Nosso Pequeno Amuleto
4 Sobre gargalhadas, paredes coloridas e Lílian
Foi tão fácil e despreocupante sair da escola como nem em mil anos luz eu pensei que seria. As pessoas que passavam pelos corredores mal nos encaravam e eu encenei um pé manco por puro drama. Eu tenho talento pra ser atriz, mamãe diz desde o começo.
–Você não vai me perguntar nada? — Cortei o silêncio dentro do carro.
–Você quer me falar?
–Você quer perguntar? – Devolvi nosso jogo de perguntas.
Afundei o corpo no banco do carona.
–Há algo importante para ser falado? Eu não tinha notado.
Se ele queria me deixar confusa, ele estava conseguindo.
– Não, nada.
Ele balançou a cabeça num consentimento e seguiu o caminho. O carro era preenchido pelas músicas da rádio até que o celular de David começou a tocar de uma maneira (choquem) mais escandalosa que meu próprio toque. Olhou por um momento no visor e de maneira meio urgente atendeu.
A conversa foi breve mas serviu para deixá-lo de cenho franzido.
–Mudança de planos – me informou.
–Oi?
–Será rápido. – Ele girou o volante tão abruptamente que me fez escorregar para o lado.
–Você não poderia simplesmente... – Eu não queria ser grossa, mas essa característica já estava impregnada em mim, então não foi lá um grande esforço – Sabe... Parar aqui? Já tá perto e... Eu sinceramente não confio muito em você.
David soltou uma risada nasalada que me pareceu sarcástica.
–A recíproca é verdadeira. Mas eu disse para você que iria te deixar em casa e vou. Só que ocorreu um imprevisto.
–Eu tenho pernas e elas servem pra isso.
–Você poderia simplesmente ficar calada e esperar?
Opa... Encontrei um dos meus aqui.
Andamos durante mais ou menos 20 minutos até que o carro diminuísse de velocidade e finalmente parasse. Sai do carro batendo a porta com um pouco mais de força do que o necessário. Eu não queria exatamente ter feito isso, minha mãe tinha me educado muito bem (a base de cinturões), ok?
Cruzei os braços, cobri as mãos com a manga do casaco. Ele não iria me matar ou estuprar, né? Olhei para a fachada da casa. Tinha um arco-íris e um gramado cheio de criancinhas felizes. Mas o quê...?
–Você vai ficar parada ai ou vai entrar?
Eu o olhei torto mas dei algumas passadas para acompanhar seu ritmo.
David acenou para uma mulher da portaria, ela era jovem e usava um uniforme colorido que com certeza eram uns 2 números menor que o dela realmente. Eles se cumprimentaram amigavelmente, mais do que amigavelmente talvez. Hm, tá.
–Você é sempre desconfiada assim? – certificou-se, me puxando pelo punho agora. Entramos na casa lado a lado.
Algumas crianças passaram correndo em disparada quase nos derrubando.
–Isso é uma creche? — perguntei.
–Mais ou menos.
Estávamos passando por um corredor decorado por várias mãozinhas pinceladas e melecadas. Toda atmosfera de criança pairava no local. Aquelas gargalhadas que só crianças sabiam dar, os gritinhos empolgados, os passinhos acelerados indo e vindo.
Mal chegamos ao parquinho. Mal eu consegui ver o tanto de balanço, escorregador, gangorra, casinha e tudo mais. Que uma garotinha gritou “DAVID!” e uma marola de crianças me surpreendeu.
–Tio David!
–Tio!
Parecia que todas as crianças tinham desistido dos brinquedos e o cara que estava ao meu lado era um tanto quanto mais importante.
–Tio! Você trouxe meu chocolate?
Todos eles não pareciam ter mais que um metro, usavam um uniforme de tonalidades azul e branca. Algumas crianças tinham o semblante abatido e isso não deixava passar em branco. Umas cinco em uma dúzia não tinham um fio de cabelo sequer entre elas, uma garotinha de olhos verdes e bochechas grandes.
David pegou a que pareceu ser a menor do grupo nos braços e beijou-lhe a cabeça num carinho tão grande que senti meu velho coração jovem transbordar de um sentimento estranho.
–Como você está? Onde estão seus óculos, Lí? – perguntou num tom reprovativo e a garotinha fechou os olhos como se a claridade a incomodasse e apenas sorriu de maneira infantil e doce.
Outras crianças choramingaram por atenção e ele gargalhou alto, numa risada verdadeira e contagiante.
–Hey Tio David!
Ele colocou a garotinha no chão e segurou outro menino nos braços o chacoalhando de brincadeira, fazendo a criança rir.
–David? – uma senhora baixinha, robusta e de cabelos loiros presos num coque o chamou. – Podemos conversar?
Ele pediu para que eu esperasse ali e foi o que eu fiz. Petrificada no chão sem saber o que fazer na frente de uma dúzia de criancinhas adoentadas. Até que algo quente espalmou minha mão. A garotinha de olhos com pupilas esbranquiçadas me fitava curiosamente, era a mesma que estava nos braços de David. Arrastava um carrinho de boneca que nele tinha um coelho cinza com o pescoço já um tanto... flexível demais.
Não vou ser mentirosa aqui e isso muitas vezes será um defeito. A primeira vista a visão daquela garotinha me assustou, as pupilas esbranquiçadas me fitando de uma maneira quase cega.
–Oi.
–Oi, qual é seu nome flor? – me esforcei realmente para parecer dócil. E isso eu não fazia questão de ser na maioria das vezes.
–Lílian. – Respondeu num tom infantil. Seus olhos seguiram cada ato meu. – E o seu?
Agachei-me para ficar sua altura ou quase.
–Íris.
Apertou com um pouco mais de força minha mão antes de soltá-la e sorriu. Os olhos estavam quase totalmente fechados, parecia extremamente incomodada com a luz. Estendeu os bracinhos na minha direção e eu a cobri com meus braços num ato quase como reflexo.
–Tia! – Senti um puxão no cabelo. Um garotinho fazia bico. – Você trouxe chocolate?
Gargalhei e neguei com a cabeça. Seu bico aumentou ainda mais.
–Quem sabe eu possa trazer outro dia.
–Branco e preto?
Eu assenti e ele sorriu minimamente, usava um casaco que quase o cobria por inteiro. Tinha a pele negra, nariz pequeno, lábios levemente rosados, os olhos negros e as curvaturas dos olhos levemente repuxadas. E a cabeça totalmente raspada.
–Qual é o nome do garotinho? – perguntei a Lílian enquanto ele corria desengonçado até a gangorra. Nós duas andávamos até a parte coberta do pátio.
–É o chato do John. – fez uma careta.
–Ele parece legal.
Balançou a cabeça fervorosamente.
–Você vai ver quando ele tentar mandar em você.
Olhei para a garotinha, seus cabelos eram curtos, mas ainda estavam ali. Eles eram num tom dourado e cacheado. Não devia ter mais que 4 anos. Procurei com o olhar David, mas ele estava num canto do parque conversando com a mulher. Pareciam ter uma conversa séria cheia de tapinhas nas costas largas dele.
–É a diretora. – Informou-me minha nova amiga (e informante).
–Ela é legal?
–É... – disse sem muito entusiasmo.
David parecia ter um semblante mais velho ali se reparasse bem. O cenho estava franzido, os braços cruzados e vez ou outra ele balançava a cabeça num consentimento.
Algo deveria ter acontecido. Automaticamente olhei para Lílian.
– É o Miguel, sabe? – falou ela num tom mais baixo, brincando com o coelho no colo.
–Seu amigo?
–Somos melhores amigos. Se a gente crescer, a gente casa. Se ele não estivesse morrendo.
–Ele vai ficar bem. – falei quase pra nós duas.
–Papai disse que ele é forte.
–Seu pai deve ter razão.
–Onde você conheceu ele?
–Ele quem?
–Meu pai, ué.
–Eu não conheço seu pai.
Ela sorriu como se achasse graça daquilo. Puxou mais o coelho contra o corpo num abraço reconfortante.
–Claro que você conhece meu pai.
Franzi o cenho a fitando cuidadosamente. Suas feições poderiam até ser familiares, mas pareciam delicadas demais para que me fizesse lembrasse alguém.
Então sua mão miúda apontou para o canto separado do pátio. E não existia outro homem ali a não ser David.
–Ali óh. Meu papai.
Notas finais
Tá aí meu testamento.
Quem me desculpa?
Ninguém, valeu.
Obrigado mais que merecido, especial, tudo mais pra Marina. Ou a outra Marina, como eu chamo porque sou ousada U_u
Se essa história tá aqui é por sua casa :3
E as lindas e maravilhosas (que eu espero que n tenham me abandonado pela demora) comentadoras do capítulo anterior: RosyAngel e a MissJulia e seu talento para jornalista do Globo Repórter ♥ nhac :3
Ótimo 2013 para todos nós (MEGA ATRASADO).
Minhas aulas começam amanhã e eu tô... Tô indo né.
Beijos, queijos. Câmbio desligo.
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