Nosso Nome Na Lista.

61 Capítulo 61 – O Dia da Babaquice


Notas iniciais
Dois capítulos em um dia >.> meu deus, espero que esteja bom ;-; Bisou ♥ Belle.Époque

Capítulo 61 – O Dia da Babaquice

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Nessa conversa com Ellen e Luc acabei perdendo meu único horário do dia em que teria aula com Quentin. Então tento encontrá-lo sozinho pelos corredores, mas é meio difícil quando a pessoa é tão popular quanto ele. Ele está sempre cercado por aquelas pessoas nojentas da lista e mesmo quando me olha, ele apenas sorri e age como se não precisasse falar comigo.... Por um instante, chego a me perguntar se imaginei nosso namoro inteiro, porque eu nunca havia visto um lado tão babaca de Quentin como aquele.

Até mesmo no horário de almoço, vejo-o ocupado com aquelas pessoas irritantes e sinto nojo. Eles devem estar felizes por me ver nessa situação já que nunca gostaram de mim. Por estarem vendo que ele estava me rejeitando... me afastando.

Penso em mandar uma mensagem para ele, mas a verdade é que não sabia bem o que iria lhe dizer. Só queria que ele me dissesse que estava tudo bem e pedisse desculpas por não acreditar em mim, e então eu poderia pedir desculpas por não ter contado nada para ele (sobre o beijo).

Porque eu já não suportava mais ficar nessa situação.

A questão era que: eu acho que Quentin não estava disposto a pedir desculpas. Pela maneira como ele me evitava, acho que ele é quem está com raiva de mim. E geralmente quem está com raiva não pede desculpas, certo? Mas isso também não quer dizer que, de alguma forma, ele acredita que a culpa fosse minha?

Por que exatamente ele está irritado afinal? É isso o que eu não sei.

Foi por eu não ter falado sobre o beijo (ACIDENTAL) de Gilliam? Por eu ter desmaiado? Por eu não falar sobre... sei lá, minha vida? Não acho que esses sejam motivos para ficar puto com alguém (talvez eu entenda apenas o primeiro). Não era como se o desmaio ou eu não querer falar sobre a minha vida fosse culpa minha.

Eu consigo um tempo para falar com ele só no horário da saída. Quando o pego pelo braço quando ele está a caminho do seu carro, Christine.

— Ei – eu digo.

Mas a verdade é que não sei muito o que dizer depois disso.

— Oi – ele diz, meio distante.

Não gosto do seu olhar assim. Do modo como ele não olha para mim. É de partir ainda mais o meu coração. Como eu não sou boa em conversas casuais ou enrolação, eu sou bem direta ao dizer:

— Então... acho que precisamos conversar.

Pela primeira vez, seus olhos encontram os meus. Seu olhar é confuso para mim. Como um mar tempestuoso que você não sabe se dá medo ou se é bonito. Quer dizer, provavelmente é bonito, se você não estiver no meio da tempestade.

— É – ele concorda. – Precisamos.

Não me passa despercebido que ele não fala quando ou onde. Ele só concorda que nós precisamos e não sei se ele está esperando que eu marque, ou se na verdade ele está arrumando uma desculpa para verbalizar o “mas agora não” implícito no seu tom de voz.

Quando abro a boca para dizer alguma coisa, ele diz por cima:

— Mas agora eu estou atrasado para o parkour.

Eu fecho a boca e desvio o olhar, expirando todo o ar nos meus pulmões. “Você não está ajudando nem um pouco seu babaca” eu penso irritada.

— Beleza. Lembra de marcar um horário para a sua namorada na sua agenda ocupada. Quer dizer, isso se eu ainda for, né? – eu respondo com sarcasmo.

Ele arqueia uma sobrancelha, como se não esperasse uma resposta dessas de mim, mas eu estou tão irritada por ele estar sendo um babaca o dia todo que eu apenas o empurro da minha frente e vou para o meu carro. Que bosta de dia senhor. Nunca senti tanta vontade de tomar um remédio e dormir até amanhã.

Nunca fui de caçar alguém pelo colégio.

Nunca fui de chamar os outros para conversa... para ele ser babaca comigo.

Quando chego em casa, as coisas não melhoram. Martha gruda em mim novamente, assim que passo pela porta, para o meu alívio ela não tenta empurrar comida nenhuma na minha goela. Apenas me encara com uma expressão um tanto... penosa.

— Letty... eu já percebi que você não se dá bem com a sua mãe..., mas eu posso lhe pedir um favor? – Ela pergunta, em um tom baixo e suave. Como se não quisesse que dona Victoria a ouvisse. – Você poderia passar no quarto dela e tentar animá-la?

Ah, querida, eu não consigo nem me animar. Imagine animar minha mãe.

Cuja única diversão era acabar com minha autoestima. Há.

— O que aconteceu? – Eu pergunto.

Ela desvia o olhar, como se quisesse checar que minha mãe não estava por perto.

— Ela estava penteando os cabelos... E algumas mechas saíram na escova... – Ela conta, com a mesma suavidade na voz. Como quem tem que dizer uma coisa horrível, mas tenta mascarar atrás de doçura. – Ela não para de chorar desde então...

É claro que ela não pararia de chorar. É a minha mãe.

Eu soltei um suspiro pesado e passei a mão pelos cabelos. Não sei como eu faria isso. Não sei nem como eu cuidaria da minha vida, imagine cuidar da vida dela. No entanto, parece cruel de mais eu não tentar fazer algo. Essa é a Letty. A Brucena que não perde a oportunidade de ser trouxa nem uma vez.

— Vou ver o que posso fazer – eu digo, forçando um sorriso.

Ela força um sorriso também.

Mas a verdade é que eu gostaria de tentar animar a minha mãe tanto quanto eu gostaria de ter agulhas enfiadas em meus globos oculares. No entanto, tento ser positiva. Tento me lembrar do como ela andou me tratando bem e de quando ficamos vendo séries idiotas na sala e tenho uma vaga esperança de que talvez... talvez possamos melhorar.

E é por isso que eu caminho até o seu quarto e bato na porta.

— Vá embora! – É como eu sou recebida.

Se eu houvesse obedecido todos os “vá embora” da minha mãe, eu provavelmente não seria metade da garota corajosa que sou hoje. Então, mesmo com a ordem dela, eu abro a porta do seu quarto, devagar, antes de entrar no ambiente. Minha mãe está com a cabeça baixa sobre sua penteadeira, de frente para o espelho. Ela está chorando e a cena é tão dramática, que sinto que estou vendo um filme antigo.

Eu havia me esquecido do como ela era dramática.

— Ei, mulher, você está bem? – Eu pergunto.

Apesar de a resposta ser bem óbvia pela atmosfera dramática no seu quarto.

— O que você quer, Bruce? – Ela pergunta. Sua voz soa como um lamento, um cansaço de mim. – Me deixe em paz. Não quero ver ninguém hoje... estou doente.

Ela levanta a cabeça, mas não se olha no espelho. Ela apenas desvia o olhar e enxuga os cantos dos olhos, como se eu não pudesse vê-la chorando. É ridículo. Mas eu nunca havia visto minha mãe tão destruída e, mesmo assim, tão desempenhada a não demonstrar que estava se sentindo péssima.

— Martha me contou o que houve – eu digo. – Vim ver se você está bem.

Ela ri com escarnio.

— Claro que ela contou – minha mãe resmunga, então me olha pelo seu reflexo no espelho. Por algum motivo, não gosto do olhar dela. – Bem... é verdade. Meu cabelo começou a cair... Máscaras caras e milagrosas, hidratação... nada disso adiantou.... Eu vou ficar careca... e feia...

Sua fala se entrecortou com choro. Um choro de raiva e ela volta a baixar a cabeça sobre sua penteadeira. Vejo-a dar um soco na superfície de madeira. Ela estava revoltada com aquela situação. E, por algum motivo, essa cena era de cortar o meu coração. Acho que eu não consigo ser filha da puta o suficiente para cagar e andar para ela.

— Mãe... Você nunca vai ficar feia – eu digo, tentando animá-la. – Quer dizer... Ainda não dá para ver que o seu cabelo está caindo... E você pode comprar perucas e.... você já viu essa moda de raspar a cabeça que algumas garotas fazem? É bem legal. Fica bem atitude e tal...

Ela ri novamente. Uma risada amarga, como de uma vilã da Disney.

— Como pode ser tão ridícula? – Ela murmura com incredulidade.

Confesso que eu não esperava essa resposta dela e isso faz com que eu sinta como se tivesse levado um tapa dela. Havia muito tempo que ela não me atacava daquele jeito. Tão direta. Mas quando estou olhando para ela, e ela me encarando novamente pelo reflexo do seu espelho, sinto como se estivesse de frente com a mulher que eu odiava.

— Você fala como se soubesse de alguma coisa, mas o que poderia saber? Você é feia e ridícula – ela diz, rindo de mim. – Você não sabe o que é conseguir as coisas por meio de tudo isso aqui... – Ela aponta para si mesma, como se fosse uma obra de arte. – E VER TUDO ACABAR DESSE JEITO!

Ela bate com a escova sobre a penteadeira, fazendo-me sobressaltar.

— Argh, eu tenho nojo sempre que olho para você.... Você podia ser tanta coisa melhor se ao menos se esforçasse... se ao menos se esforçasse um pouco.... Você podia ser como eu: rica, bonita, invejável...

— Vazia – eu completei.

Ela arqueou a sobrancelha, como se não houvesse entendido direito.

— Sozinha. Superficial... – Eu completei, sentindo raiva queimando em minhas veias. Fazia muito tempo que minha mãe não se mostrava daquele jeito. Agora eu a reconhecia, a mulher da minha infância. — Um monstro insuportável que destrói tudo o que há de bom. Que destrói TUDO o que toca.

Ela se levanta da sua penteadeira, indignada.

— Ora.... Você deve estar feliz, não é?! – Ela pergunta, desafiando-me com o olhar. – É o final perfeito que você iria querer para mim: que eu morresse aqui, feia e seca! Como você chamaria isso?! Castigo divino?!

Eu me pergunto que imagem minha mãe tem de mim, mas a verdade é que eu não quero saber, porque ela obviamente achava que eu era um monstro como ela. Acho que isso serviu para deixar bem claro uma coisa... minha mãe não ia mudar. Não importa quanto tempo ela havia aguentado antes de se mostrar de novo, mas a verdade é que as últimas lembranças que ela criou... era somente uma ilusão.

Para enganar o meu pai ou sei lá o quê.

E isso me dá vontade de chorar porque, de alguma forma, eu estou decepcionada. Porque, de alguma forma, eu esperei que a doença servisse para ela ver que havia coisas mais importante na vida do que tudo o que ela havia “conquistado”. Eu acho que acreditei, por um instante, que ela havia mudado.

— É isso o que você pensa de mim? – Eu pergunto. – Que eu estou comemorando por você estar doente e por você ter que passar por esse tratamento cruel? Você me ofende muito quando pensa que eu agiria como uma piranha como você-...

Ela morde o lábio, com raiva, e quando vejo, ela pega sua escova de cabelos e a atira contra mim. Não chega a me atingir, mas só o fato de ela passar voando ao lado da minha cabeça, é o suficiente para que eu fique assustada... e com medo

— VOCÊ É A MINHA MAIOR DECEPÇÃO BRUCENA! – Ela grita, furiosa. – Você fica aí com essa pose! Igual ao seu pai! Fingindo que é feliz, fingindo que é perfeita, fingindo que está tudo bem... NÃO ESTÁ TUDO BEM! Eu estou doente. Eu estou MORRENDO! E você... Você nem para conseguir ganhar um concurso... Nem para conseguir manter o meu legado...

Ela senta na penteadeira e começa a chorar.

Por um instante, me sinto a garota de quinze anos que ela destruiu com aquelas palavras uma vez. Eu me vejo ali, parada na porta do seu quarto, ouvindo aquelas palavras e apenas querendo, desesperadamente, que ela me aceite. Que ela não as diga para mim. Que ela veja que eu sou boa em outras coisas..., mas ela nunca viu.

— Eu tive esperanças com você... achei que você perceberia que beleza não é tudo e que havia coisas mais importantes na vida do que... sei lá, ser essa mulher vazia que você é – eu digo, sem saber mais o que dizer. Mas eu só consigo murmurar: — Não acredito que estou decepcionada.

Tentei dar uma risada sarcástica, para disfarçar minha imensa vontade de chorar e saí do seu quarto. No corredor, encontro Martha. Pergunto-me se ela ouviu a conversa, mas eu bem sabia que era difícil não ouvir os gritos da minha mãe, e pelo modo com que ela me olha, não há muito o que dizer. Dou um sorriso triste e dou de ombros.

— Você tem razão. Não nos damos bem – é tudo o que eu consigo dizer.

Passo por ela, e é óbvio que ela não sabe o que me dizer. É óbvio o como ela sente pena de mim e isso me faz sentir ainda mais patética. Vou para a sala e pego um casaco no cabide. Eu preciso sair dali.

Preciso sair dali antes que eu desmorone.