Nossos Vizinhos: Os Addams
9 Hoje não
Notas iniciais
Joey acordou com a confusão que estava havendo na rua. Deu uma rápida olhada pela janela, vestiu um roupão vermelho por cima do pijama e saiu, de pantufa mesmo.
Jessica e Max gritavam histericamente na porta de casa.
— Você não entendeu? Eu estou terminando com você! Não quero mais te ver na minha vida! – gritava Jessica
— Não, eu é que não quero mais! – Max respondia – E não me procure nunca mais!
— Não te procurar? Foi você que apareceu aqui! Olha, eu não tô com cabeça pra isso agora, ok? Passar bem! – ela passou por Joey, batendo a porta com força.
— Passar bem você! – Max gritava, inutilmente, do lado de fora da casa – E você, baixinho? O que está olhando? A conversa não é contigo.
Max se olhou no retrovisor do carro e arrumou os cabelos. Atravessou a rua e tocou a campainha dos Addams – que Joey não pôde ver onde era.
“Ah, mas é muito cara-de-pau! Essa eu quero ver!” – pensou Joey, e atravessou a rua.
Wandinha abriu a porta e viu Max.
— Oi, amor. Senti sua falta – ele disse.
— Também. Sinto muito pela sua avó. Venha, entre, para que você fique mais à vontade.
Joey não sentiu ciúmes dessa vez. Sentiu pena de Max, que não havia notado o brilho assassino, sedento de sangue nos olhos de Wandinha.
Ele escutou alguns gritos de Max e depois silêncio. Não pode evitar um singelo sorriso e um pouco de preocupação.
Com uma mulher traída, não se brinca. Agora, se quem você traiu foi a Wandinha, melhor se mudar para o Novo México e trocar seu nome para John.
Alguns instantes depois, Wandinha escancarou a porta e avançou na direção de Joey. Agarrou seu pescoço com as mãos e encostou contra a parede da casa, quase o deixando sem ar.
— Como assim foi você que apresentou aquela garota ao Maxwel só para tirar ele de mim sem dó nem piedade ou se importar com o que eu sentia por ele?
“É o fim...”, pensou, “Daqui a alguns segundos serei um homem morto.”
— Como você pode bolar um plano maligno para a sua irmã ter um caso com o meu namorado? – ela esbravejava, gritando a plenos pulmões.
E foi aí que ela o beijou.
— Ninguém nunca fez nada tão lindo por mim.
Agora sim, Joey não conseguia mais respirar, embora ela já tivesse soltado seu pescoço.
— Só acho que você poderia ter feito ele sofrer um pouco. Fique tranquilo, isso fica por minha conta – disse ela, batendo a porta atrás de si ao entrar em casa.
Joey teria escutado os gritos de dor e pedidos de piedade de Max, que vinham de dentro da casa, se não estivesse totalmente fora de sintonia com o universo.
Finalmente, o momento que estava esperando todo esse tempo. O plano, a tortura de Max, sua própria – quase – morte, o beijo. Era informação demais para Joey digerir. Tudo que ele conseguiu fazer foi deslizar pela parede até cair sentado no chão de madeira dos Addams.
Ficou ali, a tarde toda, só observando as nuvens, e a beleza da vida – e da morte -, ainda de pijama.
Quando já caia a noite, Wandinha abriu a porta.
— Ainda está ai, garoto dos biscoitos?
— Porque fez aquilo?
— Aquilo o que?
— Você sabe. Aquilo...
— Não sei.
— Foi bom.
— É – disse ela, se sentando – Mas não vá se acostumando.
— E ele? Vai ficar bem?
— Maxwel? Digamos que talvez ele seja o ingrediente principal do próximo sopão da vovó.
— Ah...
Ficaram assim, por um instante. Um de cada lado do batente da porta. Separados apenas por um grande pedaço de madeira esculpida.
Joey se levantou e se sentou ao lado de Wandinha e segurou sua mão.
— Dia agitado.
— É. – ela respondeu.
Ele beija a testa dela.
— Te amo, sabia?
— Espera. Para – ela tira a mão dele – Eu falei para não ir se acostumando.
— Ainda não esqueceu dele, não é?
— Ele está morto. Só acho que estamos indo rápido demais.
— Está escondendo alguma coisa. Como vocês se conheceram?
— Você não quer saber.
— Quero sim. Senão não teria perguntado.
— Tudo bem, então. Maxwel era o cara novo na cidade. Havia acabado de se mudar para a casa em frente. Ele gostava de matar animais. Nos tornamos amigos. Fomos descobrindo mais coisas em comum. Com o tempo, éramos mais que amigos. Então ele partiu meu coração.
— Ei, está se esquecendo de uma coisa. Eu não sou ele.
— Mas será. Vocês são a cópia um do outro.
— Me deixa provar que não.
— Hoje não, Joseph. Hoje não – diz ela, e entra e casa.
“Hoje não.”
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