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27 Capítulo 27 - A Gangue McCullogh
Notas iniciais
Capítulo 27 – A Gangue McCullogh.
– Chega! Não aguento mais!
Ergui o olhar do notebook que Quentin havia me emprestado (ele dividia a casa com seis pessoas, claro que tinha que ter mais de um computador em algum lugar) e o encontrei com o notebook fechado sobre as pernas e a cabeça encostada na cama. Meu namorado, aparentemente, gostada de usar o notebook sentado no chão e encostado na cama. Estranho, eu odiava ficar com a bunda dolorida quando me levantava.
Ele bagunçou seus cabelos escuros e parecia frustrado, raivoso...
– Como pode haver tanta gente burra? – ele perguntou para si mesmo.
Ergui uma sobrancelha. Decidindo se eu deveria me sentir ofendida por sua falta de paciência com garotas que têm anemia ou bulimia. Ele percebeu meu silêncio depois de alguns segundos e me olhou desconcertado.
– Não estou dizendo que você é burra... Quer dizer... – Ele respirou fundo. – Você nunca escreveu um blog e postou “20 mandamentos da anamia”.
Eu neguei com a cabeça, corando.
– Não mesmo – eu respondi. Larguei o notebook que ele me emprestou, e rastejei até onde ele estava, ou onde sua cabeça estava apoiada. – Podemos trocar de tema e falar sobre algo menos perturbador... Tipo, albinismo. Gosto de pessoas albinas. Por que elas são tão lindas?
Quentin olhou para mim como se eu fosse louca.
– O que há de lindo no albinismo? – ele perguntou curioso.
Eu dei de ombros.
– Sei lá... Elas parecem neve. Eu gosto de neve...
Meu namorado sorriu e estendeu a mão para o meu rosto, acariciando-o. Havia algo incrivelmente desconcertante, e ao mesmo tempo reconfortante, nos olhos verde-água de Quentin. Lembrei-me que sua mãe tinha aqueles mesmos olhos.
– E o que eu pareço para você gostar de mim? – ele perguntou de repente.
Eu ri. Essa pergunta parecia absurda.
– Não sei... Talvez eu não tenha um bom motivo para gostar de você... – eu respondi fazendo uma careta. Quentin fez gesto de que estava ofendido. – E você... O que eu pareço para você gostar de mim?
O moreno fingiu pensar por um tempo até que respondeu:
– Você parece um ovo. Amarelo e branco.
Soltei um som de ofensa, sentando-me na cama dele, de modo que sua mão já não alcançava mais o meu rosto, e cruzei os braços.
– Ei, eu gosto de ovos – ele avisou. – Ovos são gostosos.
Eu não desfiz minha expressão de garota chateada.
– Eu estou dizendo que você é gostosa! – ele exclamou.
– Eu preferia quando era sexy – eu lembrei. – É menos vulgar.
Quentin ponderou e concordou com a cabeça.
– Tudo bem, você é sexy e ovos são sexys também – ele brincou.
Eu não consegui continuar a fingir que eu ainda estava chateada com ele e acabei rindo. Quentin deixou o notebook no chão e pulou para a cama. Ou melhor, ele pulou para cima de mim porque quase me esmagou com o seu peso. Soltei um gemido de dor enquanto ele envolvia meu corpo num abraço de cobra.
– Ai, sai de cima! Você está me esmagando... – Disse entre ofegos. Mal conseguia respirar embaixo dele.
Quentin continuou em cima de mim, mas me soltou e dividiu seu peso com os braços; apoiando-se neles para não me esmagar completamente. Voltei a respirar assim que ele saiu de cima dos meus pulmões.
– Talvez eu tenha comido Palha Italiana demais – ele brincou, jogando-se ao meu lado.
– Talvez? Eu só comi metade de um e você acabou com o resto! – eu disse. – Só para você saber, acho injusto que alguém coma tanto e não engorde...
Quentin sentou na cama e disse:
– Eu preciso de toda essa energia... Eu faço parkour, faço teatro, vou à escola, sou popular e agora tenho uma namorada. Minha agenda vive lotada.
Achei que ele estivesse brincando, mas então percebi o quanto era verdade. Ele realmente tinha tudo isso, o que me fez perceber o quanto ele era ocupado.
– Nossa! Obrigada por arrumar um tempinho para mim, senhor Ocupado – eu disse com sarcasmo.
Ele me abraçou de novo. Dessa vez, sem aquela força exagerada.
– Sempre vou ter um tempo para você – ele respondeu charmosamente.
Lancei um olhar desconfiado e ele me olhou de volta, com uma expressão que parecia estar apenas fazendo charme. Empurrei-o de brincadeira e meu celular começou a tocar no bolso. Perguntei-me se seria Helena, querendo saber se eu ia jantar na casa dela, já que agora estávamos “morando” juntas temporariamente.
Sentei-me na cama e peguei o meu celular
Quentin tentou tirá-lo de mim, afirmando alguma coisa que eu também deveria dedicar meu tempo para ele, mas no fim, consegui pular da cama e atender o celular em segurança. Não era Helena. Era de casa.
Da casa do meu padrasto.
Se fosse minha mãe, ligando pelo telefone de casa, ela começaria a gritar do outro lado. Se fosse Walter, seria provável que ele perguntasse o que foi que aconteceu e pedisse para que eu voltasse para casa e acertasse com a minha mãe... Se fosse Ellen... Não sei o que ela faria.
– Alô? – perguntei um pouco nervosa, mas escondendo perfeitamente.
– Hum... Letty? – Sim, era Ellen.
– Ellen? O que foi? Aconteceu alguma coisa?
Quentin me olhou da cama com os olhos semicerrados, ouvindo e analisando a minha conversa. Dei língua para ele e me virei de costas. Era desconfortável falar no telefone com uma pessoa ouvindo sua conversa descaradamente.
– Hum... Bem... Er... – ela balbuciava nervosa. – Será que tem como você voltar para casa agora? É muito importante... Para mim...
Um arrepio percorreu a minha espinha. A voz dela... Era de quem estava chorando? Junto do arrepio, um calor subiu pelo meu corpo. E não era um calor bom.
– O que aconteceu? Está tudo bem aí? – perguntei séria.
Se minha mãe tivesse feito alguma coisa para ela, eu ia matá-la.
– S- se você não quiser voltar, podemos nos encontrar em outro lugar – Ellen acrescentou apressadamente. Soltando um soluço para respirar. – Eu só quero falar com você... Por que você vai me entender...
Soltei um suspiro. A última coisa que eu queria, era ir para casa e acabar me encontrando com a minha mãe... Todavia, Ellen parecia precisar de mim. Pode parecer esquisito, pois só nos tornamos “irmãs” há menos de alguns meses, mas ela sempre esteve lá para mim quando precisei.
– Ellen, respira. Eu já tô indo – respondi, desligando em seguida.
– Aonde?
Quase dei um pulo como gato escaldado ao encontrar Quentin atrás de mim, falando no meu pescoço só para me assustar.
– Você ouviu?! – perguntei ofendida, corando.
Tudo o que eu menos queria era descobrir um lado controlador nele. Tanta perfeição tinha que ter defeito, certo? Era bom demais para ser verdade.
– Não, – ele respondeu dando um sorriso divertido. – Juro. Então, o que está havendo com a pequena Ellen?
Eu soltei um suspiro cansado.
– Não sei... Mas ela parecia muito mal no telefone. Ela disse que queria falar comigo porque, provavelmente, eu iria entender – eu respondi mascarando a preocupação com cansaço. – Quentin, juro que se mamãe estiver fazendo Ellen passar pelo mesmo inferno que eu, eu vou matá-la.
Quentin mostrou-me uma expressão linda de preocupação que me deixou desconcertada e culpada. Não devia preocupá-lo com o drama daquela mulher maluca. Dei um tapa de brincadeira no seu rosto perfeito e caminhei em direção a sua cama. Peguei a minha mochila abandonada ali e a coloquei nas minhas costas.
– Então você vai voltar para casa? – ele perguntou com curiosidade.
Dei um suspiro cansado.
– Não posso ignorar Ellen – respondi dando de ombros. – Eu devo minha vida a ela.
Caminhei em direção à porta, mas ele se jogou contra esta – de costas para ela e de frente para mim – e cruzou os braços atrás da cabeça. Parecia até casual se não estivesse impedindo a minha passagem.
– Conte-me mais sobre essa dívida – ele pediu.
Eu ri e cruzei os braços. Apesar dos músculos em meu ombro estarem dolorosamente tensos, só de pensar que posso dar de cara com a minha mãe, Quentin continuava sendo o pontinho estável que me impedia de surtar com aquela mulher. Apesar de ele acabar me deixando louca por outros motivos.
– Eu preciso ir – eu avisei, tentando soar firme.
– Precisa mesmo? – ele perguntou, fazendo uma expressão de desolação irresistível. – Nem começamos a escrever o trabalho...
Ele se aproximara de mim, como se soubesse que a proximidade do seu corpo esbelto e atlético fosse me fazer desistir da ideia. Bem, sem dúvida, quase funcionou.
– Você pode fazer isso sozinho – eu respondi em tom óbvio. – Posso fazer o tópico sobre bulimia e você pode falar sobre anorexia. Depois a gente marca um dia para juntarmos tudo... O.K? – perguntei. Quentin abriu a boca para responder, mas respondi por ele. – O.K.
Aproveitei que ele se desencostara da porta e a abri, batendo nele, e sai pela pequena fresta que consegui abrir. Caminhei pelo corredor e desci a escada em direção à porta da frente, ouvindo Quentin dizer que iria me acompanhar até a porta.
– Sério? Como ela é? – ouvi quando desci as escadas.
Não havia reparado, mas o hall de entrada dos McCullogh – uma pequena antessala de onde surgia a escada e ficava a porta da frente – tinha as paredes amarelas com flores azuis, decoradas com fotos de família e três arcos que davam para lugares que eu não havia reparado antes. Um deles, era a sala de estar, de onde se ouviam vozes e risos masculinos e som de videogame de guerra.
Lá se reuniam quatro dos garotos mais bonitos existentes na terra. Deveria estar no DNA de todo McCullogh os cabelos negros, a pele macia e os olhos claros, pois essas características estavam em todos os seus membros, e vamos acrescentar uma porção nada generosa de beleza exótica.
Devia ser um crime ter tanta beleza numa família.
Reconheci os dois irmãos mais velhos de Quentin, Guilliam e Roland, os outros dois eram novidades para mim. Um deles era magrelo, muito branco, com o queixo quadrado, boca pequena, nariz reto e os olhos tão estreitos que pareciam se fechar. Sendo sincera, ele tinha cara de drogado, ainda mais com os cabelos lisos todo bagunçado, mas isso não o tornava menos bonito.
O outro possuía as mesmas características, mas sua pele era mais bronzeada, seus lábios eram mais largos e as sobrancelhas mais cheias. Sem contar que ele parecia ter músculos o equivalente pelos dois.
– Meu tipo. Peituda... E muito magrela – Guilliam respondeu.
– Em outras palavras, super gostos-...
– Oi Letty! – Roland interrompeu o magrelo, quase pulando da cadeira.
Não entendi seu nervosismo... Não era como se eu fosse o tópico da conversa. Quer dizer, peituda pode até se encaixar em mim já que “qualquer gorda tem peito”, mas magrela não é um dos adjetivos que eu dirigiria a mim mesma.
Mesmo assim, um tom vermelho começou a se apoderar do meu rosto quando eu disse:
– Oi... Eu, er... estou de saída e...
Como mais vocês ficariam se ouvissem o teor dessa conversa?
– Vocês não podiam ser mais nojentos, não? – Quentin brigou de brincadeira, atrás de mim, enquanto cruzava os braços. – Se mamãe visse vocês falando assim... Humpf. Não quero nem pensar.
Um riso ficou preso no canto dos meus lábios.
– Mamãe só vai saber, se você ou sua namoradinha contar. Ela se trancou no escritório para terminar um trabalho – Guilliam respondeu revirando os olhos.
– Letty... Esse é o quartel general da gangue e aqui ela está completa – Quentin me explicou, gesticulando com a cabeça. – Guilliam e Roland, você já conhece... Esses outros dois são Joseph e Charles. O viciado em videogames e o cara que se acha gostoso.
Eu pisquei por um momento. Era horrível ter tanta gente – bonita – parecida no mesmo lugar. Era como estar numa daquelas casas malucas cheias de espelho para tudo quanto é lado. Um nó frio se formou no meu estômago enquanto eu acenava com a cabeça para os dois rapazes que não conhecia. De repente, eu queria sair correndo dali.
– Eu preciso ir – voltei a dizer. Para não perder o foco de tudo. Ellen precisava de mim. Olhei para Quentin em busca de despedida. – Desculpe... É por Ellen...
Ele deu de ombros, sem fazer brincadeira para tentar me fazer ficar, e voltou a me guiar até a porta. Despedi-me dos quatro irmãos perfeitos e absurdamente atraentes e caminhei para fora da casa. O silêncio que ficou atrás de mim me deixou apreensiva. Como se eles estivessem observando cada passo que eu dava com olhares curiosos.
Com aqueles olhos claros e intensos.
Como era que se andava mesmo?
Só consegui respirar do lado de fora da casa. Com a porta fechada.
– Acho que só consigo lidar com um de cada vez – eu brinquei.
Quentin riu.
– Eu sei. É muita beleza para uma só sala – ele brincou, passando as mãos nos cabelos e me fazendo revirar os olhos. – Além disso, quando estamos juntos, somos um perigo... É o que a mamãe costuma dizer.
Assenti com a cabeça e destravei o meu carro.
– Então... Até amanhã – eu disse, começando a ficar sem graça.
Não queria me despedir.
– Até amanhã – ele disse, aproximando-me para me dar um beijo.
Não me passou despercebido que estávamos quase no mesmo lugar onde eu dei aquele beijo errôneo em Guilliam. Isso fez um sentimento de culpa aparecer quando seus lábios macios se encostaram aos meus. Primeiro devagar, depois, com urgência. Seus braços me puxavam com mais força contra ele, e seus lábios pareciam querer me devorar por inteira. Eu adorei. Um calor começou a subir pelo meu corpo...
E eu não era mais eu mesma. Enrosquei meus dedos nos cabelos pretos, bagunçados e macios, de Quentin e apalpei seus músculos. Que músculos! Flexíveis, mas duros, não eram músculos de um lutador, mas eram músculos de alguém bom na esquiva e de alguém veloz. Pareciam fracos, mas eu sabia que não eram. Eles haviam me carregado há menos de uma semana!
Empurrei-o contra a porta, desejando que ele me carregasse de novo, quando ouvi umas risadas abafadas do lado de dentro. Aí, tudo acabou. Até mesmo meus pensamentos e estudos detalhados sobre os músculos maravilhosos do meu namorado.
– Eles estão vendo pela janela? – perguntei quase sem voz, afastando-nos com dificuldade. O corpo de Quentin estremecia.
– Provavelmente – respondeu-me ele com os olhos fechados.
– Que ótimo – eu disse com sarcasmo, afastando-me de seus braços.
Quentin manteve minha mão segura até o ponto de não me deixar descer da varanda da sua casa. Olhei para ele interrogativamente e o encontrei com os olhos abertos e brilhantes. Seus lábios róseos se encontravam vermelhos pela sessão de amassos, tal com os cabelos negros se encontravam completamente bagunçados.
– Sim, é ótimo – ele respondeu meio lerdo, beijando a costa da minha mão e depois a soltando. – Vou te ligar hoje à noite... Está bem?
Assenti com a cabeça. Estranhando o seu pedido, já que quase nunca nos falamos por telefone – ao menos que fosse por mensagem. E ele nunca pedira nada do tipo antes.
– O.K. – eu respondi.
Ele enfim me soltou, mas continuou me observando com o olhar até eu entrar no carro. E, enquanto isso, eu percebia o quanto eu estava perdida. Quer dizer, mais que perdida: eu estava fudida. Meu namorado deveria andar com uma plaquinha com exclamação e escrito “Danger” no pescoço. E, afinal, como era que se andava mesmo?
...
Entrar sorrateiramente na casa de Walter era uma missão impossível.
Por quê? Bem, quando você passa alguns dias fora, por mais que sua mãe endiabrada não dê a mínima para você e seu padrasto não se meta porque isso é uma “briga em família”, há um tipo de animal que sentiu a sua falta e que vai agir como se nunca mais fosse te ver na vida. Esse animal era Riot, obviamente.
O cachorrinho hiperativo papillon estragou meus planos de ser discreta assim que eu abri a porta da casa. Ou talvez até mesmo antes disso: assim que eu estacionei o carro na garagem. Apesar de beija-flor não fazer nenhum barulho ensurdecedor, Riot era um cachorro. Tinha super-audição.
Então, assim que eu entrei na casa, ele me cumprimentou no hall de entrada fazendo uma dança esquisita. Pulando de um lado para o outro e depois pedindo carinho em duas patinhas e latindo agudo e estridente.
Sorri. Como eu havia sentido saudades daquela bolinha de pelos irritante!
Peguei-o no colo e o deixei lamber meu rosto, menos na boca. Não por achar anti-higiênico, mas eu me recusava a deixar rolar mais beijos acidentais hoje. Acariciei os seus pelos enquanto subia as escadas em direção ao quarto de Ellen. Diferente do meu, no fim do corredor, o quarto dela ficava bem de frente para a escada e bati três vezes antes de entrar.
Diferente do meu quarto também, o dela era decorado como se ela fosse uma princesa Disney. Walter bem que tentou me “comprar” deste modo, mas eu não era do tipo que passava a amar uma pessoa pelo número de presentes caros que ela poderia me dar.
Ellen estava debruçada na cama, chorando.
Deixei Riot no chão.
– O que aconteceu, Ellen? – perguntei andando até ela.
Ellen ergueu a cabeça para mim e me surpreendi ao ver que, até mesmo uma garota estonteantemente bonita, como Ellen era capaz de ficar feia com o rosto todo vermelho, amassado, com os olhos inchados, baba escorrendo pela boca e catarro pelo nariz. Não era a melhor visão da Miss Perfeição, pensei.
– Mamãe estragou tudo, Letty! – ela exclamou, ou melhor, gritou, jogando os braços ao meu redor enquanto Riot pulava em volta dela para tentar animá-la. – Ela é um monstro que precisa ser parado!
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