Saí do quarto que ainda cheirava a lençóis mornos e seu perfume almiscarado. Andei com passos vagarosos, meu semblante anônimo e cinza, reservado aos manequins estáticos das vitrines embaçadas. Não se enxergava reflexo nas vidraças empoeiradas e sujas de chuva, as poças d’água no chão frio me indicavam o céu nublado e opressivo. O ar cheirava a silêncio, e o medo adentrava em minhas entranhas deixando a porta aberta. Meu rosto pálido e apático estava envolvido com a fumaça azul oriunda do primeiro cigarro que meus lábios sem vida tragaram, as mãos trêmulas que o seguravam sabiam que a droga cortava os meses sem pestanejar.

Mas algo como um rumorejo em minha mente lembrou-me que talvez este fosse o meu desejo mais tresvariado. Caminhei pelas ruas ermas até que a luz acobreada dos postes altos me cobrisse. A cidade estava morta. Ou talvez essa fosse apenas a interpretação de um cadáver com veias pulsantes. O peso do ambiente lúgubre me carcomia lentamente, enquanto eu varria as vielas escuras com os olhos, querendo ver-me em suas pupilas negras tanto quanto meus pulmões almejavam oxigênio puro. Aquela madrugada se esvaía como ilusões febris, como pó numa ventania. Então, eu vislumbrei tua silhueta obscura. Refugiado numa cafeteria rodeada de escombros e feixes de um luar perolado, sua boca rosada esboçou aquele sorriso morno que gritava meu nome.

Esgueirei-me até sentar na única cadeira estofada que sobrara ali. O aroma forte de seu pescoço voava em minha direção, pedindo que eu me aproximasse cada segundo mais. Os ponteiros rodavam e o tempo parecia eternizado sob o fluxo de seu olhar quieto. O rutilar fugaz de sua expressão atenciosa com meus trejeitos fazia-me ruborizar a face. Como se minha presença fosse digna. Digna de seus cigarros velhos e da poesia melíflua que escorria pelos seus dedos longos.

Hoje, com a pena pousada no tinteiro e a xícara de café há tempos arrefecida, sei que a relva cobriu nossas pegadas de volta para casa. Ou talvez prédios que antes eram tijolos perdidos numa alvorada fria demais. Sei que a árvore que nos acobertou quando seus braços aquecidos me abrangeram como labaredas escarlates, agora consiste em galhos secos e mortos. Assim como você se transformou em um esqueleto esfarelado à dez palmos do solo. Talvez você ainda esteja respirando em algum lugar longínquo. Mas, como um dia me dissestes, não é a distância que separa as pessoas. São as ideias.

Sobre nós? Não sei o que os ponteiros frenéticos nos fez. Ou desfez. Nem o porquê de eu estar arrancando essas efêmeras palavras deste papel velho e amarelado. O rosicler do alvorecer despontou no telhado esta manhã, e o cheiro quente e agradável vindo do céu recordou-me de ti. Andei sem mapa nas estradas aquecidas pela memória de seu rosto. Na decrépita cafeteria, ainda parcamente iluminada, adivinhava-se duas cadeiras vazias, alheias às lembranças impregnadas nas mesmas.

Ninguém se sentou. Ninguém nem ao menos ousou respirar.

Pois estávamos longes demais para nossas almas se ouvirem. Só escutava-se o farfalhar das folhas e o zumbido da ventania nas janelas. Faixas púrpuras enfeitaram o nascer-do-sol que acordou comigo, insultado meu estado soturno por sua falta.

Suspirei. Compreendi em que você havia se transformado.

Mudou de ausência para beleza. Você está nos pormenores dos sons e cores. E em mim também.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!