Notas iniciais
Olá meninas!
De novo, agradecer de coração pelas reviews. No capítulo passado, nos batemos o recorde de comentários, e eu tô louca que esse supere ainda mais! Crossfingers.
Agradecendo a Renata Nunes e a Luciana Cavalcanti pela paciência de lerem tudo isso sem cobrarem nada! Não sei o que seria de mim sem essas duas para corrigir as minhas besteiras! Brigadão meninas!
Uma boa leitura procês!

- Meu Deus, Bella! Você está enorme! – Minha mãe disse, praticamente gargalhando, enquanto me abraçava fortemente no saguão do aeroporto.

- Bem, espero que isso tenha sido um elogio. – murmurei, retribuindo o gesto.

Renée tinha vindo para Chicago especialmente para o aniversário de Richard que seria este final-de-semana. Há dias que meu filho só falava nessa festa, e apesar do todas as circunstâncias que se encontrava minha vida atualmente, não podia lhe negar essa comemoração. Enquanto isso, meu pai decidira ficar em Forks com a desculpa de ter muito trabalho a fazer na delegacia, já que ele pretendia se aposentar no próximo verão. Só que na verdade, tanto eu quanto minha mãe sabíamos tal motivo não passava de uma desculpa esfarrapada, já que Charlie tinha aversão a entrar em uma aeronave.

Era estranho planejar uma festa quando não se tinha clima algum para isso, contudo, me sentia péssima desde que Richie havia presenciado a discussão entre Edward e eu, algumas semanas atrás. Ambos tínhamos sidos bastante irresponsáveis fazendo com que um menino de apenas sete anos presenciasse todas aqueles gritos e acusações, esquecendo que acima de tudo deveríamos prezar pelo bem-estar de nosso filho, não importa o que estivesse acontecendo entre nós.

Para completar, meu relacionamento com ele conseguiu ficar pior ainda; quartos separados, troca de palavras somente quando eram imprescindíveis, nenhum contato nem físico e muito menos emocional desde aquele fatídico jantar. Era como se fossemos dois inimigos forçados a conviverem sobre o mesmo teto. A única coisa em comum era o pequeno garotinho de olhos verdes como os dele e com os meus cabelos castanhos.

Era engraçado como depois de tantas desavenças entre nós dois, ambos tivéssemos concordado com essa festa. Além de todo remorso, nós dois sabíamos que estávamos em falta com Richie; ele estava ausente por conta do trabalho e eu pelo fato de viver entre consultórios e pesquisa sobre a Síndrome de Down. Mascarar os nossos problemas durante esse fim de semana parecia ser a coisa certa a fazer.

Mesmo que isso, de certa forma, fosse quase insuportável.

- Você parece tão exausta, querida. – Renée avaliou na medida em que seguíamos até o estacionamento – Por acaso esse mocinho aqui já está te dando trabalho, é? – sibilou, acariciando a minha agora evidente barriga.

Forcei um sorriso ao responder-lhe – Não é nada, mamãe. Apenas algumas noites de sono mal-dormidas.

Os olhos azuis de minha mãe me observaram por um longo momento; tentei disfarçar, no entanto, não pude deixar de temer já que Renée, apesar de todas as suas maluquices, era extremamente perceptiva. Desde cedo, ela conseguia "ler-me" muito bem, percebendo sempre quando eu estava insegura ou incomodada com alguma coisa.

- Como está o Edward? Por acaso ele já está aceitando a... condição... do novo bebê?

Suspirei profundamente antes de falar, torcendo para que minha voz não me entregasse enquanto eu a respondia — Ele anda bastante ocupado, mãe. Preocupado com a venda daquele escritório.

- Você não respondeu a minha pergunta, querida.

- Ainda não, mãe. – respondi, sentindo raiva ao notar o acúmulo de lágrimas em meus olhos. Malditos hormônios – Ele continua agindo do mesmo jeito.

Meus pais descobriram o posicionamento de Edward em relação a essa gravidez no mês passado, poucos dias antes do meu próprio aniversário. Eles sabiam que teriam um neto ou neta especial, e logo no primeiro momento, ficaram assustados com essa notícia. Meu marido se aproveitando disso tinha ligado para Renée e Charlie praticamente implorando para que eles colocassem um pouco de juízo em minha cabeça, já que segundo ele era estupidez mantermos essa criança.

Contudo, tanto para minha surpresa quanto a dele, meus pais – mais especificadamente, Charlie – fizeram questão de ressaltar que independente de qualquer coisa, eles me apoiariam incondicionalmente em minha decisão.

Dizer que Edward havia ficado aborrecido com isso, seria eufemismo.

Senti a mão de minha mãe acariciando meus ombros assim que chegamos a porta do meu carro. — Ah, Bella... Confie em mim, isso só deve ser uma fase. Edward só está fazendo isso por que ele está com medo.

- E você acha que eu também não estou assustada, mãe? – rebati rispidamente. – Acha que é fácil para mim, enfrentar tudo isso sozinha e de quebra ainda aturar as atitudes dele?

- Não, meu bem. Nem sequer posso imaginar o quão difícil tudo isso tem sido para você. – Renée disse docemente, enxugando as primeiras lágrimas que desciam pelo meu rosto. – Embora eu acredite de verdade que vocês irão se acertar antes de o bebê nascer. Edward acabará se apaixonando loucamente por ele.

Bufei ao abrir a porta do Volvo – Eu duvido.

- Você vai ver, Bella, Mãe nunca se engana. – ela afirmou, dando a volta e indo se sentar no banco do carona

Revirei meus olhos ainda aguados e funguei antes de ligar o carro. – Podemos mudar de assunto, por favor?

- Claro, mas antes você precisa me contar quando é que irei descobrir se eu terei mais uma netinha ou um netinho para mimar. Odeio ficar me referindo como ele, ele, ele... Eu posso estar ofendendo os sentimentos de uma menina!

Eu sorri levemente para a eterna curiosidade de minha mãe. – Sabe aquele primeiro exame que eu fiz? O cariótipo fetal?

- Sim?

Meu sorriso se ampliou quando notei sua expressão curiosa com o canto dos olhos — Se eu quisesse, eu poderia já ter descoberto o sexo, porque nele diz o resultado.

Renée arregalou seus olhos em surpresa e deu um tapa na minha coxa – E porque diabos você ainda não fez isso, Isabella?

Dei de ombros, manobrando o carro para entramos na rodovia. – Não sei... na época eu estava tão desesperada por saber que meu bebê seria Down que a última coisa que pensei seria o sexo dele. Lembro vagamente do médico me perguntando se eu queria saber, mas eu lhe disse que não.

- E você pretende deixar que seja uma surpresa?

- Rose e Alice me perguntam praticamente todos os dias a mesma coisa. – comentei, parando no sinal e aproveitando para acariciar minha barriga em expansão por cima da minha blusa. – Acho que na próxima ultrassonografia que eu fizer, descubro isso.

- Não seria mais fácil reler o exame do cari... cariopato... cario...

- Cariótipo, mãe. – respondi, gentilmente – Sim, seria mais fácil. Só que quero descobrir da forma normal, eu acho. Não é porque esse bebê é especial que irei fazer isso de forma diferente. Não quero ver isso entre um monte letras no meio de um exame.

Renée soltou uma risadinha antes de responder – Bella, eu acho que a forma normal de se saber o sexo do bebê é esperar até que ele nasça.

- Você sabe o que eu quis dizer... – murmurei, rolando os olhos.

- Sim eu entendi, meu bem. – sem mesmo titubear, ela mudou de assunto – Será que poderíamos passar em algum shopping? Você sabe como eu sou; deixei o presente do meu neto para última hora e ainda não comprei nada para ele...

- Mãe, só o fato de você vir até aqui já significa muito para ele.

Ela acenou com as mãos em um gesto de desprezo – Isso é para você que é uma adulta com recém vinte e oito anos completados. Agora, tente usar essa mesma justificativa para uma criança de sete e você verá qual será sua resposta. – e antes que eu pudesse retrucar qualquer coisa, ela completou – Sem contar que eu tenho que aproveitar, enquanto é somente um para mimar. Em breve eu terei as mãos cheias com dois netos.

- Tudo bem, mãe. Só lembre-se de não surtar dentro da loja de brinquedos.

- Você tem minha palavra. – ela jurou.

Pegamos o acesso mais curto que nos levaria até o Atrium Mall, um dos principais centros de compras de Chicago. Chegando lá, é obvio que Renée agiu exatamente como Alice, entrando como uma louca desvairada por todas as lojas, com a desculpa de se aproveitar de fazer compras em uma cidade grande. Aproveitei aquele momento ao lado de minha mãe para me distrair com todas as fofocas que circulavam em Forks e ouvir as infinitas reclamações dela contra meu pai, que não conseguia parar de se entupir de comidas gordurosas e cervejas.

Era bizarro, mas de certa maneira ouvir tudo aquilo era um tanto que reconfortante para mim; o draminha familiar entre meus pais era algo que me fazia sorrir, porque eles nunca eram nada sério. Os dois eram apenas um casal passado da meia-idade, que apesar de todas as diferenças e incompatibilidades, ainda se amavam como dois adolescentes.

Depois que Renée saiu com o que parecia ser meio shopping em suas mãos, finalmente estávamos prontas para almoçar e irmos buscarmos Richie no colégio. Começamos a caminhar em direção ao estacionamento quando minha mãe de repente, parou a meio passo.

- Ah, olha só aquilo ali, Bella!

Voltei-me em direção ao que ela estava apontado e vi a vitrine de uma famosa grife de roupas de bebê. Logo, notei que o que ela queria me mostrar era um uniforme minúsculo do time White Sox, com direito a boné e pantufas. Apesar do ser todo em preto e branco, não pude deixar de admirar o quão fofo era todo o conjuntinho.

- Acho que é um pouquinho cedo para isso, mãe. – respondi suspirando, apesar de ter me encantado completamente pela roupinha exibida na vitrine.

- Como assim cedo, Isabella? Em duas semanas você entrará no sexto mês! Não comprou nada ainda para o bebezinho, não foi?

Dei de ombros, porém no fundo eu me sentia sim um pouquinho irresponsável. Nessa mesma época, quando estava grávida de Richard, eu torrava cada centavo do fundo universitário que meus pais tinham criado para mim com mantos, bodies e touquinhas. Agora, quando vivia uma situação confortável o suficiente para gastar uns bons dólares em qualquer loja de bebês, ainda não havia comprado nem sequer a primeira fralda do meu futuro bebê.

Um remorso me assolou profundamente assim que eu me apeguei a esse detalhe. Para alguém de fora poderia parecer estúpido, contudo eu tinha percebido que estava de certa forma tratando de forma diferente a nova vida que crescia dentro de mim. Jurei que de maneira alguma iria tratá-lo de forma diferente pelo fato de ele ou elar ser excepcional, no entanto, logo na gestação eu tinha meio que feito descaso ao não me preocupar com nada relacionado ao que ele precisaria, assim que chegasse ao mundo.

- Então, vai ficar aí parada ou nós iremos lá dentro? – minha mãe sibilou com um sorriso na face.

Sem ponderar mais um minuto sequer, eu falei – Não custa nada darmos somente uma olhadinha, certo?

Renée bateu palmas animada, e praticamente me rebocou até a entrada a loja. Lá, fomos tragadas por aquele ambiente mágico que tinha textura macia e cheirava a lavanda. Com o incentivo de minha mãe, acabei não resistindo e comecei a comprar ali mesmo os primeiros artigos do bebê; casaquinhos, camisetas, toucas, luvas, escovinhas... Tudo minúsculo e delicado como eram todos os artigos para os recém-nascidos. Parecia até que eu era uma mãe de primeira viagem; tudo me encantava por completa e mal podia decidir ao certo o que eu deveria comprar primeiro.

Quando fomos até a parte de decoração, não pude deixar de admirar os quartos, que tinham ali; cada tema era mais lindo do que o outro e não pude deixar de suspirar imaginando como ficaria o quartinho do novo bebê. Porém ao mesmo tempo me bateu uma angustia por imaginar qual seria a atitude de Edward nisso tudo, uma vez que viria dele o dinheiro para que fizéssemos isso. Creio que ele não seria tão frio ao ponto de negar até um simples berço para esse bebê, entretanto, meu marido já havia dito coisas tão horríveis que talvez eu nem ficasse tão pasma caso fizesse alguma coisa parecida como essa.

Por hora, não me permiti mais pensar naquilo e paguei pelos itens que tinha escolhido para o começo do enxoval e ainda aturei a pequena montanha de artigos que minha mãe escolheu me dar como presente atrasado de aniversário. Qual eu lhe perguntei o motivo para tanta empolgação ela simplesmente respondeu.

- Quando você ficou grávida do Richie, Charlie e eu não ficamos muitos felizes. Você não era casada e estava apenas metade da faculdade, – murmurou, enquanto alisava um macacãozinho amarelo estampado com ursinhos – Nós tínhamos sonhos para você e uma gestação naquele momento parecia a coisa mais errada do Universo.

Meu cenho se franziu e quando ela notou isso, simplesmente sorriu – Agora é diferente; você é uma excelente mãe, Isabella. Deixou todos seus planos na vanguarda simplesmente para dá prioridade a meu neto.

Ela esticou sua mão, começou a acarinhar o meu ventre onde o neném respondeu automaticamente ao incentivo. – E o fato de você ter decidido seguir em frente com essa gestação, independente de qualquer coisa só prova o quanto eu estou certa sobre seu instinto maternal, filha. – seus olhos se encheram de lágrimas quando ela completou, — Eu não podia estar mais orgulha de você.

- Ah mãe..

Abraçamos-nos fortemente, fungando como bobas enquanto a caixa nos olhava com uma cara espantada. Afastamos-nos sorrindo e pagamos nossas compras, correndo até o estacionamento e entrando no drive-thru mais próximo já que faltavam apenas 15 minutos para pegar Richard na escola.

Ao chegamos a entrada do colégio, notei logo de cara meu filho sentado em um dos degraus sem interagir com nenhum de seus amiguinhos, mas apenas passando as folhas de seu álbum de figurinhas. Aproximei-me devagar, estranhando aquela atitude dele, afinal Richard era um daqueles garotos que tinham uma coleção de colegas ao redor.

- Olá, campeão. – cumprimentei ao sentar ao seu lado.

- Oi, mamãe – respondeu sem muito entusiasmo.

- Porque você está aqui sozinho?

Ele encolheu seus ombrinhos – Por nada, eu só queria ver quantas figurinhas faltam para completar meu álbum.

- E seus amigos não querem fazer isso com você? Quem sabe eles tenham alguma diferente, huh?

- Acho que não... – balbuciou, fechando o álbum e enfiando em sua mochila.

- Você está triste? Sabe que é que está esperando lá no carro para te ver?

Ele suspirou pesadamente – Eu sei que é a vovó. Você me disse hoje de manhã que ela vinha hoje.

- E você não está nenhum um pouquinho animado com isso? – inquiri, cutucando suas costelas.

Simplesmente ele voltou a dar de ombros, como se isso não significasse nada — Aconteceu alguma coisa hoje aqui no colégio? – perguntei, começando a ficar preocupada de verdade com a apatia dele.

- Não.

- Brigou com os gêmeos. Foi isso, não foi?

Ele colocou a mochila nas costas, levantou-se e começou a caminhar em direção à entrada do colégio. – Nada disso. Eu só to cansado...

Apressei-me em acompanhar seus pequenos passos e parei a sua frente – Você ta dodói, então? – inquiri, colocando a palma da minha mão sobre sua testa e seu pescoço.

- Que saco, mãe! Eu não já disse que to legal!

Espantei-me com usa agressividade — Epa, epa mocinho! Isso é lá jeito de se falar comigo?

- Então porque você não para de ficar tão chata?

Cruzei os braços sobre meu antes de encará-lo firmemente – Eu não estou sendo chata, Richard. Só estou preocupada com você. – ele continuou a fitar o chão na medida em que eu falava – A festa que você tanto queria é amanhã, a temporada de baseball com o Tio Emmett começa na semana que vem e sua avó veio lá de Forks só para te ver. Você acha justo agir desse jeito?

- Não... – ele murmurou cabisbaixo – Desculpe.

- Tudo bem, Richie. – abracei-o pelos ombros, puxando para que voltássemos a caminhar até o carro – Só não faça mais isso, ok?

Ele assentiu e o movimento de sua cabecinha fez cócegas na lateral da minha barriga. — Mãe, posso perguntar uma coisa?

- É claro, filho. O que é?

- Sua barriga vai ficar crescendo até quando?

Sorri-lhe levemente – Até que o bebê esteja prontinho pra nascer, meu bem. – Vai demorar alguns meses ainda.

- E vão cortar sua barriga pra poder tirar ele daí?

Vá pelo caminho mais fácil, Isabella. Ele não precisa de todos os detalhes – Sim, filho. Os médicos irão fazer isso quando for a hora certa.

- Foi assim comigo também?

- Hmmm... sim. – menti, porque eu não estava muito a fim de explicar todo o processo de um parto normal para o meu filho bem no meio da rua.

Ele ficou calado e eu cheguei ao ponto de pensar que o assunto já havia morrido, no entanto,do nada, ele questionou. – Se esse bebê vai nascer do mesmo jeito que eu, porque então você me disse que ele era diferente?

Comecei a caminhar um pouco mais devagar depois dessa pergunta. No dia seguinte a discussão entre Edward e eu, tinha compreendido que era uma péssima idéia de minha parte continuar escondendo algo dessa magnitude de Richard, uma vez que não seria justo para nem um de nós. Sem contar que também que dentre os diversos livros que vinha lendo sobre Síndrome de Down, todos eram unanimes ao afirmar que era imprescindível esta explicação para crianças maiores como era o caso do meu primogênito.

Se ele fosse quatro ou três anos mais novo, talvez nem precisasse que eu lhe desse esse tipo de esclarecimento, porém Richie teria discernimento suficiente para perceber que havia algo de diferente com o bebê assim que o olhasse. Algo me dizia que eu até tinha demorado demais para fazer isso, prova disso foi que Edward foi o primeiro a ter entrado no assunto e da pior forma possível.

Foi complicado iniciar o assunto com meu filho no dia seguinte, já que ele ainda estava um tanto que assustado com a briga que seu pai e eu tivemos bem na sua frente. Devido às palavras frias de Edward, Richard havia imaginado que eu estava carregando meio que um monstrinho em meu ventre. Explicar-lhe todas as diferenças e implicações de um bebê especial em nossas vidas não tinha sido fácil; foram minutos intermináveis de conversa até que ele compreendesse o quanto pudesse. Todavia, de vez em quanto ele aparecia com mais outras perguntas exatamente como essas.

– Ele vai ser um bebê como qualquer outro, Richard – comecei a falar sem pressa alguma – Irá comer, chorar, espernear a noite inteira... a única diferença entre vocês é de que ele mão vai conseguir fazer tudo rápido, sabe?

Ao assentimento dele, eu continuei – Ele vai demorar mais um pouco para aprender a andar, para tomar banho sozinho, a falar... Nós teremos que ser bastante pacientes até que ele aprenda tudo isso. Seu irmão precisará de verdade de um irmão mais velho para ensinar essas coisas para ele.

- Acho que posso ajudar com isso. – ele balbuciou incerto.

Apertei-o pelos ombros, lhe incentivando — Eu sei que você pode, docinho. Se Papai do Céu mandou seu irmãozinho desse jeito, é porque Ele sabe que só você poderia cuidar tão bem dele.

Finalmente, meu garotinho abriu um sorriso verdadeiro. – Então tá bom. Posso ir ver a vovó agora?

Baguncei seu cabelo e respondi – Vá em frente, campeão.

E com isso, Richie saiu em disparada pela calçada, correndo rapidamente em poucos metros restantes que o separavam dos braços de sua avó, que lhe acenava freneticamente. Eu ri da forma abobalhada com que Renee enchia de beijos as bochechas de Richie enquanto o próprio gargalhava alto e limpava seu rosto como se estivesse com nojo. Depois do que ela tinha me dito na loja de bebês, havia algo reconfortante dentro de mim ao saber que ela trataria exatamente da mesma forma o seu próximo neto, não importa o quê.

Eu só podia torcer para que um dia Edward se sentisse da mesma forma.

Em casa, minha mãe assim que saiu do banho resolveu invadir a dispensa — para minha completa tristeza e total felicidade de Richie – e começou a fazer seus famosos biscoitos de manteiga, conhecidos por nunca darem certo apesar de sua insistência. Na medida em que eu ajudava meu filho com sua lição de casa, nós escutávamos os resmungos frustrados de Renée a cada nova fornada que dava errado. Eu só podia torcer para que a minha cozinha não sofresse danos irreversíveis depois disso.

Depois que meu filho terminou tudo relativo à tarefa de casa, ele correu para a cozinha para ajudar sua avó e aproveitei o momento para subir todas as compras que eu havia feito para o bebê hoje. Porém, ao chegar ao corredor me vi diante de um impasse: Em nossa casa, havia quatro quartos. A suíte principal – a qual eu estava dormindo sozinha – o quarto de Richie, o de hóspedes, que minha mãe passaria a ocupar a partir desta noite e outro que estava servindo como briquedoteca. Este último seria o quarto que o neném ocuparia quando chegasse ao mundo e lembrar que foi o próprio Edward que havia decidido isso ainda me magoava imensamente.

Com um suspiro, decidi por ora não me apegar aquilo, resolvendo guardar tudo do meu lado do closet sem sequer me preocupar em retirar as peças das sacolas. Aproveitei que tinha alguém para ficar de olho em Richie e resolvi preparar um banho de banheira, coisa que não fazia a um bom tempo devido aos meses iniciais da gravidez. Preparei os sais de freesia e lavanda e esperei até que a temperatura ficasse agradável para que eu finalmente emergisse lá dentro. A água morna relaxou meus músculos tensos e aos poucos me permitir não pensar em nada nem que fosse por meros minutos.

Meu bebê pareceu gostar daquilo também já que poucos minutos depois, comecei a sentir seus movimentos cada vez mais nítidos. O que antes era apenas uma leve agitação em meu ventre, passou a se transformar em algo mais intenso ao ponto que qualquer outra pessoa a partir de agora, poderia notar caso tocasse na minha barriga no momento em que ele estivesse se movendo. Um sorriso nascia em meus lábios sempre que isso ocorria.

Prendi meu cabelo em um coque frouxo e recostei minha cabeça contra a borda da banheira, aproveitando o momento para brincar levemente com a espuma ao meu redor. O aroma, a temperatura morna da água e a luz baixa no banheiro quase me levaram a um estado de torpor que estava quase a ponto de adormecer e isso só não aconteceu porque fui interrompida por um profundo suspiro vindo da porta.

Virei-me naquela direção e vi Edward me encarando com os olhos ardendo com pura luxúria. Um arrepio de desejo percorreu todo o meu corpo e senti-me corar profundamente ao perceber a evidente proeminência em sua calça. Era estúpido que eu tivesse essa reação depois de tanto tempo juntos, porém não pude evitar ter aquela reação diante dele. Desejo, raiva, saudade, paixão... Aquele momento uma mistura tão grande de sentimentos que a única coisa que consegui fazer foi ficar fitando-o de volta.

Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio ao falar com a voz rouca. – Não quis te atrapalhar, me desculpe.

- Sem problemas. – eu balbuciei com o timbre tão afetado quanto o dele – já estava terminando.

Ele continuou parado no meio do banheiro, sem saber ao certo como agir. Podia perceber seu olhar fixo sobre meus seios já enormes enquanto trocava o peso dos pés e passava a mão em seus cabelos – Bem, então eu vou... vou te dar um pouco de privacidade.

- Não precisa. – afirmei rapidamente e isso fez com que ele me olhasse com surpresa. – Já vou sair. Mas será que você poderia apenas pegar meu roupão para mim? – pedi quase que formalmente.

Ele assentiu e esticou seu braço para pegar a peça que estava pendurada ao lado da pia, me passando logo em seguida. Quando ele estendeu-a para mim e nossos dedos se tocaram, aquela conhecia descarga elétrica percorreu todo meu corpo. O clima que já estava carregado tinha se intensificado ainda mais e quase não consegui respirar direito, ao mesmo tempo em que a respiração dele se tornava mais pesada e o volume entre suas pernas parecia ficar ainda maior.

- Obrigada.

- De nada.

Depois de longos segundos apenas fitando um ao outro, Edward finalmente ficou de costas e eu limpei a garganta, me levantando com cuidado e me embrulhando no tecido macio. Retirei o ralo da banheira para que ela começasse a esvaziar e limpei minha garganta antes de dizer qualquer coisa. – Todo seu.

Ele somente meneou a cabeça e eu me aproveitei disto para fugir rapidamente dali antes que eu acabasse fazendo alguma besteira, como atacá-lo por exemplo. Nosso relacionamento já estava problemático demais e mesmo que uma neblina de desejo tomasse conta de todo o meu corpo, sabia que sexo agora só iria complicar ainda mais as coisas. Precisávamos conversar seriamente sobre o futuro de nossa família, nossos planos e nossos sentimentos antes que engatássemos novamente essa parte de nossa relação.

No closet, respirei fundo algumas vezes antes de colocar a primeira roupa mais confortável que encontrei. Queria sair o mais rápido dali, já que lá de dentro eu poderia escutar o barulho do chuveiro, onde só podia imaginá-lo completamente nu sob a água quente. Não preocupei em me arrumar melhor ou até mesmo desmanchar o coque mal-feito em minhas mechas; apenas sai dali daí e só parando no vão do quarto de hóspedes, onde encontrei minha mãe desarrumando suas malas com meu filho a sua cola, provavelmente querendo ver entre os pacotes o presente que ele receberia amanhã à tarde.

- De onde você puxou tanta curiosidade, menino? – Renee perguntou, guardando um pacote no alto do armário onde ele não alcançava. – Presentes somente no dia, mocinho! – Ela disse, apertando a ponta de seu nariz

- Mas vovó, já é amanhã. Eu não ligo de ver hoje não.

Eu sei que você não liga, Richie. Mas mesmo assim só irei entregá-lo amanhã.

Ele cruzou os braços no peito e falou com um bico enorme nos lábios – E se amanhã eu ganhar um montão de presentes? Eu não vou ter tempo de abrir o seu!

Aquela colocação dele me fez rir, anunciando minha presença ambos olharam para mim, no entanto suas expressões eram diferentes; Renee estampava um sorriso complacente à medida que meu menino fazia uma careta ainda maior pelo fato de alguém estar rindo dele.

- Desculpa, bebê — comentei, puxando-o para o meu colo.

- Por que você tava rindo de mim?

- Não estava rindo de você, apenas do que disse. A cada dia que se passa, você fica ainda mais esperto, como isso é possível? – inquiri retoricamente, beijando seu cabelo macio.

- Com todos esses argumentos, ele provavelmente será tão bom advogado quanto o pai. – minha mãe acrescentou imediatamente.

Ele balançou rapidamente a cabeça em negação – Eu num vou ver advogado. Quero ser piloto de corrida de motos!

- Oh meu Deus! E dar um infarto em sua avó antes dos 50 anos?

Ergui uma sobrancelha – Cinqüenta? Isso só na próxima reencarnação, certo Dona Renee?

Ela infantilmente jogou uma de suas blusas em minha direção e fez com que nós ríssemos ainda mais. – Vamos lá, filhote. Antes que você se transforme em um piloto campeão que tal ajudar a mamãe com o jantar?

Richard balançou a cabeça em negação, mas foi minha mãe quem respondeu alguma coisa. – Edward disse que iria nos levar para jantar hoje à noite. Ele comentou que já que eu quase nunca saí à noite aqui em Chicago, nós poderíamos ver um pouquinho às luzes da cidade.

- Papai falou que a gente podia ir comer naquele lugar que tem um monte de brinquedos!

O cenho de Renee se franziu – Ele disse que iria conservar com você quando subisse... Será que esqueceu?

Senti minhas bochechas esquentarem e quando minha mãe percebeu isso, ela abriu um sorriso conspirador que deixaria qualquer pessoa morta de vergonha. Pela sua cara de presunçosa, eu mal conseguia imaginar o tipo de besteira que estava se passando na cabeça de minha mãe. Definitivamente, por mais que fossemos amigas, certas coisas eu nunca comentaria com minha própria genitora, especialmente aquele momento tenso ocorrido há poucos minutos atrás.

Graças aos Céus, Richie segurou meu rosto fazendo com que eu olhasse diretamente para ele – A gente vai não é, mamãe?

De forma alguma eu poderia decepcionar qualquer um dos dois naquele quarto; por mais que quisesse fugir de Edward por hoje, não podia estragar a noite deles. Coloquei um sorriso em meus lábios e deixei um beijo na bochecha já não tão rechonchuda do meu filho. – É claro que vamos, filhote.

[…]

Depois de termos nos agasalhado muito bem, uma vez que Chicago estava estranhamente frio para o inicio do Outono, fomos até a garagem e partimos em direção ao Wishbone, um restaurante conhecido pelo ambiente acolhedor para crianças da idade do Richie. Nós costumávamos ir sempre até lá quando queríamos um "momento família", algo tinha se tornado raro desde que essa nova gestação começara.

Durante todo o trajeto, tanto a minha mãe quanto Richie pareciam alheios ao que acontecia bem na ali, nos bancos dianteiros do carro. A presença de Edward ali me afetava da mesma maneira que tinha ocorrido no banheiro; sua postura, seu perfume, seu sorriso quando nosso filho falava alguma besteira... Tudo aquilo me deixava cada vez mais desnorteada, especialmente quando sua mão roçava em minha coxa em todas as vezes em que ele trocava a marcha.

O jantar ocorreu tranqüilamente, com minha mãe dominando a maioria da conversa e Edward prestava atenção a cada detalhe que ela que balbuciava, assim como tinha acontecido comigo. Diferentes da grande maioria dos homens, Edward não fazia nenhuma reclamação em relação a sua sogra, pelo contrário; ele gostava de verdade de Renee já que ela foi uma das únicas na época que defendia a nossa relação, no início da minha adolescência. Não sei a razão, mas minha ela seria eternamente Team Edward.

Em certa altura, Renee resolveu levar Richie até o pequeno fliperama que havia ali mesmo no restaurante, deixando com que Edward e eu ficássemos a sós. Era infantil, mas outra vez não quis ser a primeira a iniciar uma conversa, preferindo ficar observando as outras crianças se divertindo no meio dos vídeos-game. Talvez isso fosse a forma de me vingar, por assim dizer, de todas as vezes em que eu tentei conversar e ele simplesmente me cortava, afirmando que não havia mais nada para ser dito entre nós.

Podia sentir seu olhar preso em mim e escutei-o suspirando antes de perguntar. – Como foi seu dia?

- Normal. E o seu?

- Também.

Era ridícula a forma com que nós estávamos nos tratando, com conversas mais impessoais do que aquelas que se tinham na sala de espera de algum consultório médico. O fato de não poder mais manter uma conversa como antigamente com meu marido me frustrava ao extremo, me irritando de uma forma que nem eu mesma saberia explicar ao certo.

- Será que nós poderíamos conversar de verdade, Edward? – sibilei com raiva. – Eu já não agüento mais essa situação ridícula que está o nosso casamento!

- Aqui não é o momento, Bella.

- Ah é? E quando é que faremos isso? – inquiri entre os dentes?

Ele passou a mão pelo cabelo, como sempre fazia quando estava sobre stress. – Você já sabe minha opinião. – afirmou enfaticamente.

– O que? Você agora é alguma espécie de juiz? Ninguém pode questionar sua decisão final ou algo parecido?

– Bella, – ele começou logo depois de ter respirado fundo – Se você quiser discutir isso outra vez , por mim tudo bem. Mas tem certeza de que quer fazer isso agora? Quando sua mãe está em nossa casa e em plena véspera do aniversário de Richie?

Era triste admitir, mas ele tinha razão. Essa conversa acabaria mais uma vez com uma briga e ter os pais mais afastados do que já estavam era a última coisa que o meu filho merecia como presente. Acalmei meus ânimos, uma vez que Edward estava certo e me dei por vencida pelo menos por enquanto.

- No domingo, depois que deixarmos Renee no aeroporto, vou pedi para que a Rose ou o Emmett pegue o Richard lá em casa para que possamos conversar direito. – afirmei categórica.

- Tudo bem, Bella. Sem problemas.

Antes que qualquer um de nós pudéssemos dizer qualquer coisa, Richie apareceu ofegante ao nosso lado. — Papai, eu tô ganhando todas da vovó! Vem ver!

- Eu vou sim, campeão.- Edward disse bagunçando o cabelo do nosso filho e se levantando da mesa. — Mas só vamos jogar mais uma partida, porque vamos levar sua avó para ver o Lago Michigan, ok?

Ele assentiu, porém começou a tentar puxar seu pai da cadeira; a imagem da impaciência. Edward se levantou e sorrindo, virou-se em minha direção para perguntar — Você vem?

- Prefiro ficar aqui, esperando por vocês.

De longe, eu fiquei vendo os três se divertindo no que parecia ser um simulador de carros de corrida, e fiquei feliz de ver de novo estampado na face do meu filho aquele sorriso enorme e sincero. Naquele momento, enquanto Edward vibrava e ria com cada vitória de nosso filho, eu só conseguia pensar em como tudo seria muito mais fácil se ele já tivesse concordado com o fato do bebê ter Down. Não podia negar que ele era um pai maravilhoso, mesmo que ultimamente ele estivesse falhando com Richard nesse aspecto. No entanto, quem era eu para julga-lo por alguns atos quando Edward tinha anos de dedicação completa com o nosso filho?

Se ele já tivesse encarado a realidade de que nós não poderíamos fazer mais nada além de aceitar e apoiar aquele ser que crescia em meu ventre, nossa relação não estaria tão desgastada como agora. Ambos éramos teimosos demais sobre seus pontos de vista, porém, não havia nada e nemninguém que iria mudar minha resolução. Só torcia para que depois dessa nova conversa que teríamos, ele no mínimo parasse com o ódio injustificado por esse bebezinho inocente e passasse pelo menos a respeitar essa criança.

Pessoas com Síndrome de Down já eram excluídas pela própria sociedade só pelo fato de elas serem diferentes. Eu mesma tinha que admitir que era uma dessas pessoas, até descobrir que um membro de minha própria família viria a ter o problema. Poderia ser hipócrita da minha parte, mas esse neném foi quem me fez abrir os olhos para esse aspecto; foi preciso sentir na própria pele para poder deixar de ser tão indiferente a essas pessoas.

Acho que já tinha passado por todas as fases, que segundo minha psicóloga disse que existiam: a negação, a raiva, o luto, aceitação e agora podia dizer com plena convicção que amava o meu filho, não importa o que. O que eu mais temia era que Edward renegasse para sempre essa criança; não queria imaginar as consequências para a vida dele, caso vier a ser rejeitado pelo próprio pai.

Não demorou muito para que pagássemos a conta, e fossemos caminhando até a margem do lago, que não ficava muito distante dali. Apesar a temperatura mais baixa, Chicago era uma típica metrópole que não parava nunca; havia milhares de pessoas nas ruas, seja saindo do trabalho e indo curtir a sagrada happy-hour de sexta-feira ou para simplesmente se exercitarem. A questão é que tantas pessoas juntas em um mesmo local era o pesadelo de qualquer mãe, portanto eu só consegui ficar um pouco mais tranqüila quando fiz com que o Richie prometesse não soltar a mão de Renee de forma alguma.

Os dois caminhavam alguns metros à frente, com meu filho apontando para cada coisinha que via, na medida em que minha mãe parecia realmente deslumbrada com as luzes refletidas nas águas do Michigan. Não muito longe de onde estávamos ficava o cais com um longo píer onde estavam atracadas algumas embarcações, inclusive algumas delas que faziam passeios turísticos à noite. Edward propôs que o fizéssemos, já que nem Richie e nem minha mãe tinham andado de barco depois do pôr-do-sol.

Assim que compramos nossos ingressos, o barco começou a se movimentar vagarosamente. Renee e Richard, que praticamente quicavam de empolgação, procuraram os lugares mais próximos possíveis do guia, que estava pronto para contar cada de detalhe de como Chicago foi construída. Quanto a mim, preferi ficar na popa, vendo aos poucos a embarcação se afastar da margem, deixando as pessoas e edifícios cada vez menores ao meu ponto de vista.

- Lembra quando eu te trouxe aqui pela primeira vez?

Virei-me para encontrar Edward com um leve sorriso de canto, as mãos no bolso do seu jeans e os cabelos ainda mais bagunçados do que o costume por conta do vento. Eu não pude evitar e dar um leve sorriso em troca quando me lembrei daquele fatídico dia; nosso primeiro encontro como um casal depois de termos nos reencontrado no campus da faculdade.

Edward aprontou uma cesta de piquenique e comprou um bom vinho para passarmos à tarde no parque, curtindo e aprendendo mais um sobre o outro. Para fechar a data com chave de ouro, ele tinha nos levado para fazer esse mesmo passeio sobre as águas tranqüilas do lago, embora ninguém esperasse que por conta da minha baixa tolerância ao álcool, eu acabasse caindo ao desembarcar.

- Como é que poderia esquecer? – comentei ao relembrar de tudo – Esses três pontos no meu antebraço não irão deixar que isso aconteça jamais.

Ele riu, rolando os olhos – Foi burrice minha. Eu devia ter te ajudado a descer daquele barco. Você não estava costumada a beber tanto vinho como naquele dia. – completou, ao se aproximar um pouco mais, vindo parar ao meu lado.

- Não foi culpa sua; eu sempre foi estabanada mesmo. Se você tivesse tentado me ajudar, acabaria te levando para o chão junto.

- Não seria tão ruim assim. Só teria sido mais uma preliminar, já que você acabou dormindo comigo naquela noite.

Sorri, e percebi minhas bochechas se aquecerem — É, só porque eu estava tão chapada por conta da medicação que não sabia voltar para o meu próprio dormitório.

Nós rimos juntos daquela pequena lembrança, e logo depois os únicos sons que ouvíamos eram o zunido baixo do motor e a voz distorcida do guia, vindo do precário sistema de som do barco. Os ventos constantes que deram fama a Chicago, sopravam com ainda mais vigor ali no meio do lago, e isso fez com que eu me encolhesse um pouco mais
dentro do casaco. No mesmo instante, Edward percebeu meu desconforto e não se intimidou a passar seu braço por meus ombros e puxar-me um pouco mais para o seu peito.

Uma parte de mim, aquela que tinha plena consciência de o homem que me abraçava era o mesmo que não aceitava seu próprio filho, queria me afastar o mais rápido possível dele. Já a outra, a que morria de saudades do esposo, amigo e amante, tinha quase que um desejo compulsivo de retribuir aquele gesto, afundar o resto em seu pescoço e ficar ali para sempre. Essa luta entre meus dois "eus" era tão intensa que não soube o que fazer e, portanto, continuei inerte dentro de seu abraço.

– Eu sei que você está magoada, Bella. – ele começou a falar enquanto acariciava o comprimento do meu braço – assim como eu também estou.

- Sinceramente Edward, eu ainda não entendo a razão para que você...

– Shhh, baby. Não vamos discutir nada esta noite, lembra? – ele murmurou, erguendo meu queixo com sua mão livre, obrigando-me a encarar aqueles olhos verdes – Richard não merece que seus pais estejam em pé de guerra em pleno aniversário dele.

Suspirei pesadamente antes de menear a cabeça em consentimento e enterrar meu rosto em seu peito. Senti seus lábios pousando em meu cabelo a medida em que eu aspirava seu perfume, e por aquele momento me permitir imaginar que tudo estava certo entre nós. Que não haviam problemas a serem enfrentados e nem decisões para serem tomadas.

Depois de alguns minutos de passados daquela maneira, ele murmurou. – Você sabe que independente de qualquer coisa, eu te amo, certo?

Vacilei por um instante e percebi Edward afrouxar seus braços ao meu redor. A minha falta de resposta fez com que ele recuasse um pouco, soltando-me para poder me fitar melhor. Percebi que seu olhar evocava receio, como se ele temesse por minha resposta.

Mordendo meu lábio, eu virei meu rosto outra vem em direção à paisagem – Eu sei que você me ama, Edward. Mas isso não impede de que eu me sinta machucada. Certas palavras doem mais do que um tapa. – sibilei calmamente.

Edward não disse nada, apenas me aconchegou outra vez ao seu corpo, fazendo com que as primeiras lágrimas que eu vinha tentando segurar finalmente cedessem – Não foi minha intenção, Bella. Me desculpe.

- Promete que iremos conversar de verdade desta vez? – Pedi-lhe, erguendo meu rosto para que eu pudesse encará-lo melhor – Que você vai ouvir antes tudo o que eu tenho para te dizer, assim como também tentarei entender todos os seus argumentos.

Beijando minha testa, ele jurou – Eu prometo, amor.

E assim, ainda abraçados um ao outro, aproveitamos os minutos restantes do passeio, sem prestar atenção no que acontecia ao nosso redor. Até voltarmos para terra firme, ficamos perdidos em nossa pequena bolha, sendo apenas Edward e Bella outra vez.

A volta para casa foi bem mais tranquila, uma vez que a tensão entre meu marido e eu parecia tar se dissipado um pouco; era quase confortável outra vez ficar ao lado dele outra vez. Se não bastasse isso, minha mãe contribuía bastante para que não houvesse nenhum clima estranho no carro ao matraquear sem parar sobre cada detalhe do passeio. Nem o próprio Richie aguentou toda a divagação dela e na metade do caminho para casa, já estava dormindo pesado no banco traseiro.

Quando chegamos, Edward se prontificou para levar nosso filho para o quarto, fazendo com que eu acompanhasse minha mãe até o quarto de hóspedes. Ao chegarmos até lá, ela se jogou pesadamente na cama, parecendo mais uma menininha que tinha acabado de voltar para o hotel, depois de ter passado o dia todo dentro da Disney World.

- Seu pai não faz ideia do que está perdendo! — ela falou animada e aquilo me fez sorri.

- Tem um travesseiro extra e algumas toalhas limpas nesse armário. Sinta-se a vontade, mãe e se precisar de qualquer coisa, por favor, não hesite em me chamar, ok?

- E atrapalhar sua noite de reconciliação com seu marido?

Rolei os olhos — Não é nada de reconciliação, mãe.

- Oh, eu vi o clima entre vocês dois lá no barco, e eu sei o que o que todo aquele abraço significa. Seu pai e eu costumamos ficar assim antes de...

Coloquei minhas mãos sobre os ouvidos a fim de evitar qualquer informação desnecessária – Ok, Renee, já chega. Boa noite.

Ela começou a rir alto. – Boa noite e eu te amo, filha.

- Eu também te amo, mãe. – respondi, antes de fechar a porta atrás de mim.

Ao sair dali, me dirigi direto para o quarto de Richie, onde o encontrei de bruços e já em um sono profundo. Arrumei o travesseiro sobre sua cabeça e puxei mais um pouco o edredom antes de deixar um beijo sofre sua face tranquila. Abaixei a luz do abajur e partir em direção a suíte principal, onde depois várias semanas dormindo separada de meu marido.

Assim que entrei no quarto, a primeira coisa que eu notei foi Edward com um lençol enrolado em um dos braços enquanto retirava alguns travesseiros de cima da cama. Não sei por que mas vê-lo fazendo isso fez com que meu coração despencasse um pouco em meu peito. Acho que tinha esperanças de que nós tivéssemos nos acertado um pouco no lago, ao ponto de não precisarmos dormir separados.

- Você não vai dormir aqui? – perguntei estupidamente, mesmo que todos os artigos em suas mãos constatassem a minha resposta.

Edward virou-se com a minha questão e eu senti minha respiração presa em minha garganta ao ver seu peito desnudo – Não quero te incomodar – murmurou, antes de completar com um sorrisinho sem graça — e também sei que ainda não conquistei o direito de voltar para a cama tão cedo.

- Pode dormir aqui. – disse baixo desviando o olhar e sentindo minhas bochechas corarem sem razão para isso.

- Você tem certeza?

Dei de ombros – Por mais que o sofá seja confortável, ele não é uma cama e aqui tem espaço suficiente para nós dois. – olhei de relance para ele apenas perceber a indicativa de um sorriso em sua face. – Eu... eu só vou... trocar de roupa.- gaguejei e partir imediatamente para o closet.

Ao chegar lá, tomei algumas respirações profundas ao tentar acalmar meu coração trovejando loucamente em meu peito. Eu não sei por que eu estava reagindo desse jeito, e só podia culpar meus hormônios idiotas. Frustrada e irritada comigo mesma, peguei a primeira camisola que achei o armário e entrei no banheiro pelo anexo que havia ali, aproveitando para escovar os dentes e molhar um pouco meu rosto que estava afogueado de desejo. Só uns bons minutos em seguida, foi que finalmente voltei para o quarto, onde encontrei Edward já na cama com o controle do televisor zapeando por alguns canais sem muito interesse. Quando me aproximei um pouco mais, ele sorriu, desligando o aparelho e apagando o abajur ao lado da cama.

Aconcheguei-me encolhida entre as cobertas, deitando-me de lado virada para ele. – Boa noite, Edward.

- Boa noite, Bella.

Mesmo que não o estivesse vendo, cada célula minha tinha plena consciência que apenas meros centímetros separavam nossos corpos. A presença dele na mesma cama que eu fazia que todo o meu corpo zunissem em uma mistura de desejo e saudade, que não me deixava relaxar o suficiente para pudesse descansar e acabasse caindo no sono.

Evitava me mexer muito para não chamar sua atenção, mas era impossível. Eu praticamente podia sentir sua respiração em minhas costas, seu peito perfeitamente esculpido praticamente implorando para que o fizesse de travesseiro outra vez.

Fechei os olhos, com o intuito de que isso me ajudasse a me concentrar um pouco, no entanto, tal gesto pareceu só inflamar ainda mais meu desejo. Por trás de minhas pálpebras, as únicas imagens que minha mente formava era lembrança de nós dois juntos, dividindo momentos de paixão intensa nessa mesma cama, consumando a ânsia que um tinha pelo outro.

Pouco tempo depois, escutei o farfalhar de lençóis ao meu lado e um corpo quente e definido se moldando as minhas costas. Um calafrio cortou minha coluna quando senti uma das mãos dele escorregarem pela minha coxa, alisando-a por cima da seda fria da camisola que usava.

- Isso é demais? – ele soprou ao meu ouvido, seu hálito quente fazendo com que os pelos de minha nuca se arrepiassem por completo.

- Não.. – murmurei debilmente, afetada demais por sua presença.

Ele riu – Bom, porque não acho que conseguiria mais me afastar de você. Já faz muito tempo que eu estive assim com você, baby.

Mordi meu lábio com força, a fim de evitar um gemido quando percebi a sua extensão na base da minha coluna. Suas mãos não paravam de tracejar padrões aleatórios em minha perna, e o que parecia ser apenas uma caricia inocente tinha o efeito de um vulcão em erupção para mim.

Eu me sentia em chamas; todo o meu corpo ardia por ele e a última coisa que passava em minha cabeça era que eu deveria estar com raiva dele. Não importava que tivéssemos muito que conversar, as palavras frias que ele havia dito e nem seu ódio por minha decisão de seguir em frente com essa gravidez. Eu era dominada pelo desejo de senti-lo dentro de mim, me amando até que tudo que nos restasse fosse a certeza de que pertencíamos um ao outro.

Virei-me em seus braços e surpreendendo a ele mesmo, ataquei sua boca em um beijo faminto, que pouco significava diante da falta que eu sentia dele. Edward correspondeu da mesma maneira, cravando seus dedos em meu quadril assim que subi em seu colo. Atacava-o como nunca havia feito antes, em um impulso desconhecido até por mim mesma ao emaranhar meus dedos em seus cabelos, puxando-o cada vez mais perto de mim.

Contudo, para a minha completa insatisfação, Edward me afastou minimamente, apenas para olhar em meus olhos. – Bella, — ele resfolegou sobre a minha boca – você... tem certeza de que.. é isso que você quer?

Ao invés responder ou simplesmente assenti, levei uma de minhas mãos até seu comprimento, sentindo o quão pronto ele estava para nós dois. – Por favor, Edward. Eu só preciso de você.

E com um grunhido rouco, ele voltou a me beijar com fúria e apressando-se em arrancar as poucas roupas que ainda nos cobríamos, apressando para que entregássemos nossos corpos ao prazer ensandecido que aquela noite prometia, sem pouco importar as consequências disto em nossas vidas amanhã pela manhã.

Apenas por mais uma noite, eu necessitava ser só dele outra vez.

[,,,]

Acordei-me no dia seguinte exaustamente satisfeita, como há muito não despertava. O responsável para que eu estivesse me sentindo desta maneira, continuava ressonando baixo às minhas costas, e aquilo não sei o por quê fez com que eu tivesse vontade de rir. Era como diziam; depois de uma boa noite de sexo, a pessoa se sentia muito mais leve; tanto que eu nem sentia mais os sete quilos extras que havia ganhado desde o inicio da gravidez.

Porém, poucos momentos depois, relembrei o quão grávida eu estava ao perceber o incomodo em minha bexiga já no limite, provavelmente esta sendo a causa que me fez despertar tão cedo. Espreguicei-me um pouco, buscando coragem para sair daquele abraço gostoso em que me encontrava, mas fui surpreendia com aperto mais forte ao redor de minha barriga.

Olhei para baixo e vi que era os braços de Edward que circundavam protetoramente o meu corpo, sua mão esquerda se curvava exatamente se adaptando as novas formas que meu ventre havia ganhando.

Surpresa, olhei para ele por cima do ombro e percebi que ainda dormia, mas mesmo assim não me decepcionei por completo por conta disso. Edward exibia um leve sorriso em seu rosto e mesmo que ele estivesse inconsciente aquilo me deu esperanças de que tudo poderia ser diferente a partir de hoje.

Edward eu não podíamos estar bem, mas aquele simples gesto demostrava que nós estávamos que estávamos no caminho certo.

Notas finais
Bem, eu acho que esse capítulo deve ter sido o último dessa fic este ano [corre]
Mês de dezembro e eu estou atolada até o pescoço! Tenho betar alguns capítulos da Guanabeer, da Cella ES e da Mirela Paes e também escrever o próximo outtake de Nada Daquilo que Você Espera. E para adiantar, acho que deve rolar a tradução de mais um bonûs de Do Over.
Mas, quem sabe se eu não tiver um montão de comentários de novo, eu não me empolgue e poste o que danado vai acontecer nessa festa de aniversário, huh?
Sou chantagista e não nego! HAHAHAHA
Beijos e até a próxima!
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