Notas Suicidas
39 Anotação n°38
- Acorda, lindinha. Que Bela Adormecida mais linda...
Vários fatores me fariam acordar para sair daquela viatura, mas não foram os elogios, nem o cheiro insuportável do bafo de um dos policiais, e muito menos o fedor insuportável de urina que aquele maldito carro exalava. Quem me acordou foram os cassetetes.
- Olha quem acordou! Desce daí, rapaz.
As cenas foram muito rápidas para meu cérebro afetado pela adrenalina de horas antes. Lembro-me vagamente de puxões de cabelo, palavrões e chutes na canela. Tudo por parte dos caras que me prenderam. Se conseguisse eu revidaria, mas eu sou impotente no ramo da briga, e só pude dar-lhes minha sincera submissão, mesmo não tendo entendido nada daquela baderna.
Arrastaram-me para um lugar escuro e úmido, cheio de homens que me olhavam debochadamente, todos com cara de ter matado dez pessoas em uma mesma noite. Abriram a cela e me empurraram para o interior do modo que se faz com um cadáver em putrefação.
- Boa noite, lindinha– um dos policiais zombava enquanto trancava a cela.
Rastejei até as grades e puxei-o pelo uniforme.
- Espera um pouco. O que eu fiz? Me solta!
E ele riu, junto com os outros detentos, e afastou minha mão de seu braço. A única informação verdadeira que pude obter era que seu nome era Bill. Grande coisa.
- Ora, Bela Adormecida. Eu posso te chamar assim, não posso?
O desespero foi tomando conta de todo o meu cérebro novamente, e grudei na grade soando frio.
- Quem mata menininhas inocentes deve pagar pelo que fez, não acha, Bela? – Bill sorriu com sarcasmo, guardando a chave da cela no bolso.
- Eu não matei ninguém! Ninguém, tá legal?!
Todos riram.
- Ora, Bela! Está vendo esses companheiros do seu lado? Eles também não mataram ninguém. Agora cala a boca – e Bill pegou seu cassetete e afundou-o em meu estômago. E foi embora.
Pronto. Eu matei alguém e nem sabia. Isso é um infortúnio.
- Então, como você fez? – um homem três vezes mais forte que eu aproximou-se de mim com um sorriso interessado e intimidador.
- Fiz o quê? – perguntei.
- Matou essa Hayley não sei o quê. Já tá famosinho aqui, garotão. Era calibre 38? Eu tinha cinco dessas. São ótimas.
Eu quase desmaiei ao ouvir o nome da minha Hayley.
- Eu não matei ninguém! Eu nunca mataria a Hayley!
Um outro sentado junto à grade disse com uma voz vagarosa:
- LSD faz isso, garotão. A gente nem se lembra do próprio nome... – e riu.
Aquele ambiente me dava náuseas. Eu odiava tudo o que era ilícito, esses tipos de drogas, bebidas, fumo. E agora, além de descobrir que eu matei a Hayley, também soube que tomava LSD. Isso só poderia ser brincadeira.
- Eu não matei a Hayley... Não matei a Hayley.
E fiquei repetindo isso em sussurros, tentando convencer-me que aquilo não passaria de um pesadelo. E de repente me veio a luz. Aqueles olhares nada amistosos de Pierre e Jeff, aquele comportamento de Sebastien no hospital, o meu pai agindo estranhamente, o jeito com que a mãe de Frank me tratou e o modo com que o próprio começou a me evitar, tudo isso era porque todos achavam que eu matei Hayley Williams, estava claro.
Mas era ilógico. Talvez não fosse nada disso. Talvez tudo não passasse de coisas inventadas em minha mente, ou até poderia ser culpa de Iero, que persuadiu todo mundo a me acusar, sendo que ele matou Hayley e quis pôr a culpa em mim. Quem mais tem os olhos desbotados, como o próprio Sebastien disse? Quem mais usa gorro? Quem mais, além de Frank?
Por que eu mataria minha melhor amiga?
Por que não ele?
Isso me fez entrar em um profundo processo de demência crônica.
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