Nosso Pequeno Amuleto

1 De dinossauros, por favor



–Vamos lá, é só respirar fundo – Falei comigo mesma. – Não vai nem doer. É não vai doer.

Respirei fundo mais umas dez vezes. Olhei pro espelho, repuxei os lábios. Até sorrindo a coisa ficava séria. Alguém do outro lado bateu na porta com mais força que o devido. Dei um pulo quase me agarrando a pia do banheiro.

–Ís, sai dai vai. Eu não vou fazer nada do que você não queira.

Era mentira dele. Ele só estava tentando ser fofo usando o apelido que ele criara. Porque eu tinha certeza que assim que eu abrisse aquela porta ele me levaria à força para dentro daquele corredor e... Eu tinha quase certeza. Mas mesmo assim eu destranquei a porta do banheiro e a abri. Ele me esperava ao lado, com as mãos afundadas nos bolsos.

–Você está nervosa.

–Lógico, é minha primeira vez! – revirei os olhos.

–Não acredito que você nunca fez isso antes.

–Eu andei fugindo durante um tempo.

–Não vai doer nada, eu garanto.

–Como você sabe tão bem? – estreitei os olhos.

–Ora, eu já fiz isso antes! E vou fazer também.

–Mas não é a mesma coisa. – Retruquei.

–É sim.

–Não é.

–Lógico que é.

–Óbvio que não é seu idiota.

–Eu to tentando te ajudar, sua grossa.

–Não tá ajudando.

–Se você deixasse ser ajudada...

–Engraçado que você não trata aquela garota que te deu um par de chifres assim! – elevei o tom.

–Íris, minha filha, fala mais baixo. Melhor... Cala a boca.

–Desculpa mãe – me senti corar ao notar que a sala de espera inteira me fitava como se estivesse no hospício e acabasse de chegar mais um amiguinho pro grupo de ajuda.

–É só um exame de sangue, para de drama. – Ela voltou a sentar numa das cadeiras. E o Dan me olhou torto quase mandando telepaticamente o recado “eu estava sendo bonzinho com você”. Bufei.

–Quanto falta até chegar nosso nome? – sussurrei para minha mãe. Mais quatro pessoas, ela respondeu. Tentei relaxar na cadeira barulhenta ao lado do meu amigo. –O único motivo que eu aceitei vir foi porque depois eu tenho direito ao chocolate quente. — Essa é minha maneira adulta de agir.

–Criança. – Ele sussurrou.

–Até parece que você não disse a mesma coisa.

–Eu também vou fazer o tal exame. — tentou argumentar.

–Para com drama, Dan. Você fala como se fosse exame de próstata – revirei os olhos, estalando os lábios e ele resmungou.

–Porque você não fica quieta e espera? Finge durante 20 minutos ser madura.

–Ok, estressadinho. – Eu me ajeitei na cadeira, cruzei as pernas e fiquei brincando com o envelope do exame.

Daniel estava ali ainda. Ele esteve ali durante boa parte da minha vida. E, se caso nenhum assassinato ocorresse entre nós, estaríamos lado a lado durante um bom tempo ainda.

Nós éramos amigos. Amigos. Sim, só repetindo. Vai ver você não ouviu direito. Amigos. Amig... Amant...

Hã... Colapso de narração. Temos que estabelecer um muro de pensamentos aqui, caro leitor.

Bem, começamos vizinhos. Nada mais que vizinhos. Então, num fatídico dia seu brinquedo apareceu no meu quintal. E logo em seguida o próprio apareceu na minha porta. No começo, como uma boa menina, eu tinha dito que eu é que tinha achado, justificando simplesmente que os ETs gostam de mim, mandaram um brinquedo do céu e por isso aquilo que estava noquintal era meu.

Mas não colou, principalmente porque na bola de futebol tinha o nome dele com tinta permanente. Então mais tarde e ainda no mesmo dia, minha mãe me obrigou a ir devolvê-lo.

E eu fui, com o cabelo arrumado, usando meu melhor vestido e sorrindo falsamente. Todas as características anteriores estão distorcidas. Exceto a do sorriso, o único verdadeiramente falso.

E foi justamente o garotinho branquelo de cabelos negros que atendeu a porta, ele era mais velho. Pois é. Porque se fosse mais novo eu daria um belo chute no meio das pernas e diria para nunca mangar de mim. Mas ele o fez. Da melhor forma possível: Chamou sua mãe.

E foi assim, começou aos meus nove e continuou até os 17.

–Ís – um cutucão seguido de outro. – Hey Ís.

–Que foi? – balancei a cabeça saindo dos pensamentos.

–Você está muito calada.

–Nunca vou entender o que você quer, Daniel.

Ah como ele é provocativo. Certas coisas não mudavam.

–Dan? – murmurei depois de mais um nome ser chamado.

–Hm? – Ele não olhava para mim e nem eu olhava para ele.

–Você vai entrar comigo, não é?

–Pode ser – ele deu de ombros.

–E você vai primeiro, então? – eu voltei a me assegurar. Ele riu.

–Aproveitadora.

–Isso é um sim?

–Talvez.

Ele iria. Lógico que iria. Ou não.

–Íris Daris – Eu me levantei com um pulo. O homem que chamava e coordenada à entrada e saída de pessoas pelo corredor me encarou.

Puxei a mão do Dan junto e quando eu estava entrando pelo corredor o homem tossiu forçadamente, chamando nossa atenção.

–Eu também vou fazer o exame. – Ele tratou de dizer e eu consenti ferozmente.

–Um de cada vez.

–Mas... – eu gaguejei.

–Assim que uma cadeira estiver liberada, poderá entrar outra pessoa – explicou.

–Podemos esperar? – ele pergunta.

–Isso dificultaria o...

Então bipi soou e a expressão rígida do homem foi substituída.

–Daniel Cooper? – ele conferiu na lista e Dan assentiu. – Podem entrar.

Meu sorriso foi algo parecido “HEY SEU GIGANTE, EU ROUBEI DA LOJA DE DOCES DO WILLY WONKA E VOCÊ NEM VIU”. E isso me levou ao ponto de admitir que tal infantilidade já estava passando dos limites. Voltei a andar normalmente, com as mãos irrequietas espalmadas e andando pelo corredor até a segunda porta.

Uma senhora e um rapaz simpático nos esperavam na porta.

–Íris? – conferiu ele. Eu sorri, ou tentei.

–Oi. – Eu acenei com a cabeça e Dan seguiu a senhora até o outro lado da sala sorrindo em minha direção.

–Olá – o cara respondeu, sentei-me numa das cadeiras nem tão confortáveis assim e apoiei meu braço. – Vai ser rápido.

–Espero que sim.

Ele riu baixo e então ajeitou meu braço. Pediu para que eu abrisse e fechasse a mão e já estava me perguntando se tinha entrado na ala da fisioterapia. Ai qual é, não dava para acelerar o processo?

–Não gosta muito de exames?

–Nem um pouquinho. – Enfatizei.

–Pode fechar os olhos se quiser. Já vi gente rezando o terço, cantando, mexendo o pé... Mas não fique mexendo muito o pé. Eu posso tropeçar e você não iria querer que eu levasse a agulha junto, certo? – Um tremelique percorreu o meu corpo só de imaginar a cena.

Eu murmurei algo que nem eu mesma sei e virei o rosto para o outro lado.

–Todos os médicos, dentistas e enfermeiros se esquecem de acrescentar nos exames depois de ‘não vai doer nada’ o ‘em mim, mas já em você...’

Ele soltou uma risada baixa e contida. Suas mãos pareciam cuidadosas. Cuidadosas demais para que levasse a agulha junto se eu desse um soco em seu estômago.

–Então é medo de jaleco branco? – Ele perguntou, me distraindo do plano.

–Mais ou menos. – A agulha fina roçava meu braço, mordi os lábios e comprimi os olhos. Pareceu uma eternidade até que eu pudesse soltar a respiração.

–Pronto. Nem doeu tanto, tá vendo?

–E tem gente que ainda faz acupuntura – resmunguei. Ele pediu para que eu segurasse o algodão.

–Corações? – verificou, segurando uma folha de adesivos.

–Tem dinossauros?

Ele riu mais uma vez e procurou outra cartela. Tirou o algodão e novamente de forma cuidadosa o colocou no meu braço.

–Obrigada.

Entregou-me também um bilhete. Ui adoro bilhetes, só me da um papel e eu anoto o meu pra você já saber de quem aceitar chamada a cobrar.

–Para a máquina de café.


Notas finais
Oi :)
Minha segunda fic aqui no site. Yep, yep... Tá, parei.
Vamos lá, deixem um comentário para esta pobre autora de fics que se alimenta disso e... Menos drama, né?
A história está no começo e quem tiver paciência, garanto que vá gostar um pouquinho. Talvez.