Nosso Reino
2 O arrogante
Prestamos total atenção a aula de história, bom, eu prestei. Os meninos conversaram a aula inteira, mas como eu não sou de conversar não me juntei a eles. Não lembro desde de quando sou fechada, mas desde que me entendo por gente as únicas pessoas com quem sou mais aberta são a minha família, a Cassie e a Vanessa.
Porém eu tenho certeza da causa: as consecutivas mudanças, elas me fazem pensar "para quê fazer amizades se eu não permanecerei com elas?". Spring City foi a cidade que permanecemos por mais tempo, e acreditei estupidamente que ficaríamos ali, e agora, por culpa disso, eu morria de saudade de pessoas que eu provavelmente não veria mais.
A aula passou mais devagar do que eu imaginei que passaria, o que foi péssimo, eu queria ir para casa o mais rápido possível. O professor Daniel estava falando sobre governos brasileiros antigos e eu odiava esse assunto.
— Qual sua próxima aula? perguntou Scott.
Ele era tão lindo, que eu cheguei a gelar um pouco, mas eu precisava controlar meus sentimentos, eu sairia logo daquela cidade e eu não queria me apegar a nenhum morador daqui, não queria sentir a saudade que eu sentia das meninas por mais ninguém, era horrível, doía demais. Mas por educação, continuei a conversa.
—Geografia – respondi.
—É a minha também. Posso te acompanhar? — pediu ele.
—Claro
—Até logo pessoal, eu e a Janet vamos para a aula de geometria — anunciou Clarice.
—Até gente — completou Janet
Não sei se foi impressão minha ou realidade, mas ela de repente ficou um pouco chateada, como se estivesse com ciúmes do Scott, o que me fez se sentir um pouco mal, mesmo que não devesse ficar assim, aliás eu chegara agora e não sabia se eles tinham alguma coisa.
—Até- respondemos em coro.
Caminhamos calados por um tempo, sou acostumada a não ter ninguém para conversar, apesar das pessoas de Spring City quase terem estragado isso, então não me incomodei tanto. Mas ele, como eu já tinha percebido na aula de história, gostava de conversar e não aguentou:
—Você e sempre tão fechada? Você parece ser uma pessoa legal e devia deixar as pessoas descobrirem se isso é verdade.
—Não sou sempre assim, queria prestar atenção na aula – menti
Se ele tinha liberdade para perguntar coisas pessoais como essa (mesmo tendo me conhecido a 50 minutos), eu também tinha o direito de saciar minha dúvida, não queria encrenca com ninguém, principalmente por causa de um garoto, e para isso eu precisava de uma resposta dele.
—O que você acha da Janet? Quer dizer, vocês em algo? — perguntei
—A Janet? Éramos namorados, mas acabou, não sentimos mais nada um pelo o outro, pelo menos eu não — respondeu ele — Por que a pergunta? Ciúmes? — completou em tom de brincadeira
—Tá insinuando que estou com ciúmes de você sendo que acabei de chegar na cidade e que só passamos 50 minutos juntos? Que convencido! — brinquei
Chegamos na sala e tomamos nossos lugares, lado a lado. Ao pegar o livro de geografia percebi que aquele não era meu, pois estava escrito: "propriedade de Joe Baker". Mas quem era Joe Baker?! Demorou um pouco mas eu lembrei: havia esbarrado em um garoto mais cedo, bem arrogante por sinal, acabamos pegando os livros errados, o problema é que eu nem lembrava do rosto dele. Mas pelo visto ele lembrava do meu, por que duas mãos pousaram bruscamente na minha mesa logo que eu me sentei:
—Devolve meu livro desastrada! — disse Joe
—Devolve o meu ignorante!
—Tá aqui — disse ele colocando o livro com força na mesa.
—Para, tá fazendo muito barulho, que ir para detenção? — disse eu, com um real medo de que isso acontecesse
— Eu não! Muito menos se for com você, eu quero meu livro de volta — respondeu ele arrogantemente
—Joe, não fala assim com ela – disse Scott com voz firme
—Virou guarda-costas da estabanada agora? — disse Joe
Scott se levantou e cerrou os punhos para bater nele, mas se segurou, e ainda bem pois eu não estva a fim de problemas.
—Melhor do que ser aquele que afasta todo mundo – revidou Scott
Me virei para o mal educado com a melhor cara de desprezo que eu pude fazer, e como eu estava acostumada a fazê-la foi uma cara bem feia, e entreguei o livro para ele:
—Aqui Joe.
—Obrigada – disse ele fazendo careta e indo embora
—O que aquele nojento tem? — perguntei ao Scott
—É o Joe Baker, só fica na dele, age do modo mais estranho possível e sempre alguém se aproxima ele usa sua arrogância e mal educação para afastá-la.
—Obrigada por me ajudar Scott
—De nada – disse ele sorrindo
A aula passou bem mais rápido com o Scott do lado, conversamos de vez em quando e rimos muito, na verdade até demais, tivemos sorte que o professor não viu, cheguei a esquecer por alguns segundos de que não podia me apegar a ninguém.
—Até a próxima Bella — disse Scott
—Até — respondi
Estava caminhando olhando para as placas para poder achar a sala de biologia , já que dessa vez ninguém me acompanhava, com medo de errar a sala ou pagar algum tipo de mico, o que com certeza uma hora iria acontecer, quando vi que Joe Baker estava entrando na sala. Tive certeza que que não queria entrar lá e que a aula seria horrível.
Meu plano era sentar no fundo, ele também é reservado e sentou no fundo e por causa disso eu tive que ficar ao lado dele. A professora chegou, escreveu seu nome no quadro ao lado do assunto que iríamos ver (citologia). Poucos minutos se passaram e ela já demonstrou que gostava de fazer perguntas, em especial para os novatos:
—Senhorita Stuart, qual a função da mitocôndria?
—Síntese de proteínas?
Parece que arrogância não era a única característica do meu colega, o Baker também era muito inteligente, o que me surpreendeu e me deu raiva ao mesmo tempo, junto com o fato de que a professora babava ele muito.
—Produção de energia celular – respondeu ele
—Muito bem senhor Baker, vejam e aprendam pessoal –disse a professora.
—Para alguém que está nessa turma, você deveria saber disso — cochichou ele no meu ouvido
—Imaginemos que a vida que cada pessoa seja um reino, se alguém invade o reino do outro acontece uma guerra, que causa miséria e morte, não sei você, mas eu não quero nada disso para o meu reino, então me deixa em paz – respondi
—Reinos, é sério? Que pensamento ridículo!
—Melhor do que arrogância — alfinetei
—Você não tem como ganhar uma guerra contra o meu reino mesmo.
—Está me provocando?
—Talvez
Aquela aula foi terrível, nunca odiei tanto biologia. Quando ela acabou eu sai quase desesperada para fora sala, querendo me livrar dele e da professora, que eu já não suportava. Depois de muito esforço achei a sala de álgebra e lá encontrei Clarice.
— Oi! — cumprimentou ela.
—Oi – cumprimentei
—Oi Clarice — disse alguém vindo em nossa direção
—Oi Joe — disse ela abraçando ele bem forte — Bella esse é Joe Baker.
—Conheço ela, quer uma dica Clarice? Se afasta dela — disse ele indo embora.
—O que houve entre vocês? — me perguntou ela
—Longa história — respondi ela, enquanto sentava do seu lado.
O professor chegou e nos viramos em direção a ele. Todos temos uma matéria que nos perturba, nos aterroriza, aquela em que você nunca tirou uma nota boa. A minha se chamava álgebra, e eu iria assistir a uma aula sobre ela agora. Só de pensar que com certeza eu vou tirar uma bomba nela e causar mais um problema para minha família já me sinto culpada.
—Qual o valor de x? — perguntou a professor
—37,5 – respondeu Clarice
—Correto – disse ele
Ao vê-la responder tive uma ideia. Não conhecia quase ninguém aqui, não sabia se podia confiar em alguém, era o meu primeiro dia de aula e pedir ajuda para alguém que acabou de me conhecer poderia ser constrangedor e estranho, mas eu me desesperei, minha família já tinha problemas e eu estava cansada de causar mais, por isso tinha que começar a estudar o mais cedo possível, e eu precisava de ajuda:
—Clarice, você poderia me ensinar álgebra? Por favor, eu não estou entendendo nada que ele diz – perguntei.
—Claro, podemos começar hoje a tarde, se você quiser.
—Quero sim!
—Aqui o endereço- disse ela me entregando um papel – 15 horas?
—Pode ser, muito obrigada – respondi
A aula foi um sufoco, não entendi nada e sai dela bem preocupada. A seguinte, de geometria, foi tranquila, consegui sentar no fundo e ninguém fez perguntas. Finalmente eu estava indo para a última aula, onde me encontrei o arrogante e a ruiva sentados juntos, conversando. Não poderia sentar longe de Clarice, isso seria um pouco estranho já que em todas as aulas que estávamos juntas sentamos lado a lado, então sentei ao lado deles.
—O ela está fazendo aqui? — disse ele.
—A escola é um ambiente público, podemos andar por ela livremente e sentar aonde quisermos – respondi
—Gente, o que houve entre vocês? — interrompeu Clarice
—Ele sempre é arrogante comigo, eu só correspondo.
—Não fui eu que parecia um zumbi ridículo e esbarrou em alguém por causa disso.
—Joe, larga disso, deixa alguém se aproximar de você uma vez na vida – disse ela em tom de conselho, como se estivesse preocupada com ele.
O professor de física chegou e assistimos a aula quietinhos, pois segundo ela esse professor é um daqueles que te ver virar para o lado e te manda para a diretoria por isso, e eu não queria encrencas, minha função era passar em branco. A aula acabou, me despedi de Clarice e fui para minha casa.
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