Nosso Querido
7 Quarto-Pé de Valsa
Notas iniciais
O Salão foi devidamente preparado. Minha mãe cuidou pessoalmente da decoração, ajudando as criadas a embelezar o espaço da melhor maneira possível para as Selecionadas. E estava verdadeiramente bonito.
Havia flores por toda parte, nas mesas, nos pés das colunas e na entrada. Até alguns doces tinham formato de flor. As luzes de tons de roxo e verde eram quase imperceptíveis, porém já tornavam o ambiente mais belo. Era uma primavera interna.
Minha família estava posicionada estrategicamente em um elevado perto da porta, assim as Selecionadas poderiam entrar e nos cumprimentar. Era provável que muitas não soubessem que deveriam se curvar diante a nós. Sentia pena delas, porque já estariam sendo avaliadas por essa pequena falta de aviso.
Enquanto isso os outros convidados já estavam no salão. Membros de minha família que eu jamais vira na vida estavam ali, dançando e conversando como se fossem extremamente íntimos. Até porque eu acho que meus pais só os convidaram para fingir que se lembram deles sempre e para ter alguém além de nós e das Selecionadas do palácio.
A Família Real Alemã também estava presente. Apesar de eu não gostar muito do rei Franz e de seus filhos Julian e Benjamin, a presença deles era muito querida por minha família. Além disso, as mulheres daquela família eram muito bonitas, apesar de mais fechadas... Se a Seleção não existisse e eu tivesse que escolher uma princesa para casar, com certeza escolheria a elegante princesa Lisbeth da Alemanha.
Mas a competição existia.
Eu olhava diretamente para a grande porta de madeira perto de nós, esperando as Selecionadas entrarem. Elas entrariam por aquela porta pela primeira vez, andariam pelo tapete vermelho até nós pela primeira vez, tudo era novo para elas e para mim.
A porta foi aberta. Uma menina um tanto corpulenta adentrou o Salão. Seus cabelos castanhos estavam presos, o que deixava seus membros grotescos ainda mais a mostra. Apesar do que se pensa, ela não era feia. Talvez porque suas criadas eram tão habilidosas que conseguiram fazer um vestido que realçava suas características bonitas, mas sem desvalorizar o seu corpo grande.
–Vossas Altezas e Vossas Majestades, é um prazer. -ela disse curvando-se.-Me chamo Aimée Stahl.
–É um prazer tê-la aqui, senhorita Aimée.- eu falei,sorrindo, como fora mandado.-Espero que se sinta bem-vinda aqui.
Ela sorriu para nós, confiante. Então se retirou para a parte do Salão onde estavam os outros convidados, dando a vez para outra menina entrar. Desta vez era uma menina magra, com um vestido preto muito justo. Ela também não deixou a reverência passar, curvando-se graciosamente diante a nós.
Mais duas meninas passaram, Amari e Amélia.Ambas loiras e um tanto magra de mais. Os olhos de Amari tinham um lindo tom verde, que detonavam de seu corpo sem graça. Amélia tinha uma voz delicada. Porém as duas esquecerem-se da reverência.
E enfim, ela, a que eu me apaixonara pela primeira visa: Antonella. Ela era a mais elegante das meninas até aquele momento. Andava graciosamente com os saltos com uma altura extrema. Ela trajava um vestido sem alças preto com brilho, que ficava esplêndido nela. Sua reverência fez com que seus peitos ficassem um pouco a mostra, eu não pude evitar uma espiada.
Não consegui prestar atenção nas meninas que vieram depois de Antonella. Eu apenas lhes dava as boas vindas de uma maneira mecânica. Eu apenas queria conversar com aquela linda garota, mas o tempo parecia não colaborar, pois passava muito devagar.
Sete meninas entraram, uma por uma. Arianne, Christine, Elizabeth, e quatro outras que eu não me lembrava o nome. Todas elas eram bonitas, mas eu estava tão enfeitiçado por Antonella que não pude notar a beleza das outras.
Só voltei a minha atenção para uma Selecionada novamente quando uma garota com cabelos ruivos parecidos com os de minha mãe apareceu em nossa frente. O vestido dela era consideravelmente mais simples que o de Antonella. Ele era azul escuro, o que realçava a cor de seus cabelos vibrantes.
–Olá, majestades e altezas, chamo-me Emilia Wales- ela disse, fazendo uma reverência elegante.
Eu falei o de costume para ela. Porém, diferente das outras, ela me encantou. Não sei se era porque ela era parecida com minha mãe e isso a fazia ser familiar, mas eu gostara muito dela. Sua beleza era simples, mas ainda assim deslumbrante aos meus olhos.
Anna não estava mentindo quando disse que eram muitas meninas. Cada vez o Salão enchia mais. Mais e mais Selecionadas entravam. Eu via a impaciência de meus irmãos mais novos. Até eu estava começando a ficar cansado de cumprimentar elas uma por uma e ficar de pé por tanto tempo.
Na vigésima quinta menina, por minhas contas mentais, eu já estava totalmente farto daquilo. Meus pais nunca permitiriam que eu saísse dali. Minha mãe estava sorrindo para as meninas, mas também parecia um pouco cansada.
–Mãe, podemos ir para o baile- sussurrei, inclinando-me em direção à ela.-Por favor.
–Sean, devemos cumprimentar todas elas. — ela sussurrou de volta. -Por mais que eu queira muito sair daqui.
As meninas iam e vinham. Cada vez um rosto diferente.Não lembrava-me de todos os nomes, apenas o de algumas mais marcantes, como Leonore,Marie e Sybilla . Era claro que eu não lembraria todos os nomes, mesmo que já tivesse tido duas chances. Na verdade, minha memória visual não era muito ampla.
–Vossas Altezas, Vossas Majestades. -disse a última menina, curvando-se.-Sou Valery Conner.
Seus olhos brilhavam sob as luzes roxas do salão. Ela olhava-me firmemente. Porém, não era tão sedutora quanto Antonella. Contudo eu gostei dela.
Após Valery se retirar, foi permitido que saíssemos do elevado. Maren saiu apressada. Eu tentei ver para onde ela iria, mas ela logo desapareceu em meio à multidão. Achei estranho, porque em todos os outros bailes ela não saia de perto de Frederick.
–Onde ela foi?-perguntei, dirigindo-me ao meu irmão.
Ele apenas deu de ombros, também um pouco confuso. Era provável que Freddie estivesse um pouco nervoso sem sua tão fiel irmã gêmea, ainda mais com todas essas garotas ali presentes. Não conseguia imaginar o porquê disso. Lembrei-me, então, que ela às vezes sumia sem avisar.
Mas por quê?
Decidi deixar a minha irmã em paz. Ela e Frederick já eram crescidos e poderiam sobreviver à uma festa sozinhos. Eu tinha mais coisas para me preocupar naquele momento.
Dirigi-me a um canto do Salão, onde um grupo de Selecionadas estava. Elas pareciam um pouco nervosas e desconfortáveis, talvez fossem as da Casta mais baixa, as Seis. Não conseguia imaginar a tamanha confusão elas teriam quando todas as Castas fossem eliminadas. Não conseguia imaginar alguma delas exercendo a profissão de um Três, por exemplo, por mais que eu fora educado para não imaginar as Castas nas pessoas.
–Senhoritas.-disse, cumprimentando com a cabeça.-O que estão achando da festa?
–Linda, alteza.-respondeu uma delas, que tinha compridos cabelos loiros.-Para falar bem a verdade, eu nunca estive numa festa dessas!
–É uma honra poder proporcionar esse experiência a você, senhorita.-sorri para ela, tentando não parecer nervoso, e estendi a minha mão.-Para deixar ela completa, você gostaria de dançar comigo?
Ela assentiu, com o sorriso mais verdadeiro que eu já vira. Guiei-a até o centro do salão. Seu vestido azul volumoso acompanhava graciosamente os movimentos que fazíamos. No decorrer da dança pude perceber que sua mão era calejada.
As mãos que eu já havia tocado eram perfeitas. Minhas irmãs e minha mãe tinham hidratantes todos os dias. Era estranho tocar em uma mão como aquela, tão irregular e áspera. Aquele pequeno detalhe imperfeito me fez gostar daquela menina, pois nem tudo poderia ser perfeito, como as outras provavelmente tentavam ser. Essa menina não podia esconder suas mãos, ou conserta-las, mas ela não parecia se subestimar com isso.
– Amélia.-disse, desviando o olhar para o seu crachá.-Que nome bonito, querida.Sabe o que ele significa?
–Não, alteza.-ela disse, encarando-me.-O Senhor sabe?
–Sei. Significa trabalhadora.E eu posso sentir que esse nome se encaixa em você perfeitamente.
Ela ficou em silêncio. Fiquei com medo de que eu tivesse feito algo errado logo no meu primeiro contato com ela. Eu era tão indelicado assim?
Nós continuamos a dançar, até que a música terminou. Fiquei mal por ela. Parecia tão constrangida.
–Foi um prazer dançar com você, espero que isso ocorra mais vezes.-admiti, curvando-me para beijar sua mão.- Divirta-se no baile.
Fazendo uma profunda reverência, ela afastou-se, deixando-me sozinho na área de dança. Os convidados dançavam em minha volta, aparentando não perceber minha presença. Todos pareciam se divertir. Menos eu.
Eu apenas queria encontrar Antonella.Porém ela, a menina de vestido brilhante não estava por perto. Se ela estivesse perto, o seu brilho provavelmente me atingiria.
Queria procurar pelo Salão, mas isso não seria um ato elegante. Eu teria que esperar ela vir. Sem prestar atenção, pedi para uma selecionada aleatória para dançar. Não me dei o trabalho de ver quem era, ou notar a sua aparência.
–A festa está linda, alteza.-disse a voz aguda da menina com quem dançava.-Muito obrigada por nos recepcionar tão bem.
–Não há de quê, senhorita.-eu respondi,finalmente olhando para seu rosto.
Seus cabelos eram castanhos, mas pareciam ser folhados a ouro de tão peculiares. Seus olhos cor de âmbar portavam um brilho diferente. Não podia ser... Como eu não percebera?
O vestido era preto.Preto brilhante.
Era Antonella.
Ela sorria olhando para mim. A menina por quem eu me apaixonei a primeira vista estava ali em minha frente. Ela era ainda mais charmosa de perto. Seus cabelos caiam como ondas em seus ombros. Suas mãos encaixavam-se graciosamente nas minhas. Eu já poderia escolher ela?
Nós nos movíamos como se tivéssemos treinado a dança pela vida toda. Talvez fosse impressão minha, mas ela parecia estar se aproximando cada vez mais de mim, aumentando o calor entre nós. Dançar com ela era tão diferente de dançar com Amélia. Meus passos com ela aparentavam ser mais precisos.
–Foi um prazer dançar com você.-eu falei, ao final da música.-Você gostaria de passear comigo pelos jardins?
Ela assentiu alegre. Com sua mão na minha, guiei-a até o jardim, que ficava do lado de fora do Grande Salão. Ela parecia um pouco hesitante com isso. Pude perceber sues passos apressados nas escadarias que ligavam os espaços.
–Acho que este lugar é mais calmo para conversarmos.
Nós seguíamos o caminho de pedra que levava até o centro do jardim, onde se encontrava um banco. Ela não segurava mais minha mão, mas andava bem próxima.
–É lindo aqui, Alteza.- elogiou Antonella, sorrindo para mim quando chegamos no local.-Vejo o porquê de você quer me trazer aqui.
Ela não sabia, mas eu não tinha pensado em motivos para trazê-la a este local. Eu apenas queria conversar, sem o olhar das centenas de convidados. Porém eu queria agrada-la e fazê-la se sentir especial, então resolvi contar uma mentira leve.
–É o meu lugar preferido do palácio.
Sentei-me no banco, fazendo sinal para ela sentar-se ao meu lado. Eu estava nervoso. Não poderia errar como fizera com Amélia. Qualquer passo em falso poderia me afastar daquela linda garota.
Então eu ouvi um barulho suspeito. Parecia com uma risada, mas era tão estranha que poderia ser algum animal. Às vezes acontecia.
–Espere um pouco, senhorita Antonella, acho que ouvi alguma coisa.
Supus que o estranho som viesse do arbusto em nossa direita. Então levantei, indo em direção ao arbusto. Tentei afastar as folhas, com certa dificuldade. Em meio das folhas, pude ver um pedaço de tecido cinza. Alguém passara por ali?
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