Not Over You
25 Capítulo 24 - It's not goodbye
Notas iniciais
Duas semanas se passaram voando. Ou nem tanto assim.
Chegar todas as noites do restaurante e não ter Gabriel me esperando no sofá com um balde de pipoca de bacon no colo porque “a chave de emergência foi feita para ser usada” era realmente um saco. E doloroso. Eu havia começado a fazer coisas diferentes para não passar mais tanto tempo no apartamento fazendo absolutamente nada e lembrando de Gabriel me abraçando no sofá, na cama, no chuveiro. Em todo lugar. Gabriel estava em todo lugar.
O pior de tudo era que eu não conseguia sentir raiva dele. Eu sentia falta. Mesmo com duas semanas, eu já sentia saudade de sua voz, seus olhos verdes e sua gargalhada. Céus, eu sentia saudade de tudo nele, até na forma petulante quando estava certo e me olhava com a sobrancelha arqueada, como se me desafiasse a discordar dele ele outra vez.
Livrarias e cafeterias viraram meus principais pontos. E eu também passava bastante tempo com Claire, já que Matt estava trabalhando em dobro naquela época, para não deixar serviço acumular até a metade de janeiro – eles pegariam férias para passar o natal na casa da avó de Matthew, junto com a família de Claire. Eles dois insistiram para que eu fosse, mas eu disse que passaria o natal com meu pai e de lá iria direto para New York. Mas ir para Montana não estava nos meus planos.
Pois é, New York, eu havia aceitado o emprego.
Na verdade, fora basicamente Claire quem me empurrara para ele. Eu havia até me esquecido sobre a proposta de James conforme as semanas se passaram. Mas, logo após meu término com Gabriel, como um empurrão de volta à realidade, Claire perguntou o que eu faria dali em diante. Bem, tecnicamente, terminar um relacionamento não era a morte… mas minha melhor amiga me olhava e sentia como se fosse. E então ela me lembrou sobre a proposta que James fizera.
Não era como se eu não tivesse pensado no assunto, mas se eu parasse para pensar, Gabriel era o que me prendia em Londres – não Claire, até porque ela tinha uma vida, estava casada e construindo uma família e eu não conseguia não me sentir deslocada no meio disso tudo. Era óbvio que minha melhor amiga não me enxergava assim, e eu sabia que ela realmente me considerava uma irmã; o ponto era o sentimento dentro de mim que não me deixava agir como se eu não fosse um empecilho. E, além do mais, eu precisava aprender a me virar sozinha.
New York era um lugar para oportunidades, Claire dissera confiante, enquanto me encorajava.
Eu fui quatro dias antes do combinado até James. Ele não pareceu tão surpreso quando me viu – acho que ele até já esperava, se eu confiasse na hipótese de que Ethan o mantinha informado sobre os detalhes das vidas de seus amigos –, mas ficou quando, após dizer que cuidaria de arrumar um apartamento numa boa localidade para eu ficar, eu disse que tinha “preferências”. Longe de mim ser petulante, mas eram coisas, de certa forma, importantes.
Primeiro, eu queria ir em, pelo menos, duas semanas. Ele pareceu confuso com a minha decisão, mas eu não poderia simplesmente dizer-lhe que era porque não queria passar o natal em Londres e tampouco em Montana, e apenas balancei a cabeça, num pedido silencioso para que ele não me questionasse. Ele não fez perguntas e disse que isso era possível, recebendo um suspiro aliviado em resposta. E então eu pedi outra coisa: uma colega de quarto. Eu estava descobrindo que ficar sozinha era realmente um saco, porque apesar de Claire ter estado quase cem por cento livre nessas últimas duas semanas, haviam momentos em que ela estava ocupada ou que eu apenas me sentia muito mal por ligar e pedir para sairmos. E, se em Londres, onde eu conhecia pessoas, era ruim ficar sozinha por um dia ou outro, eu não queria nem imaginar como seria em New York. Também sairia muito mais barato. E, eu odiava admitir, mas me acostumar com a cidade talvez fosse um pouco complicado. Isso eu expliquei para James, de forma rápida e resumida; ele apenas riu e disse que faria o possível.
Ele conseguiu isso para mim. E eu partiria naquela noite.
Quanto a Gabriel… bem, nós literalmente não nos víamos desde nossa briga em seu apartamento. Eu não via seu carro no estacionamento do prédio, não trombei com ele no elevador, não o vi saindo para trabalhar nem voltando do trabalho, não escutei sua voz no corredor… eu ao menos o encontrei em seu restaurante de comida árabe favorito – não que eu tivesse ido lá para procurá-lo, mas quando vi estava, em minha noite de folga, parada em frente ao lugar depois de uma longa caminhada pelo Hyde Park. Nem Claire nem Ethan, que estava constantemente falando comigo no trabalho, tocavam em seu nome – e eu não tinha coragem o suficiente para perguntar alguma coisa. Não haviam mensagens, nem ligações perdidas, nem batidinhas tímidas na porta com um singelo perdido de perdão escondido numa rosa negra de plástico borrifada com um perfume igual ao meu – como ele fizera por uma semana inteira quando eu estava na TPM e qualquer coisa que ele dizia me deixava louca de raiva.
Não havia nenhum sinal de que Gabriel sequer existia. E, embora eu ficasse preocupada com isso, eu sabia que não tinha nada que eu pudesse fazer… e que, apesar de tudo, ele tinha pessoas que não deixariam que nada acontecesse com ele.
Mas eu queria me despedir.
Havia prometido que o faria.
– Você promete que vai vir quando o bebê nascer? Ainda quero você como madrinha, Emma – Claire falou, as mãos deslizando por sua barriga com um pequeno volume, enquanto ela estava jogada em minha cama, meio deitada meio sentada.
Ri e revirei os olhos, pegando mais uma muda de regatas e colocando na mala.
– Mas é claro que sim – respondi. – Você só tem que me prometer que vai me mandar fotos da sua barriga, vídeos do ultrassom e fotos! E eu tenho que ser a segunda pessoa a saber o sexo do bebê.
Ela gargalhou e balançou a cabeça, escorregando a mão esquerda pela cama para alcançar uma barrinha de chocolate que estava dentro de uma sacola branca cheia de guloseimas que ela trouxera para ficar comendo. Eu tinha dito a Claire que era absurda a forma como ela já estava se entupindo de comida – mas a desculpa para qualquer coisa que lhe dissessem era “estou grávida”. “Claire, você esqueceu de pagar a conta de luz”, disse Matt na quinta-feira da semana anterior ao que entrou em sua casa depois do trabalho; “Estou grávida” foi a resposta que teve da esposa que estava preparando um bolo de sorvete enquanto falava sobre pipoca caramelada com bacon pra mim. Eca.
– Eu prometo – disse, ficando quieta por alguns segundos para mastigar o pedaço de chocolate que colocara na boca.
Parei de colocar roupas na mala, prendendo minha atenção em Claire, que lia a embalagem do chocolate para se certificar de que não faria muito mal e que não a deixaria mais gorda do que a gravidez já faria – não pude evitar de sorrir. Meus olhos estavam cheios de lágrimas quando percebi, e imaginar deixar minha melhor amiga grávida para ir para tão longe me quebrava. Eu estava abandonando-a de novo. Eu sabia que Claire não estava chateada com o fato de eu estar indo embora, até mesmo porque fora ela quem disse que talvez o emprego em New York fosse uma ótima oportunidade, mas eu sabia, de algum modo, que nós duas estávamos nos afastando a partir dali e que ela sentia isso tanto quanto eu. Eu talvez tivesse demorado um pouco para perceber, já que precisei vê-la se casando e grávida e ver meu relacionamento se acabando para cair na real, mas doía perceber que nossa amizade já não era como antes – embora alguma coisa me dissesse que estava mais forte. Era uma felicidade que doía. Estava feliz em vê-la tão realizada, formando uma família e tendo tudo aquilo que ela sempre sonhou… no entanto, como consequência, isso me colocava um pouco para trás. Claire e Matt namoravam desde adolescentes, mas sempre arrumavam um jeito de me colocar entre eles, de me fazerem sentir parte de uma coisa só nossa… dessa vez, isso não era possível.
Mas nossa amizade ainda nos unia. E continuaria assim por muito tempo, principalmente por causa de seu bebê.
– Você sabe que se você chorar, eu choro junto, certo? – Ela perguntou, acordando-me do transe e fazendo-me perceber que ela me olhava com os olhos também cheios de lágrimas. – Não é como se você já não tivesse me abandonado antes – falou em tom de brincadeira, embora eu soubesse que aqueles três anos fugindo ainda a machucavam um pouquinho.
Ri e pisquei várias vezes para espantar as lágrimas, voltando a olhar para baixo e a colocar as roupas dentro da mala.
– Bem – comecei –, saiba que me despedir dói muito mais.
– Parece definitivo – ela falou e soltou um suspiro. – Mas não é, é bom que você saiba disso.
– Eu sei que não.
Fiquei em silêncio por mais alguns segundos, apenas curtindo a presença da minha melhor amiga, enquanto a ouvia cantarolar com sua voz levemente rouca e melodiosa We Are Young.
– Claire? – Chamei depois de alguns segundos debatendo comigo mesma se deveria falar ou não.
– Sim?
– Eu quero falar com Gabriel hoje, antes de ir embora – falei num sussurro, ouvindo minha amiga soltar um suspiro alto, parecendo surpresa. – Eu prometi que olharia em seus olhos se decidisse ir embora de novo... e, de qualquer forma, eu quero me despedir.
Levantei o olhar e a vi me encarando intensamente, balançando a cabeça para cima e para baixo, como se entendesse o que eu estava querendo dizer.
– Mas eu não sei se ele está no apartamento, porque… – suspirei. – Bem, eu não tenho o visto desde que terminamos e… você sabe.
Ela balançou a cabeça.
– Gabriel está passando uns dias na casa dos meus pais – disse, fazendo-me petrificar. – Ele falou que era melhor pra vocês dois, sabe, ficarem sem se ver um tempo… e ele está, hum, chateado – completou, parecendo escolher cuidadosamente cada uma das palavras que sairiam de sua boca antes de proferi-las.
Arqueei uma das sobrancelhas, levemente confusa.
– Ele sabe que vou para New York? – Perguntei desconfiada.
Recebi como resposta Claire balançando a cabeça de um lado para o outro, mordendo o lábio inferior com certa insegurança, e então baixou os olhos para as próprias mãos pousadas em cima de suas pernas.
– Sabe… meio por cima – falou vagamente. – Eu acho que ele me ouviu conversando com a minha mãe, porque quando subi para falar sobre a sua decisão... ele se recusou a ouvir.
Não disse nada, apenas balancei a cabeça e continuei colocando as poucas peças de roupa que ainda estavam fora da mala dentro dela. E, quando acabei, peguei a toalha que havia deixado separada, a única coisa que, junto com uma muda de roupa de frio e uma bota de couro, ainda não estava guardada em algum lugar para ir embora comigo; e fui para o banheiro sem dizer uma palavra a Claire.
Me despi lentamente e entrei no chuveiro, colocando meu corpo debaixo da água quente e assistindo enquanto os pelos dos meus braços se arrepiavam.
E, como sempre, pensei em Gabriel.
Mas, pior ainda, pensei que estava me preparando para me despedir dele.
…
Minhas mãos estavam tremendo quando Matt parou o carro em frente a casa dos Harrison. Em um segundo, o pensamento de pedir para ele dar meia volta e cantar pneu para longe daquele lugar se fez presente em minha mente. Mas eu afastei aquilo da minha cabeça e respirei fundo, eu precisava fazer isso. Havia prometido não só a Gabriel, mas a mim mesma.
Sem ninguém dizer uma palavra, descemos do carro e nos dirigimos até a porta da casa enorme a nossa frente. Claire e Matthew estavam de mãos dadas, andando alguns passos a frente, como se soubessem que olhar minha expressão naquele momento não ajudaria. E eu estava esfregando minhas mãos uma na outra nervosamente, suor se aglomerando em minhas têmporas. Eu não deveria ficar tão nervosa assim com uma simples despedida… seria breve, eu tentaria ser firme… e doeria.
Suspirei quando Claire abriu a porta e entrou na casa, seguida por mim e logo depois Matt.
Não era uma simples despedida.
A primeira pessoa que vi, para a minha surpresa, foi Ethan. Ele estava descendo as escadas de mármore, usava um short folgado e uma regata e estava com os pés descalços. Totalmente casual. Arqueei as sobrancelhas quando ele me olhou, perguntando silenciosamente o que ele fazia ali numa sexta a noite, mas ele apenas riu e bagunçou os cabelos com a mão, continuando a descer as escadas.
– Sabe como é – disse ao que se aproximou, colocando a mão na base das minhas costas e me pedindo para ficar parada apenas com um olhar enquanto o casal se afastava para cozinha, após cumprimentá-lo. – Apoio moral e tudo mais.
Balancei a cabeça e dei um sorriso de canto.
– Como ele está? – Perguntei num sussurro.
Gabriel não havia acreditado em mim, e ele havia realmente me machucado com suas palavras e falta de confiança, no entanto, eu não consegui não me preocupar com ele. Era mais forte do que qualquer mágoa – e eu não tinha certeza de que houvesse alguma mágoa por ele dentro de mim, era como estar em um lugar calmo e límpido; machucada, mas, dessa vez, sem dúvidas.
– Bem – Ethan pressionou os lábios, pensando por alguns segundos –, melhor do que da última vez, isso eu tenho certeza… Ele não está destruído, sabe? Só parece decepcionado consigo mesmo.
Balancei a cabeça.
Eu sabia que ele estava, pude ver em seus olhos como ele parecia chateado consigo por não conseguir acreditar em mim.
– Eu deveria subir – disse, levantando uma das mãos para olhar a hora no relógio de prata em meu pulso –, meu voo sai daqui duas horas, não posso demorar.
– Sim, você deveria – ele disse com certo pesar, como se me ver partindo doesse nele.
– Os Harrison… – comecei, mas me interrompi ao ver Ethan balançar a cabeça.
– Tenho certeza que eles não se incomodarão – falou devagar. – Vai, sobe… quanto mais adiar, pior vai ser.
Suspirei e assenti, mas antes de subir as escadas, num ímpeto, passei os braços ao redor do pescoço de Ethan e o abracei apertado, ficando na ponta dos pés para poder afundar meu rosto em sua clavícula. Ele pareceu momentaneamente surpreso, mas não demorou mais que segundos para me abraçar pela cintura.
– Eu sei que não estou indo pra guerra – falei baixo, ouvindo-o rir –, mas eu quero me despedir de você, mesmo assim. Foi um bom ano ao seu lado, Ethan.
Ele apertou os dígitos em minha pele por cima da blusa.
– Digo o mesmo a você – retrucou. – Eu queria te dizer desde aquele dia – começou, se afastando para poder me olhar nos olhos. – Obrigado por ter sido tão legal sobre Sophia, quando você acabou passando por uma situação similar a dela… eu me senti bem, sabe? Você me fez sentir bem.
Sorri, sentindo lágrimas em meus olhos, acariciei sua bochecha e, sem dizer mais nada, passei por ele e subi as escadas.
Ethan não precisava me agradecer. Ele fora errado sim por trair a garota que tanto amava, mas quem era eu para julgá-lo por isso? Seres humanos não são perfeitos e, pelo que me parecia, ele já se julgava o suficiente… e parecia, também, arrependido.
Quando parei em frente a porta do quarto que pertencia a Gabriel na adolescência, meu coração pareceu se encolher e, por algum motivo, senti minhas bochechas queimarem. Eu estava constrangida por ter que falar com ele. E eu não sabia por quê. Talvez fosse a forma como tínhamos nos falado pela última vez, como aquilo nos deixou distantes um do outro; talvez fosse porque eu sabia como seria difícil encará-lo e falar que estava indo embora. Construímos uma coisa diferente em alguns meses, uma coisa que era diferente de tudo o que nós fomos, e era duro ter que, oficialmente, dizer adeus a isso.
Dei três batidinhas fracas na porta e quase imediatamente ouvi um “entra” casual vindo de dentro do quarto. Se meu coração não estava acelerado antes, naquele momento ele ficou, e enquanto tocava a maçaneta e abria a porta devagar, fiquei me perguntando se um dia alguma coisa em Gabriel não faria meu coração bater como um louco.
– Hey – falei quando abri a porta o suficiente para enxergá-lo deitado na cama com um balde de pipoca de um lado e o controle da televisão no outro.
– Emma! – Ele exclamou num sobressalto, parecendo extremamente surpreso em me ver.
Dei um sorriso de canto e me virei rapidamente para fechar a porta.
O quarto de Gabriel continuava o mesmo desde que ele havia saído de casa. Uma das paredes era pintada de preta e nela haviam várias estantes espalhadas repletas de livros, a parede da janela era cheia de pôsteres de bandas bem antigas, e a cama, diferente do normal, ficava no meio do quarto, de frente para a televisão que era pregada na parede, com um pequeno armário branco embaixo cheio de DVDs, CDs e jogos de videogame. O guarda-roupa pegava uma parede inteira e a metade de outra, e era seguida por uma escrivaninha preta que, um dia, fora cheia de livros.
Como qualquer coisa de Gabriel, o quarto estava impecável.
Lembrei de uma vez em que ele me mostrou seus vários livros na parede e explicou a organização deles para mim. Sempre pelo sobrenome dos autores em ordem alfabética, dissera. Eu também me lembro vagamente de ter ficado envergonhada por meus livros estarem sempre uma bagunça.
– Podemos conversar? – Perguntei olhando rapidamente para a televisão, vendo de relance que O Grande Lebowski rodava na rela.
– Claro que podemos – ele falou, usando o controle para desligar a TV no mesmo segundo.
Continuei quieta, apenas o olhando já sentado na cama. Estava frio, e por mais que o aquecedor funcionasse maravilhosamente bem, Gabriel ainda assim usava uma calça e uma blusa fina de mangas compridas. Seus cabelos cor de chocolate estavam maiores e mais bagunçados do que de costume, sua barba rala estava mais aparente e eu queria que ele se aproximasse para que eu pudesse enxergá-lo melhor. Mas, ao mesmo tempo, queria que ele ficasse onde estava para as que as coisas fossem mais fáceis.
– Como está? – Perguntei finalmente, vendo-o se mexer para sair da cama.
Quando falei, eu poderia quase jurar que vi seus ombros se encolherem, e ele permaneceu imóvel por alguns poucos segundos antes de ficar de pé e se virar para me olhar outra vez.
– É uma pergunta injusta – respondeu diretamente.
Balancei a cabeça.
– Eu pensei que você não quisesse me ver tão cedo – ele soltou, dando um sorrisinho torto e começando a dar passos cuidadosos em minha direção. Gabriel tentava soar casual, mas parecia tão embaraçado quanto eu.
Cada passo fazia meu coração pular mais rápido.
Sorri e revirei os olhos.
Eu não queria pensar que iria embora para longe dele outra vez. Deus, aquilo doía.
– Você fala como se eu te odiasse – retruquei. – E não odeio.
– É bom saber disso – respondeu após alguns segundos apenas olhando dentro dos meus olhos.
Ele já estava mais perto, cerca de um metro nos separava um do outro. Aquela proximidade me fazia suar, me fazia tremer. Eu precisava continuar firme, mas estava ficando a cada segundo mais difícil. Tentei soltar uma risada, mas tudo o que saiu foi um suspiro engasgado, e eu olhei para baixo, para as minhas mãos, fiquei vendo-as se esfregarem uma na outra, tentando disfarçar que tremiam.
Quando percebi, mãos estavam em minha cintura. As mãos de Gabriel. Elas me seguravam com firmeza e delicadeza, e eu quase poderia acreditar que ele estava me segurando pois sabia como eu não estava conseguindo sustentar o meu próprio peso.
– O que foi, Emma? – Perguntou com a voz levemente trêmula ao mesmo tempo em que eu levantei os olhos para encará-lo.
Os saltos da minha bota nos deixavam quase do mesmo tamanho, fazendo-nos ficar olhando diretamente no olho do outro.
Perto demais.
Eu podia ver cada linha do seu rosto, as marcas de expressão nos cantos de sua boca – aquelas que normalmente não eram nítidas porque sempre que me olhava estava sorrindo. As mesmas bolsas roxas que eu sabia que tinham embaixo dos meus olhos, porém disfarçadas pela maquiagem, também estavam debaixo dos dele. E os mesmos também estavam vermelhos, da mesma forma como eu estava tentando evitar que os meus ficassem nas últimas duas semanas.
E, quando me concentrei em seu olhar, pude enxergar.
Ele sabia por que eu estava ali.
E sentia dor por isso.
– Eu estou indo embora pra New York – falei de uma vez só, antes que o medo e sua proximidade roubassem cada gota de coragem e determinação que havia dentro de mim.
Senti as pontas de seus dedos apertarem minha cintura com mais força.
– Por que? – Perguntou num sopro, e seus olhos pareciam… magoados.
– Ah – comecei com certa insegurança, abaixando brevemente meus olhos para minhas mãos entrelaçadas no meio de nossos corpos –, você sabe… é uma ótima oportunidade.
– Você está fazendo isso… – balancei a cabeça e Gabriel parou de falar.
– Também, também porque nós terminamos – falei. – Mas eu já tinha considerado a proposta mesmo quando estávamos juntos, você sabe disso.
– Não quero que você vá embora – ele disse rapidamente, quase não me deixando terminar de falar.
Mordi meu lábio inferior, sentindo meus olhos se enxerem de lágrimas.
– Não posso ficar – sussurrei.
– Por que? – Gabriel parecia desesperado. Seus olhos inspecionavam os meus com anseio, sua testa estava franzida e seus olhos cheios de lágrimas… novamente.
Engoli o bolo em minha garganta, tentando encontrar algum vestígio de coragem, tentando expulsar o sentimento de tristeza que me invadia a cada segundo que eu passava olhando para as grandes bolotas verdes em minha frente. Subi minhas mãos até seu ombro e apertei meus dígitos no mesmo, querendo me apoiar, com medo de desmoronar ali mesmo, ao mesmo tempo em que queria que ele apenas entendesse que estava dificultando demais as coisas para mim, que quanto mais eu olhava para seus olhos brilhando por conta das lágrimas, mais me doía.
– Você sabe por quê – respondi com a voz baixa, num chiado, com medo de que se eu forçasse minha voz, acabasse deixando escapar um soluço e minhas lágrimas.
– Eu faço o que você quiser – ele falou, se aproximando e apertando minha cintura com mais força. Algumas partes de nossos corpos se tocavam de leve, e apenas isso causava espasmos em mim. – Podemos resolver as coisas, Emma, podemos tentar outra vez! Eu posso fazer o que você quiser que eu faça!
Eu me assustei quando Gabriel aproximou seu rosto sem dizer nenhuma palavra e começou a distribuir beijos por meu rosto, pescoço, ombro, e qualquer parte que pudesse alcançar. Ele puxou minha blusa para baixo com uma das mãos, e começou a deixar beijos em meu colo, bem onde batia meu coração acelerado, enquanto eu sentia lágrimas umedecendo seus lábios e minha pele. Fechei meus olhos com força, controlando cada fibra do meu ser.
– Você ainda não acredita em mim – falei com a voz firme, numa tentativa de lembrar a mim mesma por que não estávamos juntos mais. Funcionou.
Ele desgrudou a boca de mim e suspirou contra minha pele molhada por suas lágrimas, fazendo-me arrepiar.
– Eu não consigo acreditar – falou com pesar.
– Isso diz muito sobre o que você pensa de mim – falei. Não havia ressentimentos em minha voz, não havia amargura… havia dor. Eu não o odiava por não acreditar em mim, mas estava extremamente magoada por isso… e era uma coisa que não mudaria.
Gabriel balançou a cabeça e encostou sua testa em meus seios por alguns segundos antes de voltar a se endireitar. Seu rosto estava manchado pelas lágrimas que ainda não haviam parado de descer, e sua expressão era de dor, como se eu estivesse ferindo-o de mil maneiras diferentes. Eu não queria isso.
– Eu sinto muito – falei, deixando meus dedos percorrerem seu rosto, vendo-o fechar os olhos diante do meu toque.
– Eu também – ele sussurrou.
Envolvi seu pescoço com meus braços e afundei meu rosto entre seu pescoço e sua clavícula, deixando que lágrimas caíssem dos meus olhos enquanto seus braços rodeavam minha cintura e me apertavam num abraço dolorosa e maravilhosamente sufocante. Ficamos assim por alguns incontáveis segundos, até que eu suspirei e levantei meu rosto, olhando em seus olhos por alguns segundos antes de tocar seus lábios com os meus, seu sabor misturado com suas lágrimas salgadas.
Foi apenas um selar de lábios e, rápido demais, eu me afastei.
Tirei minhas mãos de seu pescoço, sentindo meu corpo pesar sob minha fraqueza e tristeza por ter que fazer aquilo, e com um pouco de dificuldade desvencilhei meu corpo de seus braços. Minhas pernas estavam bambas, minhas mãos trêmulas, eu sequer ouvia meu coração batendo àquela altura.
– Tchau, Gabriel – foi a última coisa que disse antes de virar de costas e sair do quarto sem olhar para trás, antes que eu desistisse de ir embora.
A última imagem que tive foi Gabriel com os ombros curvados para frente, o rosto molhado por lágrimas e a boca meio aberta, como se quisesse dizer alguma coisa.
…
Enquanto puxava a única mala que ainda não havia sido enviada para New York antes da minha viagem, procurava por alguém que estivesse me esperando em algum lugar. Estava usando óculos de sol – não porque estava sol, mas porque meus olhos estavam inchados e envoltos por bolsas roxas e escuras. E quando decidi que procuraria por um táxi, avistei uma pessoa se destacando no meio de tanta gente vestindo roupas em vários tons de cinza.
Ela usava uma calça jeans vermelha xadrez, um all star branco, uma regata branca com escritos “yeah, baby” em letras grandes e listradas e uma blusa de mangas compridas azul por cima. Seu cabelo rosa comprido estava solto, misturando-se àquela onda de cores, e ela usava uma toca preta na cabeça. Sabia que era ela por causa do cartaz grande que segurava nas mãos, onde estava escrito “Emma Carter” e, logo embaixo, “Sou a colega de quarto dos seus sonhos”. Mordi o lábio inferior, contentando a risada ao ler seu cartaz, e comecei a andar até ela, acenando com a mão ao que ela virou o rosto para mim. Ela sorriu e acenou de volta.
Sophia Welch era seu nome. E ela era minha nova colega de quarto a partir daquele dia.
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