Nossos Motivos
1 É pra isso
Notas iniciais
Essa é uma história antiga, que o Mello não gosta muito que eu o lembre.
A parede da sala ganhou um furinho na base do revolver, bem em cima de onde estava minha cabeça na ocasião, quanto toquei no assunto pela última vez.
Aliais, pode ser que alguns detalhes acabem exagerados. Ou errados mesmo.
Nenhum dos dois quis me explicar direito a história. O que tenho a apresentar é a mistura de uma série de fatos que vi e ouvi. E muito do que chutei.
Mas agora, enquanto ele verifica a moto e o caminhão, e eu apenas dou uma checada na munição da arma que eu sei que vai servir mais para impressionar do que realmente me ajudar, não consigo deixar de rir, de canto, atraindo uma careta de Mello. Minha língua coça numa provocação que não sai.
Near nunca foi especialmente querido na Wammy’s House. Admirado, claro, por todos.
Um exemplo. Um exemplar.
Para alguns, ele era uma meta assim como L, e, em geral, tão inalcançável tanto.
A rivalidade nunca foi exclusividade do Mello. É só que ele era o único que realmente tinha nível para rivalizar, ponto.
Agora, o centro de toda essa longa introdução, é simplesmente que Near também não tinha algo que se possa chamar de ‘’carinho’’ ou mesmo ‘’amizade’’ por ninguém. Por isso, não fazia questão de refrear a língua enorme antes de jogar umas verdades na cara dos outros órfãos.
E, obviamente, não tinha ninguém a quem recorrer quando tinha algum problema especialmente...problemático.
Sim, construções pobres. Sou terceiro lugar na listinha dos gênios, posso me dar a certas construções mais miseráveis sem arranhar minha plaquinha de identificação.
Mas, chegando às vias de fato, foi num dia desses ai. Vi um grupinho saindo meio escondido de um corredor que dava reto no quarto do Near.
Nada realmente digno de nota, se você é uma dessas pessoas que não jogam vídeo-game, incapazes de reparar em vários detalhes ao mesmo tempo.
Como olhos roxos, escoriações, colunas encurvadas sobre barrigas possivelmente doloridas e, de quebra, resmungos e xingamentos.
Near, por Near, teria simplesmente continuado meu caminho de destruidor de vasos enquanto jogava Zelda. Mas entre os chiados venenosos, um ‘’Mello’’ me chamou, e eu acabei entrando no corredor.
Como a porta estava aberta, não pude deixar de ver.
Queira que naquela época já houvessem Iphones, com jogos e câmera fotográfica na mesma tela touch.
Só pra poder dizer um ‘’tenho provas’’ alguns anos depois, antes de acabar baleado ou espancado ou sei lá.
Valeria a pena. Sempre vale.
Estavam os dois, na cama.
Mello tirando a blusa de Near, que sequer se dignava a reclamar. Mello já semi-nú, diga-se de passagem.
Os dois com manchas de sangue.
Mello passou uma toalha obviamente molhada, pingando mesmo, pelo corpo de Near, limpando um ferimento que só agora eu enxergava.
O channel despenteado escondia a expressão, mas quem precisava dela, quando eu via aquelas mãos, uma no pulso de Near, que tremia, outra limpando as marcas de uma violência que eu bem podia imaginar?
Bom, se tratando de Mello, qualquer um precisaria.
Minha versão dos fatos? Aqueles garotos chegaram com um canivete direto no quarto, algum ódio pintado nos olhos e revanchismo escrachado na cara.
Haviam sido, humilhados por Near alguns dias atrás. Seguidamente.
Mello ouviu um grito, quando alguém foi mordido, e se enfiou de vez pela porta.
Até ai, nada realmente demais. Sabe, esse loiro pode ser inescrupuloso e ter um senso de justiça deturpado, mas é uma boa pessoa.
Só que naqueles gestos sim, pela primeira vez eu sentia que realmente conseguia entender Mello. O que o guiava, o que o movia.
Por quem.
Ele retrucou, teimou, disse que eu testava inventando coisas e sei lá mais o que.
Em suma, deu um ataque básico, antes de vir se enrolando numa defesa com coisas como justiça, que se alguém visse o Near machucado a culpa cairia sobre ele, de que ele não gostava mesmo daqueles garotos, que só ele poderia subjulgar Near e um resto de falatório que eu fui abafando aos poucos com aquelas musiquinhas em loop de Pokemon.
Nunca disse vi o que aconteceu depois daquilo.
Não estava num ângulo lá muito bom, mas suponho que, depois de tirar todo o excesso de sangue, ele simplesmente largou a toalha num canto, e se levantou.
Ouvi um ‘’já vai’’? Meio deslocado, com a voz e Near.
Você sabe o que é um riso de escárnio? De deboche?
Não você não sabe. Até ouvi o do Mello.
- Achou o que? Que tinha ganho uma enfermeira particular só porque não consegue se virar sozinho?
Bom, eu achei.
Não ouvi a resposta, mas Mello com certeza não gostou.
- Óbvio que eu não ia deixar você sair andando cheio de sangue por ai, imbecil. Aqueles idiotas vão tentar colocar a culpa em mim, não preciso que alguém chegue aqui antes de você ter a capacidade de lavar esse sangue que nem seu não é. Aliais, você não vai pra enfermaria.- uma ordem, bem clara e um tanto exagerada, como quem gosta mais de estar na situação de poder do que realmente tê-lo- Só ta com uma porcaria de arranhão na barriga, nem de tétano não dá pra morrer com isso.
Colei as costas na parede quando ouvi os passos de Mello se aproximando da porta encostada, mas algo o fez parar antes. Não deu pra ver o que era.
Mas dava pra imaginar.
- Não encosta em mim, ta ardendo ai, caralho!
Deu pra ouvir o ar se agitando com, suponho, Mello afastando Near com um arco de braço bem desnecessário e violento.
- Você acabou se machucando mais...
- É, gênio? Só agora chegou nessa conclusão?- a risada seca e mal-humorada pontuando a ironia- achei que todo o sangue tivesse servido de pista.
Voltei a ouvir os passos, agora mais firmes. Mello começara a perder o jogo ali, quando se sentara na cama. E, a menos que saísse imediatamente, acabaria derrotado, de novo.
Certeza que isso não estava nos planos.
- Obrigado, Mello, por ter vindo me ajudar.
Aquela, com certeza, foi a derrota.
Eu senti a parede tremendo quando a porta foi puxada duma vez só direto pra dentro do quarto, o eco do gesto ainda ecoando quando as passadas pesadas ressoaram pelo quarto, se dirigindo, creio, a Near.
Não via mais nada, claro, mas deu pra ouvir corpos caindo no chão. Ou sendo jogado, seria uma hipótese mais próxima.
Mello se estressou de verdade, ali.
Não vejo necessidade de reproduzir cada um dos vários argumentos, ameaças, entonações e interjeições que qualquer um que passasse por ali poderia ouvir.
Importante mesmo, foi o silêncio.
Não lembro exatamente a provocação que Near fez. Alguma verdade mais bem jogada com caras de desafio.
Um desafio que Mello aceitou, calando a boca de Near de um modo bem eficaz, desses que tiram o fôlego das pessoas e nem lhes permite um novo argumento.
Ele demorou a voltar pro quarto naquele dia.
Foi mais ou menos por ai que eu comecei a fumar. Adorava o gosto do fumo na minha boca, mesclado à menta hipócrita, tirando o desejo pelo gosto do chocolate que tanto quisera sentir.
Acendi meu cigarro, tragando fundo. Era o terceiro só naqueles quinze minutos.
Mello me xingou de alguma coisa que eu já cansara de ouvir, enquanto colocava o capacete.
Me deixei levar pela fumaça um pouco antes de dar partida no carro.
Ali, estávamos num ponto crítico. Kira e Near estavam próximos demais...Mas faltava uma pequena peça para que Near pudesse vencer.
É igual àquela vez.
Kira é o carinha com um canivete. E Mello é Mello. E Near é Near.
Na verdade, Kira não passa de uma desculpa entre esses dois. Um jogo especialmente interessante e exclusivo.
Eu gosto de acreditar que ele quer realmente esfregar na cara do branquelo que, sem sua magnífica presença, Near não teria chego a lugar algum.
Mas eu sei que só importa que Near esteja ali.
Dane-se o que tem que ser feito. Dane-se se vai estar ali depois. Na verdade, ele até prefere ir antes a ter que ficar atrás. Para trás.
Dei partida no carro, sabendo que o último suspiro de Mello seria como aquele, quando ele abraçou seu tão declarado rival.
Engatilhei a pistola, já com outro cigarro pendendo nos lábios.
O pior era eu ali, naquela missão suicida.
Porque eu entendo o Mello.
Eu entendo o que é não ver sentido para se arrastar vivo se não tiver uma pessoa por quem o fazer.
Entendo porque ele vai acabar morrendo hoje.
E, pelo mesmo motivo, eu também.
Notas finais
''Tá, o "calar a boca dele com um beijo" foi bem "Mello tá fugindo de mim e eu não sei como continuar a cena, então vou por isso aqui e ver se rola"
As contribuição dela vão disso pra baixo.
Por isso que a adoro~
Ficam os avisos de sempo
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