Nothing Can Get You Down
28 Capítulo Vinte e Sete
Notas iniciais
Agradecendo as minhas sistars Renata (que finalmente se atualizou, né?!) e a Liz Negrão; obrigada por todas as dicas, comentários e petelecos nas orelhas que mereci enquanto escrevia isto aqui!
E um mais do que especial agradecimento a Dra. Lu Michelutti (sim, porque a minha pre-reader é médica!) Lu, você a melhor obstetra que Bellinha poderia desejar para a gestação da Grace! Se não fosse por você, e toda sua experiência nas maternidades da vida, esse capítulo ainda estaria em branco!
Enfim é isso! No mais, boa leitura!
Era estranha a forma como seu inconsciente funcionava em situações de desespero exatamente como aquela em que me encontrava naquele momento. Ao ver o líquido rubro e viscoso em meus dedos, reagi de uma forma primitiva, quase desesperada por não ter ideia alguma do que fazer. O grito que saiu de mim foi um tanto sufocado e esganiçado, contudo era perceptível o quanto ele demonstrava o tamanho do meu temor. Afinal a única coisa que se passava em minha mente angustiada é que um sangramento na altura da minha gestação não estava certo, inconcebível. Na verdade, de forma alguma poderia estar acontecendo, especialmente com os cuidados que minha gravidez precisava.
Menos de 48 horas atrás, minha obstetra havia nos garantido que tudo estava perfeitamente bem, que poderíamos esperar só mais alguns dias até a chegada de minha filha. Então, como é que em tão pouco tempo tudo isso poderia mudar? O que eu teria feito de errado para que isso acontecesse comigo? Porque justo depois de achar de finalmente minha vida tinha voltado aos seus devidos eixos essa situação precisava acontecer?
Eu era uma mistura de sentimentos: pavor, incerteza, raiva, culpa... Um pouco de tudo isso me dominava, ao mesmo tempo em que tentava achar motivos para não conseguir deter a felicidade perto de mim.
Estava tão envolvida em meus pensamentos que demorei a perceber a fechadura do banheiro se movimentar freneticamente e Edward adentrar no banheiro o mais rápido possível. – Bella, amor, o que está acontecendo? Você está bem?
Ergui-me com cuidado do vaso sanitário, colocando uma das mãos protetoramente na curva inferior de minha barriga, como se isso pudesse fazer alguma diferença. O incomodo que imaginei ser minha bexiga não tinha diminuído nem um pouco, pelo contrário; tinha a impressão de que ele ficava mais intenso a cada segundo, provavelmente devido ao meu nervosismo.
– Bella, amor. – Edward disse ao se aproximar de mim e pude notar que seus olhos estavam frenéticos e espantados. – O que foi que aconteceu, baby? Você está bem?
– E-eu... – balbuciei, tomando uma respiração profunda antes de continuar. – Eu estou sangrando, Edward. – e como para provar meu ponto, mostrei-lhe meus dedos pintados de vermelho.
Seu rosto ficou pálido instantaneamente. – Mas que...? Como diabos isso aconteceu? Você caiu?
– N-não. Pensei que fosse fazer xixi, mas ai então eu vi... – e então não consegui completar a frase, sentindo o nó formando em minha garganta me impedindo de continuar a falar qualquer coisa.
– Shhh, Bella. – ele suplicou, me abraçando carinhosamente, mas mesmo assim de forma tensa. – Vai ficar tudo bem. Acalme-se, por favor.
– Eu p-preciso ir para o h-ospital. – sibilei, passando a palma sobre meus olhos que começaram a lacrimejar. – Isso não era...não era para estar acontecendo.
Ele ergueu delicadamente meu queixo para me fitar melhor. – Você está sentindo alguma coisa? Qualquer dor?
Assenti levemente. – Um pouquinho. P-parece uma contração, mas é muito mais leve e constante. Não para, entende?
A expressão dele não mudou nem um pouco – Pegue sua bolsa, agora. Vou acordar a Renée e ligar para a Dra. Shelton, está bem?
Porém, antes que ele saísse apressado em direção ao quarto onde estava a minha mãe, eu disparei. – Edward, eu estou com medo. Não quero perder nossa filha.
Ele voltou, e colocou um beijo em minha testa. – Bella. Não vai acontecer nada, está bem? – ele afirmou, cheio de convicção – Com nenhuma de vocês duas. – ele assegurou, voltando a me abraçar com força e sair rapidamente do quarto.
Vesti de volta a legging que usava e fui até o closet para verificar se meus documentos e, principalmente, meu cartão de pré-natal ainda estavam na bolsa que havia usado ontem, na consulta com a Dra Shelton. Comecei a fuçar em uma das gavetas, em busca de todos os exames e ecografias que tinha realizado nos últimos meses. Não fazia ideia se tudo isso seria essencial, mas naquela situação era melhor me precaver o máximo possível.
De repente, me senti uma idiota por não ter me apressado a arrumar todo o que precisava, uma vez que tinha consciência que minha gestação era de risco. Em tese, desde o mês passado eu deveria estar preparada para qualquer emergência, já que minha placenta estava envelhecida. E depois de tantos acontecimentos nos últimos meses, devia estar consciente de que minha filha poderia muito bem vir ao mundo a qualquer momento. Era um pensamento um tanto que precipitado, no entanto, algo me dizia que de maneira alguma eu voltaria para essa casa grávida.
E com toda sinceridade, era justamente essa possibilidade que estava me aterrorizando.
Peguei uma mochila livre em uma das prateleiras e o mais rápido possível tentei colocar alguns objetos pessoais que iria precisar na maternidade: um par de lingeries especiais pós-parto que havia comprado algumas semanas atrás, uma camisola e algumas peças largas de roupas, um chinelo e uma sapatilha bem confortável. Eu fazia tudo de forma tão automática, que mal via as condições das coisas que estava escolhendo e com toda certeza, eu ia ficar parecendo uma indigente quando estivesse internada.
– Bella, querida, o que você ainda está fazendo aqui? – Renee, com a cara toda amassada de sono, me perguntou da porta do closet. Com pressa, ela se aproximou de mim e puxou as poucas coisas que eu estava arrumando.
– Tenho que levar as minhas coisas, mãe. – Eu me defendi. – Não tinha organizado absolutamente nada, e não posso chegar no hospital de mãos abanando. E se a Grace tiver que nascer hoje? Mal comecei a arrumar a maleta dela e-
Renee interrompeu meu discurso nervoso, erguendo suas mãos e afirmando categoricamente – Bella, você precisa ir ao hospital imediatamente. Edward já está te esperando lá embaixo, parecendo uma pilha de nervos com a sua demora.
– Mas...
– Eu mesma irei organizar o restante de suas coisas e pedirei para o Emmett ou Rosalie levarem até vocês. – ela afirmou sem rodeios.
– Mãe. já é tarde. Não devemos incomodar os dois só por conta disso. Posso arrumar tudo bem rápido.
– Isabella Masen, a Grace está nascendo! – ela afirmou, cheia de autoridade em seu tom. –, e cada minuto que você passa a mais por aqui pode estar colocando em risco a sua filha.
Aquelas palavras me alertaram e finalmente assenti, deixando qualquer coisa de lado e pensando em nada mais além de minha menina. Apressei meus movimentos e senti que tal ato fez com que a dor incômoda no baixo ventre ficasse um pouco mais intensa. Minha mãe, percebendo o meu desconforto, veio em meu auxílio, tomando a bolsa e os exames de minha posse e me apoiando em direção ao corredor. Tomei um cuidado redobrado nas escadas, e eu tentei disfarçar a dor que sentia ao fazer o esforço de descer cada um dos degraus.
Ao chegar na sala, minha mãe e eu encontramos Edward vociferando freneticamente ao celular. – Não, eu não sei qual é o nível de dor dela! Porra, como é que eu posso saber disso?!
– Eu estou bem. – tentei dizer, mas minha voz não foi convincente nem para mim mesma.
Edward simplesmente ignorou meu comentário e continuou a falar, ao mesmo tempo em que caminhava pela sala como um animal enclausurado. – Tudo bem, em 15 minutos no máximo estaremos lá. – houve um momento de pausa por sua parte, enquanto escutava as instruções de seja lá quem estivesse falando. – Ok, vou me certificar que ela tenha o melhor atendimento assim que chegarmos. – afirmou por mim, antes de meter o celular no bolso da calça de flanela que ele vestia.
Sem deixar de fazer círculos calmantes sobre meus ombros, Renee inquiriu para Edward. – Conseguiu encontrá-la?
Edward assentiu. – Sim. Alguém no hospital conseguiu esse outro número dela.
– Ela quem? – questionei.
– Sua obstetra. – Edward respondeu, enquanto ia até o armário do hall e retirando o enorme sobretudo preto de lá e vestindo-o rapidamente. Se a situação não fosse tão emergencial, eu teria rido daquela estranha combinação de vestuário. – Ela estava em alguma porcaria de festa ou algo assim, mas já está indo em direção ao hospital. Você está pronta?
Foi minha mãe que respondeu por mim. – Ela está levando tudo o que precisa por enquanto: os exames dela e da bebê e o cartão com todo o acompanhamento da gestação. Vou ligar para o Emmett ou para Rose para saber se eles não poderão levar o restante das coisas até o hospital.
– Já disse que não precisa incomoda-los, mãe. Vai tudo ficar... – foi impedida de continuar minha frase devido ao gemido de dor que se irrompeu por meus lábios.
No mesmo instante, Edward estava ao meu lado, praticamente me rebocando em direção à garagem, enquanto falava alto por cima dos ombros para Renee – Por favor, ligue para eles, Renee. Nós vamos lhe manter informada do que está acontecendo.
Ao olhar brevemente de relance para trás, notei que a máscara de sobriedade que minha mãe usara enquanto me ajudara havia caído. Em seus olhos, estava clara a apreensão que sentia naquele instante e na maneira que ela entrelaçou seus dedos e os levou até o peito, quase como se fizesse uma oração. De certo modo, ao vê-la fazendo isso meu receio cresceu, como se o temor dela se instalasse por fim em mim mesma.
Após abrir a porta do carro para mim e se certificar que eu havia posto o cinto de segurança da forma correta, Edward avançou para o volante e deu partida no carro, saindo apressadamente para as ruas geladas de Chicago. A noite estava completamente escura e a estrada um tanto que congelada em certas partes, entretanto isso não impediu que ele dirigisse com apenas uma mão no volante, enquanto a outra se mantinha firmemente presa à minha. Ao longo do trajeto, quando havia uma contração um pouco mais intensa em meu ventre, usava nossas mãos entrelaçadas como uma forma de suporte, apertando-a com firmeza sem sequer pensar que aquilo podia estar o incomodando também.
Durante o caminho, Edward ligou mais uma vez para o hospital, apenas para confirmar a nossa chegada. Naquele momento, eu meio que o invejava um pouco: apesar do nítido nervosismo, ele era seguro o suficiente para passar todas as informações necessárias para a nossa chegada. Quanto a mim, mal podia lembrar meu próprio nome por causa da dor e do medo que sentia em medidas iguais.
Após encerrar o tramite inicial pelo próprio telefone, ele deu um leve aperto em minha mão – Vai ficar tudo bem, baby. – murmurou, à medida que pisava um pouco mais fundo no acelerador para ultrapassar um sinal vermelho. – Grace já está forte o suficiente para vir para nós. Tudo vai ficar bem.
Apesar das palavras dele serem reconfortantes, a minha intuição não dizia que seria algo simples assim: o fluxo de sangue havia se intensificado a ponto de senti-lo escorrer por minhas coxas, me causando uma tensão maior do que já me encontrava. Eu prendia os soluços que ameaçavam irromper por minha garganta, somente para não deixar que ele ficasse ainda mais nervoso. Entretanto, em meu íntimo sabia que apesar de suas palavras de conforto, os próximos minutos seriam os mais angustiantes em minha vida.
Isso sem contar que agora, as contrações estavam cada vez ficando mais intensas e não paravam sequer por um breve momento. No entanto, sabia que precisava me manter firme, tanto por meu marido quanto por minha filha.
Exatos vinte e três minutos depois, Edward parava o carro às portas da maternidade do Northwestern Memorial Hospital. Um alto homem negro de traços marcantes e uma senhora de grandes olhos acinzentados já aguardavam do lado de fora, com uma cadeira de rodas entre eles e bastou apenas com que meu marido desligasse o carro para que ambos se aproximassem com pressa do meu lado, auxiliando-me a sair do veículo. O pavor tomou conta de mim, a ponto de não poder conter o choro, quando notei que o banco de couro bege do carro estava manchado com uma considerável poça de sangue.
No mesmo instante, Edward apareceu na minha frente, segurando meu rosto entre suas mãos enquanto me fitava intensamente. – Calma, meu amor. Nós já estamos aqui. – disse ele, colocando todos os exames que havia trazido em meu colo. – A equipe cuidará de você enquanto eu preencho os documentos da sua entrada, está bem? Assim que eu puder eu estarei ao seu lado.
– Tem muito sangue. – balbuciei, deixando que uma grande lágrima escorresse teimosa por meu rosto.
– Eu sei, Bella, mas não há nada que temer. Nós já estamos aqui e em breve a Grace estará em nossos braços.
O homem, que pelo crachá se chamava Adam Ross, interrompeu o momento ao dizer. – Senhor, é preciso que se afaste. Precisamos levar sua esposa o quanto antes até a sala de exames.
Edward concordou e ficou de pé, mas não sem antes pousar um beijo em minha testa e murmurar que me amava. E então, com uma velocidade que julgava ser impossível sobre uma cadeira de rodas, fui levada corredor acima, em direção a uma das salas de emergência para fazer os exames preliminares.
O primeiro procedimento que tive que fazer foi ir até um dos toaletes onde uma enfermeira me ajudou a retirar minhas roupas ensanguentadas e trocar por um avental hospitalar. Meu desespero aumentou tanto ao verificar a condição de minhas roupas que a última coisa que me importei foi com aquele pedaço de pano tão constrangedor que tive que vestir.
Ao voltar para sala de exames, pude perceber que o jovem que me atendeu à porta do hospital era o próprio plantonista daquela noite na maternidade. Apesar de ainda ser muito novo, quase como se tivesse acabado de sair da faculdade, suas perguntas foram bastante metódicas em relação ao que eu estava sentindo naquele momento. Ao mesmo tempo em que instruía a enfermeira a aferir minha pressão arterial ele analisava a papelada de exames que trouxera comigo. E mesmo que essa atitude desse uma impressão fria por parte dele, percebi que na verdade, o médico estava poupando tempo, algo que eu julgava ser primordial naquele instante.
– Dezessete por onze, doutor. – a enfermeira exclamou, libertando meu pulso do velcro intenso do aparelho de pressão.
Por experiência, sabia que aqueles números não eram bons, contudo o doutor não respondeu nada à enfermeira, preferindo então apalpar minha barriga. Foi impossível reprimir um gemido quando ele tocou na base dela e logo em seguida colocou um doppler, para averiguar como estava o batimento cardíaco de Grace. Tentei um pequeno vislumbre, porém não tive muita sorte uma vez que ele era muito metódico e tampouco pude perceber o que estava acontecendo, já que sua expressão não se abalou um minuto sequer. A única coisa que eu podia fazer era ficar mais e mais apreensiva.
– Sra. Masen, a senhora se importaria de colocar seus pés no apoio? – a enfermeira inquiriu e eu não ousei interroga-la por isso. O medo me possuía de tal maneira que poderia fazer qualquer coisa sem questionar, nenhum daqueles dois ali dentro daquela pequena sala.
Com dificuldade e tendo o auxilio da própria enfermeira, consegui colocar as pernas nos estribos, apesar da dor intensa que sentir ao executar aquele movimento. O plantonista veio se colocar entre as minhas pernas e verificou que o sangramento persistia, se não, muito mais intenso desde que começara no banheiro de meu quarto. Em momento algum as contrações haviam apaziguado e com a experiência anterior de ter passado por um parto normal, remetia que situação de agora poderia ser considerada algo sem problemas.
Houveram duas batidas na porta, porém ninguém precisou vociferar uma autorização verbal, para que Edward entrasse no quarto. Na verdade, acho que ninguém ousaria negar-lhe nada naquele momento. Ao vê-lo se aproximar com pressa de mim, fui tomada por um pouco de alívio, mesmo que tudo não estivesse tão bem como desejávamos. Ele tomou minha mão e nossos dedos se entrelaçaram com firmeza, entretanto era inegável não perceber quão fria estava sua palma em contato com a minha.
Pouco depois, o médico me ajudou a voltar a minha posição anterior, contudo não ousei levantar meu pescoço para ver a expressão dele e tentar descobrir a derradeira situação. Todavia, eu pude ouvir foi o estalo das luvas de borracha quando ele as retirou e suas palavras apressadas para a enfermeira que nos acompanhava. E seja lá o que ele tivesse a dito, fez com que a mulher saísse às pressas dali.
– E então, doutor. – Edward inquiriu de maneira apreensiva. – pode dizer o que está acontecendo com elas?
Ouvi o doutor suspirar profundamente antes de começar a falar finalmente – Senhor, sua esposa apresenta todos os sintomas de um descolamento de placenta.
– Pode ser mais específico? – ele rebateu no mesmo instante.
– A placenta dela descolou do útero antes da hora, provavelmente por causa da pressão alta. E é isso que está causando as contrações.
– E você não pode... – respirei profundamente para aguentar uma pontada mais intensa em meu útero, para somente em seguida continuar a falar –...passar algum remédio para isto?
Ele balançou a cabeça negativamente. – Senhora, eu receio que a melhor opção agora é anteciparmos o parto.
– Sem chance! – Edward vociferou, com uma risada de deboche. – Não sem a obstetra dela aqui!
– Sei que é repentino, mas quanto antes fizermos isso melhor será tanto para sua esposa quanto para o bebê.
– Tudo bem. – disse eu, reunindo toda coragem que eu tinha em mim. – Levem-me para a sala de cirurgia.
– Não! – Edward protestou, voltando seus olhos frenéticos para mim. – Baby, sua médica nem chegou aqui ainda! Vamos aguardar a opinião dela.
– Senhor Masen, – o médico pediu calmamente, antes que eu mesma pudesse dizer qualquer coisa. – é uma decisão delicada, porém qualquer minuto perdido é crucial para o bem tanto da mãe quanto da criança.
– Então o que você está esperando?! – Eu gritei desesperada – Me leve para o bloco cirúrgico, agora! Eu não posso perder a minha filha!
– Bella... – Edward sussurrou, tentando me manter calma.
– Você ouviu o que ele disse: Se demorarmos mais tento a Grace pode estar em perigo!
Naquele momento, a enfermeira que havia auxiliado nos primeiros momentos aqui voltou, agora trazendo a tiracolo o restante da equipe médica. Dentre todos ali, uma mulher pálida e de gestos pragmáticos se aproximava de nós, retrucando rapidamente com o plantonista algo incompreensível aos meus ouvidos. Ela assentiu minimamente para o médico e finalmente voltou-se para nós: sua expressão era séria e dura que chegava a ser desconfortante.
– Preciso que você saia agora. – Ela disse grosseiramente, cruzando os braços sobre seu peito.
– Ela é a minha mulher. – ele argumentou, encarando-a de forma ameaçadora. – E afinal, quem diabos é você para exigir minha retirada daqui?
Dr. Ross colocou cuidadosamente sua mão sobre o ombro de Edward. – Sr. Masen, sei que é algo difícil, mas eu preciso assumir esse caso, pelo menos até a chegada da Dra. Shelton. Iremos encaminhar sua esposa para o centro cirúrgico para começarmos o procedimento e, por se tratar de uma cesariana de emergência, temos que pedir que o senhor saia.
– Mas... – ele balbuciou, segurando com mais força a minha mão.
– Por favor, Edward. – eu falei o mais tranquila que eu podia, chamando a atenção dele. Mesmo usando um tom tão baixo, foi suficiente para que me olhasse apesar de todo o barulho naquela sala. – Pode ir, amor. Você mesmo disse que tudo ia ficar bem quando estávamos vindo para cá, lembra?
Ele me fitou de maneira tão dolorida que chegava a me machucar tanto quanto as contrações em meu ventre. Seus olhos eram um espelho de seu interior, que só refletiam aflição e desespero e não demorou muito para que tais sentimentos fossem convertidos em uma única lágrima rolou por sua face. – Por favor, Bella.
– Vai dar tudo certo, você vai ver. – sorri fracamente ao mesmo tempo em que a mulher que encarara Edward cutucava uma veia em meu antebraço. – Eu te amo.
– Eu também te amo, – ele disse com a voz fraca devido ao choro preso na garganta.
A gentil enfermeira se aproximou dele e finalmente, Edward começou a se afastar de mim. Ela mantinha uma conversa gentil para com ele, entretanto, os olhos dele estavam presos aos meus. Quis lhe passar uma imagem de segurança e por isso mantive o sorriso o tempo todo, até que ele atravessasse a porta e então não poder mais vê-lo.
A equipe ao meu redor estava além de agitada, organizando tudo para realizar o procedimento de emergência. O Dr. Ross estava frenético, ladrando ordens para todos na medida em que terminavam de me estabilizar para que entrasse em cirurgia. A outra médica que havia expulsado Edward me perguntou se eu tinha alergia a alguma medicação e quando eu lhe disse que não, ela apenas assentiu e voltou-se para um canto da sala, onde mal podia ver o que ela estava fazendo.
Notando meu receio, o obstetra falou. – Aquela é a Dra. Hannah Oswald, ela é anestesista e está preparando agora a sua sedação. Como seu sangramento ainda é ativo, optamos por uma anestesia geral, portanto você não poderá ver seu bebê assim que ele nascer.
Aquela nova informação me encheu de temor e por isso, minha mão livre buscou o braço dele, onde segurei com toda força que podia para chamar sua atenção. – Doutor, – pedi, assim que seus profundos orbes negros me fitaram com preocupação. – por favor, faça tudo para salvar a minha filha.
– Farei o possível, senhora. – respondeu ele ao mesmo tempo em que a Dra Oswald se aproximava e começava a aplicar uma injeção na minha veia – mas se eu tiver que escolher, a minha prioridade será você.
– Não... – murmurei fracamente, – por favor, não!
Porém, se ele respondeu ao meu fraco apelo eu não pude saber. A meu contragosto meus músculos foram ficando lassos e um sono profundo me abatia, mesmo que eu forçasse pelo contrário. Embora tudo em mim relaxasse, meu coração continuava aflito, agora mais do que nunca por não fazer ideia se encontraria a garota por quem eu tanto lutei. Sem saber se todas as minhas batalhas nos últimos meses haviam sido em vão.
[...]
EPOV
Eu estava tendo um pesadelo.
Era nisso que queria acreditar, enquanto alguém me afastava do leito onde Bella permaneceria, sendo preparada para uma cirurgia de última hora. Por mais que ela frisasse que uma cesariana era algo corriqueiro atualmente, ninguém estava esperando as complicações de última hora: sangramento, dor e o risco de morte tanto para a minha mulher quanto para minha filha.
Aos poucos, Bella e eu vínhamos reconstruindo a confiança que havíamos perdido em nosso casamento. Com cautela, paciência e, sobretudo amor, fomos nos perdoando e conectando outra vez. E à medida que fazíamos isso, era impossível não deixar de me apegar um pouco mais com Grace, a garota que tinha revirado nossas vidas pelo avesso. Cada dia que eu passava mais próximo de Bella, mais aprendia sobre aquele frágil bebê de movimentos lentos que ainda estava dentro dela. De forma alguma, não podia deixar de criar sentimentos por aquela menina também. E agora, ao que parecia, tudo indicava que poderia perder alguma das duas.
Sinceramente, não sabia dizer qual situação seria pior: por mais clichê que fosse, Bella era o meu ar. Só a simples ideia de não tê-la viva fazia com que meu peito fosse esmagado a tal ponto de ser difícil o simples ato de respirar. Se ela deixasse de existir, eu estaria morto; poderia continuar existindo, mas tinha plena certeza que minha vida teria acabado no mesmo instante que a dela.
Por outro lado, sabia que se acaso Grace não sobrevivesse, minha mulher nunca mais seria a mesma. Bella havia lutado tanto por essa menina, que tinha absoluta certeza de que se algo acontecesse com ela, tudo mudaria entre nós. Afinal de contas, eu fui o grande responsável pelas complicações na gestação de minha esposa. Não a culparia se ela associasse a morte de nossa filha a mim. E nem a culparia por isso uma vez que ela teria toda razão. Isabella nunca mais gostaria de me ver a sua frente se isso acontecesse.
No mais, de uma forma ou de outra eu acabaria perdendo a mulher da minha vida para sempre.
Contudo, não podia ser insensível a ponto de pensar que a morte de Grace atingiria apenas a minha mulher, pelo contrário: nos últimos dias eu aprendi a me importar com a vida que estava crescendo no ventre de Bella. Seus pequenos movimentos e o som do seu coraçãozinho disparado durante o último pré-natal me fizeram repensar em minhas atitudes nos últimos meses. Estava arrependido tanto pelo que havia feito minha mulher sofrer quanto pelas coisas que pensei sobre essa menina, que acima de qualquer coisa, era minha também.
E pensar que agora, depois de ter finalmente caído em mim e aceitado a condição de Grace, tudo isso estava acontecendo. Tinha a impressão que isso era algum tipo de piada sádica do destino, me castigando por ter sido tão obtuso desde o princípio. Por ter desacreditado de alguém só por conta de uma condição genética na qual ninguém tinha culpa.
Com certeza, minha filha iria ter suas limitações; não era idiota o suficiente para negar isto. No entanto, cheguei a conclusão de que aquela bebê merecia ter a chance de viver, assim como qualquer outra pessoa. Iria ser difícil, complicado e quem sabe até doloroso, porém, depois de conhecer tantos outros pais que estavam em situação parecida com a nossa, não havia como não se sentir mais esperançoso quanto ao futuro dela. E mesmo que Grace não fosse um bebê dos mais saudáveis, nós poderíamos arcar com toda e qualquer despesa pelo bem estar dela. Aprendi que independente de ser Down ou não, eu era o pai dessa garotinha e era minha responsabilidade garantir sempre o melhor para ela.
Estava tão transtornado que nem sequer notei que um dos seguranças da maternidade se aproximara, me informando que não poderia permanecer ali. Ele me acompanhou de volta até a sala de espera, que naquela noite estava absolutamente vazia naquela noite congelante. O televisor ali estava ligado, no entanto, nada seria capaz de me distrair naquele momento: a preocupação e o remorso me consumiam e esse mal só podia ser apaziguado quando tivesse alguma notícia delas.
A aflição de permanecer ali sem nenhuma notícia estava me corroendo. Deixar Bella sozinha num quarto de hospital, preste a passar por uma cirurgia que nenhum de nós esperávamos para aquele momento me assustava em proporções intangíveis. A todo instante minha mente era invadida com a imagem de seu sorriso sereno, apesar de toda a dor que provavelmente ela deveria estar sentindo. Conhecia-a bem o suficiente para dizer que ali ela estava tentando me acalmar, porém nada poderia fazer com que me sentisse desse jeito até que eu a tivesse outra vez do meu lado.
Minhas pernas pulavam freneticamente devido a minha agitação por falta de notícia. Quanto tempo fazia desde que me retiraram da sala? Dois, cinco ou dez minutos? Ela já estava sedada e no bloco cirúrgico? Tudo estava correndo bem? E porque ninguém vinha me avisar o que diabos estava acontecendo com as duas?
Meu olhar estava focado no corredor a minha frente, esperando encontrar alguma das pessoas que estavam lá dentro, porém tudo o que eu via era a recepcionista que digitava freneticamente em seu celular e ria a cada dois segundos. Nem o médico, tampouco alguma enfermeira aparecia para me dar alguma notícia do que estava acontecendo e a pior coisa para mim era justamente isto: a angústia de não ter qualquer tipo de informação seja ela qual fosse.
Se acaso não estivesse tão focado no corredor a minha frente, eu teria perdido de ver a Dra. Shelton andando apressadamente sem sequer cumprimentar aqueles que lhe falavam. Num impulso, me levantei da cadeira metálica e chamei por ela, ignorando a ordem de silêncio que existia em qualquer hospital.
Por sorte, ela olhou em minha direção e parou e de imediato assim que me reconheceu. Aproximei-me dela e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela interrogou – O que foi que aconteceu? Bella sofreu um acidente, teve alguma situação de stress?
– Não... Quer dizer, eu acho que não. – respondi estupidamente. – Juro que não fiz nada. Nós estávamos bem, nos preparando para dormir quando ela começou a sangrar. E o sangue só fazia aumentar e então veio as dores e...
A médica ergueu as mãos, interrompeu meu fluxo de palavras. – Sr. Masen, vou verificar o que está acontecendo com Dr. Ross e assim que puder irei informa-lo, está bem
– Eles disseram que iam fazer uma cesariana de emergência e o médico não sabe nada sobre o caso. – afirmei, minha voz ficando mais tensa a cada palavra que proferia.
– Não se preocupe, há anos conheço o Dr. Ross e sei que sua esposa está em boas mãos. – ela afirmou, – Agora, eu preciso ver o que aconteceu com minha paciente, sim?
– Por favor, doutora. – supliquei, desta vez sem esconder as lágrimas que escorriam livremente pelo meu rosto. – não deixe que nada aconteça com nenhuma delas.
– Farei o possível, senhor, mas de antemão lhe asseguro que sua mulher está sendo tratada pela melhor equipe de Chicago. Agora, se me der licença, eu preciso ir.
Desbloqueei sua passagem e com isso a mulher baixa, saiu rapidamente atravessando as portas que davam acesso aos leitos da maternidade. E outra vez me vi outra vez na solidão daquele hospital e na angustia de aguardar os minutos que teimavam a passar. De volta ao ambiente estéril da sala de espera, sentia-me como se estivesse dentro do meu pior pesadelo e sem chance alguma de acordar e perceber que nada daquilo estava de fato estava acontecendo.
No meu bolso, meu celular começou a vibrar e eu vi que era um a ligação de Renee. Respirei fundo algumas vezes, tentando controlar minha voz antes de atender. A última coisa que eu precisava no momento era que ela ficasse mais preocupada do que já estava pela filha. Escondi os temores dentro de mim o melhor que pude e atendi o telefonema.
– Oi, Renee.
– Olá, querido. Eu estava aguardando sua ligação, mas a minha aflição materna falou mais alto.
– Eu entendo. Desculpe por isso.
– E então? – ela inquiriu com temor. – Como ela está?
– Ela foi atendida assim que chegou aqui. Parece que o sangramento provocou algum tipo de incomodo no útero e por isto vão antecipar a cesariana.
– Oh, Deus!
Voltei a fitar o corredor, com receio de acabar perdendo de vista alguém que viesse me informar alguma coisa. – A Dra. Shelton já chegou e está atendendo-a. Não há porque se preocupar.
– E você não vai poder assistir o parto, certo?
– Não, mas eu não estou reclamando dessa parte. – menti atrevidamente e tentei fazer humor com a situação. – você sabe como eu sou com sangue.
– Entendo – ela murmurou e eu percebi que não havia lhe enganado tão bem assim. Contudo, rapidamente Renee mudara de assunto. – Liguei para Rosalie e ela disse quem em 10 minutos chegará aqui para levar tudo o que Bella e o bebê irão precisar.
– Obrigado, Renee. O Richie continua dormindo?
– Como uma pedra. – ela retrucou. – Já até imagino a reação dele ao descobrir que ganhou uma irmãzinha durante a madrugada!
Tentei sorrir, mas sabia que isso seria algo impossível naquele momento: a apreensão não deixaria com que eu imaginasse a reação de alegria do meu filho. Por mais pessimista que parecesse, só podia pensar no que eu lhe diria, se por ventura eu tivesse que lhe contar que a sua mãe não voltaria para casa amanhã.
– Edward, filho, você ainda está aí? – a voz de minha sogra disse, afastando aquela linha de pensamento depressiva.
– Sim, Renee. Eu só tenho que terminar de preencher alguma papelada aqui.
– Tudo bem, mas assim que tiver qualquer novidade por favor, me ligue sim?
– Ok. Irei fazer isso sim.
– E Edward? Tenha fé, sim? Nada de mal irá acontecer com nenhuma das duas.
Assenti e nos despedimos brevemente, já que minha voz estava trancafiada na garganta a tal ponto que não poderia mais falar sem revelar meu verdadeiro temor. Renee já era perceptiva por natureza, e de forma alguma gostaria que ela soubesse dos meus receios através do meu tom. Era um tanto egoísta mas preferia continuar sofrendo sozinho, pelo menos até que tivesse o veredito do que estava se passando.
Meu pé continuava batendo cada vez mais rápido no piso lustrado e minha visão se mantinha em vão fixa a minha frente, esperando notícias que não tinha noção se chegariam em breve ou não. Estava tentando parar de fumar outra vez, no entanto nunca quis tanto um cigarro como naquele momento. Talvez somente um pouco da nicotina circulando em meu sistema poderia apaziguar um pouco esse tormento da falta de informação.
Olhei para o relógio no pulso e me surpreendi ao ver que fazia menos de meia hora que havíamos chegado ali. Para mim, parecia horas desde que deixara Bella sozinha naquela sala, sua expressão tentando me passar confiança, porém os olhos transparecendo o quanto ela mesma temia por estar diante daquela situação. E se existia um culpado nisso tudo era eu.
Bella poderia ter tido uma gestação tranquila, como ela de fato fora até descobrirmos que Grace era Down. Desde aquele dia em diante, a saúde de Bella foi ficando debilitada ao mesmo tempo que eu inflamava ainda mais seu psicológico com ideia de aborto, uma vez que eu era muito idiota para não aceitar um filho que não fosse “perfeito”. Fazia questão de mostrar meu desprezo por essa criança e criticava abertamente cada escolha que Bella fazia em favor de nossa família. Eu era exatamente como uma menino mimado que ficou puto por ter sido contrariado.
Só tive consciência de que tinha perdido Isabella naquela manhã de Natal, quando ela me entregou sua aliança de casamento. Eu a tinha ferido a tal ponto de fazer com que ela desacreditasse de algo que vivíamos desde quando éramos apenas dois adolescentes. De algo tão puro que a tinha feito atravessar o país há dez anos para que pudéssemos recomeçar a nossa história.
Mas por sorte, Bella é um ser humano muito melhor do que eu e havia conseguido me perdoar. Apesar de tudo, aquela adolescente sonhadora a qual teve sei primeiro beijo comigo ainda me amava, e saber disso foi um bálsamo para minha alma. O problema é que eu não poderia fazer isso comigo mesmo, se por acaso eu viesse a perdê-la para sempre.
Eu estava quase me levantando para falar com a recepcionista quando finalmente o Dr. Ross reapareceu. E por aquele mísero segundo, meu coração parou para logo em seguida voltar com o dobro da velocidade que estava.
Como advogado, eu tinha facilidade em reconhecer o humor das pessoas apenas verificando suas expressões. Com a experiência, tinha aprendido a ler as pessoas a ponto que sabia identificar quando alguém estava nervoso, depressivo, empolgado ou mentindo. Tão fácil que havia se tornado uma segunda natureza para mim.
Por isso, bastou ver o sorriso cansado na face daquele médico para que eu fosse tomado por uma sensação de alívio como nunca sentira antes. Apenas isso foi o suficiente para que fosse inundado pela sensação de paz que precisava naquele momento.
Estava tão anestesiado que sequer me levantei da cadeira quando o médico ficou a minha frente. Seu semblante era sereno, mas ao mesmo tempo notei que ele também estava cansado, talvez devido as circunstâncias na qual minha mulher chegou até aqui.
– A cirurgia foi um sucesso. – ele sibilou tranquilamente – Sua esposa e sua filha estão bem, Sr. Masen.
– O que foi que minha mulher teve? – perguntei, agora um pouco mais aliviado por saber que elas estavam fora de perigo.
– Bem como falei antes, a placenta se descolou do útero de sua esposa, provavelmente devido a pressão alta. – ele explicou calmamente. – O espaço entre o útero e a placenta estava acumulando muito sangue entre eles, o que gerou todas aquelas contrações. Era uma situação complicada, já que isto poderia evoluir para uma hemorragia de grandes proporções. Sem contar que os batimentos cardíacos da menina estavam ficando mais lentos, o que demonstrava sofrimento fetal. Antecipar o parto era nossa única alternativa.
– E eu já posso vê-las?
Em resposta, ele apenas sorriu. – Bem, ainda não, lógico. Sua esposa ainda está sedada e perdeu uma quantidade significativa de sangue. Iremos deixa-la na UTI pela próxima hora, mas em breve vamos transferi-la para o quarto onde você poderá permanecer ao lado dela.
– E quanto a minha filha? – perguntei, ainda me sentindo inseguro ao proferir essas palavras.
– Ela teve um pouco de dificuldade para respirar ao nascer. – ele falou, ficando um pouco mais preocupado. – iremos monitorá-la nas próximas horas e ver como ela irá reagir.
– Mas ela corre risco?
– Sempre existe risco, Sr. Masen, mas pelo que vi da sua garota, tenho certeza de que ela irá ficar bem.
Assenti, contudo não pude deixar de perguntar – Doutor... a bebê é saudável? Tipo, ela tem algum problema no coração ou algo assim?
– Bem, infelizmente eu não posso lhe informar isto, pelo menos por enquanto. – ele começou enfiando as mãos nos bolsos de seu jaleco. – Aparentemente, ela é sim uma menina com bastante saúde, porém somente amanhã, quando ela passar por toda bateria de exames necessário é que poderemos identificar qualquer problema que eventualmente sua filha possa ter.
Foi impossível evitar que minha preocupação se atenuasse e percebendo isso, o médico comentou. – Por ora, eu lhe aconselho a não ser pessimista: já fiz partos de bebê em situações muito mais delicadas e que hoje são crianças absolutamente saudáveis. Fique tranquilo que muito em breve você poderá constatar por si mesmo que sua filha está bem.
Finalmente fiquei de pé e tomei a mão do médico, apertando-a fervorosamente. – Obrigado, doutor. Por ter cuidado das duas.
Ele deu de ombros, como se não tivesse feito um grande feito. – Apesar da situação, foi um prazer ter ajudado, Sr. Masen. E meus sinceros parabéns: sua filha é um dos bebês mais bonitos que já vi.
Não soube o motivo, mas de repente meu peito se ao expandiu ao escutar aquelas palavras vindas dele. De maneira involuntária, senti meus lábios se abrirem em um sorriso. – Obrigado.
Logo em seguida, o bip dele começou a apitar e ele se desculpou e seguindo mais uma vez para a ala de emergência. Quanto a mim, nada poderia ser melhor do que a onda de alívio que senti ao saber que tanto Bella quanto Grace estavam fora de perigo.
Há muito tempo eu não sabia o que era fazer uma oração. Nunca fora a pessoa mais religiosa do mundo, mas acreditava em Deus. Só que depois do diagnóstico de Grace, tinha que admitir que tinha ficado revoltado e descrente, sem entender os motivos de minha família ter sido escolhida para passar por isso. Consequentemente tinha esquecido de que existia um alguém por mim e que Ele havia realizado um pequeno milagre esta noite.
Então, como há muito não fazia, eu rezei. Ali mesmo, depois de ter voltado a sentar na desconfortável cadeira da sala de espera, fechei meus olhos e agradeci por alguém lá em cima ter decidido que eu merecia essa segunda chance. Essa oportunidade de consertar meus erros e aprender com eles e reconstruir nossa família com o mais novo membro dela, uma menina onde todos sabiam que era especial.
Especial não por que ela era diferente, mas sim por ela ser capaz de fazer com que muitos preconceitos se quebrassem apenas com sua existência.
[...]
Após o médico falar comigo, não demorou muito para que o Emmett chegasse ao hospital, trazendo tudo o que Bella e a bebê precisariam para os próximos dias. Quando contei para meu primo as boas-novas, fui cumprimentado por um abraço verdadeiro e percebi que de fato, estava feliz por me tornar pai outra vez.
Quando lhe perguntei sobre Rosalie, ele rolou os olhos e disse que tinha instaurado a terceira guerra mundial por não aconselhar que ela viesse. Ele só conseguiu convencê-la a não vir depois que a lembrou que estávamos no início da madrugada e que hospital algum permitiria que mãe ou recém-nascido durante esse horário. No entanto, Emmett me alertou para não me assustar, se acaso encontrasse sua esposa logo nas primeiras horas da manhã.
Não via problema nisso, afinal ela seria a madrinha da pequena Grace. Se existia alguém que merecesse conhecer minha filha, era aquela loira com aparência tão fria, mas de um coração benevolente que havia apoiado Bella a manter essa gestação.
Após a saída de Emmett e de ter entregue o material que ele trouxera para a enfermeira-chefe, liguei para Renee, que finalmente se permitiu chorar assim que lhe contei que ambas estavam bem. Entre as lágrimas, minha sogra me perguntou se a Bella estava acordada, se estava com dor e sobre com que a Grace se parecia. Logicamente eu fugi de todos estes questionamentos, uma vez que sequer tinha resposta para todas as essas dúvidas.
Por sorte, a mãe de Bella pareceu aceitar bem as minhas evasivas e pediu para que eu descansasse também, já que teríamos um dia extremamente agitado amanhã.
Não muito tempo depois, fui informado que minha mulher finalmente tinha sido transferida para o quarto e enfim eu poderia ficar ao lado dela. As pressas, fui até o local em que ela estava internada e me assustei com o que vi assim que cheguei no patamar da entrada.
Minha Bella estava mais pálida do que o normal, a brancura extrema de seu rosto contrastava com o cabelo escuro, que se espalhava no travesseiro. Seu rosto ainda conservava o inchaço das semanas finais da gravidez, contudo a protuberância em sua barriga havia sumido. Sua expressão não era a mesma de quando ela dormia profundamente, pelo contrário: me dava a impressão de que ela estivesse morta.
Meu pavor de vê-la dessa maneira devia estar explicito em meu rosto, pois logo em seguida escutei a Dra. Shelton me dizer. – Não se assuste, sua esposa apenas ainda esta sedada por conta da anestesia geral. Em duas ou três horas no máximo ela irá acordar.
– Mas ela está bem? – perguntei, pelo que parecia ser a milésima vez naquela noite e me aproximei do leito onde ela estava, tomando sua mão na minha.
– Ela perdeu certa quantidade de sangue, mas não o suficiente para que precisássemos de uma transfusão. No entanto. ela ficará um pouco debilitada e somente amanhã pela manhã é que ela poderá alimentar a bebê.
Continuei a acariciar a palma da minha mulher, sem deixar de notar o quão fria ela estava.
Percebendo que eu precisava de um momento, a médica saiu discretamente, me deixando a sós com Bella. Estava esgotado tanto físico quando mentalmente, embora o dormir fosse a última coisa que passara em minha cabeça. Apesar do cansaço, nada poderia fazer com que eu pudesse de velar minha Bella adormecida.
Talvez esse tenha sido o dia mais exaustivo de minha vida. Tinha consciência de que o pior havia passado, no entanto, só a mínima ideia de que hoje eu poderia ter perdido minha Bella por conta de algo que diretamente eu era responsável, fazia com que a culpa consumisse o meu ser. Por mais que agora seu coração batesse tranquilamente no monitor e a respiração calma durante seu sono profundo me comprovasse que ela estava bem, não podia deixar de me sentir responsável por todo aquele estresse. E, o pior de tudo era saber que existia uma garotinha em alguma parte deste hospital que precisava de cuidados por ter vindo antes do esperado.
O fato de Grace ser ou não ser excepcional em nada refletia para o parto complicado que Bella tinha passado. Por outro lado, todas as acusações que eu lhe fiz, o sarcasmo e a raiva injustificada por alguém tão inocente haviam interferido sim na segurança que toda mulher necessitava ao longo da gestação. Desprezo era muito pouco para mensurar tudo o que sentia naquele momento. Se eu simplesmente tivesse agido de maneira prudente, nada disso precisaria ter ocorrido.
Em momento algum Bella abandonou seu instinto maternal. Acho que em no fundo, ela também acreditava que eu um dia aceitaria Grace da maneira que ela é, do contrário não teria concordado em voltar para mim. Ver o quanto essa mulher de aparência tão delicada lutou por nossa pequena família era um aviso constante de que eu não era merecedor de alguém como ela.
Por sorte minha, eu era egoísta demais para abrir mão dela.
– Sr. Masen? – uma enfermeira que mal tinha percebido entrar no leito me chamou, desviando todos os meus pensamentos. Encarei-a confuso enquanto ela me abria um leve sorriso. – Só vim aqui lhe informar que sua filha já pode receber sua visita. O senhor gostaria de vê-la?
Meu coração acelerou em meu peito e minhas mãos imediatamente começaram a suar. Não fazia ideia do por que me sentia daquele jeito, a ponto de não conseguir se quer formar uma frase coerente. – Eu... posso?
A mulher de capote azul assentiu brevemente, – Claro. Basta me acompanhar, – disse, abrindo a porta do quarto para que saíssemos.
Antes de me retirar, deixei um breve beijo na testa levemente fria de minha mulher, sussurrando que voltaria logo. Comecei a seguir a mulher, buscando uma forma de não cair a cada passo que eu dava a frente. Era uma mistura estranha de empolgação, medo, apreensão que me dominava, a ponto de não fazer ideia de como proceder. A mudez era impertinente apesar do meu desejo de fazer milhões de perguntas ao mesmo tempo: ela estaria bem? Teria minha filha algum problema ou dificuldade? O que eu deveria esperar quando a visse?
A jovem parou bem na entrada do berçário e eu me vi procurando rapidamente alguém que sequer fazer ideia de como seria. Averiguava cada rosto, tentando achar algum traço que revelasse que aquela seria minha filha, no entanto, o que eu via era um monte de outros bebês, todos com as mesmas expressões de choro de quem havia acabado de entrar em uma nova vida e não fazia ideia de como encara-la.
A mulher, que durante o caminho se dissera chamar Shelby, notou a minha ânsia e soltou uma risadinha, fazendo com que eu me sentisse ainda mais idiota do que já era. – Ela não está nesta ala, papai. Sua garotinha ainda está na incubadora.
– Por que? Ela está bem? – inquiri preocupado, fazendo com que a culpa se triplicasse dentro de mim.
– Não é nada, apenas por precaução. Sua bebê teve um pouquinho de dificuldade para respirar, mas daqui a uma hora no máximo tudo será normalizado. Você mesmo poderá leva-la para o quarto, se quiser – explicou distraidamente a medida que entravamos no berçário e seguíamos até uma porta anexa. – O senhor se importaria de vestir essa capa protetora? .
Assenti e fiz exatamente o que me foi recomendado, deixando que a ansiedade me tomasse a cada velcro que eu prendia.
Ao entramos, a enfermeira apontou para um pacote minúsculo recolhido em uma das incubadoras no canto esquerdo da sala. Reconheci sorrindo a manta lilás com borboletas coloridas que Bella havia separado no inicio da tarde, quando nenhum de nós dois poderia imaginar que ela seria usada justo hoje. Com passos lentos, como se quase estivesse apreensivo com o que veria, me aproximei do lugar onde ela estava. Tomei uma respiração profunda, reunindo toda coragem para encarar aquele mais novo pertence de minha família.
No entanto, eu não estava preparado para enxergar tudo aquilo. No momento em que pousei meus olhos sobre ela, foi como se todo meu fôlego fosse sugado de meu corpo naquele instante, ao ponto de me sentir sem forças para continuar de pé. Em momento algum me senti tão vulnerável em minha vida, quase como se todo meu corpo estivesse prestes a ceder.
Aquele serzinho tão indefeso, com bem menos de 50 cm havia me nocauteado.
Sua pele era alva, transparecendo uma delicadeza além da conta até mesmo para um recém-nascido. No nariz minúsculo e arrebitado, prendiam-se dois tubos para facilitar sua respiração que, como a enfermeira me informara, ainda era debilitada. Suas pálpebras possuíam um tom lavanda, e eu consegui perceber o leve padrão dos vasinhos sanguíneos sobre elas. Dos lábios extremamente rosados aparecia a ponta de sua língua, dando a impressão de que aquela parte de seu corpinho era algo mais doce do mundo.
Porém o que mais me surpreendeu foi a farta cabeleira arrepiada em um tom profundo de ruivo, que quase chegava ao laranja. Exatamente a mesma cor de cabelo que minha mãe descrevia para todos que conhecia, quando se referia ao meu nascimento.
Um mísero detalhe, tão pequeno quanto os dedinhos que insistiam em agarrar a ponta do lençol que lhe revestia, foi o suficiente para que eu enxergasse a mim mesmo naquela garota. Algo só meu que também pertencia a ela; que só a genética, independente de um cromossomo a mais ou a menos, era capaz de fazer. Essa mera minúcia, quase um pormenor era dividida apenas por nós dois; um traço em comum que só existia entre eu e minha filha.
Minha filha.
Não percebi que estava chorando até sentir o gosto salgado das lágrimas pairando sobre aquele que deveria ser o maior sorriso em meu rosto nos últimos meses. De fato, eu estava diante da garotinha que sempre sonhei ser pai. Da menina que iria insistir em brincar de bonecas comigo, que iria choramingar no meu pé toda vez que a Bella insistisse que era hora do banho e que me pediria para ler um conto de fadas antes de ela dormir.
Naquele momento, extinguiu-se qualquer dúvida de que eu não seria capaz de amar aquela garota: bastou olhá-la apenas uma única vez para que eu me sentisse apaixonado. O rostinho enrugado e vermelho, a mão fechada em um pequeno punho e o modo constante de sua respiração subia e descia... aqueles pequenos e involuntários gestos deixavam-me hipnotizado. Eu era incapaz de parar de olhar para ela.
Minha mão instintivamente encostou no acrílico que nos separava, como se eu estivesse ansiando desde sempre para tocá-la. Um impulso de querer colocar aquela menina em meus braços e protege-la de qualquer coisa havia dominado o meu ser por completo. E ali mesmo, enquanto fitava aquela perfeição a minha frente, jurei que enquanto fosse vivo faria de tudo possível pelo bem de minha filha.
Não importava se os maiores desafios de sua condição ainda estavam por vir: sabia que eu seria capaz de enfrentar qualquer coisa pela felicidade dela. E mesmo que ela ainda não fosse capaz de fazer isso, sabia que no futuro, eu ganharia o meu dia sempre que essa ruivinha me lançasse um sorriso.
Levei meses para aceitar a condição de que seria pai de uma pessoa excepcional, no entanto, bastou apenas um segundo para acreditar que a vida me dera um anjo para que eu tomasse conta para sempre.
Notas finais
Qual foi a reação de vocês?
( ) Gostaram
( ) Odiaram
( ) Querem fazer cosplay de Nazaré e roubar a bebê Grace
Outras opções, comentários, críticas ou dúvidas? Basta escrever no quadrinho aqui embaixo! irei ler com todo amor e carinho e responder na medida do possível!
Enfim, fico aguardando!
Beijocas
Line
Fale com o autor