Notes of Obsession
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Prólogo
Eu nunca havia entendido o sentido de amar, sempre me bastou o amor próprio, nunca sei o desejo de ser amada. Talvez eu seja fria, mas para alguém de trinta anos isso me parecia normal, assim como o rancor, o remorso, a solidão e a obcessão.
Eu não sabia se um dia iria amar algo ou alguém, ou simplesmente amaria o fato de existir. Mas de qualquer forma, foi assim que eu revolvi parar, pois, sabia que havia o encontrado, eu estava diante de meu medo, minha fúria, minha paixão e o motivo para eu estar obcecada.
Capítulo 1 :
Eu podia sentir o cheiro da chuva, podia ouvi-la caindo sob a sacada do apartamento não muito pequeno no Brookling, era incrível como aquilo era bom e relaxante, eu poderia ficar ali por horas, parada ouvindo a chuva cair, mas tudo o que me impedia era o atordoante som do despertador, indicando que aquele seria mais um dia entediante no Happened in NYC, jornal cujo eu trabalho como colunista de artigos policiais.
Eu não odiava meu trabalho ou minha profissão, apenas odiava o ambiente em que o praticava. O relógio marcava sete da manhã, eu ainda tinha algum tempo, mas precisava apreciar meu apartamento aparentemente vazio.
Esse era o pequeno espaço de tempo em que eu podia ficar sozinha, Clhoe, a garota ruiva de 25 anos com quem eu dividia o apartamento, já deveria ter saído para a faculdade.
Caminhei até a cozinha analisando eximiamente tudo o que havia ao meu redor, minha percepção indicava que Clhoe Macardley era a garota que só me era útil para dividir o aluguel.
Naquela manhã havia algo estranho em casa, Clhoe costumava deixar ao menos o café da manhã para que eu não me atrasasse, esse foi um dos acordos que fizemos quando ela se mudou. Mas hoje ela não havia deixado, a solução seria eu mesma fazer.
Peguei a cafeteira e coloquei tudo em seu lugar para que algo parecido com café saísse de lá, eu não fazia ideia de como preparar aquilo direito. Notei então que Clhoe não havia deixado rastros pela cozinha, canecas, talheres, sujeira ou coisa parecida. A vadiazinha devia ter dormido fora.
Bem, enfim consegui preparar algo parecido com ovos mexidos, à mistura na frigideira parecia um grande caos, mas eu estava faminta e seria aquele meu café da manhã. Provavelmente eu e Clhoe teríamos algumas discussões imbecis sobre isso mais tarde.
Os ovos não tinham um gosto tão ruim quanto parecia – Ou podia ser apenas minha fome que havia deixado eles melhores – Estava ao menos comestível e sobre o café, dava para sentir que alguém havia colocado algum rastro de pó.
Me levantei e coloquei a louça suja na pia, eu não lavaria aquilo, Clhoe ficaria com toda a bagunça, ela desfez o trato. Enfim decidi começar o ritual idiota feminino, eu tinha que me arrumar, estava atrasada.
Eu era péssima com moda, nunca liguei para opiniões, por isso decidi fazer jornalismo, para expressar o lado verdadeiro das coisas, para dizer o que acontece da minha maneira.
Não gosto de ter contato demais com pessoas, por isso vivo com Clhoe, apenas a vejo por no máximo duas horas diárias, durante a noite quando ela se arruma para sair com o namoradinho bicha dela Richard.
Posso parecer fria, mas nem sempre foi assim. Eu já tive afeto por pessoas e animais, eu gostava dos meus pais e do meu falecido gato Hebbert, mas isso mudou, meu pai viciado em álcool e drogas matou Hebbert meu antigo melhor amigo. Além disso batia em mim e em minha mão de três amantes.
Ambos se satisfaziam da melhor forma que encontravam, mas esqueciam de que havia uma criança de treze anos sob seus cuidados, então me dei conta que se meus pais não cuidavam de mim e eu estava ali, viva, eu podia me cuidar sozinha. Então pedi à eles a bendita emancipação e me livrei dos trastes. Passei então há ter dezoito anos e fui para New York.
Fugi de meus devaneios, olhei o relógio que marcava um imenso atraso para a droga do meu trabalho, abri o guarda-roupa e escolhi algo quente e confortável, NYC não é nada quente no outono. Escolhi minhas botas pretas sem salto, calça jeans preta, uma blusa de mangas compridas cinzas e um casaco grande, fofo e preto. Roupas simples, sem frescuras.
Coloquei as roupas sob a cama e peguei meu roupão, procurei pela minha nécessaire azul escura que por acaso encontrei toda revirada embaixo de uma calcinha de Clhoe. Aquela garota nojenta já estava me dando nos nervos, minha vontade era de jogar ela e suas coisas ali mesmo, do 17° andar.
Retirei aquela coisa nojenta de cima da minha bolsa e fui até o banheiro e lá encontrei algo que eu já podia esperava, mas não sabia que seria tão breve.
Clhoe estava caída perto da pia com uma seringa perto de seus pés cheia de sangue e alguns comprimidos amassados espalhados pela pia. Clhoe era viciada em maconha, cocaína, crack e álcool, mas eu não permitia que ela usasse em casa.
A ruiva estava ali morta, eu não podia mudar aquilo. Então apenas aceitei, não foi difícil, Clhoe não sabia nada sobre mim e eu não sabia nada sobre ela, apenas dividíamos o aluguel. Mas eu não estava com tempo para tentar achar alguma coisa ali, ligar para a policia, emergência ou qualquer merda parecida, ela já estava morta mesmo, que diferença faria?
Continuei meu ritual, calma e naturalmente. Tirei meu pijama de inverno de cetim preto, soltei meus longos cabelos negros podendo senti-los por minhas costas, abri a cortina do Box, entre e fechei novamente. Não queria ver a cara de Clhoe enquanto tomava banho.
A água estava em uma temperatura perfeita e fiquei por lá por aproximadamente quinze minutos, peguei meu roupão branco e sai do banheiro para me trocar. Mais tarde eu daria um jeito na garota.
Me troquei e garanti a pequena porção de auto estima que ainda me restava, maquiagem preta como sempre, com um pouco de lápis e rímel, um gloss e pronto. Estava pronta para me juntar ao grupo de gordos suados, mulheres de quarenta anos que achavam que tinham quinze anos, e caras que se achavam alguma merda.
Peguei minha bolsa nude e a coloquei em meu ombro, eu estava pronta para sair, então senti algo estranho, a bolsa estava com apenas uma das alças a outra parecia ter sido cortada.
–Ahhh merda! – Praguejei já no elevador.
Voltei até o 212, vulgo meu apartamento e procurei minhas outras bolsas, bem, na verdade a outra bolsa, eu só tinha duas, e a maldita bolsa parecia ter ido ao quinto dos infernos, pois eu não a encontrava de maneira alguma.
Avistei a brilhante bolsa amarelo-gema-de-ovo que a Clhoe geralmente usava, como eu estava atrasada abri a bolsa e virei às coisas que estavam lá dentro em cima da cama de sua falecida dona, virei minhas coisas na bolsa dela e sai.
Peguei o metrô próximo a All Street em direção ao trabalho, eu não estava me sentindo bem, estava com uma dor de cabeça insuportável. Eu compraria um café quando chegasse perto do grande prédio do jornal.
O caminho pareceu imenso e a dor aumentava cada vez mais, cheguei ao prédio do Happened in NYC, eu estava congelando ali, até ver um mercado na esquina. Aquela dor insuportável não parava, eu precisava de uma aspirina.
Entrei no mercado que mais parecia um bar de quinta, aquilo era ridículo, mas eu precisava, passei pelos corredores e não encontrei nenhum tipo de coisa que melhorasse a dor então vi a sessão de vinhos e eu sabia que se ficasse bêbada talvez ajudasse. Então peguei uma garrafa de vinho tinto e fui para o caixa
–Bom dia senhora! São 30 dólares – Falou o caixa, magro loiro de boné azul.
–Oh cale a boca, se eu peguei eu sei o preço – Falei jogando o dinheiro nele.
Peguei a garrafa de vinho e entrei no banheiro do mercado nojento, eu tinha uma chave extra na bolsa então peguei e tirei a rolha do vinho, eu bebi aquilo sem ao menos perceber, bebi a garrafa de vinho toda em alguns minutos, terminei e a joguei no chão, eu estava zonza, mas continuei andando, sim, eu iria trabalhar chapada.
Atravessei a rua, os táxis todos buzinando para que eu saísse da frente, eu não conseguia controlar minhas pernas, mas consegui chegar ao outro lado da rua, entrei no prédio do jornal e passei pela segurança, eles me conheciam, mas nunca haviam falado com nenhum deles, eu não precisava.
Peguei o elevador e subi em direção ao quinto andar, procurei parecer natural me sentei-me à mesa branca onde ficava meu computador e meus arquivos de reportagens antigas.
Senti uma mão pesada sob meu ombro e então me virei para olhar e lá estava meu patrão Sr. Grenon, um inútil alto, gordo, careca, com um bigode grisalho que sempre estava suado, e naquele dia seus suspensórios eram vermelhos e sua camisa azul clara.
–Senhorita Krons está demitida – Falou o gordinho.
–Não, querido acho que não estou – Falei revirando os olhos
–Samantha você está uma hora atrasada para o trabalho – O quê? Ele estava louco? O vinho não tinha demorado assim.
–Sabe por que não estou demitida? Por que você não tem nenhuma colunista policial melhor que eu, todas as suas “queridinhas” que se acham jornalistas não sabem escrever merda alguma direito, você só tem a mim Sr. Grenon e é melhor ficar bem quietinho para que eu possa fazer meu trabalho com algum tipo de humor, você sabe o que acontece quando estou de mau humor não é? Nada de dinheiro para você – Falei cínica enquanto o olhava arregalando os olhos, de pé com meu indicador em seu peito.
– Você tem sorte por ser boa no que faz Samantha, eu odeio você, e a propósito você vai fazer duas reportagens para essa semana, você trabalhará em uma reportagem sobre um possível serial Killer que está matando pessoas aqui e em Chicago e a outra reportagem é sobre uma babá que foi pega maltratando uma criança
–Okay darling eu faço a do maluco que não tem o que fazer – Falei pegando algumas folhas da mão de Darvin Grenon e selecionando os arquivos que relatavam as mortes e os endereços onde haviam acontecido
–Não Samantha você fará as duas – Disse ele me devolvendo a papelada da babá
–Darvin fala sério okay? Você faz esse lixo, eu sou colunista policial, não do conselho tutelar, se vira e dê isso pra alguma de suas “amiguinhas”, não tenho tempo para isso, e aliás farei isso em casa não estou me sentindo muito bem, estou meio enjoada e com dores de cabeça, deve ser nojo de você – Falei pegando os arquivos do Serial Killer e a bolsa amarela
–Andou bebendo não foi? – Perguntou ele segurando a bolsa
–Acho que nossa relação é apenas profissional, vá cuidar da sua vida seu enxerido – Falei pegando a bolsa amarela e saindo do escritório do jornal.
Peguei o elevador e voltei as ruas de New York, o ar daquelas ruas imundas de uma forma estranha me fazia sentir bem, o vinho havia ajudado, eu estava chapada e minha dor de cabeça era invisível naquele momento.
Caminhei sem saber para onde iria, o Grenon não era louco para fazer algo contra mim, fazia tempo que eu não bancava a “mendiga“ por NYC. Andei pelas avenidas até chegar na Empire States, eu estava faminta, meus ovos mexidos com gosto de isopor não haviam sido o suficiente. Eu precisava de algo melhor então entrei em uma lanchonete que parecia decente .
Sentei-me em um banco coloquei a grande bolsa sob a mesa e tirei os arquivos de lá, juntamente com meu netbook para que eu pudesse analisar e escrever algo. Pouco depois de ter me sentado e colocado minhas coisas em ordem, ao meu lado parou uma garçonete baixinha, com um vestido de inverno e um avental verde e azul.
– Olá senhora...
–Pode parar okay – Falei respirando fundo e a olhando – Quero vinho, panquecas, uma garrafa de champanhe, um sanduiche, waffles, duas doses de tequila e uma de uísque, e uma salada, tchau – Falei olhando para ela enquanto a mesma parecia assustada, mas eu não ligava, em minha opinião não deveriam existir garçonetes, elas são irritantes.
–Tudo bem senhora, só um minuto – Disse ela correndo como um pequeno elfo.
–Ande logo estou com fome e quero ficar chapada – Gritei
Enquanto estava na entediante espera, li algumas paginas dos arquivos, aquilo era muito bom e daria uma ótima matéria, a policia definiu que era um assassino só pois, em cada vítima era encontrada uma pétala de rosa vermelha e um número nela inserido com algum tipo de tinta preta no espaço que separava o fêmor, o tal Serial Killer era um maníaco que atacava a mulheres de 20 e 35 anos, era um completo louco, já haviam sido cometidos quinze assassinatos sete em Chicago e oito em New York .
–Aqui está senhora – Falou a baixinha loira colocando a comida e minhas bebidas sob a mesa.
–Deixe ai – Falei enquanto guardava os arquivos de novo na bolsa.
Devorei aquilo tudo, era impressionante minha capacidade de comer tanto, assim que terminei fiz algumas notas no computador enquanto bebia um pouco do que restou do champanhe, meu gosto por álcool estava ficando estranho, eu não podia me viciar naquilo, algo tão desprezível.
Eu estava sentada na última mesa da lanchonete, estava tranquila ali, escrevendo um pouco sobre o doidão, me senti cansada fechei a tela do computador e me reclinei sob o banco me deitando para cochilar por alguns minutos.
–Senhora, com licença – Eu podia ouvir a voz irritante da baixinha maldita, mais que droga eu estava ali por pouco tempo, já havia dado dinheiro o que mais ela queria? – A senhora dormiu, e... Me desculpe já vamos abrir para o Happy Hour, se eu puder ajudar em algo...
–Ta cale a boca garota – Falei me levantando, eu estava com a sensação de alguém estar pressionando minha cabeça sob o chão – Eu vou embora que horas são?
–É quase oito da noite senhora – Que droga Samantha você ficou bêbada e dormiu em um banco de lanchonete por seis horas sua imbecil- A senhora precisa de alguma coisa? – Disse a pequena elfo.
–Não garota mais que coisa, vou embora – Me levantei devagar para que eu não caísse, peguei o computador e coloquei novamente na bolsa e sai de lá.
Nova Iorque era um lugar cheio de gente egocêntrica, por isso talvez eu gostasse tanto de lá, se eu não mexesse com ninguém, ninguém mexeria comigo, parecia perfeito para mim.
Eu caminhava pelas ruas procurando entendê-las, procurando achar um lugar em que eu quisesse ir e eu estava com vontade de dançar, e eu não entendia o motivo, realmente eu estava locona.
Procurei por alguma boate, mas falhei na busca, entrei por um milhão de ruas, ouvia a música e não sabia para onde ir, eu estava ficando zonza novamente, estava em uma rua do subúrbio, no Brooklyn , e quanto mais eu andava mais ficava zonza então parei e inspirei um pouco de ar.
Aquilo me deixou enjoada então corri para um beco onde vomitei algumas vezes, estava ali abaixada esperando aquela sensação horrível passar e tentando respirar, mas aquilo me fazia tossir.
Quando consegui recuperar o fôlego continuei a andar, as ruas estavam vazias, era sexta à noite e todos estavam enfiados em algum lugar na All Street, e eu estava ali bêbada e procurando a rua do prédio em que ficava meu apartamento onde havia uma garota morta no banheiro.
As ruas estavam cada vez mais longas para mim, eu podia pegar um taxi mas teria que voltar para a Empire States, no Brooklyn quase não se tinha fluxo de taxistas devido a má fama do bairro.
Eu estava exausta então parei para respirar e me apoiei em um poste de luz olhei ao redor para ver se havia alguém ali, e pude ver uma sombra que parecia se esconder atrás de uma van desmanchada na outra rua.
–EI!! – Gritei – Você pode me ajudar cara?
A sombra pareceu maior e eu comecei a tremer, eu não queria estar com medo, mas estava, mas não liguei, precisava de ajuda, estava perdida em New York e não conseguia voltar para casa, pois estava bêbada.
Caminhei até a rua em que a sombra estava e então senti ser empurrada, por algo incrivelmente pesado, caí. Tentei me mexer, mas parecia impossível, então tudo ficou embaçado e escureceu.
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