Nothing Can Get You Down
9 Capítulo Oito
Notas iniciais
Edward e eu tínhamos voltado para a ampla sala de consultório, sentados lado a lado e unidos por nossas mãos entrelaçadas embaixo da mesa. Enquanto isso, a Dra. Shelton continuava a analisar algumas impressões feitas pela ultrassonografia que eu tinha acabado de realizar, com uma expressão neutra. Quanto mais ela folheava os gráficos, mais minha mão apertava a de Edward, que pouco podia fazer para me tranquilizar, já que ele mesmo passava a outra mão livre freneticamente pelos cabelos.
– Bem, – a médica começou – pelo visto, Susan encontrou algo relevante por aqui, – comentou ao empurrar seus óculos pela ponte do nariz
– Que tipo de relevância? – Edward inquiriu enfaticamente, sua voz tensa devido a toda situação.
Ela respirou fundo e pousou todos os papéis em cima de sua agenda. – Vocês devem saber que o exame de ultrassom vai muito além do que simplesmente ver o bebê, certo?
Edward fez uma careta e rebateu sarcástico. – Nós não somos médicos nem nada, mas temos sim a mínima noção sobre isso.
Meu aperto se intensificou um pouco mais, não sei se pelo que ele havia dito ou por conta do nervosismo que tomava meu sistema.
Felizmente, a doutora ignorou completamente suas palavras e prosseguiu. – Esse exame, na fase inicial da gestação, é importante para acompanharmos a evolução do feto. Se o bebê está progredindo corretamente.
Meneei a cabeça levemente e questionei. – Por que nós voltamos para cá? Há algo com meu filho?
Ela cruzou os braços no colo, voltando a falar e ignorando minhas divagações. – Durante a primeira ecografia, fazem-se algumas medidas avaliativas, e dentre estas está a Translucência Nucal.
Apenas a sonoridade daquelas palavras me assustou. Nucal? Será que era algo errado com o cérebro do bebê? Ou talvez algum tipo de má-formação que o deixaria deficiente físico ou algo assim?
– Pode ser mais clara e não usar termos médicos, por favor? – Edward pediu apreensivo.
– Bem, Sr. Masen, para ser mais simples, esse exame mostra um acúmulo de líquido na nuca do feto.
Praticamente esmagando os dedos de meu marido, eu questionei. – E isso é grave?
Ela abriu uma das gavetas de seu gabinete e procurou por algo até que retirou de lá alguma outra imagem, parecida com a ultrassonografia que tinha acabado de realizar. Pegando a primeira fotografia que tinha do meu bebê, ela circulou algo em ambas as imagens.
– O que a Susan encontrou durante o seu exame, Isabella, é que seu bebê tem uma leve aglomeração de líquido justamente nesta região. Muito pouco, mas significativo. Aqui, – ela continuou, – neste outro exame, você pode perceber que o que será a coluna cervical está um tanto que mais reta. Consegue notar?
Não sei se era a minha leiguice ou o fato de não querer que houvesse nada de errado com meu filho, mas não consegui discerni absolutamente nada entre uma imagem e outra. Edward inclinou-se da maneira que pode para observar, e não satisfeito, pôs seus óculos e tomou-as de minhas mãos para averiguá-las melhor.
– Sinceramente, eu não vejo diferença alguma, doutora.
– Realmente, é difícil de notar, – comentou ela. – Talvez, eu devesse lhes mostrar outro exemplo, – murmurou ela, digitando algo rapidamente, para logo depois virar o monitor em nossa direção. O que se via ali me chocou completamente.
A ecografia mostrada na tela era de um feto com uma curva muito mais acentuada na região da nuca. Era perceptível, até para nós que nunca tínhamos pisado numa faculdade de medicina, que havia algo de errado com aquela imagem. Não sei por que, mas imediatamente, cruzei meus braços sobre meu ventre.
– Para ser mais clara, o bebê de vocês apresenta um acúmulo que eu consideraria como aceitável, – ela esclareceu. – No entanto, o que chamou minha atenção foi o fato de que, na imagem, não foi possível a visualização do osso-nasal.
– Osso-nasal? – retruquei, ainda mais abismada.
Com muita paciência, a Dra Shelton continuou a explanar. – Você está grávida de 13 semanas, Isabella. A essa altura, seu bebê apresenta um atraso no desenvolvimento no osso da ponte do nariz.
Edward passou a mão na frente dos cabelos, seu gesto típico de quando estava nervoso ou frustrado. – Por favor, Dra. Shelton, só nos diga o que tudo isso significa!
– Eu não posso fazer uma avaliação apenas me baseando nesta ecografia, Sr. Masen. Contudo, o que eu posso lhes dizer é que ambos os sinais tentem a indicar algum tipo de anomalia cromossômica.
– Anomalia? – sibilei atônita.
Com o olhar compassivo entre Edward e eu, Dra. Shelton continuou. – É apenas uma hipótese. Nós precisaríamos realizar mais testes para se obter um parecer mais preciso.
– Essa alteração cromossômica... – meu marido inquiriu. –, o que significa? Algum tipo de defeito físico ou mental?
Ela assentiu. – Mental, sim. Geralmente, sendo o mais comum a Trissomia do cromossomo 21.
No mesmo instante, lembrei-me das aulas de genética quando paguei Biologia Avançada na Forks High. – Síndrome de Down?
– Sim. Tanto essa quanto qualquer outro tipo de mutação genética.
Não consegui segurar o soluço que irrompeu minha garganta naquele instante, meus olhos que há muito já estava turvo devido às lágrimas não derramadas, simplesmente não suportaram mais. A enxurrada de informações ruins foi demais para que meu estado emocional por natureza viesse á tona. Quando senti os braços de Edward envolverem meus ombros, automaticamente virei o rosto contra seu peito em busca do conforto que eu tanto ansiava.
– Isabella, é provável que estejamos errados. Os prognósticos ainda não são conclusivos. Como eu disse, são necessários mais exames.
Senti Edward tomando uma respiração profunda. – E que exames seriam estes, doutora?
– Na verdade, com um único exame podemos ter todas as respostas. A amniocentese pode muito bem revelar qualquer eventual problema com o feto. Mas essa é uma decisão que cabe exclusivamente a vocês, pais. Eu já tinha ouvido falar nesse exame e já sabia toda a fama da dor e do perigo de aborto que as mães corriam ao fazê-lo. A ideia de ter uma injeção enfiada em sua barriga só para se colher líquido amniótico não era nem um pouco atrativa para mim. Sem contar que poderíamos estar colocando a vida de um bebê completamente saudável em risco por conta de mera suspeita. Será que tudo isso valeria a pena?
Meu coração se apertou ainda mais quando me vi diante daquele dilema.
– Shhhh, baby – Edward tentou acalentar, mas sua própria voz estava embargada demais para me passar algum conforto.
Respirei fundo em busca de controle emocional e perguntei. – Quando é que eu posso fazer esse teste, doutora? E quanto tempo até que se tenham os resultados?
Ela verificou sua agenda enquanto respondia. – Devido às circunstâncias e se você permanecer em jejum, creio que podemos realizar a amniocentese hoje mesmo. Geralmente, temos os resultados completos dentro de três semanas.
– Quase um mês? Quer dizer que Bella poderá ficar carregando um feto anormal por todo esse tempo?
Meu coração perdeu uma batida com as palavras duras de Edward. Acho que eu mesma não tinha me dado conta daquilo; que poderia estar carregando em meu ventre algo que futuramente teríamos que rejeitar.
Que talvez, eu já estivesse amando alguém que poderia nunca vir a nascer.
– Sr. Masen, é necessário que haja esse tempo de espera, onde as células do líquido placentário serão cultivadas até ao ponto onde o especialista possa fazer o diagnóstico com segurança.
Eu, que havia ficado muda desde que a médica dissera sobre a probabilidade do bebê ser doente, fiquei mais do que agradecida por Edward estar agindo de forma racional. Os olhos dele pareciam frenéticos ao encarar a Dra. Shelton de forma suplicante.
– Não haveria alguma forma... um jeito... de descobrirmos antes? Porque se... – Edward engoliu em seco, apertando mais firme contra seu corpo. –, ...se tivermos que tomar alguma atitude, faremos o mais rápido possível.
Assim que Edward disse aquilo, eu o espreitei pelo canto do olho. Mais uma vez, não sabia o que falar, comentar ou agir diante daquele impasse. Apesar do eufemismo, ele havia deixado claro que a melhor atitude a ser tomada diante de uma concepção imperfeita seria o aborto.
Involuntariamente, meus braços se cruzaram ainda mais forte ao redor do meu corpo, numa atitude primitiva de proteger aquilo que estava sobre meus cuidados, por mais que este já nem estivesse se desenvolvendo corretamente em meu útero.
– Nós podemos fazer uma analise molecular, onde teríamos as prévias em cerca de 72 horas, – a médica explicou. – Agora, por questão de ética, devo lembrar-los que, se de fato esta criança tiver algum tipo de problema nos genes, a gravidez em si está transcorrendo normalmente. Ele ou ela pode vir a ser uma criança saudável e...
Antes que a médica concluísse Edward a cortou.
– Saudável? – ele sibilou. – Como no mundo uma criança doente mental pode ser considerada saudável?
– Edward... – supliquei entre os soluços.
Um pouco mais defensiva, Dra. Shelton rebateu. – Como eu já expliquei, esta é uma decisão que cabe exclusivamente a vocês. Irei diagnosticar qualquer problema que este bebê poderá ter, mas quero deixar clara que a continuidade da gestação é possível, sem empecilho algum. Cabe a você, decidi o que quer, Isabella.
Quando a médica se dirigiu diretamente a mim, sai do meu estado atônito com um sobressalto. Ainda estava tão atordoada com a avalanche de informações que recebemos que mal sabia o que responder. Nada disso deveria estar acontecendo. Edward e eu devíamos sair dali com a primeira imagem do nosso próximo filho e fazer questão de termos cópias para cada membro de nossa família. Deveríamos estar exultantes com o fato de que, em sete meses, nós poderíamos carregar o próximo Masen em nosso colo. Contudo, tudo o que nos restava era a amargura de não saber como agir a partir de agora.
– Doutora, você poderia nos dar um minuto, por favor? – Edward pediu solenemente.
A médica assentiu e, com alguma desculpa relacionada ao trabalho, se retirou do consultório, deixando que nós ficássemos a sós.
– O q-que vamos fazer, Edward... nosso bebê... – supliquei desesperada ao me jogar em seus braços e soluçar abundantemente.
– Shhhh, amor. Não vamos nos desesperar, afinal pode não ser nada, e você pode estar se estressando à toa.
Suas palavras não me deram o conforto que eu esperava. – Mas esse exame... – murmurei, tentando controlar a voz tão falha quanto meu coração naquele instante. – É perigoso. Eu não sei o que fazer!
– É necessário, Bella. Por mais que o exame seja arriscado, pior será ficarmos nessa angústia por mais tempo, – ele comentou, segurando mais forte minha mão, ao passar confiança.
Edward tinha razão. Eu precisava tomar coragem e encarar algo que não estava em nossos planos. Lógico que ainda estava apavorada com a chance do aborto, contudo, seria muito mais irresponsável de minha parte não investigar algo de errado que meu bebê pudesse ter por conta de um risco que chegava a ser menor que 2%.
– Você vai ficar do meu lado? – perguntei com a voz pequena.
Recostando sua testa na minha, ele respondeu. – Sempre, baby. Sempre.
Meia hora depois, eu estava de volta na mesma sala, com o mesmo aparelho de ultrassonografia passando sobre minha barriga. No entanto, nossas expressões estavam absolutamente alteradas; o clima leve e empolgante de outrora fora substituído por um clima tenso que estava refletido nas faces de todos os presentes ali.
Dra. Shelton permanecia olhando avidamente para o monitor enquanto sua assistente procurava o local adequado para que a agulha da coleta fosse inserida sem que ocorresse riscos para o bebê. Meu marido tinha o rosto tenso, mas suas mãos permaneceram carinhosas ao apertarem minha mão ou acariciarem meus cabelos. Enquanto isso, eu tentei controlar a respiração em busca da calma que não vinha, devido ao temor que me dominava naquele instante.
– Ok, acho que aqui é o local perfeito, Susan. Vamos começar os preparativos. Pronta, Isabella?
– Tanto quanto posso estar, – murmurei, desviando a atenção da enorme agulha que estava prestes a ser introduzida em minha barriga.
Ao virar minha face para o lado, encarei o rosto de Edward, que tinha um vinco profundo entre suas sobrancelhas. Ele tentou sorrir, mas não foi meu sorriso torto habitual que sempre me deslumbrou. Estava vazio.
Não desviei o olhar nem mesmo quando a pontada insuportável da agulha me atingiu em cheio. Sua mão serviu como base para que eu canalizasse todo o incomodo que aquele exame representava para mim não só fisicamente, mas psicologicamente em absoluto.
Não sei o que faria se Edward não estivesse ali comigo quando recebemos essa notícia. Acho de não teria saído do estupor de medo que me dominava até então, e nem sequer cogitaria a opção de fazer esse exame. Se não fosse por ele ao meu lado naquele momento, talvez eu nem conseguisse seguir em frente. Me recolheria a minha própria melancolia e não seria capaz de tomar a atitude mais sensata em prol desta gestação.
– Tudo pronto, Isabella, – disse a médica, sua voz saindo distorcida por conta da máscara hospitalar que cobria sua face. – Você vai permanecer sob observação pela próxima hora. Não se preocupe se houver algumas leves contrações e um pequeno corrimento sanguíneo, são normais em exames como o seu. Fique de repouso total durante 24 horas e tente ao máximo não se preocupar. Isso poderá afetar diretamente ao bebê.
Meneei a cabeça em assentimento, pois não confiava em minha própria voz. Edward me ajudou a descer da maca, e em seguida circundou minha cintura com seus braços protetores.
– Quanto o tempo até o resultado, doutora? – ele inquiriu.
– Irei mandar agora essa amostra para a análise. Provavelmente, próxima quinta à tarde já teremos alguma resposta quanto a isso. Antes de saírem, deixe marcado um horário com o Dr. Hill, o geneticista para o qual encaminharei estas amostras.
Ele suspirou profundamente, enquanto me ajudava a sentar na cadeira-de-rodas que me levaria para a sala de observação. – Tudo bem. Somente.. nos mantenha informado sobre qualquer coisa.
A médica assentiu. – Certamente, Sr. Masen. E Isabella?
– Sim? – respondi com a voz mínima.
– Distraia-se. Por mais impossível que pareça, tente não se preocupar com esse teste. Encare-o como se fosse apenas algo de rotina, ok?
Mais uma vez respondi-lhe com um meneio de cabeça. – Irei tentar, – complementei logo em seguida.
Durante os próximos minutos em que uma das enfermeiras vinha verificar minha frequência respiratória e a pressão arterial, bem como os batimentos cardíacos do meu bebê a cada 15 minutos, Edward e eu permanecemos em um silêncio cabal. Aquela calma estranha entre nós só serviu para me deixar ainda mais aflita, sem saber o que se passava na mente dele naquele instante.
O clima tenso só melhorou quando fui finalmente liberada, e Edward nos levou para fora da sala, segurando-me contra seu corpo. Tinha vontade de gritar, chorar, bater em alguma coisa... tudo ao mesmo tempo, entretanto, mantive-me sendo praticamente rebocada por meu marido, já que não conseguia esboçar reação alguma. Tudo o que se passava em minha mente era o terror de que houvesse algo de muito errado com meu filho, e como nós lidaríamos com isso daqui para frente. Por mais que a doutora houvesse me aconselhado a tranquilidade, sabia que isso seria impossível de se cumprir.
Assim que atingimos a área da recepção, Edward retirou o telefone do bolso interno do paletó. Digitou rapidamente algo a tela do aparelho e levou-o ao ouvido.
– Lauren?... Sim, sou eu Edward. Escute, cancele todos os meus compromissos para hoje... Não, não irei mais... Não interessa! Remarque, adie, mande-os todos para o Inferno... Apenas faça a porcaria do seu trabalho, porque eu lhe pago para isso! – e com isso desligou, enfiando com força o telefone de volta no bolso.
– Você não vai voltar para o trabalho?
Apesar de sua expressão ainda tensa, ele selou rapidamente nossos lábios. – Eu vou cuidar de você. – E antes que pudesse me opor, ele continuou. – E nem ouse reclamar, Isabella.
E de modo algum, eu iria. Eu precisava dele, mais do que nunca.
Em casa, Edward conseguiu desviar a atenção de Richie quando chegamos, ao inventar uma visita rápida ao playground antes do almoço. Bree, não pareceu se importar muito com o compromisso de última hora, mas, provavelmente, isso havia nos custado alguns dólares a mais.
Contudo, isso era o que menos me importava naquele momento.
Tudo porque assim que vi meu menino esbanjando energia enquanto se arrumava para sair de casa, eu não pude evitar de pensar que o fruto que gerava em minha barriga era defeituoso. Provavelmente, nunca gritaria à expectativa de tomar um sorvete antes da refeição principal; nunca poderia contar corretamente às moedas que lhe serviriam para comprar o mesmo, ou até quem sabe, o fato de prestigiar um dia de verão escaldante, já que ele nem sequer poderia vir a nascer.
Tudo isso me abateu como um soco. Tanto que não consegui mais olhar para Richie sabendo que o irmãozinho ou irmãzinha dele de forma alguma seria tão inteligente e esperto quanto ele. Apesar das recomendações médicas, subi o mais rápido possível para o meu quarto, onde me atirei na cama e finalmente, chorei todo amargor, fúria e frustração que tomaram meu corpo desde aquele maldito momento onde a técnica descobriu algo de errado.
Não fiquei muito tempo sozinha. Meio minuto depois escutei a porta do quarto se abrir e o corpo de Edward vir se deitar ao meu lado, me puxando para o seu peito, onde molhei sua camisa devido as lágrimas incessantes em meus olhos.
– Não é justo, Edward! O que foi que eu fiz? – murmurei repetidamente,
– Shhh, Bella. Nós não temos certeza. Se acalme, por favor, – ele suplicou enquanto ele me apertava mais forte e acariciava meus cabelos.
Não ousei olhar o rosto dele porque eu sabia que se os visse tão vazios quanto no hospital, eu não conseguiria suportar. Edward era minha fortaleza, e ter que testemunhar o quão impotente ele ficou diante daquela situação me deixou mais angustiada do que já me encontrava.
Incessantemente, eu me perguntava o que teria feito de diferente para que essa gravidez não fosse tão perfeita quanto à de Richie. Anticoncepcionais, stress, falta de alguma vitamina pré-natal... a insegurança no início da gravidez. Eu não podia deixar de me sentir culpada, como se de alguma forma, eu tivesse feito algo errado que acabou prejudicando nosso filho.
Não sei por quanto tempo permanecemos ali, consolando e sendo consolado um nos braços do outro. Aos poucos, o choro foi diminuindo e a consciência de que eu deveria me tranquilizar foi tomando forças.
Respirei fundo e comentei. – A culpa é minha... eu devo ter feito algo errado, – murmurei baixinho contra sua camisa já ensopada.
Edward suspirou alto. – Amor, nós não sabemos de nada. Nós podemos estar nos preocupando sem razão, – ele sibilou baixinho, afagando meu rosto devagar. – Talvez, nossa filha só tenha um nariz pequeno... exatamente como o seu.
– Isso não é brincadeira, Edward.
– Eu estou falando sério. O que eu quero dizer, Bella, é que nós não temos certeza de absolutamente nada ainda. E se esse bebê for completamente normal? E se não houver porra nenhuma de erro genético? – ele perguntou retoricamente. – Talvez estejamos fazendo tempestade em um copo d´agua!
– Talvez sim, talvez não, – retruquei sem vontade.
Ele me puxou para uma posição sentada e retirou a cartela de calmantes que a doutora Shelton havia me receitado pouco antes de irmos até a sala para a segunda ecografia.
– Pelo sim ou pelo não, o que temos que fazer agora é esperar os resultados na próxima quinta. E enquanto isso, você especialmente precisa se manter calma.
– Como se fosse fácil... – alfinetei, mal-humorada.
Ele beijou minha testa e respondeu. – Eu sei que não é, mas esses comprimidos irão ajudar. – disse, estendendo algumas pílulas em minha direção. – Por falar nisso, você está sentindo algo errado? Alguma contração ou dor no estômago?
Apenas meneei a cabeça negativamente. Edward me fitou por um segundo a mais, como se avaliasse se eu estava sendo sincera ou não. Deve ter acreditado em minhas palavras, pois ele se inclinou sobre mim, fazendo com que eu me deitasse de volta, agora com a cabeça sobre algum dos travesseiros.
– Só vou pegar um copo de água para que você tome os comprimidos. Irei ligar para Bree pedindo para que traga Richie de volta, e passarei a tarde aqui tomando conta dele. Enquanto isso tente, descansar, ok?
– Ok.
Ele beijou levemente minha testa, sussurrando que me amava antes de partir. Eu devia estar tão emocionalmente abalada que mal cheguei a vê-lo voltando para o quarto, pois acabei adormecendo. Entretanto, não tive descanso algum já que volta e meia, a realidade voltava, transformando em pesadelo tudo aquilo que eu havia sonhado nestas poucas semanas de felicidade plena.
[...]
O passar dos dias não ajudou para que eu me sentisse menos pessimista. O incômodo das contrações e a forte enxaqueca que me atormentou nas primeiras horas após o exame pareciam coisas pequenas, diante da realidade de que poderia existir algo de errado com meu filho.
Edward ostentou o papel de otimista, sempre dizendo algo positivo e me estimulando para que eu não ficasse o tempo todo pensando na pior das hipóteses. Mas egoisticamente falando, creio que tal papel era muito mais fácil para que ele desempenhasse. Afinal de contas, ele tinha seu trabalho intenso como distração enquanto tudo que me restava eram as longas horas sozinha com meus próprios pensamentos dentro de casa. Nem tendo Richie em tempo integral ao meu lado por conta das férias, era suficiente para que eu evitasse me preocupar com o bebê.
Tudo ficou ainda pior quando Rosalie apareceu na porta da minha casa na quarta, relembrando nosso encontro que tínhamos firmado na semana interior.
As compras para o bebê.
Quarto decorado, berço, roupinhas... Por mais que meu ventre estivesse gerando uma criança, tudo isso pareceu absolutamente distante.
Isso fez com que me jogasse nos braços de Rosalie, chorando mais uma vez tudo aquilo que eu havia tentado suportar durante os últimos dias, desde daquela fatídica manhã. E, mesmo que nunca tivéssemos sido tão íntimas, me permitir abusar da única pessoa naquela cidade que eu tinha como amiga.
Pacientemente, ela me abraçou e nos levou até a sala. Eu estava sozinha em casa, já que Richie tinha ido passar à tarde na casa de alguns amiguinhos do colégio. Rose me deixou no sofá, e foi rapidamente até a cozinha, onde me trouxe um copo d´agua.
Ainda de pé e com uma calma inabalável, ela voltou seus olhos cinzentos para mim. – Você precisa ir ao hospital? Quer que eu ligue para sua médica? Para Edward?
Meneei a cabeça negativamente. – Não, está tudo bem comigo... o ruim é com o bebê, eu acho.
Finalmente, ela se jogou ao meu lado com um suspiro de alívio, cruzando as longas pernas, bem torneadas pela calça jeans que vestia. – E você pode me dizer o motivo desse choro todo? Jesus, você quase me enfartou aqui! Sabe o quanto foi difícil manter o controle e não me desesperar?
Senti minhas bochechas esquentarem. – Desculpa... não era minha intenção,
Ela jogou a trança loira e bem-feita para trás, e arqueou uma das sobrancelhas em minha direção. – Tudo bem, Bella. Mas acho que todas essas lágrimas tem algum motivo, estou certa?
– Sim, – respondi-lhe, depois de ter tomado mais um gole da água. – Na última segunda, fui fazer meus exames de rotina e descobri que meu filho pode ter um defeito... Acho que ele é doente mental, Rose.
– Oh! – foi tudo que ela conseguiu dizer.
– O exame prévio sairá amanhã. Mas sinto que tem algo de errado, entende? E eu estou com tanto medo, Rose...
Ela voltou a me abraçar, tentando me passar segurança. – Não seja pessimista. Não é bom ficar assim, Bella. Pode fazer mal tanto para você quanto pra ele.
– Eu não sei o que fazer se o resultado for positivo. Sinceramente, eu não saberei como agir.
Em um gesto tão doce que nunca sequer cogitei que Rosalie um dia pudesse fazer, ela beijou levemente minha face na medida em que afagava minha barriga ternamente.
– Você já é mãe, Isabella. Você vai acabar escolhendo o que for melhor para ele.
[...]
A manhã de quinta finalmente chegou, e a apreensão pareceu triplicar já que eu mal tinha conseguido dormir esta madrugada. Edward, que tentou se manter o mais positivista possível, no entanto, também demonstrou estar receoso já que tinha se levantado antes mesmo que o sol nascesse – algo muito raro, vindo dele. Ficamos juntos na cama sem dizer absolutamente nada, mas sabendo tudo o que se passava na mente do outro.
Com um suspiro, eu decidi levantar e tentar seguir normalmente com o meu dia. – Bem, acho que já chega de tanto tempo na cama. Eu ainda tenho que ir ao mercado antes de ir ao médico.
– Baby?
– Sim?
Edward passou a mão nervosamente pelos cabelos e me fitou sem jeito. – Aconteceu um problema. Eu não irei poder ir ao consultório hoje à tarde. Como eu acabei cancelando tudo na segunda, Lauren agendou a reunião com os acionistas justo hoje. E sinceramente, eu não posso adiar duas vezes.
Logicamente, o desapontamento veio com força. Mais do que nunca eu precisava dele ao meu lado naquele momento. Entretanto, sabia que não poderia ser egocêntrica e fazer com que ele deixasse seus negócios de lado, só porque eu não era madura o suficiente para encarar uma má notícia.
Tentei esconder minha face decepcionada e respondi. – Tudo bem, Edward. Eu posso ir sozinha. Se acontecer qualquer coisa, eu te ligo.
– Vou deixar o telefone ligado durante a reunião. Por favor, me ligue assim que sair do consultório, ok? – ele pediu, vindo me abraçar fortemente.
– Tudo bem.
O restante do dia parecia se arrastar pesadamente. Sem a presença de Richie em casa –que ficou praticamente implorando para que nós deixássemos que ele participasse da festa do pijamas com os gêmeos de Angela Webber – os minutos pareciam horas, e as horas duravam tanto quanto dias inteiros. Cozinhei pelo final de semana inteiro, arrumei meu closet, e organizei os brinquedos no quarto do Richie duas vezes; tudo isso antes mesmo do meio-dia. Tentei ler, mas nenhum dos títulos da pequena biblioteca que ficava no escritório de Edward conseguiu chamar minha atenção. Por fim, acabei me obrigando a comer alguma coisa, já que longas horas de jejum seria algo insensato em meu estado.
Logo no inicio da tarde, eu já me encontrava na recepção do hospital, apenas aguardando a entrega do exame, que estava prevista para a próxima hora. Sentada ali sozinha, eu olhava para as outras gestantes ali. A maioria delas exibia suas barrigas evidentes e sorrisos amplos nos rostos, com a felicidade refletida em cada um dos seus gestos. Não pude evitar a inveja que me dominou naquele momento.
Será que Edward e eu éramos pessoas tão ruins para recebermos um castigo como esse?
– Sra. Masen?
Levantei-me apressada e segui o mais rápido possível até o balcão onde se encontrava a recepcionista. Ela me entregou um envelope pardo e indicou a pequena saleta onde estava o geneticista responsável pela execução do exame.
Ao chegar à sala, o jovem médico me cumprimentou rapidamente, pedindo para que eu sentasse. Apesar de toda sua aparente pouca idade, sua maneira de agir repassava toda segurança de um profissional com anos de experiência.
– Bem, Sra. Masen, a sua obstetra, Dra. Shelton, me enviou uma amostra de seu líquido amniótico para devida análise. Apesar do pouco tempo, o cariótipo é altamente conclusivo para este fim que pelo qual foi solicitado. A prova e a contraprova consistiram no mesmo resultado.
– E então? – inquiri apreensiva.
Sua expressão se tornou mais piedosa, e antes mesmo que ele falasse alguma coisa eu já sabia.
– Não há nenhuma maneira fácil de dizer isso mas, infelizmente, seu bebê de fato é portador da Síndrome de Down, Sra. Masen, – ele disse me repassando os papéis onde estavam transcrito os resultados.
Havia tantos termos técnicos, tantas taxas e tantas legendas das quais eu não tinha a menor ideia do que significavam. Entretanto, uma única palavra já nas linhas finais do exame era suficientemente clara para mim.
Positivo.
– Eu sinto muito. Espero sinceramente que você e seu esposo saibam lidar com isso da maneira mais sensata possível.
Minha garganta estava travada, e eu simplesmente meneei a cabeça em compreensão. – Eu... p-preciso fazer mais alguma coisa? – inquiri com dificuldade.
– Na recepção, procure pela enfermeira Margaret Collins. Ela é uma de minhas auxiliares e irá lhe ajudar com todos os procedimentos que a senhora terá que tomar a partir daqui.
Murmurei um agradecimento, apertando a mão do médico levemente e saí dali o quanto antes. Minhas mãos trepidantes seguravam o triste resultado que mudava minha vida para sempre.
Como é possível um simples pedaço de papel determinar um fato que constata que todos os seus sonhos foram arruinados? Como, em dois dias, duas horas, dois minutos atrás, você tinha plena certeza de que era feliz vivendo seu próprio conto de fadas, e de repente, um simples resultado transcrito em um papel qualquer destruía tudo o que você planejou pelos últimos anos?
Ao chegar na recepção, encontrei rapidamente a enfermeira mencionada pelo médico. Ela era uma das mais velhas ali, e tinha o semblante calmo e prestativo. Estendi-lhe meu exame, explicando que o Dr Hill havia me enviado até ali. Ao ler o que continha no papel, a expressão dela se transformou de tal forma, como se ela tivesse conhecimento da situação em que me encontrava.
– Senhora Masen, se me permite a indiscrição, eu lhe sugiro que, com esse resultado em mãos, você procure o quanto antes algum especialista. Afinal, quanto mais informações você tive a respeito, melhor poderá lidar com as decisões que terá que tomar daqui para frente – ela me aconselhou, com um sorriso tristonho que ao mesmo tempo chegava a ser reconfortante.
Sem ser capaz de formular nenhuma resposta coerente, simplesmente assenti, enquanto uma sensação de entorpecimento domava meu corpo e tudo o que minha mente conseguia fazer era formular mais perguntas.
Por que eu?
Eu fiz algo errado?
Será que eu saberei lidar com isso?
E agora, o que devo fazer?
Quando a enfermeira me explicou que tinha marcado um horário de urgência para uma consulta amanhã à tarde com a Dra. Shelton, meus olhos ficaram turvos devido às lágrimas acumuladas, e quis imediatamente sair dali para que finalmente pudesse quebrar. Como se a distância daquela recepção pudesse ter o poder de transformar tudo, e que talvez nada disso fosse verdade, somente um pesadelo muito, muito ruim.
– Por acaso a senhora tem companhia? – ela perguntou gentilmente. – Não me importaria de lhe chamar um táxi. Você não está em condições de dirigir neste estado. – Suas sobrancelhas cruzaram, expressando a típica reação de quem estava preocupada com o próximo.
Tentei lhe sorrir, no entanto eu mesma pude notar que parecia errado, vazio. – Não se preocupe, você é muito gentil. Obrigada e até logo – balbuciei apressada e me virei, partindo o quanto antes para as portas de entrada do Northwestern Memorial Hospital, encarando o clima pesado de Chicago que parecia refletir meu interior naquele instante.
Com as mãos trêmulas, busquei as chaves do Volvo na minha bolsa e demorei bem mais do que o habitual para simplesmente desbloquear as travas eletrônicas do mesmo. Já dentro do pequeno abrigo que tinha se tornado o coupê, senti a torrente de lágrimas finalmente vir à tona.
Usando o restante de forças que ainda tinha, busquei meu celular, ignorando qualquer mensagem ou chamada não atendida demonstrada no display e disquei somente o número dois, ligando para a única pessoa que poderia ser meu porto seguro agora.
Nem dois toques depois, ele atendeu num tom preocupado. – Baby, finalmente você ligou! Eu já estava começando a ficar preocupado. Onde você está? Pegou o resultado? O que disseram? – ele disparou em um fôlego só a medida que eu finalmente desabava. – Bella, por favor meu amor, fale comigo!
– Positivo, Edward. O resultado foi positivo.
Notas finais
Bom, é isso povo. O tema central dessa fic, é a Sindrome de Down. Escolhi esse tema por ele ainda ser considerado um tabu para muitas pessoas. Quis da maneira que pude explanar um pouquinho sobre isso por aqui.
Como já comentei anteriormente, esse é um assunto bem pessoal para mim, pois alguém que estimo demais é portador desta sindrome.
De antemão quero deixar claro que NÃO sou nenhuma especialista em genética, em obstetrícia ou até mesmo em SD. Meu pouquissimos conhecimentos acerca disso são baseado no convívio diário e muita pesquisa.
Com certeza, eu devo ter cometido algum erro quanto ao tempo dos exames, especificações e/ou algo parecido. Tentei ao máximo deixar o mais próximo do real, mas ninguém e perfeito, não é? Enfim, relevem minha ignorancia acadêmica e encarem tudo como a proposta do que esse texto realmente é: Uma fanfic.
Enfim, espero não perder leitores pelo fato de ter Beward como possíveis pais de uma criança excepcional. A única coisa que vos peço é um foto de confiança para tudo isso que estou escrevendo
Mais do que nunca, gostaria de saber o que vocês acham. Para isso, basta somente clicar no botãozinho aí em baixo. Não dói, não custa tempo e o melhor: É de graça! Kkkkk
Beijos e uma ótima semana para vocês!
Line
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