Not Over You
16 Capítulo 15 - I belong to you
Notas iniciais
Essa festa iria me dar problemas. Eu sentia.
Depois que Gabriel e Ethan me deixaram sozinha no bar, eu fiquei pensando e havia decidido não ir à essa festa. Era só dar a desculpa de que eu estava cansada, o que de fato eu estava. Mas Claire chegou cerca de meia hora depois, me puxando pela mão sem mesmo dizer alguma palavra. E onde ela queria ir? Comprar um vestido novo. Para nós duas. Para irmos à festa.
– Estou tão animada! É a primeira vez que vamos à uma festa juntas em anos! – Claire falou empolgada, enquanto andávamos entre os turistas e moradores, procurando uma loja que parecesse no mínimo interessante para se entrar... quando eu estava prestes a abrir a boca para lhe dizer que não iria para a festa. – Dá para acreditar? Melhor amigas têm que ir à festas juntas! Ainda temos 24 anos, Emma, somos como adolescentes!
Eu estava decididamente ferrada.
Soltei uma gargalhada e dei um tapinha amigável no ombro de Claire.
– Nós realmente não somos como adolescentes! – Falei, abrindo um sorriso quando ela enrugou o nariz em uma careta. – Você está prestes a se casar.
– Emma, não seja tão careta – reclamou, parando de repente atrás de uma mulher na fila de uma barraquinha de sorvetes. – Casar não significa parar de viver. Matthew me conhece e sabe que eu adoro agitar! E você sabe que ele também adora uma festa.
– Eu fico imaginando como serão seus filhos – falei sinceramente, colocando a mão no queixo e fazendo uma falsa expressão pensativa.
– Perfeitos – sorriu. – Um de limão, por favor – falou para o menino que estava vendendo os sorvetes. Então voltou a me olhar: – Isso é claro, se não puxarem os defeitos do Matthew.
Revirei os olhos enquanto ela tirava dinheiro da carteira e pagava ao menino. Claire pegou seu sorvete e nós continuamos andando pela cidade. Porque sim, nós saímos do hotel e de seus luxos, abandonamos suas lojas, e saímos como duas boas turistas que éramos para passear na cidade.
– Você e seu irmão têm o mesmo ego inflado – comentei divertida, vendo Claire me mostrar seu dedo do meio logo depois, fazendo-me soltar uma gargalhada.
Sério, Claire Harrison realmente amava seu irmão mais velho. Só que ser comparada com ele era, para ela, a mesma coisa que ser chamada de pão com ovo sendo um Mc Donald's. Gabriel não era tão ruim assim, mas ele era aquele tipo de homem que é e sabe que é. Egocêntrico, sarcástico, mandão, possessivo, egoísta, sedutor, canalha... céus, quem quer ser comparado com alguém assim? Fora o que Claire mais abominava nele: sabe tudo. Gabriel era, de fato, muito inteligente. E adorava mostrar isso para o mundo por causa de sua mania de grandeza.
E ela odiava quando os outros diziam que eles se pareciam. Mas eles se pareciam sim, e muito. Ela própria sabia disso... só não aceitava. Ou preferia pensar nas qualidades que Gabriel, mesmo no meio de toda essa personalidade, conseguia ter.
– Certo, mudando de assunto – falou depois que ficamos alguns segundos em silêncio.
– Não tinha mais assunto nenhum... – comentei, apenas para chateá-la. Afinal, era isso que melhores amigas faziam.
– Enfim – me senti um pouco ignorada –, nós precisamos comprar vestidos. Vestidos que nos deixem sexy. Porque eu preciso garantir minha noite com meu noivo e você precisa transar.
Arregalei os olhos e virei o rosto para Claire, assustada, vendo a mesma cair em risadas menos de um segundo depois.
– O que deu em você hoje? – Perguntei incrédula, vendo-a ainda rir da minha cara.
Que melhor amiga vadia!
– Ethan me deu uma bebida que me deixou animada – falou dando os ombros.
Hum, eu precisava me lembrar de fugir dele nessa festa. E, se possível, no resto da viagem. Ele parecia disposto a embebedar as pessoas em qualquer horário do dia.
– Certo... mas não, eu ainda estou superando um rompimento – falei. E era verdade. Mais ou menos. Eu não estava exatamente chateada por ter terminado meu namoro, estava chateada por perder alguém como Ian.
– Aham, e eu sou Darth Vader – falou sarcástica. – Sério, Emma, acha que eu não vi você abraçadinha com meu irmão lá no bar? Safada! Matthew se matou de rir quando viu.
– Ei, eu não estava abraçada com ele – falei, me defendendo, meio envergonhada por ela ter visto aquilo. – Ele só queria me falar uma coisa, ué.
Claire se inclinou para o lado, em minha direção e falou baixinho em meu ouvido:
– Eu estou falando com você agora, e não precisei te agarrar.
Ela se afastou e começou a rir, provavelmente porque viu minhas bochechas ficarem vermelhas. Muito vermelhas. Mordi o lábio inferior e virei minha cabeça para o lado contrário em que Claire estava.
– E, para constar, eu não precisei te dar um beijinho também.
Revirei os olhos e lhe dei o dedo do meio, começando a andar mais rápido e ouvindo sua gargalhada um pouco atrás de mim.
– Não fique brava, Emma – falou, ainda rindo, e andando mais rápido para me alcançar.
Claire e eu andamos por mais uma meia hora até encontrarmos uma loja interessante. A vitrine tinha vestidos muito bonitos. E curtos, o que fez Claire quase me empurrar para dentro.
Uma das atendentes nos levou até a parte de vestidos e nos deixou olhando. E eu tinha que dizer, por mais que não gostasse de vestidos, aqueles eram extremamente bonitos. Era difícil dizer qual era o melhor dali. Eu nunca havia ido à uma loja em Londres que tivesse tantos vestidos bonitos.
– Certo, nós precisamos de uma coisa bem light – Claire falou, passando a mão por um vestido azul escuro, bem da cor que o céu costumava ficar de noite. – Porque é uma festa nas Bahamas. Tem que ser de noite, mas básico.
– Eu acho que esse aqui ficaria lindo em você – falei, pegando um vestido branco que era coberto por renda, de mangas compridas e que iria até um palmo e meio acima do joelho de Claire, e tinha as costas completamente nuas. Como ela era mais alta que eu, aquele vestido ficaria melhor nela, dando destaque em suas pernas.
– Meu Deus, que lindo – falou empolgada, e sorriu aberto. – Certo, eu vou prova-lo. E você vai ficar sentadinha ali – apontou para as cadeiras pretas na frente do vestiário –, porque eu já achei o vestido perfeito pra você.
Com um sorriso malicioso, que me deixou momentaneamente ansiosa, Claire entrou no vestiário com seu vestido branco. Não consegui nem ver o vestido que ela havia "escolhido" para mim, já que ela o abraçou fortemente e correu para o provador.
Alguns minutos depois, Claire saiu do provador. Ela estava tentando segurar o sorriso.
– Você também não amou? – Perguntou, virando de lado e se olhando no espelho maior que tinha ali.
É, ela realmente havia ficado linda. Poucas mulheres ficavam tão bem em um vestido branco como Claire havia ficado naquele. Suas pernas, que eram tão brancas quanto as minhas, haviam ficado mais longas e, eu tinha certeza, ficariam muito desejáveis em cima de um salto alto. O vestido também deixou sua bunda mais empinada.
– Olha isso, Emma, parece até que eu tenho bunda! – Exclamou feliz da vida, fazendo-me rir. – Não quero olhar mais nenhum! Tem que ser esse. Só na próxima vida eu vou achar um vestido que me dê tanta bunda assim.
– Concordo que ficou lindo – falei sorrindo.
– Certo, agora vá provar o seu.
Revirei os olhos e me levantei, vendo Claire se admirar na frente do espelho.
Entrei no provador e chutei levemente as roupas de Claire para o canto. Olhei para o lado do espelho e quase caí para trás quando vi o vestido pendurado ao lado. Céus, minha melhor amiga estava ficando louca.
– Eu não vou mesmo vestir isso – falei alto para que Claire ouvisse.
– Larga de ser fresca! – Gritou de volta. Eu iria proibir Ethan de dar bebidas para essa mulher. – Vamos, só experimenta, não vai arrancar pedaço.
Suspirei e comecei a me despir.
O vestido em questão era indecente. Pelo menos pra mim ele era. Era inteiro preto, de um tecido comum, mas com um tecido fino e transparente todo desenhado e bordado por cima. E ele acabava exatamente quando a minha bunda acabava. É, pois é. Era como se fosse tomara que caia, mas tinha duas alças caídas e um decote em V profundo. Profundo demais. Claire estava querendo que eu me mostrasse para o mundo.
Saí do provador vermelha de vergonha. Mais das minhas pernas estavam para fora do que eu era acostumava. E eu me senti sem nenhum sutiã ou blusa, ou qualquer coisa para cobrir meus peitos.
– Ficou muito lindo, Emma – Claire falou, parecendo impressionada, e andou até onde eu estava. Sim, ela ainda estava usando seu vestido branco e, quando eu apareci, ela ainda estava se olhando no espelho.
– Estou me sentindo nua – falei, encolhendo ainda mais os ombros.
– Fica quieta e endireita esse corpo – falou, colocando a mão em meus ombros, erguendo-os e endireitando-os.
Ela me empurrou até o espelho para que eu me olhasse.
Pois é, como eu imaginei, o vestido estava excessivamente curto. E quase não era capaz de manter meus peitos tampados e firmes. Céus, eu não podia usar aquilo publicamente nem se as galinhas começassem a falar inglês e as vacas nascessem roxas.
É claro que tinha ficado bonito, como Claire provavelmente havia pensado que ficaria. E eu estava me sentindo sexy, apesar de tudo. Mas não tinha mesmo coragem de usar aquilo. Gostaria de ter, mas não tinha.
– Vamos, Emma, não recuse um vestido assim – Claire falou. – Eu posso ser alguns centímetros mais alta, mas você tem peito e bunda de sobra... e eles têm que ser mostrados!
– Não têm, não – falei, me virando para olha-la. – Você sabe que eu odeio essa quantidade excessiva de peito!
– Argh, Emma, vamos – ela insistiu. – É só uma noite!
Mordi o lábio, pensativa. Eu não tinha coragem de usar um vestido como esse por uma noite inteira. Mas eu poderia ficar só um pouco na festa, certo? Não precisava ficar necessariamente durante ela toda. De qualquer jeito, eu ainda precisaria de muita coragem para sair usando algo tão... assim.
– 'Tá bem – falei, me dando por vencida e vendo um sorriso se abrir nos lábios de Claire. – Eu vou ficar com esse.
Claire deu um gritinho e bateu as mãos uma na outra, feliz da vida. Até parecia que estava ganhando um Grammy.
– Eu vou arrumar você.
– Eu sei me arrumar, Claire – falei. Eu realmente não queria que ela me arrumasse. Claire se animava fácil demais. – E esqueça isso de que somos como adolescentes, mulher!
– Vai se ferrar, Emma – ela falou, me empurrando de volta para o provador. – Eu vou te arrumar e fim de conversa.
Era só uma festa do hotel. E ela estava assustadoramente animada demais.
* * *
Admito, eu estava bonita. Ou, como Claire diria:
– Você está quente – a própria falou, parecendo ler meus pensamentos.
Sorri e mordi meu lábio inferior, assentindo com a cabeça. Eu não poderia negar que concordava, por mais que odiasse parecer convencida. Porque eu realmente estava bonita naquela roupa.
Quando eu finalmente coloquei meu sapato preto de salto pude ver como minhas pernas estavam a mostra e como isso as fez parecerem mais longas. Fora que meu cabelo estava solto e liso — já que Claire insistiu que meu cabelo ao natural, cacheado, me deixava com uma cara de menina indefesa e, segundo ela, eu precisava parecer uma mulher perigosa -, o que estranhamente também me fizera parecer mais alta. Pois é, eu estava adorando isso.
Claire caprichou na maquiagem. Fiquei mais de meia hora sentada esperando-a terminar. E confesso que valeu a pena. E eu nem gostava de maquiagem, quanto mais escura desse jeito. Ela havia abusado da sombra preta em meus olhos, dando um brilho com uma sombra cinza claro logo depois. Coloriu levemente minhas bochechas com um blush pêssego bem clarinho, alegando que minhas bochechas corariam por conta própria. Quase nem usou lápis de olho em meus olhos, apenas passou superficialmente no canto e puxou um "olho de gatinho", como ela mesma disse, para que eu não ficasse com o olhar caído. E eu definitivamente não fiquei. E, para completar, passou em meus lábios um gloss da cor da boca.
E isso que ela disse "light". Mas fiquei quieta, se eu dissesse alguma coisa ia parecer que eu não havia gostado da produção.
– Emma, seus olhos estão mais azuis do que o normal – Claire falou, ficando em minha frente e deixando seu rosto bem próximo do meu, olhando com atenção para meus olhos. – Ficou perfeito, definitivamente – sorriu e se afastou. – Eu sou incrível.
– Certo, então vai se arrumar agora, porque nós estamos atrasadas – falei, segurando-a pelo ombro e começando a empurra-la em direção ao banheiro. – Você demorou pra vir.
– É, eu estava tomando um drinks com os meninos – disse normalmente e sorriu, se desvencilhando das minhas mãos e correndo para a cama do meu quarto, pegou sua maletinha de maquiagem e então entrou correndo no banheiro, batendo a porta com força.
Mas que tipo de noivo, amigo e irmão esses homens pensavam que eram?
Sentei na cama e peguei meu celular para jogar um joguinho enquanto Claire se arrumava. E vi que Ian havia me deixado duas mensagens. Fiquei indecisa sobre abri-las, porque não queria mesmo ler algo que me fizesse sentir pior do que eu já estava me sentindo. Sim, eu havia sido egoísta e sabia. Só esperava que Ian não resolvesse jogar isso na minha cara já que eu terminei com ele.
"Espero que esteja se divertindo, garotinha, xx", era a primeira mensagem. Sorri ao ler.
"Ei, linda, espero mesmo que possamos continuar nos vendo. Você é uma pessoa incrível e seria ótimo te ter como uma amiga, xx", era a segunda mensagem.
Fechei os olhos e abri ainda mais o sorriso, me sentindo aliviada. Céus, como eu poderia imaginar que Ian jogaria alguma coisa na minha cara para me fazer sentir mal? Ele era bom demais para fazer algo assim.
– Como você está gostosa! – Ouvi e abri os olhos assustada, vendo Ethan parado na porta, segurando dois copos com alguma bebida. Ele estava com os olhos arregalados e balançou um pouquinho quando uma mão atrás dele lhe deu um tapa forte no ombro. – Quero dizer linda... você está linda – e sorriu.
– Obrigada – falei, devolvendo o sorriso.
Levantei da cama e arrumei meus vestido, me sentindo meio nua na frente de Ethan.
E, quando eu estava prestes a andar em sua direção, ele deu um passo para o lado e Gabriel entrou no quarto, fazendo-me congelar no lugar onde estava. Pior do que estar usando aquele vestido era estar usando aquele vestido na frente de Gabriel. Seus selvagens e brilhantes olhos verdes se arregalaram ao me ver e então, depois de se recuperar do que me pareceu um choque, ele os desceu por meu corpo todo, avaliando cada pedacinho de mim como se fosse uma coisa muito interessante. Ou como se eu fosse como uma torta de chocolate para alguém que estava muito faminto.
E, sabendo que seria patético correr para o banheiro e me trancar lá com Claire, eu apenas fiquei ali e aproveitei para olha-lo bem. Gabriel estava usando uma calça jeans escura um pouco mais colada do que ele costumava usar, o que o deixou mais sexy do que o normal. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas até uns quatro dedos abaixo do cotovelo, e com os primeiros botões abertos, dando um leve vislumbre de seu peito malhado. E para completar, usava uma bota preta de cadarços de cano baixo desamarrada.
Estava vestido para ninguém colocar defeito.
E seu cabelo estava arrumado do jeitinho que eu gostava: bagunçado. Mas não um bagunçado adolescente. Era um bagunçado selvagem que combinava perfeitamente com seus olhos.
Eu perdi o fôlego momentaneamente.
– É – ele falou baixinho, com a voz rouca, como se estivesse falando apenas para si mesmo, enquanto ainda descia os olhos incansáveis vezes pelo meu corpo. – Linda é definitivamente uma das palavras.
Sorri de lado, sentindo minhas bochechas corarem.
Eu queria saber quais eram as outras palavras.
– Estou pronta – ouvi Claire falar e me virei para trás, vendo-a sair do banheiro.
Ela estava usando o vestido branco que nós havíamos comprado naquela tarde, e calçava uma sandália de salto fino azul escura. Seu cabelo loiro estava ondulado, como sempre, mas agora ela usava um franjão e havia deixado liso e solto, jogado para o lado. A sombra em seus olhos era uma mistura de azul escuro e preto, que deixara seus olhos verdes amendoados maiores e bem destacados. Não estava com o olho de gatinho igual a mim, mas seus olhos estavam contornados de lápis preto. E usava um batom vermelho sangue nos lábios.
Realmente, abusando das cores.
E estava linda.
– Onde está meu noivo? – Ela perguntou alto, andando até onde eu estava e jogando sua maletinha de maquiagem em cima da cama.
– Aqui, amor – ouvi a voz de Matt e, logo depois, Gabriel foi jogado "gentilmente" para o lado e o mesmo apareceu. – Nossa, Claire – falou surpreso, caminhando até a noiva e a agarrando pela cintura. – Você está perfeita – e abaixou a cabeça, passando seu nariz pelo pescoço de Claire e o cheirando.
Eles tinham essa coisa de demonstrar carinho em público. E era assustador como nunca acabava. Eu pensava que eles ficariam assim só no começo do namoro. Mas depois de sete anos, prestes a casar, eles ainda tinham isso.
– Por que estava fora do quarto? – Ela perguntou quando eles se afastaram e ele a abraçou pela cintura.
– Eu estava vendo o seu irmão secando a Emma – respondeu sorrindo.
Eu corei violentamente, de uma maneira quase sobrenatural. Matthew tinha que aprender a deixar a língua dentro da boca, embora eu suspeitasse de que estava soltinho assim pelos drinks que tinha tomado. Levantei os olhos para olhar Gabriel e ele estava dando um sorrisinho sarcástico para Matt, que só gargalhou e ignorou. Porém, talvez percebendo que eu o olhava, ele virou os olhos para me olhar e mordeu o lábio disfarçadamente, piscando para mim logo depois. E então virou os olhos e olhou para o resto do pessoal no quarto.
Senti meu coração palpitar com mais força depois disso.
– Então, vamos? – Ethan perguntou animado e nós assentimos.
Claire e Matthew saíram do quarto primeiro. E eu fui logo atrás, porém, quando fui passar pela porta, Ethan colocou na minha frente um dos copos que estava segurando. Virei o rosto para olha-lo e ele estava sorrindo.
– É o único – falei, peguei o copo, e levei até a boca, virando-o e engolindo o líquido de uma vez só. Era Whisky.
Eu não podia me julgar por isso. Era só para criar coragem de sair com um vestido daqueles.
Entreguei o copo para Ethan e vi que ele também havia tomado sua bebida de uma vez. Ele virou o corpo e colocou os dois copos em cima de uma cômoda de madeira escura que tinha ali. Eu saí do quarto e caminhei para fora da suíte, mas parei e esperei Ethan e Gabriel quando já estava no corredor.
Logo os dois saíram também. Gabriel trancou a porta de se colocou ao meu lado direito, enquanto Ethan parava ao meu lado esquerdo. Os dois estenderam os braços e eu sorri. Passei um dos braços pelo de Gabriel e o outro pelo de Ethan.
Senti-me feliz por estar apenas alguns poucos centímetros mais baixa que eles dois.
Saltos realmente faziam milagres.
– Vamos lá, vamos fazer as mulheres daqui te odiarem mais um pouco – Ethan falou, começando a andar e, consequentemente, levando Gabriel e eu junto. Eu gargalhei, assentindo com a cabeça.
Quando chegamos ao salão onde ia ser a festa, Claire e Matt estavam nos esperando na porta, e nós entramos todos juntos.
E, uau, o lugar estava lotado. E era enorme. Se não estivesse o hotel inteiro ali dentro, eu diria que estava, pelo menos, 90% dos hóspedes. As pessoas andavam para lá e para cá, e o ponto principal eram os bares que ficavam nos cantos. Bem, se eu achava que estava muito indecente, era porque ainda não tinha visto as mulheres que estava lá. Tudo bem, era uma festa na praia, mas elas estavam demais. Ou de menos, porque o que menos tinha nelas era roupa.
De qualquer jeito, quem era eu para julga-las? Que aproveitassem assim.
– Está bem cheio aqui – Claire comentou em meu ouvido quando chegamos perto de um dos bares.
– Bastante – falei, concordando. – E olha, até que não está mal – passei meus olhos discretamente por um homem que estava passando do nosso lado naquele momento, e Claire me acompanhou. Ele estava usando uma camisa aberta, deixando seu belo peitoral a mostra para quem quisesse babar.
– Uh, já vi que você continua fraca – ela falou, piscando para mim e me fazendo rir.
Eu definitivamente era fraca para bebidas.
E Ethan sabia muito bem disso.
– O que você quer beber? – Gabriel perguntou em meu ouvido por trás de mim, fazendo-me quase dar um pulo de susto, e me fazendo arrepiar com sua voz grossa e com seus lábios tocando levemente em minha orelha.
Virei o rosto para o lado, para lhe responder, e quase pude sentir arrependimento. Embora eu não sentisse mais seus lábios, ele continuava muito perto, e quando eu virei meu rosto, nossos rostos ficaram muito próximos um do outro. Fiquei quieta por alguns segundos, enquanto ele mantinha seus olhos grudados nos meus, esperando uma resposta.
– Uma coisa fraca – respondi, sentindo minha voz falhar. – Você me conhece.
Ele sorriu.
– Claro.
Ele se virou para o bar e eu voltei a olhar para Claire, que sorria e tomava alguma coisa em um copo com um canudinho colorido; de olhos arregalados.
– Perdi alguma coisa? – Perguntei, me inclinando para frente para falar perto de sua orelha.
– Eu quem pergunto – ela disse rindo.
Revirei os olhos e, quando abri a boca para lhe responder, senti uma mão em minha cintura. Virei a cabeça e, mais uma vez dei de cara com Gabriel bem perto de mim. Ele manteve sua mão onde estava e se aproximou mais, colando seu peito em minhas costas. Sua outra mão apareceu na minha frente, segurando um copo com uma bebida colorida e um canudinho como o da Claire.
– Pra você – falou em meu ouvido.
– Obrigada – falei lhe dando um sorriso sem mostrar os dentes e pegando o copo de sua mão.
Virei-me para Claire de novo, esperando que Gabriel me soltasse, só que... ele não soltou.
Eu fiquei conversando com Claire e com Matthew, fingindo que ter Gabriel me abraçando por trás daquele jeito era a coisa mais normal do mundo, quando na verdade meu estômago estava se revirando e meu coração batendo cada vez mais rápido. Esse nervosismo me fez tomar a bebida inteira em questão de minutos.
Então Ethan, que eu nem tinha visto quando e onde se separou de nós, apareceu todo animadinho, usando algumas pulseirinhas coloridas. Seu cabelo castanho, normalmente bem penteado, estava bagunçado, e seus olhos cor de mel estavam rodeados por um vermelho fraquinho. Sua camiseta branca estava um pouco desajustada no corpo e ele já não usava mais a jaqueta de couro que estava vestindo quando fomos para a festa.
– Sério, eu amei isso aqui – Ethan falou, se encostando no balcão no meio de Claire e eu e pedindo um copo de Whisky para o bartender.
– A gente consegue notar – eu falei rindo.
Ele se virou pra mim com um sorriso e eu ri. Levantei as mãos e tentei arrumar seu cabelo, que não era nem muito maior nem muito menor que o de Gabriel, o deixando daquele jeito arrumado meio bagunçado, como eu costumava fazer quando arrumava o cabelo de Gabriel quando nós nos pegávamos em algum canto escondido de algum lugar e depois tínhamos que sair de lá como se nada tivesse acontecido... como se ninguém soubesse o que estávamos fazendo.
– Ei, dança comigo, Emma – Ethan falou, pegando minha mão e começando a me puxar, mas alguma coisa, ou melhor, alguém me segurou. E esse alguém era Gabriel. Ele apertou minha cintura com força, me mantendo no lugar.
– Não dá – Gabriel disse, e então saiu de trás de mim, deslisando sua mão pela minha cintura para segurar na minha, e colocou seu copo vazio de Whisky em cima do balcão. – Porque ela vai dançar comigo agora – se virou e deu um tapinha no ombro de Ethan, entrelaçou nossos dedos e começou a se enfiar no meio das pessoas. Levando-me junto com ele.
Andamos um pouco, até ficar no meio da pista de dança, no meio de todas aquelas pessoas que dançavam animadamente. Gabriel parou e se virou, puxando-me pela cintura, colando seu corpo ao meu com um baque — e me deixando momentaneamente sem fôlego -, e logo então soltando minha mão para me abraçar com os dois braços. Seus olhos, que estavam escurecidos pela falta de luz, fitaram os meus por longos segundos antes de descerem para a minha boca.
Por causa de nossos corpos excessivamente colados, nossos rostos estavam bem próximos um do outro, o que fazia meu auto-controle ir abaixo de zero. E isso definitivamente não era bom.
Quando pensei em me afastar ou dizer que nós devíamos voltar para o bar, para perto de todos, já que não estávamos dançando; Gabriel deslizou seus braços pelo meu quadril a apertou suas mãos nele, uma de cada lado, puxando-a para que se colasse ao seu. Engoli em seco. Ele desceu seu rosto e deu um selinho em meu queixo, surpreendendo-me ao virar meu corpo bruscamente logo depois, não demorando nem segundos para colar minhas costas ao seu peito.
Cause once you’re mine, once you’re mine... there’s no going back.
Ele movimentou minha cintura com as mãos no ritmo da música, acompanhando meu corpo com o seu. E continuou nos movimentando, para frente e para trás lentamente, para baixo e para cima, tão sensual quanto a música, fazendo nossos quadris se moverem juntos. Coloquei minhas mãos em cima das suas, querendo impedi-lo de continuar, porque eu já podia sentir suas mãos fazendo-me deixar levar; porém, quando o fiz, ele começou a subir as mãos pelo meu corpo, levando as minhas junto. Quando chegou perto da lateral dos meus seios, virou minhas mãos, entrelaçando nossos dedos, e as guiou para trás, para que eu segurasse em seu pescoço.
Quando minhas mãos agarraram por vontade própria sua nuca e eu joguei a cabeça para trás, deitando-a do lado direito de seu ombro, Gabriel desceu uma das mãos até meu ventre e forçou meu corpo para trás, certificando-se de nos deixar bem colados, e levou a outra mão até a minha perna esquerda, segurando-a com força. Virou o rosto para o lado do meu pescoço que estava totalmente vulnerável e o afundou ali.
Deixei-me levar pela música e pelas mãos do Gabriel, sentindo meu corpo se esquentar um pouco mais a cada vez que ele descia nossos corpos. E então, aos poucos, conforme a música rodava, comecei a me mover por conta própria. E pude sentir um beijinho no meu pescoço antes que Gabriel levantasse a cabeça e olhasse para sua mão que estava em meu ventre, subindo-a devagar, até deixa-la espalmada debaixo do fecho frontal do meu sutiã.
A música acabou, fazendo-me soltar Gabriel. Outra música começou, e ele voltou a descer as mãos para a minha cintura, me girando para ficar de frente para ele novamente e me puxou, deixando uma perna no meio das minhas, voltando a colar nossos corpos. Uma de suas mãos foi para a minha perna novamente, e a outra agarrou a lateral direita do meu quadril com firmeza.
– Precisamos mesmo dançar assim? – Perguntei, me referindo aos nossos corpos colados, mas não porque eu queria que ele parasse. Só para não parecer... maleável demais.
– Claro – ele cochichou em meu ouvido, e eu podia ter certeza de que sorriu. – Se não perde a graça.
E assim dançamos mais quatro ou cinco músicas, enquanto eu tentava não pensar que já não estava mais incomodada por estar tão próxima dele, ou por estar sendo tocada tão firme e sensualmente por suas mãos. Tentei não pensar que já não estava mais desconfortável porque ali, em seus braços, com o ritmo da música, senti que éramos perfeitos. Nos movimentando juntos, um no ritmo do outro, de maneira sensual... de algum jeito que eu sabia que pertencia apenas à nós dois.
Não queria desgrudar nossos corpos, por mais calor que estivesse. Eu sentia gotas de suor escorregarem por meu colo e traçarem linhas até meu busto, mas não me importava o suficiente para me fazer sair do braços de Gabriel naquele momento.
– Vamos tomar alguma coisa? – Ele perguntou em meu ouvido, subindo sua mão da minha perna esquerda até a lateral da minha cintura, deixando nossos corpos darem um tempo um do outro.
Senti falta do toque instantaneamente.
Era isso que Gabriel provocava, era nisso que dava estar com ele.
Então eu precisava parar.
– Claro, vamos – falei, sentindo meu coração acelerar.
Enquanto dançávamos, minha mente vagou e eu fiquei concentrada apenas em aproveitar o momento, foquei meus sentidos para nossos corpos dançando juntos e para o prazer e calor que aquilo me dava. E então, só depois de largar seu corpo, percebi a maneira como havíamos dançado, lembrei de como eu tinha praticamente me entregado sem pensar em mais nada naquela pista de dança... meu coração se desesperou dentro do peito.
Virei para frente e senti as mãos de Gabriel na altura da minha costela, e o calor de seu corpo bem próximo ao meu, embora só o tocasse leve e superficialmente, sem uma vontade oculta. Ele me guiou para que saíssemos do meio daquelas pessoas e voltássemos para o bar onde provavelmente Ethan, Claire e Matt já não estariam mais.
– O que vai querer? – Ele perguntou quando chegamos ao bar, parando em minha frente enquanto em me sentava em um dos banquinhos que tinham ali.
– Whisky – respondi de bate-pronto, fazendo-o me olhar com os olhos semicerrados. – O que foi?
– Tem certeza que quer Whisky? É meio forte pra você, e eu pensei que não quisesse beber – falou, soando um tanto quanto preocupado. Olhei torto para ele, claramente mostrando a confusão em minha cabeça. Gabriel nunca havia agido desse jeito, tão... protetor.
– Eu aguento – falei por fim, vendo que minha careta de confusão não foi o suficiente para fazê-lo tirar a expressão preocupado do rosto.
Ele estreitou os olhos para mim, mas virou para pedir as bebidas ao bartender sem falar mais nada.
Gabriel pediu Whisky também, mas isso era normal. E ele não ficava bêbado. Pois é, além de bonito, egocêntrico, inteligente e desejado... o desgraçado não ficava bêbado.
Respirei fundo, dando um gole na minha bebida. O álcool já estava mexendo com a minha cabeça.
Girei o banquinho para ficar sentada de lado e vi Gabriel me olhando, sentado do mesmo jeito que eu. E ele sorriu quando me virei em sua direção.
– Você melhorou desde a última vez que dançamos – falou divertido, fazendo-me revirar os olhos e lhe dar um sorriso logo depois.
– Nunca dançamos assim para você poder falar isso – rebati, mordendo o lábio para evitar que meu sorriso se aumentasse e dando um gole na bebida quando ele fez uma careta.
– O que é uma pena! – Disse, e pareceu viajar em seus próprios pensamentos por alguns segundos, mordendo o lábio inferior.
Senti minhas bochechas corarem.
Ele suspirou e desceu do banquinho, dando apenas um passo para ficar perto de mim. Colocou uma mão em minha cintura e, depois de colocar seu copo em cima do balcão, levou sua outra mão até meu pescoço, deixando seu polegar acariciar minha bochecha. Senti as pontas de dos dedos de Gabriel apertarem minha cintura e olhei instintivamente para ela, lembrando que ele costumava fazer isso quando pensava demais.
Um suspiro alto me fez voltar a olha-lo nos olhos.
– Você é linda – falou, e aproximou mais seu rosto, fazendo nossos narizes se tocarem.
Engoli em seco, sentindo meu coração dando fortes batidas, me fazendo acreditar que saltaria para fora a qualquer momento. Minha barriga gelou, e eu podia sentir aquelas famosas borboletas no estômago. E, céus, eu não tinha forças para me afastar.
– E quais são as outras palavras? – Perguntei, me lembrando do que ele tinha dito em nossa suíte, notando minha voz sair descompassada.
Baixei meus olhos para sua boca e o vi sorrir.
Gabriel deslizou sua boca pela minha bochecha, até chegar em meu ouvido, e com a voz baixa, de um jeito que eu quase não pude ouvir, sussurrou em meu ouvido:
– Eu te falo em um momento mais... propício.
Meu coração foi a mil. Minhas mãos começaram a tremer e se eu ficasse de pé naquele momento, tinha certeza de que minhas pernas não me sustentariam. Estando daquele jeito, me senti como a Emma de 18 anos, que estremecia com cada provocação de Gabriel, que vibrava com cada beijo, que se contorcia com cada toque. Mas é claro que eu ainda me sentia assim. Ele tinha esse poder sobre mim.
Ele se afastou, tirando suas mãos de mim e voltando a se sentar no banquinho. Poucos segundos depois e Claire e Matthew estavam parados ao nosso lado, abraçados.
– Nossa, vocês sumiram! – Claire falou.
– Estávamos dançando – Gabriel falou e então sorriu de lado, pegou o copo de Whisky que tinha deixado em cima do balcão e deu um gole na bebida.
– Nós também – Matthew falou, e depois riu. – Ethan está dançando com uma mulher faz uns quinze minutos.
– Quem é? – Perguntei com curiosidade.
– Ela se apresentou como Rocky – Claire falou, se soltando de Matt. Se inclinou no balcão, ficando entre Gabriel e eu. – Uma Vodca com halls – pediu ao bartender, que sorriu e assentiu. – E Ethan disse que ela era legal demais para ser "pegável" – falou, ainda sem olhar para nós, e gargalhou.
– Ethan é foda – Gabriel falou rindo, mas não era um elogio. Era mais como "Ethan fode com tudo mesmo".
– Vodca com halls? – Perguntei, me referindo ao pedido de Claire, que agora já estava em suas mãos.
– É uma maravilha – ela disse sorrindo, de volta aos braços do noivo. – Ethan que me apresentou.
– Pois é – Matthew comentou. – Como Gabriel disse, Ethan é foda. – E nós rimos, enquanto eu concordava com a cabeça.
Nós ficamos conversando por mais alguns minutos, minutos esses em que, algumas vezes, Gabriel pegava em uma das minhas mãos e ficava brincando com meus dedos, até se distrair em uma conversa com Matthew e solta-la, só para pega-la de novo algum tempo depois. Até que o toque inicial de uma música encheu o lugar, fazendo Claire e eu nos olharmos de olhos arregalados, e então:
Let's go girls!
– Ai meu Deus! – Claire exclamou animada.
– Não acredito que essa música ainda é tocada! – Disse perplexa.
C'mon.
– Pista. De. Dança. Agora! – Falou pausadamente e saiu dos braços de Matthew, segurando minha mão e me puxando, quase me fazendo cair do banquinho.
Claire nos guiou para o meio da pista de dança, mandando Gabriel e Matthew ficarem no bar enquanto dançávamos essa. Porque era nossa música.
Nós duas dançamos essa música — na verdade, Claire ficou imitando o jeito que Shania Twain cantava no vídeo com todo o gás, enquanto eu ria de sua performance e, às vezes, a acompanhava — e mais quatro ou cinco.
– O que aconteceu? – Ela perguntou enquanto dançávamos.
– Por que? – Perguntei confusa.
– Você é muito óbvia, Emma – disse rindo e me fazendo corar. Fazer minhas bochechas corarem era a nova onda do momento. – Está toda feliz e nem percebe.
– Não aconteceu nada – falei e ela me olhou desconfiada. Mordi o lábio inferior e suspirei. Era difícil falar alguma coisa em um projeto de balada, porque só se dá pra conversar gritando. Aproximei-me um pouco mais de Claire, embora já estivéssemos perto. – Seu irmão está estranho.
– Eu sei – ela falou. – Mas é um estranho bom.
– Mas é – concordei. – É por isso que é estranho.
– E o que você acha disso? – Perguntou, e eu me vi extremamente confusa.
Não sabia o que achava. Se achava aquela mudança boa ou se a achava ruim. Bem, com certeza eu gostava dela, mas desconfiava. E muito. E tinha motivos de sobra pra isso. Por mais que ainda doesse pensar em Gabriel e ama-lo, já não doía como antes. E eu já havia curado alguns machucados... seria imprudência demais arrumar novos.
– Eu não sei o que achar – admiti. – Porque não sei o que se passa pela cabeça dele. E, depois de tudo o que nós passamos, eu não sei se consigo confiar nessa mudança – ela suspirou e assentiu. Eu sabia que ela entendia o que eu estava querendo dizer. – Parece que Gabriel muda de cabeça toda semana... sempre com novas maneiras de enxergar as coisas.
– Pode ser que ele esteja enxergando as coisas da maneira certa dessa vez.
É, pode ser, mas e se não for?, pensei.
Abri a boca para responder Claire, mas fui interrompida por uma mão quente que foi colocada em minhas costas suavemente. E, logo depois, Matthew e Gabriel apareceram na minha vista, ambos sorrindo.
– Estão se divertindo sem nós? – Matt perguntou.
– Mas é claro – Claire respondeu e sorriu quando ele fez uma careta. – Como pode ter duvidas disso? – Brincou e Gabriel e eu rimos, enquanto Matt fazia um biquinho.
– Sem problemas, vou ali onde uma ruiva está deixando os homens pegarem tubinhos de bebida entre seus peitos com a boca – ele falou, e se preparou para virar, mas Claire o segurou e jogou os braços em volta de seu pescoço, lhe dando um selinho demorado e estalado, enquanto ele abraçava sua cintura.
– Eu te amo, homem – falou quando separou sua boca da dele, fazendo-o rir. E a mim e Gabriel também.
Nós quatro dançamos juntos, em um tipo de rodinha, só que mais apertada. Eu dancei com Claire, dancei com Gabriel, dancei com Matthew. E Claire dançou com todos também, assim como Gabriel e Matt. O mais engraçado, tenho que dizer, foi ver os dois homens dançando juntos. Eu podia jurar que havia um grupo de rapazes olhando para eles com um certo tipo de desejo.
– I want you to want me. I want you to need me. I want you, to hear my confession? I want to be your obsession – Gabriel sussurrou em meu ouvido enquanto dançávamos, não seguindo o ritmo da música, porque ele não cantou, apenas... falou.
Para me provocar.
Mais alguns segundos e a música acabou, fazendo Gabriel virar meu corpo para que eu ficasse de frente para ele, me deixando de costas para Claire e Matt. Parecia não se importar nem um pouco de estar fazendo seja lá o que ele estivesse fazendo na frente dos dois. E ele costumava se importar.
Gabriel não fazia as coisas na frente dos outros. Só quando tinha um ataque possessivo e não conseguia se controlar.
Para a minha surpresa, a música que preencheu o lugar era calma. Olhei ao redor, principalmente para fugir dos olhos intensos de Gabriel, e vi que aos poucos as pessoas foram formando casais.
Não aguentei e voltei a olhar para Gabriel, que havia me abraçado pela cintura e balançava nossos corpos de um lado para o outro, em uma dança totalmente clichê e simples, o que não combinava em nada com ele. E eu, sem perceber, já havia enlaçado seu pescoço com meus braços. Seus olhos estavam me fitando com exatidão, com uma certeza absoluta, quase gritante.
Aquele olhar fez um fio gelado passar por minha espinha, arrepiando todas as partes do meu corpo. O modo como Gabriel me olhava me causava arrepios e eu sempre me perguntava como ele era capaz de fazer aquilo. Aquele verde sem fim de seus olhos era capaz de me fazer cometer as mais impensáveis loucuras. E me lembrava de como era intenso estar com ele, de como era bom, de como me fazia completa.
Senti um nó em minha garganta e, antes que eu percebesse, levei minhas mãos até as laterais de seu pescoço, e comecei a acariciar suas bochechas finas e ásperas por causa da barba com meus polegares, exatamente como ele havia feito comigo há um tempinho.
Desci meus olhos para seu nariz, vendo o desenho perfeito que ele formava, e então olhei para suas bochechas, lembrando das suaves cócegas que sua barba ralada fazia em mim. Meus olhos foram para suas mandíbulas e eu sorri minimamente, passando o dedo indicador por elas e sentindo que estavam rígidas.
E, para completar, morrendo de vontade, escorreguei meu olhar para sua boca, vendo-a entreaberta e sentindo a respiração calma de Gabriel se chocar levemente com meu rosto. Seus lábios estavam rosados, como de costume, e eu senti vontade de toca-los. Mas com os meus.
Suspirei e subi meus olhos para olhar nos seus novamente, mas os encontrei fechados.
Gabriel tinha uma expressão tão serena no rosto, como se estivesse passeando no parque ao lado de um anjo. Como eu costumava ficar quando ele me aconchegava em seu peito para dormirmos.
Fechei meus olhos e aproximei nossos rostos, fazendo com que nossos narizes se tocassem. Rocei meus lábios entreabertos nos seus, sentindo todo o meu corpo ser a favor daquele toque, sentindo minhas energias começarem a se concentrar naquele momento, sentindo meu coração palpitar com força e minha mente se preparar para ser desligada.
Porém...
– Eu não posso – sussurrei, embora tivesse certeza que Gabriel havia ouvido, e me afastei dele, fazendo-o abrir os olhos e escorregar suas mãos, soltando-me. – Não posso fazer isso, Gabriel – disse, e me virei para sair dali o mais rápido possível. E vi que Ethan estava assistindo toda aquela cena, e me acompanhou com os olhos enquanto eu passava por ele e ia embora. E, por mais bêbado que estivesse, sua expressão era séria.
Eu não podia fazer aquilo. Não podia me jogar de cabeça em uma coisa que havia me feito sofrer tanto, porque ficar com Gabriel era isso. Era me jogar de cabeça sem ter certeza das coisas, era me jogar sem saber se conseguiria levantar. Era essa enorme incerteza. Eu não sabia se alguma coisa estava diferente em sua mente, não sabia como alguém era capaz de mudar tanto de um dia para o outro e ficar pensando naquilo apenas serviria para me enlouquecer, porque eu nenhuma resposta eu conseguiria chegar.
Quando saí do salão da festa percebi que estava chovendo. Chovendo forte. Mas eu não poderia me importar com aquilo agora. Pegar um resfriado não era nem de perto tão ruim quanto me deixar desmoronar em Gabriel. Abracei meus braços com força e comecei a andar rapidamente, odiando momentaneamente meu sapato, que apenas me impedia de andar mais rápido.
– Emma! – Ouvi a voz de Gabriel gritar entre as gotas de água que se chocavam ao chão com força, e tentei andar ainda mais rápido.
Não sei como, mas em alguns segundos Gabriel já havia me alcançado e já me puxava pelo braço, me deixando de frente para si. Ele estava molhado da cabeça aos pés, como eu provavelmente deveria estar, com sua camisa branca totalmente grudada ao seu peito e barriga e praticamente transparente. Seu cabelo molhado grudava em sua testa e as gotas da chuva escorriam depressa por seu rosto, dando passagem para as que vinham logo atrás. Lindo, definitivamente lindo.
– Deixe-me em paz, Gabriel! – Gritei, puxando meu braço com força.
– Por que eu deveria? – Ele gritou de volta, parecendo alarmado. E, por mais que ele tivesse perguntado aquilo, algo em seu olhar me dizia que ele sabia a resposta, mas não queria ouvir.
– Eu não posso fazer isso! – Disse, ainda gritando, entrando em um certo estado de desespero... se ele insistisse mais um pouco eu não aguentaria.
Era o meu limite.
– Por que não? – Ele perguntou, mantendo o mesmo tom de voz que eu, e eu o encarei incrédula. – Eu sei que das coisas que fiz, Emma, mas...
– Mas nada! – Respirei, ofegante. – Você não apenas me magoou, Gabriel. Você me magoou e não se importou. E eu não sei o que esperar de você, entende? Eu ainda tenho fortes sentimentos, meu coração ainda se aperta quando me lembro de você, minha respiração ainda falha quando você está por perto e meus pensamentos ainda me traem quando tento te esquecer – mordi meu lábio inferior, sentindo minha garganta se apertar.
Eu não sabia se ainda tinha forças para continuar falando. Mas eu tinha que falar. E Gabriel tinha que me ouvir. Precisava fazê-lo entender que deveria se manter longe, precisava despertar algum tipo de piedade nele. Tinha que fazer Gabriel pensar em alguém que não fosse ele pelo menos uma vez na vida.
Porque eu já não aguentava mais.
– Eu não tenho certeza se conseguirei levantar se me jogar nisso outra vez... e eu não quero derramar as lágrimas que eu derramei mais. Eu não quero, Gabriel. – Suspirei novamente, tomando fôlego. – Isso me magoou... me marcou. – Senti lágrimas descendo por minhas bochechas, se misturando com as gotas de chuva. – Eu estava esperando um filho – falei, mais baixo dessa vez, e funguei. – Talvez você não tenha noção do quanto certas coisas me marcaram. Talvez você não consiga entender o quanto eu sofri, Gabriel... mas eu quero que você entenda.
Ele ameaçou se aproximar e eu me encolhi, olhando para baixo.
– Eu preciso que você entenda – falei, e voltei a olha-lo nos olhos.
– Você não vai conseguir acreditar se eu disser que quero fazer as coisas certas dessa vez, não é? Não vai acreditar em mim se eu disser que o que nós tivemos, o que nós temos, também me marcou?
– Se fosse assim, você não teria me desdenhado quando ouviu tudo o que eu disse para Claire – falei com firmeza. Eu não conseguia esquecer aquele dia, não conseguia esquecer o que eu senti, nem a forma como ele agiu depois de saber tudo o que eu sentia, como doeu. – Você simplesmente virou as costas e passou a me ignorar, como se eu fosse uma louca que você deveria manter distância. Isso me magoou ainda mais.
– O que você faria se soubesse que magoou a pessoa mais importante da sua vida? – Ele rebateu de bate-pronto, ofegante, parecendo ficar desesperado.
Podia jurar que meu coração parou por alguns segundos. Minha respiração travou, meu corpo paralisou. O meu mundo foi colocado em modo de espera. Aquelas palavras me atingiram com força, como uma grande pedra atingiria uma pequena borboleta indefesa. Eu havia esquecido como respirar, como falar e até como pensar. Meus sentimentos, naquele momento, foram calados. Tudo o que eu acreditava se colocou em dúvida. E então eu já não sabia de mais nada.
Não sabia pensar, nem reagir. Não sabia, principalmente, o que pensar ou como reagir.
– O que você faria, Emma? Porque a única coisa que se passou pela minha cabeça foi não te machucar mais de nenhum jeito – ele falou, ainda com a respiração ofegante, parecendo cada vez mais desesperado. Provavelmente por causa do meu silêncio. – E, por mais que eu quisesse, ficar comigo só te faria mal, eu tinha certeza. Tinha certeza de que era ruim demais pra você depois do que ouvi, aliás, eu já tinha certeza disso antes, mas te queria tanto que ignorei – ele respirou fundo, e engoliu em seco, parecendo incerto sobre continuar ou não. – Mas então, ver você chorando daquele jeito, ouvir você falando o que falou – mordeu o lábio inferior, e olhou para cima por alguns segundos antes de continuar. – Porra, Emma, eu me senti o maior verme do universo. Senti uma coisa tão, mas tão ruim que não consigo nem explicar... Machucar você me machucou – seus olhos se tornaram quase suplicantes, mas eu continuava sem falar nada. Não conseguia pensar naquele momento. – Mas eu vi que, por mais que quisesse te ver feliz, eu te queria feliz ao meu lado. Você até pode me superar, Emma, mas eu não posso superar você. E não posso dizer que me arrependo por ter sido egoísta dessa vez.
Meu coração batia mais rápido do que nunca. Eu estava ouvindo Gabriel falar coisas que eu nunca imaginei que o ouviria dizer. Definitivamente, naquele momento, ou minha mente estava totalmente paralisada ou meus pensamentos eram tão confusos e barulhentos que eu preferi, inconscientemente, não ouvi-los; porque nada se passava por minha cabeça. Eu não sabia o que dizer, nem o que fazer.
Apenas fiquei olhando, ainda perplexa e sem palavras, enquanto Gabriel se aproximava um ou dois passos de mim, deixando nossos corpos próximos, mas sem se tocarem. Fiquei olhando em seus olhos enquanto ele pegava minha minha mão e colocava em seu peito molhado por baixo da camisa branca. Arregalei os olhos, sem acabar com nosso contato visual, quando senti seu coração batendo acelerado sob meus dedos.
Gabriel soltou minha mão, que permaneceu espalmada em seu peito, e levou suas mãos até meu rosto, acariciando-o. Ele passou um dos polegares pelo meu lábio inferior, fazendo minha boca se entreabrir minimamente, e, como se aquilo já fosse uma coisa impossível de se evitar, como se estivesse pensando a mesma coisa que eu, como se o desespero estivesse crescendo tanto nele quanto em mim; Gabriel colou sua boca na minha ferozmente, baixando suas mãos e agarrando meu quadril.
Gabriel movimentou seus lábios contra os meus, deixando sua língua escorregar para dentro da minha boca quase que no mesmo instante, mostrando para a minha toda a necessidade que ele tinha dela. Subi minhas mãos para sua nuca e enrosquei meus dedos em seu cabelo molhado.
Minha boca estava matando a saudade da sua com todo o fervor que nós sempre tivemos. E era como se elas se encaixassem perfeitamente bem, como se tivessem sido feitas para ficarem juntas. Nossas línguas se conheciam profunda e sensualmente, e embora aquele beijo fosse de longe o mais desesperado de todos os outros, não deixava de ser a explosão de sentimentos e desejos de sempre.
Três anos de distância fazia a vontade agoniante daquele beijo tomar conta de qualquer outra coisa que houvesse dentro de nós.
E Gabriel parecia precisar daquilo tanto quanto eu precisava. E ele não estava se importando em ser carinhoso naquele momento, o que não me incomodava. Gabriel, como eu, estava preocupado em ter sua boca na minha, em matar a saudade que eu tinha de nossos beijos. Nossa vontade reprimida estava aparecendo, nosso desespero se encaixando e se colocando inteiramente naquilo.
Eu estava precisando daquilo como alguém precisa de água para viver. E Gabriel parecia estar na mesma situação que eu.
Ele desceu mais suas mãos, apertando meu bumbum com força e me puxando para mais perto, colando nossas cinturas. Fez força com meu corpo para cima, como se aquilo nos tornasse mais próximos, fazendo-me encarar aquilo como um ato de desespero. Desespero para deixar nossos corpos mais próximos um do outro, desespero por um toque mais profundo. Porque era assim que eu me sentia. Queria ficar colada nele como aquele vestido molhado estava colado em milha pele. Desci minhas mãos por seus ombros, por suas costas e por seus braços contraídos, acariciando, lembrando-me do êxtase que sentia toda vez que tocava sua pele. Sua pele que parecia pegar fogo a cada toque meu.
Senti meu corpo relaxando em seus braços, e suspirei dolorosamente. Era como se eu tivesse voltado a respirar depois de muito tempo. Ali, em seus braços, com sua boca colada na minha, sentia que um sentimento forte havia se apoderado do meu corpo, fazendo-me acreditar que era alguém de novo. Gabriel estava preenchendo, naquele momento, um pedaço vazio de mim que só ele poderia completar. Um vazio que ele havia deixado. O vazio dele.
Ele conseguiu, apenas com aquele beijo, matar todos os meus medos e incertezas.
Gabriel começou a andar para frente, me levando junto, e me prensou em um tronco de árvore molhado, enquanto as gotas fortes de chuva continuavam caindo sobre nós, mas sendo completamente ignoradas. A casca grossa e áspera da árvore fez minhas costas doerem e provavelmente deixaria arranhões, mas eu não me importava. Não naquele momento.
Eu queria tanto me entregar para aquele sentimento novamente. E isso parecia tão errado como parecia certo. E eu estava tão cansada de fingir que estava tudo bem sem ele e que eu poderia ser completamente feliz sem estar ao seu lado. Porque eu não poderia. Sempre teria uma parte dentro de mim que imploraria todos os dias por Gabriel.
Ele separou nossas bocas com incontáveis selinhos, pois nós dois claramente estávamos sem fôlego. E então, ofegante, beijou meus olhos fechados, minhas bochechas, meu pescoço, minha testa, meu nariz, meu queixo, minha mandíbula... cada centímetro do meu rosto, pescoço e colo foi beijado por Gabriel. Então colou sua testa na minha, fazendo-me abrir os olhos para tentar olha-lo.
– Você não vê, Emma? – Ele sussurrou baixinho, sua voz saindo tão ofegante quanto a minha. – Você não sente?
Voltei a fechar os olhos instintivamente, sentindo meu corpo entrar em um profundo estado de paz e tranquilidade, apesar da minha respiração descontrolada e do modo como meu peito subia e descia rapidamente. Porque, por mais turbulento que fosse estar com Gabriel, no final das contas, estar em seus braços acalmava minha alma, espantava meus medos e me fazia, antes de tudo, feliz.
– Eu te pertenço há muito tempo – falou, e então encaixou seus lábios nos meus novamente, mas dessa vez com uma delicadeza quase assustadora, como se ele tivesse tocando um brinquedo frágil que pudesse quebrar a qualquer momento.
Como se estivesse, finalmente, em paz.
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