Nothing Can Get You Down

18 Capítulo Dezessete


Notas iniciais
Apareceu a Margarida, olê, olê, olá!
E aí, como foram de carnaval? Bom, pois bem, eu me diverti bastante e ainda consegui escrever o capítulo rapidinho, isso não é ótimo?
Eu já disse e volto a repetir: os comentários de vocês são o combustível que eu necessito para isso. Foram tantos comentários cativantes, depoimentos cativantes via PM (os quais ainda irei responder com bastante carinho, ok?) que não existe outra forma de retribuir, além de escrever mais rápido, sabe? Só tenho que agradecer a vocês por tudo isso!
Lembrando que quem quer saber novidades ou a evolução do capítulo, basta me seguir no twitter (arroba)linelins ou me perguntar lá pelo Forms www(.)formspringme(.)com/linelinss. Estou sempre a disposição de vocês por lá! =D
Agradecendo à Lu Cavalcanti, que carimbou sua aprovação e a Renata Nunes, que corrigiu os erros e ainda me faz surtar com os comentários perfeitos. Sem vocês eu não faria metade disso aqui, suas lindas! 3333
Então, bora deixar de lero-lero e vamos ao capítulo?
Boa Leitura!

Longas viagens de carro nunca foram um grande problema para mim, afinal, morei boa parte de minha vida em uma cidade que ficava a 70 quilômetros de distância do fast-food mais próximo. Por mais que estivesse habituada a ter a conveniência de ter tudo por perto, por morar agora em Chicago, nunca considerei um empecilho passar boa parte do meu tempo sentada dentro de um veículo.

Bem, isto até aquela manhã, onde o confortável Mercedes que era dirigido por Esme parecia superlotado, com tantas pessoas falando ao mesmo tempo

Entre as cinco pessoas dentro daquele veículo, estavam a minha mãe e Alice, as duas pessoas mais tagarelas que já conheci em toda a minha vida. Ambas conversavam avidamente por tudo e qualquer coisa, desde que entramos no carro há quase uma hora atrás fofocas de celebridades, receitas novas, técnicas de massagens, remédios milagrosos para emagrecimento... Eram tantos temas diferentes que chegava até ser difícil acompanha-las. Se não bastasse isso para que minha cabeça doesse, acrescente a presença de Richie, que a cada 15 metros perguntava se já estávamos chegando. Era complicado relaxar nestas circunstâncias e me preparar mentalmente para o que enfrentaria muito em breve.

E para piorar um pouco mais a minha situação, minha filha estava estranhamente agitada hoje. Seus movimentos comumente lentos e tranquilos foram substituídos por chutes bruscos e reviradas inesperadas que em certos momentos me tiravam o fôlego por completo. Apesar de achar aquilo estranho, não quis preocupar a ninguém, uma vez que não sentia contrações, portanto, continuei acariciando a enorme bola que havia se transformado a minha barriga, tentando fazer com que a Grace ficasse mais calma.

Grace. Eu finalmente começava a me referir a minha bebê pelo nome que havia escolhido para ela. Lógico, ainda estava morrendo de raiva de mim mesma por Edward ter sido a primeira pessoa a saber da minha decisão. Na hora da raiva, acabei deixando escapar para aquele que menos se interessava, e não me perdoava por isso. Durante a noite, enquanto Richard dormia tranquilamente ao meu lado até cogitei a troca do nome, entretanto, já tinha me habituado a pensar em minha menina sendo uma graça chegada a minha vida, por isso não existia termo mais apropriado para batizá-la.

Porém, restava saber como é que ficaria o seu sobrenome daqui a alguns meses.

Não gostava de pensar sobre isso. Afinal, restavam-me tão poucos dias até decidir o que faria com a minha vida. As certezas que eu tinha eram que não poderia continuar aqui em Forks, afinal, eu tinha exames importante para fazer nos próximos dias, incluindo um que poderia me dizer antecipadamente se minha filha sofrerá de algum problema cardíaco. Além disso, Richie precisava voltar para o colégio e de forma alguma eu poderia fazer com que ele perdesse vários assuntos, mudando de Estado no meio do ano letivo. Sem contar que nunca seria capaz de afastar completamente Richie do seu pai; por mais que ele estivesse relapso e frio, não podia afastar os dois, já que era nítido que os dois se amavam de verdade.

Só de pensar nisso, uma dor de cabeça infernal me acometia, dando a impressão de que as veias em minhas têmporas estivessem para explodir a qualquer minuto. Intuitivamente, levei minhas mãos até o local, massageando-as de leve em busca de um pouco de alívio.

Meu movimento chamou a atenção de Renee, que imediatamente parou de falar com Alice e voltou-se para mim. — Você está bem, querida?

- Sim, mamãe. É só um pouco de dor de cabeça.

- Tem certeza? — ela insistiu.

- Sim, mãe...

Alice virou-se do banco da frente e franziu suas sobrancelhas bem delineadas em minha direção — Bella, você está cuidando da sua alimentação? Está consumindo menos sal? Você lembra que sua pressão arterial estava alta da última vez, não foi?

- Eu sei, Alice. — disse, um tanto que ríspida. — E estou tomando cuidado quanto a isso. Não sou nenhuma irresponsável.

Renee rolou os olhos e acrescentou — Sim, mas nós só queremos ajudar, querida. Você parece tão estressada ultimamente e isso pode de alguma forma prejudicar o bebê.

Mordi a parte interna da bochecha e contei mentalmente até dez, tentando não explodir com as pessoas que só estavam demonstrando um pouco de preocupação comigo e com minha filha. No entanto, era meio difícil conseguir essa proeza quando estava sob tanta pressão desta forma.

Esme foi a única que percebeu que eu não estava gostando nem um pouco de ser o centro de atenção daquela conversa.- Ah, não façam tanta pressão sobre a Bella. Ela precisa ser mimada e não cobrada, certo Richie?

- O que? A gente já chegou? — Ele inquiriu, tirando sua atenção do IPad da madrinha, onde se entretinha com algum jogo que havia no aparelho .

Todos dentro do carro riram da impaciência de meu filho, e eu lancei um olhar agradecido a Esme, que conseguiu enfim mudar o foco da conversa. Minha paciência já no limite; ficava grata pelo breve descanso que receberia nesse meio tempo.

Não demorou muito para finalmente pararmos o carro em frente a uma casa modesta de estilo colonial, nos subúrbios da cidade de Sequim. De fato, nunca imaginaria que naquele local pudesse funcionar um ambiente escolar, desenvolvido especialmente para crianças com algum tipo de deficiência mental. Ali não era exatamente um colégio, mas sim, um modo de preparar as crianças excepcionais para a vida dentro de uma instituição de ensino. Uma forma de prepara-las antes de encararem a vida dentro de uma escola, ao lado de outras crianças ditas "normais".

Pelas minhas pesquisas, vi que vários pais preferiam que seus filhos estudassem em casa. Com auxilio de profissionais preparados para compreenderem os avanços mais lentos de seus pequenos. Era inegável que muitos deles também escolhiam esta opção porque tinham vergonha de suas crianças, coisa inadmissível para mim.

Em relação a isso, eu já tinha minha opinião formada. Dependendo de como Grace iria evoluir nos próximos anos, gostaria que ela participasse de uma escola, onde pudesse interagir com outras pessoas e não ser alguém reclusa. Lógico que temo que ela sofra algum tipo de preconceito, mas em minha modesta opinião, acho que isso será bem melhor para o futuro dela.

- Mamãe, você não vem? — A voz de Richie, já do lado de fora do carro me retirou de meus devaneios, onde eu finalmente saí do Mercedes já vazio.

O ar gelado do lado de fora me fez tremer e por instinto, trouxe Richie para mais perto de meu corpo para arrumar o gorro que estava em sua cabeça e abraça-lo com o intuito de esquenta-lo um pouco mais. Esme, que já havia estado ali inúmeras vezes, foi à frente, sendo seguida logo atrás por Alice. Minha mãe me lançou um sorriso e eu respirei fundo antes de começar a caminhar em direção a entrada da enorme casa.

Assim que cheguei no patamar da varanda, fomos atendidas por uma mulher jovem, bastante alta, cabelos longos e de pele em um bonito tom de canela. Ela abraçou demoradamente Esme, onde trocaram algumas palavras entre elas e logo em seguida se separaram, nos cumprimentando com um caloroso sorriso

- Bem, essa é Emily Young, a coordenadora do projeto Nothing Can Get You Down, aqui na cidade. – Esme falou, apresentando-a ao nosso grupo – Ela e sua prima Leah foram as responsáveis de implantar tudo o que vocês verão lá dentro.

Ela rolou os olhos, entretanto, mesmo sobre seu tom bronzeado foi perceptível o corar em suas bochechas. – Não é nada, Esme. Se não contássemos com o apoio de pessoas como você, nossa ideia nunca teria saído do papel.

- Então paramos por aqui com a rasgação de seda e vamos realmente ao que interessa. – Essa é Alice, minha filha que vivia prometendo vir aqui e sempre nos enrolou.

Alice teve a decência de parecer acanhada ao murmurar sua desculpa. – Eu tenho muitos pacientes, não conseguia encontrar tempo direito.

Emily não alterou o sorriso em seus lábios – Não se preocupe com isto. O mais importante é que você finalmente veio. – Então, você deve ser Isabella Masen, a esposa do sobrinho de nossa benfeitora, certo?

- Por favor, me chame de Bella. – respondi, esticando a minha mão para cumprimentá-la – Espero que não se importe por ter trazido mais pessoas. Esta é a minha mãe Renee e meu filho, Richie.

- De forma alguma, Bella. As crianças vão adorar ao perceberem que teremos bastante visitas por hoje. Venham, não vamos ficar congelando aqui fora. E eu acabei de fazer bastante chocolate quente para todos nós.

Emily segurou a porta para que todos nós entrássemos e deixássemos nossos casacos no armário do hall. Ela nos conduziu até a sala de estar, que fora adaptada em uma recepção com uma decoração bastante alegre. As cores vivas nas paredes, o amplo sofá de couro vermelho, cheio de bonecas jogadas por cima dele. Completando o ambiente, estava um mural lotado de fotos, desenhos e mensagens alegres, localizado bem acima de um velho birô, que deveria servir justamente para atender a parte mais burocrática daquele lugar.

- As crianças estão lá dentro fazendo algumas atividades com a Leah. – Emily disse, tentando discretamente arrumar alguns papéis sobre a mesa – Eu vou apenas verificar para ver se elas estão prontas para recebê-los. Enquanto isso, sintam-se à vontade. – disse por fim, se afastando por um estreito corredor de onde era possível ouvir o burburinho infantil.

Sentei-me entre Richard — que agora cutucava um boneco do Homem-Aranha — e Esme, que explicava pacientemente para minha mãe como ela havia descoberto essa instituição. Enquanto isso, não podia deixar de pensar que Emily não era exatamente o que eu esperava encontrar aqui. Em minha mente, imaginei alguém muito mais velho, com cara de vovó que gostava de praticar boas ações, por não ter nada mais interessante para fazer. Ver alguém tão nova e de gestos tão dinâmicos era um tanto que estranho de se assimilar.

- Elas são tão jovens! – escutei minha mãe dizendo, espelhando meus próprios pensamentos. – Como foi que surgiu essa ideia de trabalhar com especiais?

- Emily é pedadoga, especializada em Educação Especial. — Esme explicou e eu resolvi prestar atenção no que ela dizia. – E sua prima Leah é formada em Terapia Ocupacional. Elas se interessaram por crianças excepcionais ainda quando estavam na faculdade, depois de terem assistido um seminário sobre Síndrome de Down juntas. Elas desenvolveram o projeto desta casa e batalharam bastante até conseguirem patrocínio e pais corajosos para deixarem seus bebês com duas meninas de menos de trinta anos.

Percebi o receio de minha melhor amiga ao questionar a própria mãe. – E elas têm alguém... especial... na família?

- Absolutamente não. Tudo o que elas fazem é por amor a causa.

- E algo muito bonito de se ver. – Renee comentou, retirando uma das fotos que estavam pregadas por imãs por toda extensão do afresco pendurado na parede. – Elas não precisaram que algo tivesse atingido diretamente sua família para reavaliarem seus próprios conceitos.

O silêncio sepulcral pareceu nos engolir depois daquela última declaração de minha mãe. Apesar de terem sido palavras pesadas, não havia nada além da verdade no que ela havia dito. Com toda certeza, se Grace não fosse portadora de Síndrome de Down, o último lugar onde eu estaria naquela antevéspera de Natal seria naquele lugar. Minha realidade seria completamente diferente do que é hoje, afinal, se minha gravidez fosse tida como normal, acho que não existiria tantos problemas em meu casamento. Pelo contrário, tenho a impressão de que se as circunstâncias fossem diferentes, Edward e eu estaríamos mais unidos do que nunca, apenas aguardando ansiosamente pelo novo bebê.

Eu tive uma lição de vida nos últimos meses. Quebrei meus próprios paradigmas e aprendi que nem tudo é aquilo que se espera. Aprendi que meu amor por um filho não se divide, mas se expande de tal forma que não há diferença alguma entre eles. É como se meu coração tivesse dobrado de tamanho para aceitar o que já sentia por Grace, sem afetar em nada meus sentimentos pelo Richard, e por eles me descobri ser capaz de qualquer coisa, não temendo a nada e nem a ninguém em defesa deles.

Mas, se eu tivesse que destacar a maior mudança em mim mesma seria o fato de que aprendi a respeitar aquilo que é diferente. Não é porque algo é considerado "fora dos padrões" que é considerado um erro. Só depois de descobrir que teria um filho especial, e sofrer o preconceito em relação a isso é que pude entender que tudo o que estas pessoas necessitam é um pouco de respeito e aceitação. Nada além disto bastava para que eles sentissem o reconhecimento mais do que merecido.

Não demorou muito até que Emily reaparecesse na recepção, parecendo ainda mais animada do que estava anteriormente. — Elas já estão prontas para recebê-los. — Ofereceu, indicando o corredor para que nos aproximássemos. — Espero que vocês não reparem na bagunça. Nós estávamos fazendo alguns enfeites de Natal para colocarmos em nossa árvore mais tarde.

Esme, foi à frente e era notável a sua pressa para rever os pequenos que ela já conhecia, enquanto minha mãe e sua curiosidade eterna, foi logo atrás dela. E antes mesmo que o restante de nós pudésse até mesmo chegar ao corredor que dava acesso ao local, escutamos vários gritinhos infantis, vindo daquela direção, devido a chegada das duas mulheres.

A primeira coisa que percebi assim que alcancei o patamar da porta foram quase dez crianças, de mais ou menos cinco anos rodeando Esme em um abraço coletivo a medida em que minha mãe, um pouco mais afastada já se debulhava em lágrimas, sendo a manteiga derretida que era. Fiz menção a dar um passo a frente, porém Richie estava enroscando em minhas pernas, agarrando-as firmemente a ponto de me impedir que eu fizesse qualquer movimento.

- O que foi, docinho? — Inquiri, me voltando para ele que não parava de fitar os meninos e meninas à nossa frente com um olhar assustado.

- Eles são esquisitos... — ele sussurrou baixinho, sem conseguir parar de encarar a todos eles. — A cara deles é... estranha.

Alice ao escutar aquilo, fez algo que meu avançado estado de gravidez não me permitia, e se agachou perante Richard. — Você lembra que a gente te contou que eles eram um pouquinho diferentes? — com o assentimento dele, ela prosseguiu — E então, Richie. Essas crianças são como você também. A única diferença é que elas demoram só mais um pouquinho para aprender a falar, a andar... você entende, não é?

Meu filho permaneceu em silêncio e eu queria saber o que falar para que toda essa apreensão que ele sentia fosse embora. Comecei a duvidar que levar o Richard até ali tenha sido uma boa ideia, e que talvez devesse existir alguma outra forma de mostrar para ele que a Síndrome de Down não era algo anormal, como pensava. Acho que minha ideia não tinha sido algo muito positivo, afinal.

Por minha visão periféria, vi um garotinho nos olhando e do nada, ele decidiu vir em nossa direção sem se fazer de rogado. Ele aparentava não ter mais do que quatro anos, de pele muito alvinha e seu cabelo espesso tinha uma longa franja castanho-clara que cobria boa parte de suas testa.

Com passos desajeitados, ele chegou até onde estávamos e esticou suas mãozinhas abarrotadas de biscoitos em direção ao meu filho e perguntou docemente. — Qué totoito, qué?

Deixei escapar uma risadinha, enquanto Richie aceitava os doces que o menino lhe oferecera. — Obrigado. — ele retrucou, esboçando um discreto sorriso, por de trás de minhas pernas.

Uma outra mulher de tez indígena assim como Emily, só que de estatura menor e com o cabelo mais curto se aproximou de nós e esfregou a farta cabeleira do garotinho. — Como sempre, você anda oferecendo besteiras para nossos convidados, não é, Andy?

- Má é totosó! — Ele respondeu, fazendo uma carinha de indignação muito fofa.

- Eu sei que é gostoso, Andy. Mas nem todo mundo pode ficar comendo tanto doce quanto você!

Alice abriu um sorriso e acabou interagindo na conversa também. – Não se preocupe, Andy, meu sobrinho aqui gosta tanto de biscoitos quanto você, não é Richie?

Meu filho apenas meneou a cabeça, porque sua boca já estava abarrotada da massa de chocolate que lhe foi oferecida. Os dois meninos trocaram um sorriso cúmplice e finalmente, Richie saiu de seu esconderijo atrás de mim e resolveu se aproximar do garoto, com a intenção de pegar mais algumas guloseimas das mãos dele. Com um pouco de incentivo de minha melhor amiga, as duas crianças saíram juntas em direção ao centro da sala, onde estava o amontoado de pessoas empolgadas ali. Várias delas mostravam orgulhosas, os adereços que haviam criado para decorar a Árvore de Natal, já instalada no canto da sala.

– Eu deveria ter comprado alguns presentes. – murmurei ao perceber todo o alvoroço natalino e todos nós chegando ali de mãos vazias.

- Não se preocupe, o melhor presente para eles é a presença de todos vocês. – a mulher respondeu, com um breve sorriso – A propósito, sou Leah Clearwater.

- Bella Masen. – retruquei, esticando minha mão para a cumprimenta-la.

- Pode parecer um tanto atrevido de nossa parte, mas Esme me contou que seu bebê será especial. Antes de mais nada, devo lhe dizer que você é bastante corajosa por acatar tudo isso.

Acenei positivamente – Eu não acho que seja coragem... E só não me vejo desistindo de um filho, independente de como ele seja. – retruquei, a medida em que assistia Richie aos poucos, começar a interagir com as outras crianças ali presentes.

- Eu pensava que já não existiam mais mulheres como você. – ela comentou rindo e minhas sobrancelhas se cruzaram em confusão. – O que eu quero dizer é que hoje em dia, quase 95% das gestações onde se descobre previamente que o feto é Down termina em aborto. A maioria das crianças que estão aqui só não teve o mesmo destino porque a mãe só descobriu que ela era especial após o parto ou por conta de questões religiosas de seus pais.

Eu tinha noção de que tudo que Leah dizia era verdade, mas ver aquelas crianças ali, brincando e sorrindo com tanta inocência fez com que eu me sentisse mal ao perceber o quanto daqueles anjos haviam deixado de nascer por conta do preconceito. Quantos deles não deveriam estar aqui também, se divertindo e se sujando de tinta dourada e glitter? Cantando canções natalinas e aguardando ansiosas por Papai Noel, exatamente como qualquer outra criança no planeta?

Senti o meu peito apertar ao escutar toda as risadas a minha volta. Sabia que a vida nem sempre era justa, mas ali eu me deparei com uma iniquidade sem precedentes. Só porque aquelas pessoas eram diferentes, não significava que elas não tinham o direito de viver. A candura delas era algo que o mundo necessitava cada vez mais, afinal, se houvesse mais homens e mulheres tão puros quando um Síndrome de Down, talvez a humanidade não fosse tão mesquinha como é.

Fiquei durante um bom tempo conversando com Leah sobre as dificuldades que ela encontrava em relação a educação das crianças excepcionais. Quis saber todos os detalhes, cada mínima coisa que eu precisaria para atender a todas as necessidades futuras de Grace; as prováveis dificuldades que iria encontrar, que tipo de incentivo deveria fazer enquanto ela fosse bebê... Tentava absorver o máximo que poderia enquanto estivesse ao lado dela.

Mesmo que estivesse um pouco afastada, não pude deixar de notar que Richie puxava conversa agora com uma garotinha, lhe ajudando a pendurar alguns de seus enfeites na árvore que começou a ser decorada. Por ser um pouco mais baixa, ela não alcançava o local adequado e meu filho, solícito, ficou na ponta dos pés para colocar o objeto no local desejado. Assim que conseguiu colocá-lo no lugar, os dois trocaram um sorriso e a garotinha se inclinou para colocar um beijo na bochecha do meu filho. Eu ri da cena e da forma como ele ficou vermelho como uma pimenta, porém não reclamou ou ficou mal-humorado, pelo contrário; prosseguiu auxiliando a garota loirinha, de espesso óculos de grau, em tudo que ela pedia.

A essa altura, Renee já havia parado de chorar e criado uma interação com os pequenos. Vez ou outra, a via conversando com Esme ou Emily, provavelmente questionando coisas parecidas com as que eu perguntava para Leah. Acho que a visita a essa instituição fez tão bem para ela quanto a mim, pois percebi que seu empenho ali não era apenas para me apoiar, mas também porque ela estava interessada também naquelas crianças. Não pude deixar de me sentir orgulhosa por isso, e de ficar agradecida também por que minha filha terá a avó mais coruja do mundo.

Por fim, eu mesma acabei indo falar com alguma das crianças. Dentre elas, a menina que havia beijado Richie, que não se separou dele um minuto sequer. Rachel tinha cinco anos, era um doce e não parava de falar um segundo sobre o seu cachorrinho Puppy, que tinha ganhado de sua tia alguns meses atrás de aniversário. Apesar de em certos momentos ela falar rápido demais e com a língua um tanto que enrolada, foi fácil para nós três mantermos a conversa durante um bom tempo.

Um pouco antes do meio-dia, os responsáveis das crianças começaram a vir buscá-las, uma vez que era quase o horário do almoço. Cada uma delas despediu-se de nós com um abraço demorado, e perguntando quando seria a próxima vez que estaríamos ali. Senti-me triste por que tanto Esme, Alice e até a minha mãe puderam dar respostas exatas ao dizer que voltariam ali logo após as férias de final de ano enquanto eu nem sabia o que dizer ao certo.

No entanto, a única certeza que tinha, depois de ter passado momentos maravilhosos ao lado daqueles anjos era que eu mal podia esperar para que Grace estivesse o quanto antes em meu colo. Afinal, depois de ter convivido por poucas horas com aqueles meninos e meninas, não pude deixar de constatar que havia escolhido um nome mais do que apropriado para a minha garotinha.

Grace era a graça que havia sido concedida à vida de todos aqueles que estivessem dispostos a amá-la.

[...]

Após uma manhã maravilhosa ao lado das crianças, fomos até uma galeria no centro da cidade comermos alguma coisa, antes de encararmos a estrada de volta para Forks. Logo ao entramos, me deparei com uma pequena loja de brinquedos lotada de pais fazendo compras de última hora para seus filhos. Senti-me péssima ao constatar que não havia escolhido nada para Richie, e aquele provavelmente seria o primeiro Natal em que não ganharia nada e que teria que encontrar alguma explicação sobre o motivo do Papai Noel ter esquecido dele aquele ano.

Ou talvez, eu pudesse fugir durante alguns minutos e pegar nem que fosse algum carrinho para ele. Não tinha muito dinheiro, no entanto, não podia acabar com o encanto desta data para Richie; sempre empolgado, desde a escolha da árvore, passando a noite da véspera sem querer dormir e acordar as 5h da manhã do dia seguinte só para ver o que o Bom Velhinho havia lhe deixado.

Com essa ideia em mente, dei uma desculpa dizendo que iria ao toalete antes de irmos e voltei alguns passos em direção aquela loja. Dos 150 dólares que havia na minha carteira naquele momento, gastei um pouco mais de 30 para comprar um simples carrinho de bombeiro. Aquilo me fez remeter aos tempos em que Edward e eu não tínhamos condições para dar tudo aquilo que nosso filho merecia e foi horrível sentir-me desta forma outra vez. Enquanto esperava minha vez de pagar na fila de prioridade, tentei não demonstrar o meu desespero, segurando ao máximo as lágrimas que insistiam em desabar a qualquer instante.

Por sorte, estava usando uma maxibolsa, então foi fácil esconder o embrulho nela. Corri até o banheiro mais próximo e fiquei me recompondo por alguns instantes, apenas para não demonstrar para ninguém o quanto estava aturdida com tudo o que estava acontecendo ultimamente. Eram coisas demais para lidar sozinha e em certos momentos, me sentia como se estivesse a beira de um abismo, onde a qualquer momento, a mais leve das brisas poderia me derrubar.

Meu celular começou a tocar com o toque específico da minha mãe e eu me apressei a atendê-lo, antes que ela ficasse ainda mais preocupada. Não demorou muito até encontrá-las sentadas em uma das mesas livres em frente ao Subway, onde todos já haviam feitos seus pedidos. Como não estava com a mínima vontade de comer, acabei dividindo o sanduiche com meu filho, que de forma alguma conseguiria comer tudo de uma só vez. Enquanto fazíamos essa pequena refeição, não deixamos de comentar o quanto tinha sido emocionante aquelas horas que passamos na instituição coordenadas por Leah e Emily. Fiquei mais do que feliz ao ver Renee perguntando a Esme quando seria a próxima vez em que ela estaria por lá, pois tinha bastante interesse em voltar e poder ajudar de alguma forma.

Em certo ponto da conversa, Richie acabou sendo o centro das atenções por ter passado tanto tempo ao lado de Rachel. Alice o provocou, dizendo que ele poderia estar com algum interesse romântico com a sua mais nova amiguinha, contudo, Richie apenas respondeu de forma tão adulta que fez meu peito se estufar de orgulho dele.

- Eu tava o tempo todo com ela, tia, porque a mamãe explicou que minha irmãzinha vai ser daquele jeito. Daí eu tenho que aprender como ela vai ser, né?

Ao escutar isso, puxei-o para um abraço e deixei um beijo estalado em sua bochecha. — É por isso que você vai ser o melhor irmão mais velho do mundo inteirinho, sabia?

Suas bochechas ficaram coradas, entretanto ele não deixou de se gabar naquele momento. — Eu sei!

Após o almoço improvisado, nós voltamos para casa em um silêncio tranquilo durante o caminho. Apesar da temperatura ter caído bastante de ontem para hoje, não havia nevado e tão pouco chovido ao longo do dia, o que deixaram as estradas relativamente tranquilas para serem guiadas. Desta vez, quem guiava o volante era Alice e eu vinha ao seu lado como carona, enquanto Richie, Esme e Renee tiravam um cochilo no banco de trás. Eu me sentia esgotada, mas não conseguia pregar os olhos um minutos sequer durante o trajeto. Fiquei encarando pelo vidro da janela a paisagem sempre verde da Península Olímpica, sem deixar de ficar admirada devido a vastidão das árvores centenárias que existiam por ali.

- Você parece tão cansada, Bella... — Alice comentou aleatoriamente, chamando de volta a minha atenção.

- Eu me sinto cansada. — respondi, sem deixar de fitar a paisagem. — Tente carregar uma mochila de oito quilos a sua frente durante 24 horas e você terá uma ideia do que eu digo.

Ela rolou os olhos – Eu não me refiro a sua barriga, Bella e sim ao seu estado. Parece até que você anda carregando o mundo em suas costas desde quando saiu de Chicago. Você não devia ficar desse jeito, faz mal para a bebê.

– E você pensa que eu não sei de tudo isso? — rebati asperamente, voltando meu rosto dessa vez para encará-la. – Acha que é fácil lidar com tudo o que estou sentindo completamente sozinha?

- Está sozinha porque quer – retrucou no mesmo instante e antes que pudesse revidar, acrescentou – Agora que você está aqui, pode dividir tudo que está sentindo conosco, Bella. É claro que nenhuma de nós poderá entender completamente o que se passa em sua cabeça, mas iremos da melhor forma possível te ajudar. Seu fardo é pesado demais para suportá-lo sozinha.

Joguei a cabeça contra o recosto do banco, suspirando pesadamente. – Eu sei, Allie, e eu agradeço por isso, de verdade.

– Você não tem que agradecer! Precisa extravasar, gritar, chorar... qualquer coisa para tirar toda essa negatividade que anda te consumindo! Na verdade, acho que esmurrar o canalha do meu primo seria a coisa mais apropriada a se fazer.

Aquilo me fez sorrir. – Sim, definitivamente isso seria ótimo.

Seu semblante ficou mais sério, e percebi seus olhos se voltando rapidamente retrovisor, apenas para averiguar as pessoas atrás de nós. – Você imagina quem seja essa Tanya? Será que é alguém ligado ao trabalho de Edward?

Dei de ombros, exatamente como tinha feito no dia anterior, quando eu lhe contei da existência dessa mulher ontem à tarde. – Eu não faço a mínima ideia. Talvez sim, mas aí eu me pergunto a razão que o Edward teria para esconder a presença desta mulher de mim. No mínimo, é algo suspeito.

Alice assentiu e depois completou – Sem contar que Lauren está envolvida nisso também, Eu sempre achei aquela loira azeda uma tremenda de uma escrota. É bem do feitio dela esconder alguma putice dos patrões em troca de uma promoção...

– Por favor, Allie, eu não quero falar sobre isso.

Ela mordeu o lábio antes de falar – Desculpa, Bella, eu não deveria estar falando mesmo sobre isso. Só que é difícil de imaginar o meu primo na cama com outra mulher. Afinal, ele sempre foi tão louco por você e...

– Alice, por favor. – supliquei.

– Desculpe.

Não houve sequer um minuto de silêncio quando eu resolvi por conta própria voltar a falar. – E mesmo que Edward esteja mesmo com uma amante agora, eu já me sentia traída por ele muito antes. Edward me enganou pela primeira vez no momento em que ele renegou a nossa filha. Ele sempre disse que poderíamos enfrentar qualquer coisa, desde que estivéssemos juntos. Em todos esses anos que estivemos juntos, abdiquei de mim mesma por ele, e quando eu acho que vou receber um pouquinho disto de volta, ele me apunha-la pelas costas da pior maneira possível. Não aceitando algo que é nosso; que por mais que seja diferente, existe um pouquinho dele também... E sinceramente, Alice, eu acho que não poderei nunca perdoar esse tipo mentira.

- Eu também não perdoaria, Bella. – ela falou gentilmente, retirando uma mão do volante para apertar a minha mão. – Não tem como desculpar uma atitude mesquinha e egocêntrica como esta.

Meneei a cabeça positivamente a medida que fungava e passava as costas de minhas mãos sobre a humidade em minha bochecha para depois murmurar – Agora desde ontem, tem uma coisa que não sai de minha cabeça.

– O que?

– Será que o Edward sabia da existência do Joseph? E é por isso que ele fez tudo isso com a nossa filha?

Alice balançou a cabeça veementemente, sibilando a sua resposta. – Sem chance, Bella. Nem eu que sou filha da Esme sabia que tinha um irmão Down, quanto mais o meu primo. Mamãe não contou nem sequer toda a história para o Emmett; vai esperar que ele chegue aqui, na semana que vem para lhe dizer tudo. Sem chances de que o Edward soubesse de algo, provavelmente não agiria tão estupidamente. Ele seria muito mais maduro para lidar com tudo isso.

– Eu acho que você tem razão – retruquei, recostando minha cabeça contra o vidro, curtindo a brisa quente vinda do aquecedor do carro. – Ele teve um primo que nunca pode conhecer e uma filha que se recusa a aceitar com as mesmas características. O quão irônico pode ser isto?

Do nada, Alice soltou uma risadinha baixa. – Até quando você vai ficar se referindo a ela como minha filha? Será que já não está na hora de escolher um nome para a minha sobrinha preferida?

– Na verdade, eu já pensei nisso.

– Sério? E porque você não me contou? – inquiriu, me dando um cutucão nas costelas.

– Sei lá, falta de oportunidade, talvez...

Ela bufou irritada – Ok, Bella não me mate de curiosidade aqui. Qual é o nome dela?

– Grace. – afirmei com um breve sorriso, acariciando a minha barriga em retribuição aos chutinhos que ela me dava há alguns minutos.

– É um lindo nome, e bastante apropriado. – comentou, fazendo uma curva mais sinuosa na estrada – Já pensou no do meio?

– Ainda estou na dúvida, Andei brincando com algumas combinações, mas nenhuma delas me encantou tanto. Na verdade, o que mais me preocupa agora é o sobrenome dela.

– Será que o Edward vai se negar a registrá-la? Por mais que ele não goste da ideia de ter um bebê com Down, ele é o pai dela!

Balancei a cabeça negativamente um pouco antes de responde-la – Bem, sou eu que estou pensando seriamente em registra-la com meu nome de solteira. Se ele se recusa a aceita-la, eu também não quero nada dele, começando pelo sobrenome.

– Bella, isso é sério. Você pretende mesmo tirar os direitos de Edward como pai?

– Que direitos, Alice? – disparei em troca. – De humilha-la por não ser perfeita como ele gostaria? De ignora-la por ser diferente? De chama-la de monstrinha? Obrigada, mas não, Alice. Grace e eu não precisamos disso para sobreviver.

- E quanto ao Richie? – ela sussurrou baixinho. – O que acontece com ele nesse meio tempo.

– E por ele que mais temo. – ponderei em resposta. – Não posso mentir e dizer que Edward foi um péssimo pai para ele. E além do mais, meu filho o tem como o herói pessoal dele. Sinceramente, não sei como agirei daqui para frente.

– Que dizer então que vocês irão mesmo se divorciar, não é? – ela perguntou, com um tom de lamento.

- Provavelmente. – comentei, deixando uma lágrima solitária que insistiu em escorrer pelo meu rosto. – Por mais difícil que seja admitir que ainda o amo, eu nunca poderei viver ao lado de um homem que não aceite o próprio filho. Isso faz com que eu desconfie do amor que ele diz sentir por mim... Como de fato isto está acontecendo.

Minha última afirmação ficou no ar, tão sufocante como sempre. Meu coração em pedaços martelava alto e tudo o que eu mais desejava naquele momento era estar sozinha e poder chorar, apenas para aliviar um pouco desse nó em meu peito. Toda as vezes em que eu pensava no fim de meu casamento, era como se minha mente acionasse um filme de todos os momentos felizes que eu vivi ao lado de Edward durante todos esses anos. Desde quando éramos duas crianças, quando ele me protegia de tudo e de todos, passando pela adolescência, onde vivemos toda a intensidade de estarmos apaixonados e finalmente o nosso reencontro anos depois em Chicago, onde pudemos amadurecer o amor que sentíamos um pelo outro. Tantos momentos felizes, tantas experiências, desejos e sonhos em conjunto tendo um ponto final doloroso em questão de meses. Tudo por conta da intolerância e do preconceito que nos cercou de tal maneira, que fez com que nos tornássemos estranhos sobre o mesmo teto.

– Bella, eu...

– Quer saber? – a interrompi de forma brusca. – Eu não quero mais falar sobre isso, está bem? – E com esperança que por um fim naquele assunto, liguei o rádio esperando que algumas músicas fosse o suficiente para preencher o silêncio até que chegássemos em casa.

Porém, o tiro havia saído pela culatra assim que a próxima música começou a soar baixo pelos autofalantes do veículo. Quando os primeiros acordes de Don´t Speak começaram a serem executados, e eu achei simplesmente ridícula a ironia do momento, afinal, quem poderia imaginar que uma canção de quase três décadas atrás fosse ser tocada exatamente naquele instante?

Por sorte, eu tinha uma melhor amiga que não deixou que a música alcançasse seu refrão, desligando de volta rapidamente o aparelho. Alice olhou para mim de forma carinhosa e sugeriu algo que talvez eu estivesse de fato precisando. – Quando chegarmos à Forks, eu irei te arrastar lá para casa e iremos assaltar a geladeira de Esme. E eu estou pouco me fodendo que esteja fazendo cinco graus negativos lá fora; nós vamos nos estufar de sorvete, está bem? Você realmente precisa disso e pode fazer sem culpa alguma já que está grávida mesmo.

Eu ri, lhe lançando um sorriso agradecido. – É por essas e outras que você sempre será minha melhor amiga, Alice. Só você é capaz de me fazer sorrir depois de tudo isso.

– É para isso que estou aqui. – Disse afagando outra vez a minha mão. – Sempre e quando precisar.

[,,,]

Durante o restante da tarde, eu fiz exatamente o que Alice me sugeriu. Ao descermos em casa, Alice me arrastou até meu quarto e ficamos lá isoladas por boas quatro horas. Lamentei e chorei, exatamente como se eu fosse uma adolescente de novo, o que de certa forma foi bom. Após nossa conversa, eu me senti muito mais aliviada ao poder dividir tudo aquilo com alguém que me compreendia. Ela me ofereceu ajuda, são só emocional, mas financeira também, que por ora recusei veementemente. Antes de qualquer coisa, precisava resolver o que finalmente faria com a minha vida; como iria conseguir dinheiro, como eu voltaria a morar em uma casa, que nunca senti que fosse completamente minha... Precisava achar uma solução para todas estas pendências antes de tudo.

Quando Alice saiu, a noite já havia caído sobre Forks. Charlie já havia voltado do trabalho e já tinha ligado o televisor, onde assistia a reprise de alguma partida de baseball ao lado de Richie. Na cozinha, eu podia escutar minha mãe cantarolando ao mesmo tempo em que concluía o jantar e eu pensei em ir ajudá-la, apenas para não me sentir tão inútil.

Mas, quando fiz menção a mudar meus passos para aquele cômodo, a voz do meu filho me perguntando algo, interrompeu os meus planos. – Mamãe, o papai não vai ligar hoje?

- Eu não sei, filhote. – murmurei sem jeito enquanto assistia os bigodes de meu pai se revirando em uma careta. – Talvez ele tenha ligado enquanto nós estávamos fora.

Seus olhos verdes fitaram o chão a medida que retrucava sem jeito – A vovó viu se ele tinha ligado, assim que a gente chegou em casa e não tinha nenhuma.

Charlie fez menção de dizer alguma coisa, contudo, bastou apenas um olhar meu para que ele permanecesse calado. Fui sentar ao lado do meu filho e puxei-o para o meu lado antes de voltar a falar novamente. – Talvez ele ainda esteja trabalhando, Richie. Mas tarde, antes de irmos dormir, nós vamos tentar falar com ele outra vez, está bem?

Ele meneou a cabeça e naquele exato instante Renee apareceu na soleira da sala, anunciando que a famosa lasanha da vovó Swan estava pronta. Apesar daquele prato ser de fato muito delicioso, nem eu e muito menos Richard estávamos com apetite para apreciarmos devidamente. Comemos apenas o suficiente para não desapontarmos por completo a minha mãe, que tinha passado tanto tempo com afinco apenas para prepará-la.

Após comermos, meu filho e eu nos dispusemos a arrumar a cozinha e colocarmos o pratos sujos na lava-louças, dando uma folga para meus pais que foram imediatamente para a sala, verem algum filme de comédia que vinha sento anunciado desde cedo. Mas a verdade era que eu tinha certeza que Renee estava dando ao Charlie todos os detalhes de nossa visita à instituição hoje pela manhã, contando-lhe tudo o que fizemos naquele lugar, de certa forma, mágico.

Aproveitei também o momento a sós com o meu filho para conversarmos sobre o que havia acontecido aquela manhã. Eu precisava saber qual foi a conclusão verdadeira dele a respeito das crianças e a melhor forma de saber o que se passava na sua cabecinha era agora, quando estávamos completamente sozinhos. Surpreendeu-me a maturidade do meu menino em relação às condições daqueles pequenos, vendo-o afirmar que não via problemas em que sua irmã nascesse daquele jeito.

Uma afirmação tão simples, que me tomou de esperança. O fato de ele aceitar a irmã da forma que era e não culpa-la mais pelo que estava ocorrendo entre Edward e eu era um conforto muito grande para mim, que tanto sofri sem saber se estava tomando a decisão correta ou não ao mantê-la. Ter o apoio de Richard agora era tudo o que necessitava, provando que tudo valia a pena afinal.

Em certa altura da conversa, Richie parou de enxugar os talheres que usamos e se voltou para mim. – Mãe, o papai não quer a bebezinha só porque ela vai falar enrolado e ter os olhos vesgos?

- Não é exatamente por isso, Richard. – Expliquei, fazendo com que ele parasse o que estava fazendo e instrui-lo a sentar-se em cima do balcão. – Ela terá Down e algumas pessoas acham que isso é um erro. E infelizmente seu pai pensa desta forma.

- Mas isso é besteira! Eu vou contar pro papai que eu tive lá com eles. Que no começo fiquei com um pouquinho de medo, mas depois eu vi que eles são legais. Você vai ver, mamãe, depois que eu falar isso pra ele, o papai vai gostar da minha irmãzinha também. Eu prometo!

Eu ri e o abracei apertado, torcendo para que tudo pudesse ser resolvido com tanta facilidade, como sugeria a sua inocência. – Eu espero que você tenha razão, meu amor. Isso é tudo o que eu mais quero.

Uma vez que chegou a hora de irmos para a cama, eu tentei ligar para Edward, no entanto, não consegui contato algum nem em seu celular e muito menos no telefone de casa. Cheguei ao ponto de discar para o escritório, no entanto a chamada caiu sempre na secretária-eletrônica.

Estava começando a ficar preocupada com esse sumiço e até cogitei a ideia de ligar para alguém que trabalhasse com ele, somente para saber sobre o seu paradeiro. No entanto, já se passavam da 1h da manhã em Chicago e com absoluta certeza, esse não era um horário muito confortável para sair ligando como uma louca atrás do paradeiro dele. Por fim, para o desapontamento do meu menino, decidi tentar ligar outra vez amanhã, logo nas primeiras horas do dia.

Outra vez, demorei muito para pegar no sono e fiquei boa parte da madrugada velando o sono do meu garotinho. Nos poucos minutos em que consegui dormir, não consegui descansar direito, não houve um momento onde minha mente parasse por um breve instante e me permitisse que eu alcançasse a inconsciência. Nesse meio tempo, tentei ler uns poucos livros que ainda existiam nas prateleiras de meu quarto, mas por já conhecer os enredos, logo me vi desistindo deles também.

Por volta das quarto da manhã resolvi finalmente descer e ligar o televisor, já que havia nada mais que eu pudesse fazer ali. Em poucas horas, a rotina dos Swan começaria, e conhecendo a minha mãe, sabia que o dia seria mais do que agitado, uma vez que finalmente estávamos na véspera do seu feriado favorito. Senti-me esgotada só de lembrar todo o alvoroço que seria naquela casa no dia de hoje, caso algo saísse de seus planos. Decidi então aproveitar os últimos minutos de sossego, vendo sobre a vida dos alces em um documentário no Animal Planet. Por pura contrariedade, minhas pálpebras começaram a ficar pesadas e quis zombar de mim mesma, pelo fato de meu corpo querer se desligar, justo quando precisava ser despertado. Por fim, acabei acatando o que meu organismo queria e me deitei ali mesmo no velho sofá, sendo finalmente dominada pela vontade de dormir.

Porém, no que pareceram ser poucos instantes depois, comecei a escutar batidas fortes e ritmadas vindas de um lugar próximo. O martelar insistente acabou me trazendo de volta e eu demorei alguns segundos até perceber que tal barulho vinha de alguma pessoa socando a porta de entrada da casa. Olhei para o meu terrível estado amarrotado, e cheguei até a titubear se deveria me trocar antes, contudo, ao lembrar que ali morava o chefe de polícia da cidade, notei que deveria se tratar de alguma urgência. Ignorei a pouca vaidade que me restava e caminhei até a entrada com o cabelo bagunçado e o velho moletom puído colado à minha barriga crescida.

Em minha pressa, não me dei ao trabalho de olhar pelo olho-mágico quem era o ser que nos incomodava tão cedo. E devido a nisso, o meu coração parou de bater em meu peito ao ver quem era que estava ali a minha frente.

Com o cabelo mais desalinhado do que o costume, uma barba que pelo tamanho não era feita há dias e usando um terno que parecia ter passado meses no fundo de um armário, Edward me encarava de forma tão fria que chegava até a gelar minha alma. Nós ficamos nos olhando por algum tempo e eu perdi minha própria fala, por nunca imaginar que justo ele estivesse ali naquele momento.

Não sei por quanto tempo ficamos nos encarando, mas enfim ele quebrou o silêncio ao afirmar com a voz tão ácida quanto um corrosivo perigoso. – Acabou essa palhaçada, Bella. Arrume suas coisas e pegue o nosso filho porque nós vamos voltar para casa. Agora!

[...]

Notas finais
Posso correr agora, eu deveria deixar para mais tarde?
Ah, comentários são sempre bem aceitos
Até dia 19/03