia absolutamente nenhuma diferença entre elas. Nós adultos é que somos estúpidos para não enxergar que o cromossomo 23, o qual a minha filha tinha a mais, significava a eterna pureza daquele seres humanos. Era o cromossomo da alegria, da dança, do sorriso ou do amor, como tinha escutado certa vez.

Ter Grace tinha significado para mim ir um pouco mais devagar e aprender a apreciar as pequenas coisas da vida. Que ter conforto e estabilidade não significavam nada se eu não poderia compartilhar tudo isso. Hoje eu entendia que minha filha havia sido designada para mim justamente por isso; Grace em seus poucos anos de vida tinha me ensinado a ser uma pessoa melhor pelo simples fato de existir. Com minha filha, eu aprendi a ter mais fé, mais coragem e também a lutar por aquilo que eu acreditava. E que para que tudo isso acontecesse, bastava apenas um passo.

Meu amor por ela era excepcional. Eu nunca poderia ser grato o suficiente por ela. Minha Graça. Minha Grace.

FIM

"Nossas crianças chegam exatamente da maneira que nos foi designada. Não existem erros. Eles são um presente direto e inequívoco de Deus. Ele nos deu esses filhos capazes de grandes quantidades de amor incondicional, porque não éramos abertos para receber a graça indireta que Ele nos oferecia durante os anos anteriores de nossas vidas." ~ Courtney Heigele

Notas finais
Bem, como eu sou muito boazinha, nós teremos alguns outtakes. Aguardem que bebê Grace não irá sumir assim não!
Até a próxima!
Line
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.