Nossos Vizinhos: Os Addams
17 Halloween
Notas iniciais
Noite de Halloween, a favorita de Wandinha. Joey sabia muito bem disso, só temia o que poderia acontecer. A garota já era terrível o resto do ano inteiro, nesse dia então...
Ele não queria sair e pedir doces, não suportava muita gente junto, mas sua mãe o obrigara a ir, “pelo espírito do Halloween”, como ela dizia.
Ele atravessou a rua, sentindo-se desconfortável naquela fantasia ridícula que sua mãe arrumara de última hora. Ele agora era um monarca espanhol.
Joey bateu à porta dos Addams, e Wandinha abriu, fazendo-o cambalear para trás de tão linda.
Estava vestida exatamente igual à Mortícia – porém com as trancinhas, como sempre. Ela usava um vestido preto e longo até os pés, e com um decote que ia até a Patagônia, e que lhe causara um arrepio pela coluna.
— Joseph, achei que era impossível você ficar mais estranho. O que aconteceu? Bebeu veneno achando que era Soda?
— Não, tô bem – ele disse, se recuperando do breve choque – Roupa nova?
— É. Na nossa família, Halloween é dia de homenagear alguém que admiramos muito. A propósito, bela fantasia. Parece meu pai.
Joey olhou para si mesmo e percebeu a semelhança.
— Venha, entra, mon cher – disse Wandinha, imitando as palavras de Mortícia ao falar com Gomez.
— Claro, cara mia, essa será uma noite tenebrosa – ele disse, entrando no jogo dela, também imitando Gomez, e entrou em casa junto a ela.
Para Joey, era engraçado agir como se fosse casado com Wandinha.
Assim que entrou na casa, percebeu que o hall estava cheio de potes com olhos em conserva, caldeirões esfumaçantes, membros decepados, ratos mortos, bonecas descabeçadas.
— Vão mesmo dar isso para as crianças?
— É mais educativo do que doces, não acha? Agora, cadê o Bicho?
— Deve estar vindo aí.
Wandinha o encarou com a sobrancelha levantada.
— Calma, eu treinei ele. Só queria ver se funcionava. Quer ver? – ele pôs os dedos na boca e assoviou.
O Bicho imediatamente pulou para fora do quarto dele, destruindo a janela, e veio correndo até Joey, que o observava pela janela da casa dos Addams.
— Minha... Janela! Caramba, minha mãe vai me matar!
— Pelo menos funcionou. Eu te matava se você deixasse ele lá sozinho com a Jessica – disse Wandinha, pegando Bicho no colo.
Naquele momento, Gomez se aproximou e viu o Bicho.
— Ora, não sabia que o primo Itt vinha! – ele disse, cumprimentado o animal.
— Não, pai, esse é o... Cachorro novo do Joseph – ela disse, entregando o bicho ao garoto.
— Ah, sendo assim... Joseph, que bela fantasia! Parece até alguém que eu conheço... Mas quem era mesmo? Primo Carl? Primo Davies? – ele se retirou, ainda pensativo.
Foi quando Feioso apareceu do nada atrás de Joey. Estava usando uma careca falsa e roupas compridas, iguais às do tio Fester. Ele trazia uma caixa grande, que parecia pesada.
— Trouxe o que você pediu, Wandinha – ele pôs a caixa no chão.
— Pediu o quê?
— Algumas coisinhas para nossas travessuras – Wandinha respondeu. Joey ficou visivelmente preocupado – O quê? Somos pobres e inocentes crianças. Merecemos algumas brincadeiras no Halloween, não é?
— Faça como quiser, mas tente não matar ninguém, ok?
— Claro – ela disse, sorrindo. Joey sabia que ela estava mentindo.
Era tarde quando eles saíram, e a maior parte das crianças já estava voltando para casa.
— Tantas criancinhas, que bonitinhas – começou Wandinha – Dá até vontade de sequestrar.
Joey sorriu. Gostava do jeito dela de falar.
Já deviam ter passado por umas vinte casas, e Joey havia comido tantos doces que agora estava com a maior dor de barriga.
— Ai... Como dói... – ele choramingava, enquanto caminhavam.
— Para de reclamar, eu já te fiz sofrer mais, Joseph.
— É, mas tá doendo!
Então deixa que eu resolvo – disse Wandinha, dando-lhe um chute entre as pernas, fazendo-o cair no chão.
— Qual é... O seu problema? – ele perguntou, quase se contorcendo de dor.
— Sabe, você só pode sentir dor em um lugar de cada vez. Se aí embaixo estiver doendo mais do que sua barriga, então aposto que nem está mais sentindo o efeito dos doces.
— Haha, muito engraçado – ele disse, se levantando com dificuldade – Podia ter sido mais delicada, né? Ou pelo menos avisado antes!
— E perder você aí no chão? – ela zombou – Anda, vamos logo para a próxima casa.
Apertaram a campainha, que fez um som irritante.
— Boa noite, o que desejam? – disse a mulher, abrindo a porta.
— Queremos doces – disse Wandinha, seca.
— Lamento, crianças, acabaram.
— Queremos doces – ela repetiu.
— Eu já disse que acabaram, maldição! – ela entrou em casa e bateu a porta.
— Feioso, me dá o papel higiênico – ordenou Wandinha – Andem, me ajudem com isso.
Ela começou a atirar os rolos de papel no telhado da casa, sendo ajudada pelos dois garotos.
— Imaginei algo mais original vindo de você, Wandinha – disse Joey, observando a casa, já coberta de papel.
— Espere só, Joseph – ela sacou o isqueiro e tocou fogo na ponta do papel, e logo se alastrou pela casa inteira, causando um enorme incêndio.
— Agora faz sentido...
A visão daquela casa queimando sozinha na escuridão no meio da noite era até bonita, como se fosse uma enorme tocha no centro da cidade.
— Esse sim, cara mia, é o verdadeiro espírito do dia das bruxas – disse Joey, passando o braço em volta de Wandinha.
— Feliz Halloween, mon cher.
Era madrugada quando eles decidiram voltar para cassa. Wandinha havia se cansado de queimar casas. Feioso acabou caindo no sono, e sobrou para Joey e Wandinha carregá-lo até em casa.
Finalmente largando o pobre gordo no chão, Joey perguntou:
— E agora? Ainda não tô a fim de voltar para casa.
— Hum... Já te mostrei os fundos da casa?
Eles seguiram para a parte de trás da mansão. Como era de se imaginar, os Addams tinham um cemitério particular. Lápides e túmulos espalhados pelos chão era tudo o que se podia ver ale, da névoa.
— Meus pais geralmente vêm aqui quando querem ficar sozinhos.
— Puxa, tudo aqui é tão... Bonito – ele disse, realmente maravilhado.
Mais a frente, havia um banco, onde eles se sentaram. Seus olhos já estavam ficando pesados, o sono já tomando conta deles. Sem que notasse, Joey colocou sua mão sobre a dela.
— Porque não fica? Fica aqui até amanhã... – ela disse, baixinho, se aconchegando junto a ele.
Joey sentiu um arrepio percorrendo seu corpo. A pele gélida da garota em contraste com o calor que sentia dentro de si. Aquela era uma boa sensação.
Ele pegou sua mão e encostou a cabeça sobre a dela.
Dentro de poucos minutos, os dois adormeceram sob o luar.
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