Nosso Nome Na Lista.

71 Capítulo 71 – Insuficiente


Notas iniciais
Oiii, Gente, minha semana foi muito corrida. Agora eu não paro de dormir para repor o sono e dar uma escrevidinha de vez e quando. Bem, espero que vocês gostem ^ ^ Fiz com muito carinho ♥ AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: > Sandrinha > Sheila Rayane > Júlia Carstairs > Carina > Elizabeth > Cat > Felicity Hunter > Juuh Beauchamp > Mariola > KK > Kika Pichsterzy > katp Obrigada ^ ^ Bisou ♥ Belle.Époque

Capítulo 71 – Insuficiente

Eles me deixam em um banco onde as pessoas passam e conseguem ver a garota chorona coberta de sangue nas roupas. Sinto que eu estou de castigo. Como se eu houvesse sido uma criança malvada e agora tinha que lidar com as pessoas me encarando e me julgando..., mas pior do que lidar com isso, era lidar com os meus próprios julgamentos.

Por muitas vezes, me vejo relembrando das palavras no papel que minha mãe escreveu. Fico procurando encontrar algo nas entrelinhas, algo que eu não tenha entendido ou que eu tenha deixado passar. Porque me recuso a acreditar que tenha sido apenas isso. Recuso-me a acreditar... que não tenha um motivo maior para a dor dela. Ou o quanto ela estava sofrendo parar... querer pôr um fim.

Se eu fosse sincera admitiria que não quero outro motivo por uma questão nobre de conhecimento ou empatia. Eu quero... porque eu sou um poço cheio de raiva. Quero que ela tenha um motivo melhor para ter feito isso... porque eu nunca poderei perdoá-la por ter sido tão fraca. E muito menos perdoar a mim mesma por ter deixado que uma mulher tão fraca tenha me dominado por anos... talvez para sempre.

E saber disso faz com que eu me sinta envergonhada e como uma serial killer. Um desses psicopatas que não pensam na dor dos outros, somente nas deles próprios. Quer dizer, minha mãe... morreu. E eu estou aqui pensando se os motivos dela era aceitável.

Eu devia ser a pior pessoa do mundo.

A verdade é que eu não percebi nada do que minha mãe estava passando... eu apenas fui ignorando, ou tentando ver de outra forma, ou tentando manter distância como se ela tivesse algo contagioso. E ela tinha. Uma aura opressora e desgastante ao redor de si, que sempre me causava náuseas quando perto dela.

“Ela apenas é muito dramática” eu havia pensado inúmeras vezes.

“Não, Letty, sua burra. Ela não estava sendo dramática” eu me recriminei, batendo na minha cabeça. “Ela estava pedindo ajuda. Estava desesperada... ela é um ser humano e você a ignorou em toda a sua complexidade... Você a deixou morrer”

Pensar nisso me faz chorar novamente.

Eu a deixei morrer... e estava sentada ali julgando seus motivos.

Eu choro tanto que a moça que me deixou ali, me leva para outra sala para que eu não perturbe mais ninguém na recepção. Parece aquelas salas de interrogatório que vemos nos filmes e nas séries. É quando me sinto um incômodo e tento parar de chorar. Mas você parar de chorar é pior do que chorar descontroladamente.

Difícil dizer qual o mais patético.

Ela de repente abre a porta e diz:

— Falei com o seu pai. Ele disse que só vai conseguir chegar à cidade amanhã.

Pergunto-me se eles pretendem me manter ali na delegacia, sozinha com meus pensamentos, até que Quentin e sua mãe aparecem atrás dela. Os dois são uma imagem muito reconfortante para mim. Como você precisar fazer uma apresentação de balé e vê seu pai lhe aplaudindo no meio da multidão.

Eu começo a chorar de novo e quando eu vejo, estou chorando nos braços dele.

Seu cheiro é tão diferente do banheiro da minha mãe. Lá cheirava à ferro, podridão e morte. Quentin cheira a algo leve e refrescante... como tudo o que é vivo deveria cheirar. Eu ensopo a sua camiseta com as minhas lágrimas enquanto sinto suas mãos fazerem carinho nos meus cabelos, me confortando. Dizendo que ia ficar tudo bem.

— Ele disse também que ela poderia ficar com vocês até ele chegar à cidade – A policial os avisou. – E que iria cuidar de toda a papelada do enterro assim que voltasse.

A mãe de Quentin faz um carinho reconfortante nas minhas costas.

— Não se preocupe. Ela vai ficar conosco sem problemas – ela diz com segurança.

A policial assente com a cabeça e então olha para mim com pena.

— Eu sinto muito – ela me diz com sinceridade. Então volta sua atenção para Christine de novo: — Queira me acompanhar, a senhora precisa assinar alguns papéis.

Christine concorda com a cabeça, e me faz um último carinho antes de ir com a mulher para outra sala. Eu permaneço em pé, escondida nos braços de Quentin. Desejando sentir aquele mesmo conforto e bem-estar de horas atrás. Desejei que eu nunca o houvesse deixado ir. Que eu nunca houvesse voltado para casa e que eu nunca houvesse encontrado a minha mãe morta no banheiro.

— Eu sinto muito, Letty... Eu sinto muito – Percebo que Quentin está sussurrando.

Não sei porque ele está pedindo desculpas. Não é como se fosse culpa dele, mas não consigo dizer isso, porque estou tão cheia de lágrimas e soluços, que eu apenas consigo me esconder ainda mais em seus braços e desejar que ele me devolvesse o chão debaixo dos meus pés. Devolvesse o sentido das últimas horas, porque eu não entendia mais nada desde o momento em que ele saiu de casa.

Ele beija a minha testa, acaricia minhas costas e então me leva para o carro assim que sua mãe diz que estou liberada. Em nenhum momento me pergunto o que ela deve estar achando de mim ou me repreendo por estar chorando tanto. Pela primeira vez, nada disso importa tanto quanto a dor no meu peito e a incredulidade de tudo o que aconteceu.

Só foram horas? Pareciam dias. Semanas.

Como se eu houvesse passado horas procurando minha mãe.

Como se eu houvesse passado horas entrando no banheiro.

Como se eu houvesse passado horas olhando para o corpo dela ensanguentado.

Sem vida.

Eu balanço a cabeça, tentando me livrar desses pensamentos, mas eles parecem encrustados em mim. Tão grudados ao meu cérebro, como o sangue na minha pele e nas minhas roupas. Pergunto-me se talvez eu não devesse ter saído com meus amigos. Se eu houvesse ficado com ela, como Martha e papai me disseram para fazer, talvez eu tivesse percebido antes.... Talvez eu pudesse tê-la salvo.

Pensar nisso volta a me encher de culpa.

Volto aos pensamentos que me acusam. Eu devia ter percebido antes que não era só drama. Que ela não estava apenas sendo dramática ou narcisista como sempre. Eu devia ter levado a sério o mau humor, a vontade de não sair do quarto, de não ver ninguém... eu devia ter levado a sério tudo o que ela falava sobre ter perdido tudo e sua vida ter acabado. Eu devia tê-la ouvido melhor... se eu houvesse feito isso, as coisas seriam diferentes.

Passei tanto tempo com raiva, julgando-a, afastando-me... que não consegui tratá-la com ela era: um ser humano sofrendo. E isso me tornava o quê? Provavelmente o pior ser humano na face da terra.

— Letty... Ei, olha para mim – Quentin pediu de repente.

Me pergunto quando foi que saímos do carro e fomos parar dentro da sua casa, no hall de entrada. Não vejo sua mãe no meu campo de visão, e não sei como é possível que por alguns minutos (ou muitos) eu houvesse perdido a noção de tudo ao meu redor. Mas então eu olho para ele, e vejo toda a preocupação do mundo em seus olhos, como se não soubesse o que fazer. Isso faz com que eu me sinta péssima... porque não parecia certo envolver ninguém nisso. Ainda mais alguém que eu gostava tanto.

— Você precisa tomar um banho e comer alguma coisa – ele diz.

Seu tom é tão controlado e tão firme, como se ele soubesse exatamente o que eu tinha que fazer para ficar bem, que não questiono e nem consigo dizer algo. Apenas concordo com a cabeça, ainda atordoada com tudo o que aconteceu, e o deixo me guiar para o seu quarto roboticamente. Ele me abandona no seu banheiro, mas hesita por um segundo, como se duvidasse da minha capacidade de ficar sozinha.

— Eu estou bem – consigo dizer.

Ele parece saber muito bem que eu não estou bem, mas não diz nada.

— Qualquer coisa eu estou aqui fora – é tudo o que ele diz.

Esse é o momento mais estranho da minha vida. Parece que estou em apenas mais um dia na casa de Quentin. Quando eu tiro a roupa e entro debaixo da ducha, penso que por um instante eu havia passado a noite ali mais uma vez e que eu tinha tido um pesadelo horrível. A ideia parece tão real que sinto como se meu coração se afrouxasse no peito. Em um afrouxo de alívio..., mas isso é antes de eu abrir os olhos e perceber que minhas mãos estão manchadas.

É quando me vejo em queda livre de novo. Caindo e caindo... até ser atingida por um baque violento cuja dor parece ecoar por todo o meu corpo. “Não foi um pesadelo. E você está vivendo a sua vida, quando a vida da sua mãe acabou” uma voz diz na minha cabeça, me acusando, sempre.

Tento desesperadamente tirar aquele cheiro de mim e o sangue nas minhas mãos. E mesmo quando ele some, de algum modo, sinto que ele ainda está lá. Encrustado nos meus poros. Talvez até sob a minha pele. Debaixo das minhas unhas... não sei, só tem que estar lá porque eu o ainda sentia, como se agora ele fizesse parte de mim. Como se fosse parte da culpa que eu sentia e de toda raiva e frustração que borbulhavam dentro de mim.

Há várias perguntas que ainda rondam a minha cabeça, incessantemente: “como ela pôde fazer isso comigo? ”, “como ela pôde fazer isso com ela própria? ”, “qual o tamanho da dor que ela sentia para que achasse que essa fosse a única solução? ”, “o quão sozinha ela se sentiu para achar que NINGUÉM se importaria com isso?”.

E então eu me pergunto: será que foi isso?

Será que ela achou que se matando ninguém iria dar a mínima? Ela em algum momento pensou na filha que deixaria para trás? No como eu ou papai ficaríamos? Às vezes, queria muito entender o como ela via e pensava as coisas, porque quanto mais eu penso nisso olhando de fora, menos eu consigo entender. E eu acho que é isso o que mais me irrita, porque as coisas deveriam ser mais simples.

Todo mundo disse que eu era a única pessoa que ela tinha...

E mesmo assim, não fui o suficiente.

Eu nunca fui o suficiente para ela. Nem para mantê-la viva.

Saio do chuveiro, visto minhas roupas intimas e quando vou sair do banheiro, percebo o espelho grande na pia... e fico me encarando por um bom tempo. Eu estou horrível. Eu sou uma garota feia, mas olhando para mim agora, eu estou pior ainda. Com os olhos muito inchados e vermelhos e cabelo todo desgrenhado e molhado... não é exatamente a aparência que eu gostaria que alguém me visse nesse momento.

“Você é a maior decepção da minha vida” a frase ecoa de repente na minha cabeça, como se houvesse um espírito maldito sussurrando no meu ouvido. Por um instante, eu entendo. Entendo exatamente o quanto minha mãe me odiava para ter dito aquilo e para ter feito o que fez... porque era verdade. Eu era uma decepção.

Eu era a garota feia, grosseira e desprezível que ela havia sido obrigada a criar.

Eu era a maior decepção da vida dela.

É claro que eu não seria o suficiente... nem para ela, nem para ninguém.

Sou tomada por uma falta de ar violenta. Como quando você percebe algo que esteve ali o tempo todo, mas que apenas você não via. A dor é física e repentina, como levar uma bolada no peito e ter seu ar arrancado violentamente de seus pulmões. Dói tanto que não percebo que eu soltei um gemido de dor.

Só percebo quando Quentin abre a porta do banheiro, alarmado.

— Tudo bem? – Ele pergunta, muito preocupado.

Eu nego com a cabeça.

— Eu matei a minha mãe, não matei? – Eu lhe pergunto, ainda com aquela falta de ar estranha. Vejo Quentin relaxar os músculos um pouco, mas não sei o que isso significa. – Eu... não fui o suficiente para ela... eu nunca seria... eu sempre fui... o castigo dela...

— Letty – ele me chama, estendendo os braços para mim.

— Não Quentin... – eu digo, mantendo distância. – Eu não sou o suficiente, entendeu? Nunca fui. Nunca posso ser... para ninguém. É como se... como se eu viesse com defeito de fábrica... E é tudo culpar minha... se ela tivesse tido o filho que ela queria... ou a filha que ela queria... ela...

— Letty! – Ele exclama, me agarrando pelos braços. – Letty, para. Para, por favor.

Olho para ele, assustada e vejo que... Quentin está triste. Ele está magoado e eu não sei se entendi porquê, mas isso faz com que eu me sinta mal. Não era para magoá-lo, era para lhe fazer entender... que eu nunca seria suficiente, nem para ele.

— Não fale assim de você, por favor – ele pede, prendendo o meu olhar no seu. – Você não veio com defeito de fábrica. Você é suficiente... você não a matou. Sua mãe tinha os problemas dela... e você não pode se responsabilizar por eles, se não vai ficar maluca, me entendeu?

Uma voz fraca na minha cabeça diz que Quentin deve ter razão, porque ele sempre tem razão e consegue ver as coisas com clareza, mas a verdade é que ele não sabe do que eu sei. Ele não acompanhou tudo como eu acompanhei. E também, há outra voz, e essa está gritando, dizendo que eu sempre disse que minha mãe era egoísta e narcisista, mas eu mesma havia escolhido fugir dela e de seus problemas para me esconder no meu mundo com os meus. Isso é uma forma de egoísmo, querendo ou não.

— Desculpa – eu murmuro.

Não estou pedindo desculpa por ele ter razão, mas a ideia de magoar Quentin, de envolvê-lo em toda a minha confusão (fazer ele ser parte de toda essa bagunça ambulante que eu era) faz com que eu me sinta culpada. Apenas um estorvo. Uma mochila que ele tem que carregar para cima a para baixo e que ele nem pediu por ela.

Ele me abraça, e então me beija de leve nos lábios.

— Você é suficiente – ele me diz. – Eu te amo.

Sinto-me afundar numa piscina morna e me aninho nos seus braços.

Há um microssegundo em seus braços que sinto que está tudo bem. Não é como se eu sentisse isso agora. Estava mais para uma esperança. Eu esperava que ficasse tudo bem, porque Quentin dizia que ia.

— Obrigada por me amar – eu murmurei.

Por algum motivo, ele ri.

— Isso não é tipo de coisa que se agradece – ele murmurou.

E mesmo assim eu queria agradecê-lo. Todos os dias. Para sempre.

Porque eu era egoísta o suficiente para não conseguir me afastar, mesmo depois de saber a verdade.