Not Over You
7 Capítulo 06 - Stop.
Notas iniciais
Desculpem a demora, por favor...eu vou explicar! Eu fiquei doente. E aí, comecei a tomar um remédio que me deixava com febre e eu não sei se acontece só comigo, mas quando eu fico com febre, perco a vontade de mexer até o dedo mindinho...e tomei esse remédio por SETE dias. Mas claro que, antes de começar a tomar o remédio, eu fiquei uns quatro dias sofrendo de dor porque odeio ir ao médico, piorei pra caramba...cheguei ao meu extremo. Acho que demorei por isso, por ter ficado tão ruim.
Enfim, assim que melhorei, corri para escrever. Fiz o meu melhor, juro pra vocês...então, espero mesmo que gostem!
Ah, e eu já comecei o outro capítulo, então posso garantir que semana que vem já tem mais.
Boa leitura e, mais uma vez, me desculpem pela demora!
Um mês.
Fazia exatamente um mês que eu estava em Londres, e quase três semanas que não via Gabriel.
Uma parte de mim estava aliviada por não vê-lo e outra parte estava magoada com isso, mesmo que essa fosse a parte escondida e reprimida. É difícil não ouvir a si mesma quando seu subconsciente grita quase o tempo todo em sua cabeça que você está morrendo de saudades de um certo alguém.
O bom de estar em Londres era ter o que fazer durante a semana. Acho que esse foi o maior motivo para o mês ter passado tão rápido. Quero dizer, eu acordava cedo para ir trabalhar, e quando eu chegava Claire já estava me esperando para irmos resolver algumas pequenas coisas do casamento, e então nós jantávamos, eu lia um pouco de um livro e ia dormir. E quando Claire não estava indo atrás de nada do casamento, eu simplesmente lia ou desenhava alguma coisa, mas sempre saía, infelizmente, o rosto de Gabriel nos meus desenhos. Essa pode sim parecer uma rotina pacata para qualquer um, mas para mim era uma benção.
Eu pensava em Gabriel quase o tempo todo quando estava em Montana, porque minha cabeça não se ocupava com nada. Eu não tinha um emprego, não ajudava meu pai e lia um livro inteiro em um único dia. Estava sempre com os pensamentos livres e vagos para pensar nele.
Não que eu não tenha pensado nele esse último mês, claro que pensei. Pensei tanto que era até doloroso, como sempre. Mas eu tive momentos em que minha cabeça se ocupava com uma coisa ou outra, e isso era bom.
— Isso é realmente gostoso — falei empolgada, com a boca cheia de bolo de chocolate com recheio de chocolate. — Não entendo por que bolos de casamento não podem ser de chocolate.
Claire e eu estávamos em uma confeitaria. Ela ia mandar fazer o bolo e os doces ali, e queria que eu fosse junto para experimentar as coisas e dizer o que acho e qual seria a melhor escolha, porque segundo ela, qualquer coisa que a faça ganhar um quilo que for antes do casamento era dispensável.
— Tem que ser branco, Emma — Claire falou. — Para combinar com toda a decoração e, é claro, com a noiva.
— Então coloca chantili por cima do bolo e está tudo resolvido — levantei os olhos e sorri como uma criança.
Bolos me deixavam assim. Bolos de chocolate eram realmente bons.
Claire virou o rosto em minha direção, me olhando como se fosse minha mãe e eu fosse uma criança birrenta que está enchendo seu saco no dia em que ela está com uma dor de cabeça horrível, e disse, com os dentes trincados, voz controlada e baixa:
— Bolo de chocolate não, Emma.
E voltou a olhar os doces que estavam expostos em uma "vitrine", digamos assim.
Sorri e me levantei da cadeira. Peguei com a mão o resto do pedaço de bolo que havia sobrado no prato, andei até onde Claire estava, e coloquei a mão livre em seu ombro, fazendo-a se virar para me olhar.
— Aposto que você também vai amar — falei sorrindo marota e, mesmo que aquilo fosse um tremendo desperdício, coloquei o bolo em sua boca, ou pelo menos tentei, já que mais da metade do pedaço ficou em volta de sua boca e caiu em sua blusa.
— Você não fez isso — ela falou com a boca cheia de bolo.
Soltei uma gargalhada. Claire ficava engraçada daquele jeito, com a boca toda cheia de bolo, parecendo uma criança que acabara de comer.
— Eu fiz — sorri.
Um sorriso contido nasceu nos lábios de Claire, aquele típico sorriso que diz "você é mesmo uma vadia, mas seu dia chegará". Então a vi pegar um bolinho com cobertura de chocolate e morango, e como quem não quer nada, o virou em minha direção e passou por meu pescoço, subindo até meu rosto e o forçando ao chegar no meu nariz, deixando-o preso ali.
— Aposto que você adorou esse também — disse com um sorriso provocativo.
Tirei o bolinho do nariz e sorri verdadeiramente, adorando aquilo. Fui até a mesa em que estava sentada, onde havia outros milhares de pedaços de bolo, e peguei um de massa branca, coberto por chantili.
— É desse que você gosta? — Perguntei, andando até ela e passando-o por todo o seu rosto.
— Você pediu por isso — ela falou rindo, então correu até a mesa, deixou a bolsa em cima da cadeira e rapidamente pegou um pedaço de bolo com recheio de morango, atirando-o em meu colo.
Aquilo era uma guerra, definitivamente.
(...)
— Eu realmente acho que nós nunca mais vamos poder entrar lá — Claire disse rindo, enquanto andávamos, ambas cobertas por bolo de chocolate, para a porta de entrada de sua casa.
— Bem, você ouviu "e não voltem nunca mais" — falei rindo, imitando a voz da dona da confeitaria.
Pode-se dizer que Claire e eu exageramos um pouco na guerra de doces e que a dona da confeitaria nos deixou tempo demais sozinhas, o que foi um erro. Isso resultou na nossa expulsão do lugar e mil reais de prejuízo ao nosso bolso.
Bem, pelo menos nos divertimos.
Passava das sete da noite quando a dona da confeitaria nos expulsou, e então nós percebemos que realmente se passou bastante tempo naquela nossa guerra.
Para qualquer um que tivesse presenciado, aquela era uma guerra entre duas mulheres que esqueceram de crescer e não tem nada melhor pra fazer da vida além de estragar coisas que os outros demoraram a fazer e fizeram com tanto carinho. Bem, dentro de mim foi muito mais que isso. Eu me diverti com Claire outra vez. Eu estava me divertindo com ela nessas últimas semanas, eu estava aproveitando minha melhor amiga de novo. E eu havia me esquecido o quão bom era sentir vida e alegria dentro de mim.
Havia me esquecido porque abandonei as pessoas que me faziam sentir tais coisas.
E por mais que fosse contra minhas regras de sobrevivência admitir, Gabriel fazia parte dessas pessoas. Ele era uma grande parte da minha alegria, da minha vida.
E eu odiava isso.
Mas também amava.
Amava tê-lo em minha vida, mas odiava a forma de como eu o tinha.
— Deveria perguntar? — Matthew falou, chamando minha atenção.
Ergui os olhos e vi ele e Gabriel parados um ao lado do outro pouco mais a nossa frente. Ambos estavam limpos, diferente de Claire e eu. Eles carregavam sorrisos divertidos nos lábios, descendo e subindo os olhos por minha amiga e eu como se fôssemos a atração especial da noite.
— Nós tivemos uma pequena guerra de doces — Claire falou e então sorriu.
Matthew, eu reparei, olhava para Claire de um jeito tão diferente, tão pervertido, com um olhar tão carregado de desejo. Eu juro que fiquei assustada. Ele voltou a descer os olhos por ela, e então mordeu os lábios quando seus olhos pararam, ao que me pareceu, no pescoço dela.
— Não quer ir tirar isso de você, amor? — Ele falou de um jeito pervertido, como se só tivessem eles dois no local, dando a entender perfeitamente bem o jeito como ele queria tirar aquilo dela.
— Claro, amor — ela falou piscando algumas vezes, depois de demorar uns dez segundos para processar a pergunta.
Claire andou até ele e depositou-lhe um beijo nos lábios, o que só o fez ficar com uma expressão ainda mais animada. Matthew segurou Claire pelas mãos e a puxou escada a cima, fazendo-a dar risinhos durante o percurso.
Aquilo foi tão embaraçoso.
Olhei para frente e tomei um susto ao encontrar Gabriel no caminho. Com o show de "eu estou excitado" dos meus dois melhores amigos, eu havia até me esquecido de que ele também estava lá. E garanto que ele ficaria tão embaraçado quando eu, ainda mais sendo Claire sua irmã, se ele tivesse prestado atenção no show...mas ele parecia ocupado demais me olhando de cima em baixo, do mesmo jeito que Matthew fez com minha amiga...com um desejo quase incontrolável.
— Melhor ir...tomar banho — falei com um sorriso sem graça.
Gabriel não disse nada, apenas continuou me olhando, com seus lábios pressionados um no outro com força. E nossa, ele estava realmente lindo naquela noite. Estava usando uma camiseta verde que realçava seus olhos e destacava os músculos de seus braços. Uma calça jeans azul escura e os pés descalços. Por que ele sempre estava descalço perto de mim? Dava a horrível impressão de que era um obstáculo a menos caso ele me levasse pra cama. Mesmo eu sabendo que era porque aquela era a casa da irmã dele e ele se sentia confortável ali. Mas não podia impedir minha mente de ter esse tipo de pensamento. Seus cabelos estavam bagunçados violentamente e ele estava com uma cara de quem havia acordado há pouco tempo.
Virei-me em direção a escada e quando estava quase colocando meu pé no primeiro degrau, senti a mão quente e grande de Gabriel agarrar meu braço com força, virando meu corpo inteiro numa volta de 360°, me encostando com força no corrimão da escada. Arqueei as costas e soltei um gemido de dor.
— Você tem que parar de fazer isso — falei brava, me referindo às vezes em que ele me puxava de surpresa e me prensava em algum lugar.
Gabriel estava tão perto, e eu estava tão cansada. Sua proximidade me deixava tão fraca, enfraquecia meus músculos, tornava minha respiração falha e quase parava meu coração. Por que ele tinha que fazer aquilo? Por que me provocar daquele jeito? Eu tinha minhas sérias suspeitas de que ele gostava de me ver enterrada de amor por ele. Como se isso fosse divertido. Para ele, talvez fosse. Para mim, nunca foi.
— Eu te quero, Emma — Gabriel disse lentamente, com a voz rouca e baixa, em um sussurro provocativo em meu ouvido, seguido por uma mordida no lóbulo da minha orelha.
Suas mãos estavam apertando minha cintura com firmeza, deixando claro suas intenções de não me deixar escapar. Sua perna esquerda ficou entre minhas pernas, nossas cinturas quase coladas se não fosse pela diferença de altura. Ele forçou meu corpo para cima, obrigando-me a ficar na ponta dos pés. Minhas mãos estavam em seus ombros, mas não como um estímulo. Queria que ele se mantivesse longe. Pelo menos longe o bastante para que fosse impossível que sua boca chegasse à minha.
Ele então pausou os olhos em meu pescoço, e aos poucos, o sorriso pervertido que estava em seus lábios pouco tempo atrás voltou a nascer. Rapidamente, sem que eu tivesse tempo para sequer imaginar o que estava se passando por sua mente, Gabriel abaixou a cabeça, até chegar em meu pescoço. Tentei fazer força com os braços para frente, para que ele se afastasse, mas o mesmo não se mexeu nem um centímetro. Minha força perto da sua era completamente inútil. Senti a ponta de sua língua passar por meu pescoço delicadamente, fazendo meu corpo todo estremecer. Minhas pernas cederam e se Gabriel não estivesse me segurando com tanta firmeza, eu teria caído. Tinha certeza absoluta de que o lugar por onde sua língua estava passeando tinha um rastro enorme de chocolate.
Senti seus dentes em meu pescoço e então uma mordida dolorida e demorada. Apertei seus braços com força, fincando minhas unhas na manga de sua camiseta, querendo que fosse na pele, para que ele sentisse dor. Aos poucos, seus dentes se afastaram da minha pele. Senti o lugar onde fui mordida latejar. Nem cinco segundos depois, sua língua estava de novo por ali, e logo depois, o local onde ele me mordeu foi enchido de beijos, um atrás do outro. Molhados, lentos, carinhosos.
E então uma coisa parecida com mordida, mas sem dentes, e um tanto quando prazerosa. Senti suas mãos saírem da minha cintura e irem livre e espontaneamente ao meu quadril, descendo as poucos e apertando meu bumbum com força, estimulando-me a passar as pernas em volta de sua cintura. Mas não o fiz.
Respirei fundo, tentando me controlar. Mordi meu lábio inferior com força, e fechei os olhos por poucos segundos, tentando lembrar a mim mesma que precisava me conter, ser mais forte que a tentação, que o desejo que estava crescendo cada vez mais em mim.
Gabriel era cafajeste. Sabia o quanto eu estava resistindo, ele me conhecia. E também sabia que sempre conseguia o que queria quando me provocava daquele jeito.
A campainha tocou.
A respiração que eu nem havia notado ter prendido se soltou de uma vez, em alivio.
Salva pelo gongo.
Gabriel tirou sua boca de mim lentamente, parando de chupar o chocolate que eu tinha certeza que não estava mais lá. Senti bem o suficiente para saber que ele estava se divertindo chupando minha pele. Então deu um leve selinho ali e afastou seu rosto, me olhando nos olhos, um sorriso brincando nos lábios. O verde dos seus olhos parecia mais intenso, mais carregado.
Sua mão esquerda voltou para minha cintura e sua mão direita subiu pela lateral do meu corpo, até chegar ao meu pescoço, no local onde sua boca e seus dentes haviam me machucado, me marcado. Acariciou o lugar com o dedão.
— Mostre aos seus amigos quando eles vierem te buscar outras vezes — falou sorrindo e então me soltou, se virando e indo atender a porta. — É a pizza!
Estava explicado.
Gabriel queria me marcar, como se eu fosse sua propriedade. Como se eu fosse sua e todo mundo devesse saber.
Subi as escadas bastante revoltada com Gabriel e sua forma ridícula de jogar com as pessoas, comigo. Ele sempre fazia isso. Eu tenho certeza absoluta de que ele me enxergou tremendo de desejo durante seu jogo de sedução de minutos atrás. Ele deve ter se divertido obtendo aquela reação.
Fui direto para o banheiro, e me tranquei lá, me livrando das roupas em poucos segundos e me enfiando debaixo do chuveiro. A água quente escorria por meu corpo enquanto eu me lembrava das mãos e boca de Gabriel em mim, me provocando. Odiava isso de sempre lembrar das coisas "boas" quando deveria estar pensando em algum jeito de assassinar Gabriel sem ir parar na cadeia.
Assim que consegui me livrar de todo o doce que estava no meu corpo e cabelo, saí do chuveiro e me sequei bem, para que não pingasse água no chão. Fui para o quarto enrolada em uma toalha e em passos apressados.
Por um milagre, Gabriel não estava lá.
Troquei-me depressa, vestindo um blusão cinza velho que era quente o bastante para se usar depois de sair de debaixo do chuveiro em Londres, e uma daquelas calças de ginástica. Calcei as pantufas que Claire me deu antes de sair do quarto.
Entrei na cozinha e vi Gabriel sentado à mesa, olhando incessantemente para a pizza que estava em cima da mesa. Claire estava pegando taças no armário e Matthew estava concentrado em abrir uma garrafa de vinho.
Pizza com vinho tinto. Meus amigos eram bem normais.
— Pensei que comeríamos na sala — falei para Claire, me sentando ao lado de Gabriel.
— Vamos ficar por aqui — Matthew falou, conseguindo, finalmente, abrir a garrafa de vinho. Ele e Claire deram a volta no balcão e colocaram as taças e a garrafa em cima da mesa, depois se sentaram um ao lado do outro.
— De quem é o primeiro pedaço? — Claire perguntou.
— Meu! Por Deus, estou morrendo de fome — Gabriel falou, saindo do transe ao qual se encontrava encarando a pizza e erguendo o prato a sua frente. — Mas vou ter que rejeitar o vinho, minha cabeça está doendo bastante.
Ele entregou o prato para Claire e se levantou, indo até a geladeira e tirando de lá uma Coca-Cola em garrafa de vidro que parecia cair — e com certeza caía — muito melhor com uma pizza de quatro queijos. Então pegou dois copos de vidro no armário e voltou até a mesa, se sentando em seu lugar.
Claire colocou pizza para mim logo depois de Gabriel, e então para Matthew e depois pegou seu pedaço. Ainda ficaram quatro. Claro que nenhum de nós comeria só um. Gabriel colocou Coca-Cola em um copo e o colocou em minha frente, depois colocou no outro e deu um gole, colocando-o em sua frente. Ele pareceu nem ter percebido que tinha colocado pra mim.
Claire ficou olhando-o interrogativamente, assim como eu. Matthew encarava sua taça de vinho com um sorrisinho minúsculo nos lábios.
— Por que colocou Coca para a Emma, Gabriel? — Claire perguntou. — Ela não está com dor de cabeça.
— Ela não gosta de vinho com pizza — ele respondeu, levando um pedaço de pizza até a boca logo depois. — Aliás, só vocês dois gostam — falou assim que terminou de mastigar.
Algo dentro de mim se aqueceu quando percebi que ele ainda se lembrava dos meus gostos. Aliás, quando percebi que ele sabia dos meus gostos. Digo, ele nunca mostrou...assim, abertamente.
Comemos enquanto conversávamos sobre coisas banais e claro, Claire contou à Gabriel sobre a ideia que ela e Matthew tiveram de irem para um chalé em algum lugar com nós dois e mais Ethan. Gabriel adorou a ideia.
Quando já estávamos no final do segundo pedaço, a campainha tocou, atrapalhando a história que Claire estava contando sobre a vez em que nós duas fomos presas por tentar roubar um cachorro.
— Continua contando a história pra eles, eu vou atender a porta — falei, já me levantando.
Andei em passos apressados até a porta, e logo que cheguei até a mesma. A abri rapidamente, encontrando um corpo alto, magro e feminino do outro lado. Fiquei meio estática diante da beleza da mulher, de sua classe e da forma como era tão mais alta que eu.
Era uma mulher loira e jovem, não mais que trinta anos, com olhos pretos feito jabuticaba. Suas pernas estavam a mostra do joelho pra baixo graças à sua saia social preta, colada nas coxas. Sua camisa social branca estava aberta alguns botões e seu casaco verde musgo estava fechado. Usava salto alto e carregava uma pasta entre seus braços, que estavam cruzados abaixo de seu peito. Uma maquiagem bem feita no rosto, com um batom vermelho como sangue nos lábios carnudos.
Quem era ela?
— Posso ajudar? — Perguntei.
A mulher me olhou de cima em baixo, analisando cada parte do meu pequeno corpo. Claro, eu estava parecendo uma mendiga se levar em conta a forma com a qual ela estava vestida.
— Gabriel está? — Perguntou, olhando-me nos olhos depois de me analisar, com uma expressão de indiferença.
— Estou aqui, Hillary — ouvi a voz de Gabriel pouco atrás de mim.
Virei meu corpo lentamente, vendo Gabriel dar passos em nossa direção e parar ao meu lado logo depois, olhando para Hillary como se eu não estivesse ali.
— Não disse para não me importunar hoje? Eu queria tirar o dia para descansar, apenas. Não faço isso há quase três semanas! — Gabriel falou de forma dura, repreendendo-a.
Hillary alterou seu olhar de Gabriel para mim, então voltou-o para ele, como quem diria que não iria falar uma palavra enquanto eu continuasse ali.
— Vou voltar pra pizza — falei dando um sorriso fraco, e então me virei de costas para eles e saí dali lentamente.
Quem era Hillary? Essa pergunta não saía da minha cabeça. Por mais que eu tentasse tira-la, continuava ali. O que ela tinha com Gabriel? Eu tinha o direito de fazer essas perguntas a mim mesma? Acho que não. E eu estava meio magoada. A forma como ela perguntou dele, como me olhou...era como se eles fossem íntimos.
E se eles tivessem alguma coisa?
Não podia evitar pensar que talvez Gabriel tivesse arrumado outra para colocar no meu lugar, alguém que faria tudo quando ele precisasse e não cometeria a besteira de se apaixonar, como eu fiz. Isso doía. Só de pensar eu já me sentia trocada. Mas diante dos meus pensamentos, apareceu a pergunta...por que ele me tentava? Por que me perguntava por que fui embora? A resposta veio mais rápido do que eu imaginei. Gabriel era assim, ele sempre seria. O único problema é que eu havia me esquecido disso.
Quando Gabriel está tão perto é meio difícil de raciocinar, era complicado me lembrar os motivos de ter ido embora e de sentir raiva dele e de mim. Mas quando ele está longe, torna-se mais evidente. Quando eu parava para pensar, tornava-se quase absurdo que às vezes eu me esquecesse.
Gabriel não era de uma só, ele não se contentava com uma boca, um corpo, uma mulher, uma cor de cabelo, apenas um par de olhos. Ele queria mais que isso. E ele não me amava. Sabia sim que ele me desejava, mas desejo é completamente diferente. Ele me desejava como mulher em sua cama, e fora dela, eu era sua posse. Querendo ou não querendo.
E eu o odiava por isso.
Perdi completamente a vontade de terminar aquele pedaço de pizza e aquele copo de Coca-Cola, então fui direto para as escadas e subi para o quarto. Fechei a porta com cuidado e deitei na cama, me enfiando debaixo dos cobertores, apertando-os fortemente em minhas mãos e encolhendo as pernas.
Gabriel. Seu nome, seus lábios, seu toque, suas palavras, sua intensidade, suas brincadeiras, seu jeito meio arrogante e a forma como odiava estar errado. Seu sorriso pervertido e seu sorriso inocente. Suas piadas sujas e suas piadas sem graça. A forma como ele me puxava para um canto quando ninguém estava olhando e dizia com a boca colada na minha o quanto estava louco para me beijar e me levar pra sua casa. Seus cabelos bagunçados pela manhã e a forma como o verde dos seus olhos ficava quase azul quando ele saía do banho. O vício irritante em fumar cigarros quando está estressado e depois fazer um bico sexy e provocante para soltar a fumaça. Suas gargalhadas...o som delas, meu Deus, como eu amava o som delas. O sorriso irônico. A voz grossa e rouca que causava-me arrepios.
Uma lágrima escorreu do meu olho quando notei o quanto eu sentia saudade, o quanto sua falta era sentida. Doía mais do que ir embora. Essa sensação de ser esquecida...de ser esquecida por ele. Era horrível sentir saudades. E foi então que eu percebi. Não havia problema sentir saudade, porque eu sentia saudade das coisas boas que nós tivemos, embora elas tenham acontecido entre as coisas ruins. Eu sentia saudade de seu calor, seus beijos, seu abraço, seu jeito. O ruim de sentir saudade, é querer de volta.
E sentir saudade de algo que não vem sem dor é horrível.
Fechei os olhos e fiquei parada. Apenas fiquei ali, deitada sem fazer movimentos por um tempo indeterminado, mas parecia não fazer diferença. Eu queria tanto dormir.
Ouvi a maçaneta da porta e tranquei a respiração.
— Emma? — Era a voz de Gabriel em um sussurro lento.
Não respondi. Queria que ele pensasse que estava dormindo, virasse as costas e fosse embora.
O barulho dos passos de seus pés descalços encheram o quarto e meus ouvidos. Conseguia sentir sua respiração perto de mim agora, chocando-se com a minha, que tentei normalizar. Sua mão grande e pesada tocou meu rosto de um jeito leve, quase como uma pena. Sempre me perguntei como ele consegui me tocar do jeito que tocava com mãos como aquelas. Seu dedão afagou minha bochecha delicadamente.
— Senti sua falta — disse.
Sua respiração ficou mais e mais próxima, meu coração mais e mais acelerado. Seus lábios úmidos, quentes e macios, para a minha surpresa, tocaram os meus. Foi um encostar de lábios calmo, curto e eletrizante.
O sangue subiu em minhas veias quando ele afastou sua boca da minha. Ele estava com outra há, eu acreditava, menos de uma hora.
Abri os olhos rapidamente, surpreendendo a mim mesma ao me levantar quase empurrando Gabriel para o chão.
— O que você pensa que está fazendo? — Falei alto, mas sem verdadeiramente gritar. Andei até a porta, me certificando de que poderia fugir e então voltei a me virar para ele. — Perdeu a cabeça? — Ele já estava de pé, me olhando de maneira indecifrável. — Não me provoque, Gabriel, eu não te quero mais perto de mim desse jeito. Não entre no meu quarto sempre que tiver vontade e não me faça perguntas das quais você não merece saber a resposta. Chega de joguinhos comigo, porque se você não percebeu, eles não funcionam mais — soltei a respiração de uma vez só e ele me olhava de olhos meio arregalados.
— É isso mesmo? Tem certeza? — Perguntou tentando soar friamente.
— Absoluta! — Dei uma pausa para observar sua reação e a forma como seu olhar pareceu perdido diante do meu. — Agora, se não fosse incomodar, poderia se retirar? Eu tive um dia e tanto e quero muito dormir. — Abri a porta. — Obrigada.
Gabriel passou por mim como um raio, mas não tirou os olhos dos meus até estar fora do quarto, de costas pra mim. Bati a porta assim que ele saiu e a tranquei. Respirei fundo, muito fundo. Passei a língua pelo lábio inferior, sentindo seu sabor.
Talvez agora ele me deixasse em paz.
Notas finais
Aliás, um grande "bem-vindas" para todas as novas leitoras!
Beijos de nutella :3
Fale com o autor