Nosso Nome Na Lista.
59 Capítulo 59 – Uma Intervenção
Notas iniciais
Capítulo 59 – Uma Intervenção.
Quando você desmaia, há pequenas coisas das quais você ainda tem noção. É como se você estivesse presa entre dois planos: o da realidade e o da inconsciência. Você sente as pessoas se mexendo ao seu redor, tentando te acordar..., mas a questão é: você tem força para acordar? Você consegue responder aos estímulos do outro lado? Não é mais fácil ficar dormindo?
Aquela não era a primeira vez que eu desmaiava, mas era a primeira vez que eu não queria acordar... e também era a primeira vez que eu desmaiava no colégio. Então, obviamente, fiquei muito surpresa quando acordei na enfermaria, com a enfermeira Mary passando um algodão com cheiro forte debaixo do meu nariz.
O cheiro só piorava minha dor de cabeça.
Virei o rosto e abri os olhos pesados, fazendo um esforço extra para empurrar a mão da mulher para longe do meu rosto. Aquele cheiro de álcool só estava me deixando ainda mais enjoada. Um enjoo maior do que a queda de pressão era capaz de causar.
— Enfim, você acordou, Letterman – a senhora de idade suspirou aliviada. – Estávamos começando a ficar preocupados.
Eu não sabia a quem ela estava se referindo com “nós” oculto ali, até que percebi que não estava sozinha com ela na enfermaria. Olivia e Paloma estavam ali, segurando a minha mão, e, em pé, encostado contra a parede, do lado da maca, estava Quentin. Sua expressão era séria e preocupada, quase ouso dizer que ele estava irritado. Lindo, sempre.
Perguntei-me com o que ele estaria irritado.
— Desculpa.
Foi a primeira coisa que eu consegui pensar em dizer, antes de tentar me sentar. Algo que não deu muito certo. Tudo ainda estava girando e todo o meu corpo parecia gelado. Até meu suor parecia gelado. Como se fossem pequenos flocos de neve, que se derreteram ao encostar na minha pele.
— Não tem nada que se desculpar – a enfermeira foi quem respondeu.
Ela não me explica porque é compreensível. Apenas deixa subentendido e dá um tapinha sobre a minha mão, como se quisesse me consolar por alguma coisa. Se eu tivesse que chutar, arriscaria que era porque eu havia virado alvo do ódio gratuito de toda a escola.
Pensar nisso fez com que eu sentisse a bile subir pela garganta.
— Como você está se sentindo? – Olivia perguntou.
— Eu estou ótima – eu respondi com sarcasmo. – Não pareço?
Paloma solta uma risada, mas acho que é mais por nervosismo do que por me achar realmente engraçada naquele momento. Às vezes ela fazia isso quando se sentia nervosa ou quando não sabia o que fazer, nem o que dizer. No entanto, só ela ri, Olivia e Quentin ainda estão sérios.
Não entendo o porquê, até que a enfermeira pergunta:
— Qual foi a sua última refeição, Letty?
Eu franzi o cenho. Que tipo de pergunta era essa.
— Hum... meu café da manhã? – Minha resposta soou uma pergunta.
Mary sentou-se na sua mesa, de frente para mim.
— Qual foi o seu café-da-manhã? – Ela perguntou pacientemente.
Tudo bem, faz sentido meus hábitos alimentares interessarem à enfermeira do colégio, ainda mais após meu desmaio dramático..., mas havia algo extremamente constrangedor em ter que responder à essas perguntas na frente dos meus amigos e do meu namorado.
— Uma maçã? – Eu respondi, novamente soando como uma pergunta.
Se eu fosse sincera, diria que havia sido uma mordida em uma maçã, mas algo me dizia que aquele não era um momento para ser sincera. Não com Quentin, Olivia e Paloma me encarando como se eu fosse... como se eu fosse...
Algo embrulhou o meu estômago.
— Eu estava lendo a sua ficha e falando com os seus amigos... você teve transtornos alimentares semestre passado, certo? – Ela perguntou delicadamente. Fazendo pausas como se não soubesse como colocar as palavras. Como se não encontrassem palavras melhores para “bulímica/anoréxica”. – Você sabe que... quando você não come direito... é normal ter esse tipo de desmaio, certo? Queda de pressão... e tal.
Estreitei meus olhos para ela.
Se eu tivesse força, teria ficado furiosa.
— Você está sugerindo que...
— Ela está dizendo que você não tem se alimentado bem, Letty – Quentin disse. Por algum motivo, ouvir a voz dele me abala, porque ele parece irritado. – E, sinceramente, todos nós percebemos, por isso estamos aqui.
Franzi o cenho para ele.
— Você tem comido muito pouco... Olivia e eu percebemos – Paloma concordou, encolhida. Como se soubesse que falar isso iria me deixar com raiva. – No início a gente pensava “Letty sempre comeu pouco”... mas você não anda comendo quase nada no horário de almoço... Nós não somos cegas, sabe?
Pisquei para ela.
— Quê isso? Uma espécie de complô contra mim?! – Eu perguntei.
Por algum motivo, eu estava me sentindo traída por eles. Pior que isso, acusada. Quem em sã consciência conseguiria comer com tanta merda que estava acontecendo comigo? Quer dizer, óbvio que eu andava sem fome. Óbvio que eu andava sem dormir direito e óbvio que eu andava cansada. Minha vida havia se tornado uma montanha-russa que só descia.
O que me magoava, era Quentin fazer parte disso. Logo ele, que devia me entender, ao menos um pouco... Logo ele, que eu achei que não fosse me julgar.
— Não fala assim... estamos dizendo isso porque nos importamos com você – Olivia disse, passando um braço em torno de Paloma. – Você pode ver isso como uma intervenção.
Franzi o cenho para Olivia, porém ela apenas abaixa o olhar.
— Você tem ido à sala da Sra. Rebecca, certo? – A enfermeira continuou.
— Toda maldita segunda-feira – eu respondi à contragosto.
Houve um silêncio tenso novamente.
Juro que se houvesse mais silêncios tensos naquelas conversas, eu iria bater em alguém assim que conseguisse me sentar com decência na maca. A única coisa que rompeu aquele momento, foi quando a mulher se levantou da sua mesa, e entregou dois papéis à Quentin.
— Por hoje, vocês dois estão dispensados das aulas – ela disse. Perguntei-me porquê ela estava liberando Quentin também. Ela me estendeu um pacote de biscoito e disse olhando para mim: – Mas amanhã, você vai ter que passar na sala da Rebecca, mocinha. E eu vou estar lá também.
Franzi o cenho para ela e olhei para o pacote interrogativamente.
— Você vai se sentir melhor depois que comer algo – ela explicou.
Confesso que eu estava com raiva. Ódio daquela mulher se metendo na minha vida e dizendo o que eu devia ou não devia fazer. Eu nem a conhecia e ela veio tirando conclusões com base no que ela leu na minha ficha. Pergunto-me se estava anotado ali: anoréxica em recuperação. Era somente assim que as pessoas pensavam em mim de qualquer jeito.
E, sinceramente, saber que meus amigos estavam concordando com a opinião que uma estranha tinha de mim (com base do que ela havia lido numa folha de papel qualquer) era ainda mais enervante.
Eu me sentia traída. Traída por Olivia, por Paloma... por Quentin.
— Eu não estou com fome – respondi irritada, recusando os biscoitos.
A raiva e a indignação é o que me dá forças, para me levantar da maca. Infelizmente, ela não me deixa forte o suficiente para que eu consiga aguentar meu peso e Quentin é quem me impede de beijar o chão. Ele me segura com força, passando um braço pela minha cintura e passando um dos meus braços por seus ombros. O.K. eu pareço muito doente agora.
— Bem, ou é o biscoito ou você vai sair daqui numa ambulância para tomar soro no hospital – a enfermeira disse, oferecendo-me o pacote mais uma vez.
Se fosse possível, eu voava em cima dessa mulher.
— Eu vou garantir que ela coma alguma coisa – Quentin assegurou a ela, como se percebesse que eu não estava nem um pouco a fim de cooperar e pegou os biscoitos da mão dela.
Ótimo, Quentin havia feito o que ela queria.
Agora ele merecia os biscoitos.
No carro, eu estava puta com Quentin e, aparentemente, ele estava puto comigo. O que poderia ser descrito como uma cena inédita já que eu nunca havia ficado puta com ele e ele nunca havia ficado puto comigo. Quer dizer, é Quentin McCullogh, como alguém ficava puto com ele? Só o seu olhar era capaz de acalmar uma fera, e talvez fosse por isso que eu estava evitando encará-lo. Eu não queria perder a raiva que estava sentindo dele... ou das minhas pseudo-amigas.
Quanto à raiva que Quentin estava de mim, confesso que isso não fosse algo difícil. Eu era o tipo de pessoa que despertava a raiva dos outros, o ódio deles. Afinal, se não fosse por isso, eu não teria uma lista dedicada exclusivamente a mim, certo? Pensar nisso, fez com que eu quase soltasse uma risada amarga. Uma risada dessa parte deplorável de mim.
O caminho todo foi feito em silêncio. Como se estivéssemos disputando um cabo-de-guerra silencioso e esperássemos para ver quem cederia primeiro.
Infelizmente, eu perdi.
— O que diabos foi aquilo? – Foi o que eu consegui perguntar.
Quentin olhou para mim estranho, como se não acreditasse na minha pergunta. Algo do tipo “você ainda pergunta?” ou “você não tem nenhum direito de estar com raiva”. Sinceramente, odiava esse tipo de olhar. Como se a pessoa soubesse mais do que estava acontecendo, do que você mesmo.
— Aquilo o que? Seus amigos preocupados com você? – Ele perguntou, seu tom era comedido. Como se ele quisesse soar frio, mas não conseguindo. No fundo, havia uma chama de raiva. – Você pode chamar de intervenção.
— Intervenção? Como se eu fosse uma pessoa com problemas e não quisesse admitir? – Eu perguntei. – Como se eu fosse sei lá, uma alcoólatra?
Ele olhou para mim pacientemente, com aqueles olhos lindos...
— Por que você está com tanta raiva? – Ele perguntou. – Não foi você que viu a namorada jogada no chão, com as duas amigas chorando em pânico para chegar na maldita enfermaria e a enfermeira dizer que provavelmente você tinha tido uma queda de pressão por conta da sua anorexia!
Quentin aos poucos levantou a voz.
Ele nunca havia levantado a voz para mim.
Ele também nunca havia dito aquela palavra. “Anorexia”. Na verdade, ele nunca havia conversado sobre isso comigo desde o dia em que almoçamos juntos pela primeira vez. Porque ele havia percebido que esse assunto me incomodava e que eu não queria falar nisso. Mas ali estava ele, jogando na minha cara. A última pessoa na terra que eu pensei que fosse capaz de fazer isso comigo.
Por algum motivo, toda a raiva que eu estava sentindo se dissipa. Como se houvessem jogado água em cima de um incêndio... e então a água tinha um nome: mágoa. E eu não percebo que estou magoada, até que sinto meus olhos arderem. Querendo chorar. Mas digo a mim mesma que não vou. Não vou derramar lágrimas na frente dele.
Encosto minha cabeça no vidro, como se estivesse cansada.
E estava.
— Eu tenho passado por muitas coisas ultimamente – eu murmurei. — Eu poderia ter desmaiado de estresse..., mas não. É mais fácil acreditar que a bulímica/anoréxica desmaiou porque ela não está comendo direito né? Porque é o que está escrito na ficha médica dela. Ela tem histórico de distúrbio alimentar... óbvio que esse é o problema dela. É mais fácil que seja isso. Quer saber de uma coisa? Vocês obviamente não sabem de nada.
Quentin soltou um som irritado e disse:
— É mesmo? E por que você acha que nós não sabemos de nada?
Olhei para ele e ele me encarava, irritado. Meu Deus, até mesmo irritado ele era incrível. Sua expressão séria, o brilho nos seus olhos, o modo como ele apertava os lábios... era tão lindo. Alguém deveria bater uma foto dele naquele momento e escrever um poema só pela beleza de suas expressões.
— Você não conta nada para nós, Letty! Nada! – Ele continuou. – Você conta coisas como “estou triste”, “estou com raiva”, “minha mãe está doente”, “eu tive anorexia”... mas se recusa a falar sobre isso e quando nós demonstramos que queremos saber, que estamos preocupados, você se fecha. Você se esconde por trás desse seu sarcasmo, dessa sua ironia e nós pensamos “ela vai falar sobre isso quando estiver pronta”. Mas você nunca está pronta! – Quando percebe que voltou a erguer a voz, ele respira fundo. Como se quisesse recuperar seu controle. – Você trata... nós, os seus amigos, como se fôssemos atacar você por estar exposta. Como se não pudesse confiar em nós.
Eu abaixei o olhar. A mágoa e a indignação amassando o meu peito como se houvesse um elefante pisando nele. A sensação é tão dolorosa que mal consigo respirar e ela é causada por uma pergunta que martela na minha cabeça: “por que ele está destorcendo as coisas daquele jeito?”.
— Eu não faço isso – eu respondi.
Era tudo o que eu podia dizer. Eu sabia o que sentia, o que fazia, e não era nem de longe o que ele havia dito... era? Será que era possível eu afastar eles assim de mim, sem nem perceber? Não. Não era. Eu não fazia isso. Eu contava para eles mais do que eu contava para qualquer outra pessoa.
— Não? – Ele perguntou, dessa vez, com sarcasmo. – Por que você não me conta o que deu errado no seu relacionamento com Duncan? Por que não me conta sobre a sua internação no hospital semestre passado? Por que você não me contou que beijou o meu irmão?
Eu congelei.
Por um instante, nenhum ar entrou ou saiu de meus pulmões. Fiquei observando meu prédio na próxima esquina, tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Perguntei-me quem teria contado para ele. Bem, haviam poucas pessoas que sabiam: o irmão dele e Helena. E ambos eram próximos o suficiente para ter contado a ele... porém, o mais importante, não era “quem?” e sim “e agora?”.
Respirei fundo.
— Isso está fora de contexto – eu murmurei. – Eu não “beijei” o seu irmão...
— Eu sei que está. O que estou perguntando é por que você não me contou? – Ele respondeu de volta. Dei graças a deus, por ele não ter gritado.
Dei uma risada sarcástica.
— E o que eu deveria ter dito? “Hey, Quentin, olha que loucura. Cheguei na sua casa, toquei a campainha, e beijei o seu irmão porque achei que fosse você. Louco né? Eu sou uma idiota mesmo. Há há”— Ele travou o maxilar. – Você iria acreditar? Como se diz isso para a pessoa que você namora fazia nem uma semana? Eu estava com vergonha... não disse nada porque não havia significado nada. Foi um engano.
— Seria melhor do que eu encontrar bilhetinhos fofocando sobre isso na aula de química – ele respondeu. – Eu preferiria mil vezes ter ouvido de você, do que de outros na escola, acredite.
Franzi o cenho.
— Espera! Você está me confrontando sobre algo que ouviu na escola?! – Perguntei indignada. – Onde pelo menos 90% da população me odeia?!
— Não foi qualquer pessoa – ele respondeu, parecendo, pela primeira vez, incomodado. – Foi uma amiga.
— Claro que foi uma amiga! Você está cheio delas! – Eu respondi, sentindo minha raiva voltar. Mais forte que antes. – Parece ser incapaz de pensar que garotas inventam coisas, só para tirar outras garotas do caminho! Aí, vai uma novidade para você, McCullogh, sabe essa história linda de sororidade? Pois é, ela não existe no St. Justine!
O carro enfim para em frente do meu prédio na corrida que pareceu a mais longa da história. E sinceramente, eu nem penso em me despedir quando saio do carro e fecho a porta com força. Se quebrasse, eu dançaria de felicidade. Porque eu queria quebrar algo dele e se não pudesse ser o rosto, que fosse o carro.
Tudo bem, ele havia quebrado várias coisas dentro de mim nessa carona.
Acho que em toda a minha vida, eu nunca havia ficado tão furiosa com alguém. Sinceramente, queria que fosse com qualquer pessoa, menos o Quentin.
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