Not Over You

24 Capítulo 23 - So close, so far


Notas iniciais
Vocês não estou endoidando... essa sou eu postando o capítulo no dia certo. Não vou falar muito hoje, tô com dor e ficar muito tempo sentada só piora as coisas. Em primeiro lugar, eu espero de verdade que vocês comentem esse capítulo... cada vez menos pessoas estão comentando e isso realmente me chateia, mesmo que eu esteja numa onde de criatividade grande, isso desanima qualquer um. Em segundo, por favor não façam promessa de morte nos comentários ASUHAUSHAUSHAS. É isso, eu espero mesmo que vocês gostem, porque eu me esforcei bastante e realmente estou orgulhosa por escrever um capítulo desse em uma semana! E aos que leram, obrigada pelos elogios e pelo apoio nos comentários do capítulo passado... eu adoro vocês ♥ Boa leitura!

Bufei e me virei na cama mais uma vez. Não era mesmo possível que eu não fosse conseguir dormir de novo. Já era o quarto dia seguido. E não dormir estava me deixando realmente estressada… E isso não acontecia com frequência.

Eu não queria mais pensar. Sinceramente, quanto mais o tempo passava, mais eu percebia que pensar sempre me levava para um caminho ruim... Ou, mais claramente dizendo, para a merda. E minha vida estava simplesmente perfeita demais para que eu aceitasse jogar merda nela de uma hora pra outra. Mas parecia que minhas vontades não estavam em relevância na minha consciência. E o fato de me sentir tão tentada a sequer pensar nisso me deixava com raiva de mim mesma. E de Gabriel, porque ele realmente podia facilitar as coisas e se mostrar pelo menos um pouco incomodado por não termos conversado sobre… aquele assunto.

Bufei novamente, dessa vez mais alto, e senti vontade de bater em Gabriel com o travesseiro quando ele apenas se mexeu na cama e afundou a cara no travesseiro, quase babando. Eu queria tirá-lo daquela calma maldita.

Fazia umas três semanas desde o casamento de Claire, três semanas desde... bem, Gabriel e eu voltarmos a ter relações mais íntimas. E mesmo antes disso acontecer, normalmente nós dormíamos abraçadinhos, minha cabeça em seu peito, seu rosto em meus cabelos – porque, segundo ele, eles cheiravam muito bem –, e nossas pernas entrelaçadas debaixo do lençol. Mas como eu simplesmente não conseguia parar de me mexer na cama e Gabriel não conseguia parar de reclamar da minha insônia – principalmente depois que ele perguntou todo carinhoso o que estava errado e eu o mandei se calar e apenas dormir –, ele apenas me soltou e dormiu com as mãos longe de mim. Era ruim sim, ruim pra caralho. Mas, nossa, eu realmente estava estressada para me importar se ele estava longe ou perto de mim na cama.

Talvez, além do stress causado pela insônia, eu também estivesse na TPM. E essa era uma péssima combinação.

Virei-me de costas para Gabriel e fechei os olhos, obrigando-me a pelo menos cair no sono por cinco minutos. Não adiantou. Não adiantou mesmo. Os segundos pareciam passar quase se arrastando, e o barulhinho que o ponteiro do relógio de parede fazia estava começando a me irritar num ponto que eu considerei levantar da cama, arrancá-lo da parece e jogar no meu namorado, que só mostrava estar vivo pelos suspiros que soltava vez ou outra.

Quando se passaram exatamente trezentos carneirinhos – ou cinco minutos –, eu me dei por vencida e levantei. Se contasse sequer mais um carneirinho ficaria louca.

Eram nove da manhã de uma segunda. Meu turno no trabalho começava apenas às seis da tarde, e Gabriel entraria no serviço apenas depois do almoço. Então eu realmente não precisava me preocupar com horários.

Peguei a primeira muda de roupa que encontrei no guarda-roupa, que não era nada mais que uma calça preta grossa de pano agarrada nas pernas, uma camiseta cinza simplesinha e um casaco de moletom florido. Entrei no banheiro e rapidamente fiz minha higiene matinal, trocando-me logo depois. Coloquei um par de alpargatas azuis sem me importar se meus pés congelariam no frio que fazia lá fora, peguei meu celular e minha carteira na bolsa e saí do apartamento, trancando a porta e logo depois jogando o molho de chaves no bolso do moletom.

Não havia andado nem uma quadra quando peguei meu celular e disquei o número de Claire. Eu poderia sim me afundar no meu mar de ódio e estresse sozinha, mas eu tinha uma amiga grávida para fazer isso junto comigo. O celular chamou umas três vezes, enquanto eu andava lentamente pelas calçadas de Londres – totalmente contraditória às poucas pessoas que pareciam furacões andando para lá e para cá–, antes de Claire atender.

– Bom dia, flor do dia – ela falou do outro lado da linha, parecendo contente.

Oh, claro, ótimo dia.

– Hm, bom dia – murmurei sem interesse, percebendo minha voz rouca. – Vamos tomar café juntas hoje?

– O que aconteceu com você? – Ela perguntou, sem responder ao meu convite. – Eu sou a grávida com os hormônios a flor da pele, Emma, não você.

Pelo visto, meu humor era notável até pelo meu tom de voz.

Em qualquer outro dia, eu riria. Mas eu estava estressada demais para ouvir o som da minha própria risada.

– Eu não durmo há quatro dias, Claire – resmunguei. – Eu provavelmente estou de TPM, e não consigo livrar minha cabeça dos meus pensamentos.

– Quatro dias? – Questionou, e pareceu levemente preocupada de repente. – O que anda rondando tanto os seus pensamentos assim?

– Eu iria amar te contar – retruquei com sarcasmo, embora eu fosse mesmo contar a ela. – Por isso te liguei, Claire – suspirei cansada, me sentindo mais fodidamente triste do que estressada por alguns segundos. – Eu preciso conversar.

– Entendi – ela respondeu prontamente. – Te encontro na mesma cafeteria de sempre em vinte minutos.

Concordei e finalizei a chamada.

A cafeteria que Claire e eu costumávamos ir toda a semana não ficava muito longe do meu prédio, por isso eu continuei caminhando em passos lentos. O ar daquela manhã estava frio, meu nariz estava gelado e estava ventando. Londres era uma cidade bonita, mas conseguia ser tão melancólica às vezes. E, ainda por cima, não havia muito movimento pelas ruas que levavam à cafeteria. Aquele dia em particular estava bem frio; estávamos no começo de dezembro, e não demoraria muito para que começasse a nevar – o que significava que ninguém estava com coragem o suficiente para sair de casa.

Eu saí de casa sim, mas apenas porque não acreditava que conseguiria ficar presa lá dentro por mais alguns minutos sem que minha cabeça explodisse.

Durante todo o meu caminho, tentei não pensar muito. Queria conversar com uma voz racional – porque Claire era sensata quando tinha que ser – em vez de ficar debatendo comigo mesma. Talvez eu estivesse apenas cavando problemas onde não tinha, talvez eu estivesse acostumada às coisas darem errado e estava surpresa por tudo estar dando certo. Talvez eu fosse apenas analítica demais.

Mais alguns minutos e eu cheguei na cafeteria.

Estava praticamente vazia, se eu ignorasse o casal de adolescentes sentados num canto e conversando entre sussurros, a senhorinha que estava sentada na bancada e lia um livro grosso e desgastado, e os funcionários da loja. Acenei para Barbara, uma senhora muito simpática, dona do estabelecimento, e que estava sempre ali pelas manhãs; e caminhei até uma mesa dos cantos, bem no fundo do lugar.

– Vai querer o de sempre, Emma? – Luna, neta de Barbara, perguntou simpaticamente ao que chegou em minha mesa.

Forcei um sorriso e assenti, vendo o olhar dela vacilar um pouco antes da mesma concordar e sair andando. Bem, maravilha, nem alguém que mal me conhecia eu conseguia enganar... eu deveria estar horrível mesmo.

Não demorou muito para que Claire chegasse. Ela estava usando casaco em cima de casaco – e eu sabia que isso era obra de Matt, já que ele vinha se tornando um marido bem protetor. Ela sorriu calorosamente ao me ver e andou até minha mesa logo depois de cumprimentar Barbara e dizer que gostaria de um chá de frutas silvestres.

– Você parece horrível – Claire soltou espalhafatosa, embora ainda assim parecesse cuidadosa. Bem, mulheres grávidas se tornavam tão sinceras quanto crianças.

– Eu estou, Claire – retruquei. – Eu acho que vou ficar louca, sabe? – Soltei de uma vez, sem nem esperar que ela dissesse mais alguma coisa.

Aquilo estava me sufocando há dias, eu precisava liberar aquela agonia.

– Eu estou extremamente feliz. Minha vida não poderia ser mais satisfatória. Quero dizer, eu tenho um emprego ótimo, eu estou namorando a pessoa que sempre quis e eu o amo um pouco mais a cada dia que se passa e não tinha como um relacionamento ser melhor, minha melhor amiga se casou e está esperando um bebê que vai ser meu afilhado... mas alguma coisa parece fora do lugar. Por que? Por que quando tudo parece perfeito, alguma coisa cutuca minha mente e rouba todos os meus pensamentos? Isso é tão injusto.

Claire olhava para mim de olhos arregalados. Eu sabia que era porque ela estava surpresa, afinal de contas, eu nunca havia soltado as coisas de maneira tão fácil. Isso só confirmava a ela o que eu já sabia: eu estava no meu limite. Claro, depois de ficar quatro dias sem conseguir dormir nem por um minuto, qualquer um estaria.

– Emma, calma, respira – ela falou calmamente, respirando fundo ela mesma. – O que está te fazendo ficar desse jeito?

– Eu estou farta! – Exclamei, talvez um pouco alto demais. – Eu cansei de mentiras, Claire, cansei se fingir que está tudo no lugar quando claramente não está... Gabriel e eu dormimos juntos de novo, nossa intimidade aumentou... mas ainda não conversamos sobre nosso bebê, Claire. Porra, meu filho! Ele não fala sobre isso, ele sequer parece incomodado com o fato de isso ser uma página em branco no nosso relacionamento. Eu não consigo fazer isso, não consigo fingir que eu nunca fiquei grávida e nunca perdi o bebê. Não consigo fingir que não me afundo em perguntas toda vez que penso que ele sabia sobre o bebê, que ele sabia que eu estava esperando um filho dele e que o perdi.

Tinha lágrimas inundando os meus olhos quando eu terminei, e eu mal conseguia enxergar direito com elas ali. Bufei e fechei os olhos, sentindo-as escorrerem por minhas bochechas. Eu estava me sentindo, de certa forma, patética.

– Olha, talvez eu esteja apenas muito emocional – murmurei, suspirando. – Talvez nem seja algo realmente importante... mas, Claire, caramba! É importante pra mim.

– Bem, Emma, então tudo o que você tem que fazer é... – Claire suspirou, hesitou um pouco e fechou os olhos antes de continuar: – Conversar com ele sobre isso.

– Você realmente acha isso? – Indaguei.

E eu soube que sim no momento em que ela abriu os olhos. Eu não era neurótica, não estava ficando louca e não era exagero. Claire faria a mesma coisa que eu. Porque o bebê era importante e ela sabia disso. Porque eu vi, em seus olhos, que ela sabia que aquilo poderia acabar comigo... mas que eu deveria fazê-lo mesmo assim.

...

Claire e eu passamos o dia todo juntas. Ela disse a Matthew que nós duas estávamos ocupadas fazendo coisas de mulheres e eu falei para Gabriel que estava apenas sendo uma boa amiga para sua irmã grávida e hormonal. Tsc, quanta mentira! A verdade foi que passamos a manhã quase inteira andando pelo centro de Londres e babando em vitrines de lojas, depois almoçamos um lanche gorduroso, e então fomos para o mercado comprar porcarias. Esperamos numa cafeteria perto do meu prédio Gabriel sair para trabalhar antes de subirmos para o meu apartamento. E passamos a tarde toda comendo coisas que nos engordariam por uma década e assistindo clássicos depressivos.

Esse negócio de se esconder de Gabriel deixou Claire animada – segundo ela, ela se sentiu como uma criança fugindo de uma mãe brava outra vez.

Eu apenas me senti triste e fraca.

Eu tinha que conversar com Gabriel sim, mas eu não estava totalmente pronta para isso. De certa forma, estava com medo. Na última vez que toquei no assunto do bebê, ele não fora nada receptivo e compreensivo. E nós não tínhamos um histórico de discussões muito bom.

E Claire pareceu entender isso quando eu pedi para ela passar o dia comigo pois não queria ver Gabriel e ela aceitou sem fazer perguntas.

Mas os filmes tristes – tipo Titanic, que fez Claire e eu chorarmos abraçadas como dois filhotes fora do ninho – fizeram o dia passar muito rápido. E logo eu estava indo trabalhar... O que não seria um problema, já que eu ficaria num universo paralelo onde eu não teria que enfrentar Gabriel e isso era um alívio. Porém, para alegria de uns e a minha infelicidade momentânea, eu tinha um chefe generoso demais. No momento em que James bateu os olhos em mim quando entrei no restaurante, disse, sem ao menos me dar boa noite, que Ethan dava conta de cuidar do restaurante sozinho naquela noite e me mandou voltar para casa. Ele parecia preocupado e levemente curioso, mas eu apenas balancei a cabeça em concordância e me virei, saindo dali sem dizer uma palavra. Passara vinte minutos me olhando no espelho antes de ir trabalhar naquele dia. Haviam profundas bolsas roxas em baixo dos meus olhos, e os mesmos, junto com o choro consistente e a falta de dormir, estavam avermelhados e inchados. Eu parecia a personificação da miséria – e maquiagem nenhuma resolvia isso. Não seria a gerente mais agradável com aquela cara e James percebeu isso.

Minha caminhada de volta para casa foi lenta. Minha cabeça rodava. Eu estava com medo. Foi por isso que chorei assistindo filmes junto com Claire. Digo, eu não estava prestando muita atenção nos filmes que rodavam na televisão, já que minha mente dava escapadas para pensar na briga que eu estava prestes a provocar e que eu poderia conter, mas todas as vezes em que olhava para o aparelho com mais atenção e via que tragédias estavam acontecendo as lágrimas escapavam dos meus olhos sem permissão nenhuma. Eu estava simplesmente com medo de tudo desmoronar bem na minha frente... com medo de me ver sem Gabriel.

De todas as coisas, ficar sem Gabriel depois de tudo era a pior delas... era simplesmente insuportável só pensar nessa ideia. Por isso eu tentava incontrolavelmente não pensar sobre isso. Machucava.

Tudo bem. Respirei fundo. Eu precisava me acalmar.

Sim, eu estava com medo. E eu provavelmente iniciaria uma briga com Gabriel e não acabaria com ela até que tivesse minhas respostas – o que significava que as coisas poderiam ficar um pouco tensas, já que como eu, Gabriel tinha uma determinação de outro mundo. Mas, apesar disso, eu precisava ser forte. Eu não podia continuar vivendo como se essa questão não me incomodasse.

Talvez eu estivesse sendo dramática, talvez Gabriel estivesse no fundo apenas com medo da nossa conversa, como eu estava. E mesmo que brigássemos, quem garantia que tudo não ficaria bem? Era medo e eu precisava ser corajosa. Fora por causa da minha coragem em dar uma chance para Gabriel que minha vida estava nos trilhos, eu precisava dessa coragem para ter minha mente livres de pensamentos inseguros e questionadores.

A Emma que tinha medo estava sendo enterrada aos poucos, portanto eu não podia me apavorar e simplesmente fugir de mim mesma. Precisava enfrentar meu namorado e as minhas dúvidas. E parar de esperar o pior de tudo, de ser tão paranoica com essas coisas.

Tudo ficaria bem.

Nem entrei no meu apartamento quando cheguei ao prédio, bati direto na porta da frente. Gabriel já deveria ter chegado do trabalho. E eu temia que, se eu não falasse com ele naquele momento, ou minha coragem concebida pelo vento frio de dezembro iria embora ou meu cérebro explodiria de tanto pensar.

Quem abriu a porta para mim foi Ethan. Ele sorria, seu cabelo estava penteado e ele estava vestido formalmente – provavelmente estava pronto para ir trabalhar no restaurante. Ao me ver ele apenas revirou os olhos, pois sabia que eu estava ali para ver meu namorado, mas continuou sorrindo e deu um espaço para eu passar. A situação catastrófica do meu rosto não deve ter passado despercebida por ele, mas eu tinha quase certeza de que Gabriel havia falado com ele algo sobre eu não conseguir dormir e estar insuportável – tsc, coisas de homens, como se eu ligasse.

Quando entrei no apartamento, meus olhos foram direto para Gabriel. Ele estava sentado no sofá, com as pernas para cima e os pés cruzados. Os óculos de grau haviam escorregado um pouquinho por seu nariz e ele parecia concentrado no livro que estava em suas mãos, que eu não consegui ver qual era porque minha visão dele era lateral. Engoli em seco, tentando ignorar todas as imagens de uma discussão que ainda não havia acontecido em minha cabeça, sentindo minhas mãos tremerem levemente ao que eu tentava soar casual. Coloquei minha bolsa numa das poltronas de couro em silêncio.

Ele virou o rosto, como se notasse minha presença, e sorriu ao me ver.

– Oi, amor – falou, pegando o marcador de página que estava apoiado em sua barriga e o colocando no livro antes de fechá-lo.

– Hey – cumprimentei, andando até o sofá enquanto o via se sentar direito e tirar os óculos para deixá-los numa mesinha de vidro entre os dois sofás. – O que está lendo? – Perguntei, indo parar sentada em seu colo com um puxão delicado e costumeiro.

Ele puxou o livro que havia deixado de lado e me mostrou a capa.

– O Grande Gatsby.

Sorri ternamente, completamente encantada com a forma com que seus olhos verdes brilhavam, e acariciei seu rosto delicadamente.

– De novo? – Questionei.

Ele assentiu e se inclinou para frente, roubando-me um selinho. Foi lento e calmo, com uma das suas mãos ao redor na minha cintura e a outra com o livro e apoiada em minhas pernas, e meus dedos passeando por seu maxilar. Eu queria que esse beijo durasse mais, queria que ele fosse minha escapatória para adiar o assunto, queria fugir um pouco da minha mente. Mas quando estava prestes a ousar aprofundá-lo, ele se afastou com um sorriso de canto.

–É meu favorito, você sabe.

Pressionei os lábios e assenti.

Gabriel suspirou e deixou o livro em minhas pernas, subindo a mão até meu rosto. Seu polegar passeou por meu queixo e ele parecia pensativo enquanto olhava com atenção para os meus lábios se descolando um do outro conforme ele puxava o inferior para baixo. Então ele levantou seus olhos e os grudou nos meus.

Meu coração batia acelerado. E nem era por causa da conversa que teríamos. Era apenas por tê-lo me olhando daquele jeito, por sentir suas mãos me tocando... isso nunca mudava.

– O que foi, Emma?

Puxei o ar com força, estufando o peito e criando coragem.

– Nós precisamos conversar, Gabriel.

Ele assentiu e continuou quieto, esperando que eu começasse a falar. Eu não sabia se conseguiria me concentrar com seu rosto tão próximo do meu, e as pontas de seus dedos fazendo círculos em minha cintura como forma de carinho. No entanto, tudo o que nos deixasse próximos naquele momento era mais do que bem-vindo... Precisávamos desse carinho, dessa intimidade, desse sentimento escapando pelos poros. Eu precisava disso.

Vi Ethan se esgueirando pelos cantos do apartamento, querendo sair sem ser notado e fingi não o ver, dedilhando a gola da camiseta de Gabriel enquanto esperava o barulho da porta fechando para poder falar.

Eu nunca quis tanto que os segundos se arrastassem como horas. Nunca. Inspirei todo o ar que consegui quando ouvi a porta ser fechada e soltei todo o ar de uma vez.

Eu não tinha percebido até aquele momento, mas estava amedrontada com aquele tópico. Eu sabia o que queria dizer, eu sabia o que queria resolver, eu só não sabia o que ouviria. Na verdade, eu não fazia nem ideia. Gabriel não era a pessoa mais transparente do mundo... E das outras vezes que tocamos no assunto, ele parecera sempre tão fechado e prestes a me cortar com palavras.

– Tem uma coisa me incomodando, Gabriel – sussurrei, levantando a cabeça para olhar em seus olhos de novo.

– Me diga o que é, princesa – ele retrucou, igualmente num sussurro.

Bufei. Era impossível que ele não soubesse, era impossível que isso não o incomodasse, era impossível que ele não sentisse que alguma coisa ainda nos separava.

– Em primeiro lugar – comecei –, eu quero saber como você sabia sobre o bebê.

Foi a vez de Gabriel bufar. Ele segurou minha cintura com as duas mãos e me tirou de seu colo, me colocando sentada no sofá e se levantando logo depois.

– Eu não quero falar sobre isso, Emma – falou enquanto caminhava até a cozinha.

E lá estava aquele tom de voz outra vez. Aquele peso de frieza que ele fazia questão de deixar bem carregado em suas palavras. Até sua maneira de andar se tornava diferente. E eu tinha certeza de que ele estava fazendo aquilo para evitar me olhar nos olhos. Tudo exatamente como quando nós dois vivíamos entre tapas e beijos, como quando eu o questionava sobre essa relação sem pé nem cabeça, como quando as coisas entre nós eram mais intensas do que o normal. Ele fugia, se escondia.

Ri com escárnio. Eu sentia tanta raiva desse Gabriel.

– Mas é claro que você não quer – falei; aspereza nadando em minhas palavras. – Eu quero, Gabriel.

Ouvi sua gargalhada falsa e seca e revirei os olhos, levantando do sofá e indo até a cozinha, onde ele estava com a cabeça enfiada dentro da geladeira, aparentemente procurando alguma coisa.

– Certas coisas nunca mudam – ele disse.

Cruzei os braços e franzi as sobrancelhas, sabendo que ele me espiava pelo canto dos olhos.

– O que você quer dizer com isso? – Perguntei um pouco na defensiva.

– Você nunca foi muito de ligar para a vontade dos outros – respondeu, endireitando o corpo e fechando a geladeira antes de se virar para me olhar, seus olhos verdes parecendo faiscar, prontos para uma briga.

Gargalhei. Era uma gargalhada carregada de veneno e raiva, mas, ainda assim, era verdadeira.

– Engraçado você dizer isso.

Ele sorriu de canto e deu alguns passos para se aproximar de mim, parando em minha frente.

– Vamos nos ofender agora? – Perguntou ainda com o maldito sorriso presunçoso no canto dos lábios, conseguindo me fazer ferver de raiva. – Você sabe onde isso nos leva, Emma.

Balancei a cabeça, o olhando incrédula.

– Você acha que eu estou brincando? Gabriel, eu estou falando muito sério. Eu estou extremamente estressada, tudo bem? Não durmo há quatro dias! Pelo menos facilite as coisas.

Ele havia conseguido me irritar com muito pouco. Me feria ver Gabriel agir daquele jeito, ainda mais com um assunto sobre aquele. Ele sabia disso. Porque isso me lembrava o modo como ele agia antes, me lembrava o quanto doía e como de uma hora para a outra ele era capaz de mudar, como num momento me tratava como se eu fosse a única pessoa importante em seu mundo e depois simplesmente se afastava e fingia que éramos como nada, que eu era nada. Eu sabia que aquela era a maneira que ele encontrava para fugir das coisas, como ele se mascarava quando não aceitava algo... Mas me dava raiva o fato de ele saber como aquilo acabava comigo e mesmo assim fazê-lo.

– Facilitar? – Questionou entredentes, num sussurro controlado. – Eu já disse que não quero conversar sobre isso, Emma, facilite as coisas você!

Dei um passo para frente e respirei fundo, reunindo toda a calma e coragem que consegui dentro de mim.

– Sabe de uma coisa? Somos namorados, Gabriel, e esse relacionamento não vai para frente se você evitar as coisas ou escondê-las de mim. Eu sou apaixonada por você, mas não posso e não vou aceitar isso… ainda mais se você continuar me tratando como antigamente – falei com firmeza e calma, tirando bravura de algum lugar bem escondido e empoeirado dentro de mim.

Por fora eu aparentava muita calma, por dentro eu estava um caos. Meus pensamentos trabalhavam em uma velocidade impressionante e se misturavam. Era medo, raiva, insegurança, ansiedade. Eu tentava ouvir apenas os que me mantinham firme e com a respiração regulada.

Gabriel olhou para baixo e suspirou. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, e parecia debater coisas consigo mesmo. Eu preferi ficar quieta enquanto isso, apenas esperando que ele dissesse alguma coisa que realmente mostrasse respeito e, pelo menos, um pouco de sensibilidade.

– Eu não quero perder você– ele disse baixo, erguendo os olhos para mim. Seu olhar era uma mistura de dor, raiva e doçura. Acabou comigo, pois eu era o alvo de todas elas. – Mas eu vou.

– Você não vai me perder, vamos conversar – falei, dando um passo para frente e colocando minhas mãos em seu rosto, começando a acariciar seu maxilar com os polegares. – Eu sei que não é fácil, tudo bem? Mas eu preciso disso, amor – continuei, dessa vez mais baixinho, com lágrimas umedecendo os meus olhos e um nó preso em minha garganta. – Eu só quero ficar totalmente em paz.

Gabriel balançou a cabeça e inspirou o ar com força, soltando-o de uma vez depois de alguns segundos, antes de falar:

– Eu estava lá– sussurrou, parecendo recuar sob o toque das minhas mãos. – Eu estava lá no dia em que você caiu do cavalo, Emma, eu vi tudo.

Franzi as sobrancelhas e dei um passo para trás, tirando minhas mãos de seu rosto, totalmente confusa.

Gabriel estava lá? Eu passara anos pensando que havia sido apenas a minha imaginação, mas ele realmente estava lá.

– Você estava lá? – Perguntei, procurando algum sinal de mentira em seus olhos. Não encontrei nenhum.

– Sim, eu estava – falou, o mesmo tom de voz que antes. – Eu fui atrás de você, Emma. Antes de passar pelo episódio da overdose e ficar na reabilitação.

Abri a boca num perfeito O. Por que eu ainda não tinha ficado sabendo disso?

– Quando eu cheguei lá, você estava em cima do cavalo. Completamente perfeita. Você parecia tão bem, Emma, parecia tão feliz. Tão em paz…– Travou maxilar de repente. – Seu pai me viu antes de você– quando falou de Peter, sua voz ficou mais pesada. Bem, o ódio era mútuo, afinal. – Eu jurei que ele ia me matar naquele momento.

"Seu pai me disse coisas bem pesadas, sabe. Eu sabia de tudo o que tinha feito, mas ouvir de outra pessoa com tanta raiva e tristeza era bem pior. Ethan e Claire tinham um jeito mais doce de me falar as coisas, embora elas doessem mesmo assim. Seu pai queria me ver queimando de culpa.

"Eu apenas olhei para você enquanto ele falava. E quando te vi caída, sem se mexer, eu juro por Deus, Emma, meu mundo inteiro caiu. Eu não sei explicar o que senti. Tudo rodava, eu não conseguia falar ou me mexer, eu apenas estava te observando de longe, perdendo a consciência aos poucos, e eu senti que iria te perder. Te perder de verdade, para sempre. E eu senti tanto medo, amor. Pela primeira vez na minha vida, eu senti medo. Medo de não te ter mais, medo de não te ver, de não ver seus olhos, seu sorriso, de não ouvir sua risada, de não poder te tocar, de não sentir seu toque."

Gabriel estava com lágrimas nos olhos, o que me quebrava em mil pedaços. Seus olhos pareciam confusos e perdidos, e sua careta me fazia imaginar se ele estava esforçando-se para não reviver todos aqueles sentimentos outra vez. E, de repente, eu me senti culpada por entrar naquele assunto… era claro que, da mesma forma que doía em mim, doía nele. Só que eu começava a acreditar que talvez isso doesse mais nele.

Eu estava aprendendo, aos poucos, que eu não era a única que havia sofrido com as coisas do nosso passado.

– Por sorte – Gabriel continuou depois de alguns segundos, respirando fundo por um momento –, seu pai percebeu meu olhar e se virou para ver você. Ele ficou realmente desesperado. Gritou para eu pegar as chaves do carro dentro da casa e pegar o carro para levarmos você ao hospital. Ele precisou me chacoalhar para que eu saísse do meu transe, enquanto gritava que você precisava de mim naquele momento e que, pelo menos uma vez na vida, eu deveria fazer uma coisa boa por você.

Respirei fundo, contendo as lágrimas em meus olhos, enquanto Gabriel já deixava que as suas caíssem por suas bochechas. Isso deve ter doído. Eu nunca vira Gabriel chorando.

– Levamos você ao hospital – continuou, ainda com lágrimas caindo de seus olhos. Nosso olhar, no entanto, não se quebrava. Gabriel queria que eu visse sua dor, queria me mostrar o quando doía falar sobre aquilo, lembrar daquilo. – Mas seu pai não me deixou entrar. Mandou que eu fosse embora e deixasse você em paz. Falou que você merecia ser feliz.

"Eu não entrei no hospital naquele momento. Deixaria você ser feliz, mas antes precisava saber se você estava bem, se estava viva. Então eu paguei um enfermeiro para que ele me passasse informações sobre o seu estado. Eu paguei muito bem – ele falou, dando ênfase no “muito” e semicerrando os olhos. Franzi as sobrancelhas, confusa. – Paguei para que ele me falasse tudo. E eu soube do bebê."

Eu estava definitivamente surpresa. E com raiva. Surpresa porque eu não conseguiria imaginar uma coisa assim nem em um milhão de anos. Com raiva por nunca ter ficado sabendo disso; nem por meu pai, nem por Gabriel. No entanto, de certa forma, eu entendia porque Gabriel não queria falar sobre isso, porque ele não havia me falado nada… doía. Eu podia ver em seus olhos o quanto ter aquela conversa estava doendo nele. Eu não poderia jamais culpá-lo por não ter me contado antes. Mas incomodava, de qualquer forma. Meu pai havia me privado de uma coisa realmente importante da minha vida… Gabriel foi atrás de mim.

Esperei alguns segundos antes de começar a falar alguma coisa.

– Por que nunca conversamos sobre isso? – Perguntei. – Eu sei que dói lembrar disso, Gabriel, mas se nós tivéssemos-

– Porque você mentiu pra mim! – Gritou, me interrompendo.

Tudo bem. Talvez eu não estivesse confusa o suficiente antes, porque naquele momento, depois das palavras que me namorado proferiu, eu fiquei mais ainda.

Franzi as sobrancelhas.

– Menti pra você?

Ele deu uma risada sem humor e se aproximou, abaixando um pouco mais a cabeça para poder continuar olhando nos olhos. Gabriel estava bem perto de mim, nossos corpos separados por centímetros, e ele parecia com raiva. As lágrimas que caíam de seus olhos haviam parado e suas mãos limparam os rastros das anteriores em suas bochechas.

– Você ouviu, Emma: eu paguei muito bem para que o enfermeiro me falasse tudo! – Sussurrou, parecendo furioso. – TUDO! – Dessa vez o que saiu de seus lábios foi um grito. Encolhi meus ombros, assustada. – Você não precisa mais mentir pra mim, ok? Eu consigo viver com os fatos.

– Eu não sei do que você está falando, Gabriel – falei, afastando-me alguns passos para que ele não parecesse tão grande e ameaçador.

– Eu sei que você não perdeu o bebê– falou alto, parecendo se controlar para não agarrar meus braços e me chacoalhar até que eu concordasse com ele. – Eu sei que, na verdade, você tirou.

Arregalei os olhos.

– Esse enfermeiro deve ter se aproveitado do seu dinheiro, Gabriel – falei, respirando fundo e tentando manter a calma, mesmo que minhas mãos tremessem e meu coração batesse desesperado em meu peito.

Não, não, não, minha mente gritava, tem alguma coisa muito errada.

– Tem muita gente maldosa por aí. Eu perdi o bebê, já te diss-

– Você continua mentindo! – Ele exclamou incrédulo, rindo como se não acreditasse que eu estava mesmo fazendo aquilo. Mas que droga, eu estava falando a verdade. – Olha, Emma, dói que você tenha tirado nosso bebê, tudo bem? E eu confesso que te odiei por muito tempo. Mas eu já entendi seus motivos. Eu sei que você estava magoada, eu sei o que você pensava sobre o que eu sentia por você. E eu te perdoo. Só pare de mentir para mim. Eu posso conviver com o fato de que você não quis ter um filho meu, mas apenas seja sincera.

Quatro dias sem dormir, insegura, perguntas e mais perguntas rondando minha cabeça, e agora meu namorado me acusando de mentir diante de um assunto tão sério. Eu não conseguia simplesmente manter a calma e tentar arrumar as coisas, tentar fazê-lo acreditar em mim. Não diante daquelas circunstâncias.

– Mas que merda?! – Foi minha vez de gritar. – Eu PERDI o nosso bebê, Gabriel. Eu já disse isso, e se precisar eu repito mais mil vezes – cerrei meus dentes – Eu. Perdi. O. Bebê. – Falei pausadamente. – Por que você não acredita em mim? Aquele enfermeiro deve ter te enganado. Você confia num desconhecido, mas não em mim?! PELO AMOR DE DEUS, GABRIEL! Se eu tivesse tirado esse bebê, eu ergueria a cabeça e te diria isso, eu não fujo das consequências das minhas escolhas. Mas eu não fiz isso, eu sou completamente inocente dessas suas acusações!

– Eu paguei muito caro para ele me passar a informação errada, Emma – ele disse com os dentes cerrados da mesma forma que eu. – E o que ele ganharia mentindo para mim? Ele estava ganhando aquele dinheiro praticamente de graça. Seja mais esperta.

Cruzei os braços e o encarei com mais firmeza ainda, embora por dentro eu estivesse começando a me sentir cada vez mais fraca e mais fraca.

– Você está me ofendendo.

– E você está mentindo pra mim.

– Eu vou dizer pela última vez – falei, travando o maxilar para não ceder espaço ao meu choro. – Eu não tirei o bebê, Gabriel.

– Eu não acredito em você– ele retrucou, parecendo chateado consigo mesmo por dizer aquilo… por ser sincero.

Assenti e engoli o nó que se formou em minha garganta. Olhei para os lados, evitando que Gabriel visse as lágrimas se formando em meus olhos e continuei balançando a cabeça. Ele não acreditava em mim. Não importava quantas vezes eu dissesse, não importava se eu jurasse, ele continuaria não acreditando em mim.

Virei as costas e caminhei até a sala, pegando minha bolsa em cima da poltrona de couro. Quando virei para Gabriel de novo, ele permanecia no mesmo lugar, olhando fixamente para o lugar onde eu estava segundos atrás.

Andei até a porta sem dizer sequer mais uma palavra. As lágrimas já rolavam livres pelo meu rosto, pois eu sabia que Gabriel só poderia ver minhas costas de onde estava. Quando toquei a maçaneta, engoli o choro e me esforcei para falar com a maior normalidade que conseguisse:

– Eu acho que você sabe que isso é um término – disse, fechando os olhos com força e sentindo as lágrimas caindo como cascatas.

Meu coração estava se despedaçando, havia um soluço preso em minha garganta. Doía falar aquilo, doía sentir aquilo.

– Agora você sabe por que eu não queria tocar nesse assunto – ele falou, e sua voz pareceu estar mais próxima, embora não o suficiente.

Droga, eu já sentia sua falta.

– Eu prefiro que seja assim – sussurrei e girei a maçaneta, abrindo a porta.

Saí do apartamento e, quando fui puxar a porta, senti um calor próximo de mim. Eu não precisava olhar para saber que era Gabriel. Mordi o lábio inferior para evitar que meu choro se tornasse alto e constante e apertei as alças da minha bolsa com mais força.

– Não venha atrás de mim – sussurrei num fio de voz –, por favor.

E puxei a porta, fechando-a e colocando-a entre Gabriel e eu.

Virei e olhei para a madeira, ainda segurando a maçaneta com força, sabendo que Gabriel estava do outro lado. Infelizmente, aquela porta não era a única coisa que me separava dele... aquela briga colocou uma montanha entre nós dois.

...

Ao sair do apartamento de Gabriel, tudo o que eu queria era não ficar lembrando-me dele – o que seria quase impossível. Meu apartamento foi descartado antes mesmo de eu pensar nisso, e eu saí do prédio em passos rápidos, enquanto lágrimas e mais lágrimas caíam por meu rosto. Eu não queria andar pela rua com todos vendo meus olhos vermelhos e meu rosto encharcado, mas eu realmente achava que pegar um carro naquele estado seria imprudência... Minhas mãos tremiam, minhas pernas estavam fracas e minha cabeça era uma grande bola de pensamentos embaralhados.

Gabriel não acreditava em mim.

E nós havíamos terminado. Fim. Não estávamos mais juntos.

A primeira coisa que pensei foi ir para a casa de Claire, seus braços eram meu refúgio e meu conforto, já que Gabriel não podia ser mais isso. Porém, depois de andar um longo percurso, percebi que seria egoísmo da minha parte. Claire era minha melhor amiga sim, e ela não se incomodaria de me abraçar e escutar meu choro e minhas lamentações por uma noite inteira, mas ela estava grávida e casada – eu precisava me lembrar disso. Precisava me lembrar de que ela estaria ali para mim sempre que eu precisasse, mas também precisava saber que ela agora tinha uma vida diferente e eu precisava respeitá-la por isso. Claire não poderia me amparar sempre que eu precisasse de um colo. Eu tinha que crescer, aprender a ser meu próprio apoio.

Acabei parando em uma pracinha perto da casa da minha melhor amiga. Era simples e estava vazia, já que fazia um frio insuportável. Estava escuro, e deveria ser umas oito ou sete horas da noite, mais ou menos. Sentei num banco de cimento, e fiquei virada de frente para o parquinho vazio, tirei meus sapatos de saltos que estavam acabando com os meus pés e a meia fina da cor da pele que estava usando, não me importando se estava frio ou não. Levantei do banco, pegando minha bolsa e deixando meu par de sapatos em cima do concreto, não me importando se alguém os roubaria, e fui até o parquinho, sentindo meus pés se afundarem na areia conforme eu andava até um dos balanços que tinham ali. Sentei nele e agarrei as correntes com as mãos, deixando minha bolsa pendurada em um dos meus braços e usando os pés para me balançar.

Deixei meus ombros caírem e fiquei olhando para o céu escuro coberto de estrelas no horizonte conforme o balanço ia para frente e para trás, enquanto permitia que o soluço preso em minha garganta por tanto tempo escapasse, e isso pareceu aliviar uma tonelada de peso em cima de mim. As ruas, a pracinha e as calçadas estavam todas vazias, tanto de carros como de pessoas, e a única coisa que ecoava som por ali era meu choro constante. Deixei que o vento frio e violento chicoteasse meu rosto, deixei que as mechas do meu cabelo batessem em minha face com força, deixei que minhas lágrimas caíssem uma atrás da outra, me permiti chorar soluçando como uma criança de cinco anos, deixei-me desafogar toda a mágoa naquele choro. Deixei-me desmontar numa fria noite de dezembro no meio de uma pracinha vazia.

Chorar não era a resposta para mim. Eu não estava fazendo uma grande descoberta e nem estava refletindo profundamente sobre o que aconteceria comigo daquele dia em diante, e eu não fazia ideia do que faria sem Gabriel – já era difícil antes, quando eu não sabia como era realmenter ter Gabriel, quando eu não sabia como era estar com ela numa relação de verdade, quando eu não sabia como era ser amada por ele em todos os sentidos e momentos; naquele momento era um pouco pior. Mas parecia a coisa certa a se fazer. Eu poderia pensar sobre o que faria no dia seguinte, eu poderia pensar com sensatez depois de uma longa noite de sono, porque eu realmente estava precisando de uma, mas naquele momento eu apenas precisava me aceitar caindo aos pedaços.

A única coisa realmente concreta naquele momento – e que doía feito álcool na ferida – era que Gabriel e eu já não tínhamos mais nada. E eu teria que me acostumar a viver sem ele... Não como antes, fugindo para os braços do meu pai e das responsabilidades de ser adulta, mas sendo uma adulta de fato: encarando aquilo com a cabeça erguida e força.

Meu choro ficou mais forte.

Eu seria forte no dia seguinte, mas naquela noite eu me permiti ser fraca e chorar.

Notas finais
E ai, gostaram? Sim, não, um pouco...? Acham que preciso melhor? Se sim, o que? E o que vocês acham que vai acontecer agora? Contem para mim. Comentem, pessoal, NOY está quase chegando ao fim! Beijos no core ♥ P.S.: O que acharam da nova capa? EU ACHEI TÃO FOFA!