Notas iniciais
Abordo temas pesados, mas apesar disso, esforcei-me para colocar isso de modo delicado. Acho que este é, de longe, um dos meus textos mais curtos e fortes. Espero que apreciem.

Eu quero correr por uma verde estrada com você
Tomar sorvete, comer um sanduíche de atum,
Mas nessa cama de hospital posso fazer nada a não ser me perguntar porque eu nunca te disse nada

Olhando pela janela nada mais me preocupa
Essa estranha liberdade
É tão irreal
É como flutuar na água ao cair da cadeira de rodas

Falho ao tentar levantar a perna: são marcas de um hábito antigo
Um lembrete carnal do meu lento desaparecimento

Eu estou finalmente vendo as coisas que realmente importam
Por causa disso me sinto estranhamente vivaz
Não é irônico?

Eu não sou mais capaz de lembrar seu rosto
mas a lembrança do que eu sentia é tão nítida, tão imutável

Deve ser por isso que eu fui capaz de dizer "eu te amo" por uma única vez na vida

A vida é tão triste e linda
As vezes imagino nós dois em uma realidade paralela
Onde eu teria sido capaz

E você me dá um banho com a mangueira
Ri comigo, senta na grama, e vem sussurrar algo gostoso no meu ouvido

Mas com o sedativo na veia
Minha última lembrança se embaça
E adormeço ouvindo a voz do doutor
quando devia ter sido a sua.

Notas finais
Fiz umas mudanças no texto original, mudando uma expressão aqui e alí. Comentários?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!