Nosso Nome Na Lista.
54 Capítulo 54 – O que temos agora.
Notas iniciais
Capítulo 54 – O que temos agora.
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Eu nunca fui do tipo que fugia.
Eu era do tipo que ficava na minha a menos que algo acontecesse e que precisasse de uma mudança. Eu sempre era a primeira a me pronunciar ao ouvir comentários maldosos e injustos. Eu era do tipo que morria lutando... Sempre com energia para me defender e sair gritando quando era preciso.
Mas inexplicavelmente, ao ver a terceira “lista” com o meu nome... Eu me senti esgotada. Não a arranquei, não gritei, não me estressei... Apenas a fitei e senti medo. Medo de como uma pessoa que eu nem conhecia podia saber tanto da minha vida. E cansada. Cansada de dizer para as pessoas que não era nada daquilo e que eu não havia feito nada... Que as pessoas acreditassem no que quisessem. Que elas venerassem uma merda sem sentido nenhum.
Eu me retirava.
Sob os olhares preocupados de Paloma e Olivia saí do banheiro e caminhei para a minha próxima aula. Coloquei “Blew” do Nirvana e caminhei fingindo digitar uma mensagem no celular. Só querendo, ao máximo, evitar os olhares das pessoas e seus comentários... Claro que não foi tão fácil.
Joshua segurou o meu braço e meu celular caiu no chão.
– Mas que merda... ?!
– Quem diria hein, Brucena? – debochou o retardado, ajeitando seu topete castanho, enquanto eu me abaixava para pegar o aparelho. – Você falou tanto de mim, mas você também não é nem uma santa, né?
Revirei os olhos e tentei passar. Ele me impediu com seus 1,78 de altura.
– Se eu fosse você escolhia logo um lado. – ele continuou, fazendo seus seguidores descerebrados rirem da brincadeira. – Pegar os dois é sacanagem.
– Bem, você não escolheu um... Nem com toda ajuda que eu tenho te dado para sair do armário – eu retruquei, dando-lhe um empurrão (tirando-o do meu caminho) e disse antes de tentar ir para a sala de aula: – Se eu fosse você, tomava mais cuidado com o que dizem dos homofóbicos: que são gays encubados.
Ele parou com aquele sorriso bobo dele num estante, fazendo-me sentir bem por pouco tempo, pois ele voltou a sorrir. Quando olhei para trás, percebi que Quentin estava se aproximando, parecendo mais preocupado do que a última vez. Antes que eu pudesse fugir dali, Josh disse:
– Ei, Quentin! Que sortudo, hein? A namoradinha curte os dois! Deve rolar um ménage gostoso aí...
Depois disso, foi difícil dizer o que aconteceu. Só sei que eu nunca vi Quentin perder tanto a cabeça como daquele jeito. Seu rosto se fechou numa expressão tão assustadora que nem parecia ser dele mesmo. Meu namorado enterrou o punho na cara de Joshua, empurrando-o contra o armário. Puxando-o pelo colarinho ele disse:
– Fala da minha namorada! Fala! Quero ver você falar agora!
– Quentin! – exclamei estupefata.
Sinceramente, eu não esperava uma reação tão violenta.
– M- me solta! – Joshua balbuciou, tentando soltar-se das mãos de meu namorado. – A culpa é minha se sua namorada é uma vadia anfíbia?!
As palavras dele me magoaram. Doeram tanto que quase me senti chorar. Quase que de imediato, Quentin chutou-o no estômago e o jogou no chão. Todo mundo do corredor observou a cena, estupefatos e sem palavras. Enquanto Joshua gemia e se contorcia no piso e Quentin bufava de raiva. Aquela era uma imagem que nunca tiveram de Quentin. Que eu nunca tive dele.
Era de dar medo.
Eu deveria segurá-lo pelo braço e dizer que não era certo bater em pessoas... Todavia, não tive coragem e nem cabeça para isso. Assim como mais ninguém teve. Não era nada romântico ver seu namorado socando outro garoto só para te defender, mesmo que o outro garoto merecesse há um tempo.
– Você não tem o direito de falar assim da Letty – Quentin disse por entre os dentes. Cerrando os punhos. – Você não a conhece! Ninguém a conhece! E ninguém deveria falar assim da vida das pessoas como se soubessem de toda a verdade! Agora você vai pedir desculpas a ela?
Joshua o observou, cheio de ódio, depois me olhou. Ao invés de soltar o pedido de desculpas, ele cerrou os lábios. Quase nos desafiando. E isso só piorou o que eu sentia.
– Não sei por que eu não estou surpreso – Quentin disse com desprezo. – Não que ela precise de desculpas de alguém tão repugnante.
– Sr. McCullogh!
Viramo-nos para trás e encontramos um inspetor se aproximando. Olhei para Quentin, preocupada e os amigos de Josh lhe ajudaram a levantar. Sendo amigos só para isso. Não para defendê-lo de um garoto furioso que lhe deu um soco.
– O que está acontecendo aqui?! – exigiu saber o homem de meia idade e magro.
Quentin não respondeu, olhando para mim e para Joshua.
– Ele me bateu! – Joshua acusou de imediato, apontando para Quentin.
Ainda furioso, Quentin inesperadamente confessou:
– Eu bati nele sim. Ele estava ofendendo a Letty!
O inspetor franziu o cenho. Olhou para o garoto com o nariz sangrando, depois para o meu namorado tenso e para mim: a garota loira que estava a um tris de chorar bem ali, na frente de todo mundo. Como se decidindo que não havia sido treinado para lidar com aqueles adolescentes com sentimentos à flor da pele, ele mandou nós três para a diretoria. Encarar a senhora Hills.
Infelizmente, eu fui logo liberada porque não havia batido em ninguém.
Esse era o pior castigo que poderiam ter me dado: Quentin e Joshua numa diretoria, depois de terem brigado feio, e eu tendo que assistir a aulas que não faziam nenhum sentido para mim. Eu já estava começando a ficar nervosa quando o encontrei saindo da diretoria.
– Quentin, o quê... ?
Novidade: não era o Quentin.
Eu deveria ter percebido que os cabelos eram um pouco maiores e que ele era um pouco mais alto também. Mas a culpa não era minha se, de longe e de costas, Gilliam fosse tão parecido com o irmão caçula. Eles podiam ser gêmeos facilmente.
– Você adora me confundir com o meu irmão, hein? – ele provocou.
– O que você está fazendo aqui? – eu perguntei constrangida.
– Mamãe precisou de carona quando ligaram para casa – ele respondeu divertido, e deu de ombros. Confessou-me: – Ela ficou tão puta que dei graças a Deus por eu ter ido buscar um livro que esqueci... Ela poderia causar um acidente ou matar um taxista com o humor com que estava... Quase me matou.
Senti a cor deixar o meu rosto.
Eles haviam chamado a mãe dele?!
Tudo girou ao meu redor. Senti-me mau por tudo isso. Tudo era culpa minha. Ele havia brigado por mim. Eu não fazia nada certo mesmo. Era péssima com a minha mãe e agora era péssima com Quentin. Eu merecia a morte, sério.
– Relaxa, ele não vai ser expulso nem nada assim... Ele é um bom aluno – Gilliam disse, gesticulando para a secretária. – Zara acha que ele só vai pegar uma suspensão.
Soltei um suspiro de alívio, sem saber o que poder dizer num momento como esses. Nem precisei arrumar o que dizer, brincando com um maço de cigarros, Gilliam perguntou:
– É verdade que ele brigou porque o engomadinho ali mexeu contigo?
Eu corei.
– Não foi bem assim... – admiti culpada. – Mas acho que... sim.
Gilliam deu um meio sorriso, que não deixou de ser menos safado, todavia, ele continuou brincando com o maço de cigarro. Era um gesto engraçado vindo dele, quase reflexivo. Essa era a parte engraçada. Não era como se Gilliam fosse conhecido por ser um filósofo ou “reflexivo”.
– Fazia tempo que ele não brigava no colégio... – ele comentou, encostando-se à parede da secretaria. – Mamãe ficou preocupada que ele estivesse saindo da linha de novo. Ela vai ficar aliviada em saber que isso não está acontecendo.
Franzi o cenho, lembrando-me que, vagamente, Quentin comentara que antigamente ele dera trabalho à sua mãe. Mesmo assim, Gilliam falou como se referisse ao Hulk. Tal como sua própria mãe fizera naquele piquenique.
– Se isso tivesse acontecido, o moleque ali ia ficar deformado – ele acrescentou, muito divertido. – Sinceramente, era o que ele devia ter feito.
– Você está falando do seu irmão como se ele fosse um monstro que precisasse de contenção – eu comentei incomodada. – Por que vocês adoram fazer isso com ele?
O rapaz moreno deu um meio sorriso divertido novamente.
– Ele não é um monstro que precisa de contenção. É só que, ele é muito... intenso. Apaixona-se muito rápido, se envolve muito rápido, se comove muito rápido... Quando ele fica com raiva, como você viu, é para valer. Fico feliz que ele tenha aprendido a se controlar, porque antigamente ele era impossível – ele respondeu, dando de ombros. – Ele é quase como Kurt Cobain: cheio de sentimentos que, se não extravasar, vai acabar fazendo-o explodir.
Arqueei uma sobrancelha. Incrédula.
– Você acabou de citar “Carta de Amor aos Mortos”?
– Não sei o nome do livro. Ele sabia que eu gostava do Nirvana e esse povo do rock que já morreu, e leu para mim – Gilliam confessou divertido. – É muito bom, por sinal. Apesar de ter um toque de garotinha que eu não curto muito.
– Tecnicamente, o eu-lírico é uma garotinha de quinze anos – retruquei.
– Não sei o que meu irmão faz lendo essas coisas – Gilliam soltou com um suspiro.
– Ele sabe o que é bom – eu retruquei.
– Vocês se merecem. Mesmo – ele soltou tão de repente que me fez corar.
Era meio constrangedor ouvir o irmão cafajeste do meu namorado dando seus votos de felicidades para o nosso relacionamento. Supostamente, ele deveria desdenhar esse tipo de coisa, não é? Ou tentar dar em cima de mim e me roubar dele... Isto é, se estivéssemos num livro ou num filme de drama.
– Você não tem ninguém que te “mereça”, Gilliam? – perguntei.
Ele me olhou sério, pela primeira vez desde que o conheci (eu acho). Quase me senti mal por fazer uma pergunta tão intrometida, mas a resposta que ele me deu foi bem diferente da que eu esperava.
– As garotas da faculdade não ligam muito para mim como pessoa – ele respondeu, dando de ombros. – Por mais que eu quisesse namorar, elas só me veriam como um cara obsceno de corpo escultural... E, sinceramente, pareceria uma maldade eu me prender num relacionamento exclusivo, quando todas querem ter um pedaço de mim.
Quase não acreditei em suas palavras.
– Nossa, mas que fardo – desdenhei revirando os olhos.
– E não é? – ele retrucou com um sorriso divertido.
Seu sorriso sumiu um pouco e ele olhou para trás de mim. Virando-me de costas, encontrei um grupo de garotas tentando ver o que acontecia na diretoria. Provavelmente, elas estavam curiosas quanto ao destino de Quentin. Parte de mim se contorceu em ciúmes, outra parte disse: “aguente, isso que dá namorar um cara bonito e gostoso”.
Então, antes que eu pudesse ir até lá e fazer alguma coisa, Quentin deixou a secretaria com a sua mãe logo atrás. Ele olhou para mim, um pouco surpreso e parecendo ter algumas coisas para dizer. Sua mãe, com a expressão mais assustadora que até então ela pudesse já ter mostrado, olhou para mim.
– Vou te dar dez minutos. Te esperamos no carro – ela disse à ele, num tom muito sério e cansado. Então forçou um sorriso para mim. – Oi, Letty.
Forcei um sorriso também e assenti com a cabeça num cumprimento.
Christine saiu arrastando Gilliam com ela e me deixou no corredor com Quentin e aquele grupo irritante de suas admiradoras fofoqueiras. Ele me abraçou e toda minha tensão pareceu se quadruplicar. Não era um abraço normal. Senti isso na rigidez de seus músculos e no modo com que demorou em me soltar.
– Você foi suspenso mesmo? – eu perguntei.
Soltando-me, com relutância, ele concordou com a cabeça.
– Foi um milagre eu ter sido suspenso só por três dias, de acordo com a secretária. A diretora é muito rigorosa – ele respondeu, parecendo preocupado. – Se ela tivesse puxado o meu histórico, aposto que tinha me expulsado...
Um arrepio percorreu a minha espinha. Não sei o que seria de mim sem Quentin no colégio... Era ridículo admitir isso, mas nessas últimas semanas ele era o meu porto seguro. O cara que conseguia arrancar uns risos que estavam se tornando escassos... Não sei como ele é capaz de me amar quando eu só lhe trago problemas.
– Sinto muito, Letty – ele pediu de repente, fazendo-me ficar confusa. Coçando a nuca, ele continuou: – Eu perdi a cabeça... Eu só não pude ficar quieto ouvindo aquele cara te agredindo moral e verbalmente daquele jeito.
– Tudo bem – eu respondi, tentando esquecer aquilo tudo o que ele dissera. – Josh é só um babaca... Recalcado que se sente melhor falando mal de todo mundo.
Quentin forçou um sorriso.
– Além do que... Eu é que peço desculpas – eu disse abaixando o olhar.
– Hein?
– Eu sou uma má pessoa, Quentin – eu disse, não conseguindo olhá-lo nos olhos. – Não sei como você pode gostar de mim porque... eu sou uma má pessoa. Só te trago problemas e...
– Letty, para. Tá bom? – ele me interrompeu. Incrivelmente, parecia bravo... comigo? – Você não é uma má pessoa. Você é a pessoa mais forte que eu já conheci... Você não apontou uma arma na minha cabeça e me mandou arrumar briga. E eu adoro você com todos os seus problemas, ou não.
Franzi o cenho, mas não respondi nada. Apesar da vontade de dizer que não sou uma boa pessoa. Não tem como eu ser quando minha mãe está para morrer depois de passarmos uma vida de desentendimento. Como se percebesse meu estado de espírito, Quentin me abraçou de repente. Do nada. Envolvendo-me naqueles braços fortes e quentes, tão familiares.
Quase desabei, mas lutei para me manter firme.
Ele beijou a minha testa.
– Você... Vai ficar de castigo, não vai? – eu mudei de assunto.
– Provavelmente, até a faculdade... A minha sorte, é que nem falta tanto assim – ele brincou quase conseguindo me fazer sorrir. – Mas mamãe disse que você pode ir me ver em casa quando quiser. Eu só não posso usar o computador ou sair que não seja para o parkour ou para o teatro.
Eu concordei com a cabeça e mordi o lábio inferior.
Ele deu um sorriso e se inclinou para mim, mordendo meu lábio inferior por mim, antes de me beijar muito indecente, fazendo com que meu corpo ficasse em chamas. Quase me esqueci de tudo o que aconteceu, da lista e da minha mãe.
– Preciso ir – ele disse, afastando-se.
Assenti com a cabeça.
– Nos vemos mais tarde – eu concordei.
Ele me beijou novamente, antes de sair sozinho pelo corredor. As três garotas que antes tentavam espiar para a diretoria, o abordaram no meio do caminho. Sinceramente, elas me deixaram chateada, mas eu não disse nada. Eram só “amigas” dele, certo? Não vou ser ciumenta com as amigas do meu namorado. Já bastou meu equívoco com Yvonne Tybolt.
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– Você está abatida – foi a primeira coisa que Rebecca me disse quando eu entrei no seu escritório. Sinceramente, Sherlock Holmes deveria dar um prêmio para ela. – Aconteceu alguma coisa?
Não respondi nada, caminhei em modo automático até o sofá em sua sala aconchegante e respirei fundo. Sinceramente, aconteceram tantas coisas que eu nem sabia por onde começar. Eu gostaria muito que tivesse sido somente “uma coisa”, talvez minha cabeça não estivesse dando voltas.
Encostei o rosto no braço do sofá e encarei o relógio.
– Tudo bem eu não querer falar? — perguntei, tão constrangida com o como ela poderia encara essa pergunta que minha voz saiu muito baixo.
Vi Rebecca cruzar as pernas e apoiar os cotovelos nelas.
– Claro — ela disse, com um sorriso contido.
Ótimo. Eu não saberia como contar o que eu estava sentido naquele momento. Só estava sentindo como se, mais e mais, minha vida estivesse afundando num lago escuro. Como se eu tivesse me afogando, mas chegado naquele estado de que não adiantava mais me debater ou tentar nadar. Só restava fechar os olhos e me deixar afundar. Observando somente os pequenos reflexos de luz na superfície.
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Depois de cinquenta minutos no mais completo silêncio, sozinha com meus pensamentos e com Rebecca me analisando, eu fui para o hotel. Onde eu tive mais uma surpresa: minha mãe estava arrumando nossas malas.
– Vamos embora? – eu perguntei.
Victoria me olhou, parecendo cansada. Ela sempre parecia cansada.
– O corretor disse que já podíamos ir para a casa que vimos sábado – ela respondeu. – Walter... Disse que mandaria o resto das nossas coisas para lá.
Sua voz falhou ao dizer o nome do meu padrasto e parte de mim quis saber se ela gostava dele de verdade. Ele era bom. Era o tipo de cara que despertava muito mais do que amor pelo seu talão de cheques... Todavia, não tive coragem de perguntar. Pareceu intrusivo demais (ela era uma estranha para mim), então apenas a afastei das malas e disse que as arrumaria.
Ela ficou surpresa, mas não protestou. Sentou-se na cama e ficou me observando.
Ficamos em silêncio.
De repente, me pareceu errado ela ser uma estranha para mim. Eu devia me esforçar para conhecê-la melhor... Ao menos tornaria tudo isso mais suportável, talvez.
– Como era a sua mãe? – eu perguntei, enquanto dobrava nossas roupas.
– Desculpe? – ela pediu confusa. Tirei-a dos seus pensamentos.
– Como era a vovó? A sua mãe – eu respondi fingindo estar muito concentrada em minha “difícil” missão. – Eu não a conheci. Nem ela e nem a mãe do papai...
Mamãe se contorceu, desconfortável, na cama.
– Era uma mulher muito fria... Distante – ela respondeu, parecendo emocionada. – Parecia que quanto mais eu tentava me aproximar dela, mais ela me afastava. Só me procurava quando precisava de algo de mim. Quando eu fazia algo bom, ela dizia que era a minha obrigação como sua filha... Me casei com o seu pai para fugir dela.
Franzi o cenho e a fitei com confusão.
– Seu pai e eu nos casamos logo depois de terminarmos o Ensino Médio. Nossas famílias foram contra, obviamente... mas estávamos muito apaixonados e ele sabia que eu acabaria me matando se tivesse que aturar a minha mãe – ela admitiu. – A família dele não gostou, juravam que eu estava grávida.
Dizer que fiquei surpresa seria pouco. Nunca imaginei que minha mãe se casaria só para fugir da mãe... Por mais que ela fosse apaixonada pelo marido.
– Meu casamento com o seu pai foi o mais feliz e duradouro de todos – ela confessou num tom que beirava a ternura. – Ele... sabia como lidar com o meu lado dramático tanto quanto sabia como lidar com você.
Abaixei o olhar para as roupas.
– A senhora ainda gosta dele? – eu perguntei.
– Que tipo de pergunta é essa, Bruce? – ela retrucou, parecendo envergonhada. – Tenho muito carinho por Micha. O que vivemos... foi muito lindo e ingênuo. Éramos jovens, bobos e apaixonados... Mas isso ficou no passado e nós dois sabemos disso.
De repente, o que Quentin disse me veio à mente. Que meu pai parecia ter muito carinho por tudo o que sentiu por ela. Decidi que aquele parecia ser o tipo de coisa que Micha responderia: “O que vivemos foi bonito, mas ficou no passado”. Será que algum dia eu me lembraria de Quentin assim?
Um arrepio desagradável percorreu a minha espinha quando pensei em não tê-lo mais do meu lado como eu tenho agora. Parecia impossível imaginar isso.
– Quando vi você e aquele garoto juntos... eu fiquei muito feliz – ela comentou mostrando-me um sorriso raro. – Fiquei feliz porque... vi que ele gosta muito de você. Ele olha para você como, um dia, o seu pai me olhou.
Eu sorri de volta, sentindo meus olhos começarem a pinicar.
– Por que a senhora demorou tanto tempo para ser legal comigo? – a frase saiu dos meus lábios sem que eu pudesse pará-la.
– Hein? – ela perguntou surpresa.
Respirei fundo e confessei:
– Desde que a senhora me contou que está com câncer... não sei de quem é a culpa: da senhora, por ter esperado estar morrendo para mostrar esse lado que eu achei não existir; ou minha, por nunca ter dado o meu máximo para te fazer gostar de mim.
Mamãe ficou surpresa.
– O quê? – ela perguntou estupefata. – Letty... Eu estar com câncer não é culpa de ninguém.
– O que eu quis dizer é que o nosso relacionamento deve ser culpa de alguém... – eu retruquei.
Victoria mordeu o seu lábio inferior e disse:
– Bem, nós poderíamos sentar e decidir quem tem mais culpa, eu ou você... Mas também poderíamos deixar isso para lá e aproveitar essa chance de nos entendermos agora. Aproveitarmos o que temos agora.
– E o que temos agora? – eu perguntei, remexendo-me incomodada. – O que a senhora quer ter agora? Eu nunca fui a filha que você quis e não vai ser agora que eu vou ser.
Victoria abaixou o olhar e respirou fundo.
– Eu só não quero... ficar sozinha — ela murmurou, parecendo frágil e sincera. — Desde que descobri que estou doente... Cadê o meus amigos? As pessoas que diziam gostar de mim? Nenhuma visita... Só você e Micha estão aqui pra mim. Isso me fez repensar... Em tudo e... E me fez pensar que não quero que você me odeie. Não quero que você me abandone como eu abandonei a minha mãe.
Ela se levantou da cama, caminhou até mim e pegou as minhas mãos.
Olhando-me nos olhos, disse:
– Não quero morrer sozinha.
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