Nosso Nome Na Lista.

63 Capítulo 63 – Nosso Número Musical


Notas iniciais
OLÁAAAA DESCULPA A DEMORA, ACHO QUE VOU MARCAR UMA DATA PARA UMA POSTAGEM SEMANAL (DOMINGO). Obrigada a todo mundo que comentou capítulo passado: > Juuh Beauchamp > Carina > M Plisetsky > Olhos Castanhos > Mya Antunes > sandrinha > Kika Pchsterzy Obrigada por tudo ♥ Bisou ♥ Belle.Époque

Capítulo 63 – Nosso Número Musical

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Talvez eu tenha demorado mais que o comum para parar de chorar.

Por isso Quentin me arrastou para dentro da sua casa, mesmo que meu lado orgulhoso tenha relutado contra isso, e me deixou no seu quarto enquanto ia pegar um copo de água para ver se isso me acalmava. Não achei que fosse dar certo, mas incrivelmente deu. Nosso corpo deve ser algo muito estranho para conseguir se acalmar com algo tão simples quanto beber água.

— Melhor? – Ele pergunta, sentado ao meu lado na cama.

Não acho que as coisas ficariam melhores com um copo de água, mas não esboço qualquer sinal para responder à pergunta. De repente, ele se levanta e então tira a camiseta. Ai meu deus, eu não esperava por isso e eu quase me engasgo. É estranho que eu ainda fique constrangida ao ver o torso nu do meu namorado? Bem, se seu namorado fosse Quentin, tenho certeza que ver ele sem camisa nunca perderia o interesse.

Ele ri da minha engasgada e pergunta de novo:

— Melhor?

Quero dar um soco nele porque ele está claramente me provocando... com aquele tronco bonito... e cheio de tatuagens legais... e, ai meu deus, por que ele faz isso?!

— Não sei... agora estou sentindo uma mistura de “quero te socar até te desfigurar” e “quero te lamber inteiro” – eu respondo, sem conseguir tirar os olhos dele.

— Espero que você não me lamba, eu estou só suor – ele retruca com uma expressão de nojo. – Não estou me aguentando, ainda mais com essa blusa grudando em mim...

— Credo, que delícia.

Ele dá uma risada então se aproxima de mim novamente.

Quentin se abaixa à minha frente, como se quisesse me olhar direito no rosto. Sua expressão é uma mistura estranha de tristeza e felicidade. Nunca quis tanto poder ler a mente de alguém como eu queria ler a mente dele naquele momento. Era estranho que, por mais que os olhos dele pudessem ser claros, eles pareciam tão misteriosos às vezes.

— O que eu faço com você? – Ele resmunga, antes de abaixar a cabeça, apoiando-a sobre minhas pernas. Sem conseguir conter minhas mãos, começo a fazer carinho em seus cabelos escuros e úmidos. — Você entende o por que eu estava bravo, não entende?

Eu não sei se entendi, por isso não consigo responder.

Ele se afasta, sentando-se no chão à minha frente. Ele apoia os braços sobre os joelhos, o que faz com que seus músculos se tencionem de uma forma bonita e delgada. Eu podia ficar observando a forma dos seus bíceps o dia todo.

— Eu te ignorei hoje porque eu ainda estava muito puto com você – ele confessou, abaixando o olhar. – E eu ainda estava puto... porque... – Ele hesita. Aperta os lábios e respira fundo. Como se só lembrar o deixasse com raiva novamente. – Você não está cuidando de você... E você obviamente não deixa ninguém, muito menos eu, cuidar de você... E isso é frustrante. Principalmente para mim.

Eu franzo o cenho. Quero lhe dizer que aquilo não é verdade. Ninguém cuida de mim melhor que ele, ninguém se importa comigo, como ele se importa. Só que eu não sei como lhe dizer essas coisas extremamente carente. Porque eu sou uma pessoa carente que tenta não parecer carente.

Isso inesperadamente faz arder minha mais nova ferida.

— Ninguém... se importa mais comigo... do que você – eu murmurei, sentindo a enorme vontade de chorar de novo. Abaixei o olhar quando sinto as lágrimas se acumulando nos meus olhos. – Nem a minha mãe... nem ninguém... você provavelmente é a única pessoa que... ainda se importa... e eu tenho... tanto medo de perder...

— Letty...

— Ellen me contou que os bilhetes na lista eram reais – eu digo a ele. – Eram fofocas de sala de aula... e saber disso... é tão-.... Ninguém gosta de mim, Quentin. Em lugar nenhum... ninguém se importa.... Parece que está todo mundo me odiando.... Está todo mundo... torcendo para que eu-...

“Desabe” eu penso, mas não consigo verbalizar, porque um soluço me interrompe e já não consigo mais falar coisas coerentes. Sinto seus braços ao redor de mim mais uma vez. Firmes e fortes. Seguros. Me sinto uma criança indefesa. A Letty de antes provavelmente diria que não se importava com o que os outros pensavam dela, mas a verdade, era que ela sempre se importou. E era por isso que sou tão cheia de raiva.

— Você já teve tanta gente te odiando, Quentin? – Eu pergunto para ele, apesar da resposta ser óbvia. – Você não sabe... exatamente o que fez para aquelas pessoas... elas só... parecem gostar de te odiar.... E eu sinto... como se desde que eu nasci... as pessoas só conseguissem... me odiar... e eu nunca entendi o porquê.... Talvez por isso pareça tão estranho... que haja pessoas que digam... que gostem de mim.

Acho que, dessa vez, ele não sabe o que dizer. Porque é a primeira vez que ele não diz nada. Não que ele precise dizer alguma coisa... só o modo como seus braços me apertam com mais força parecem dizer o suficiente: ele estava lá.

— Eu estou cansada – eu soltei, entre lágrimas e soluços. – Eu quero desaparecer...

Seus braços me seguram com mais força. Como se ele quisesse me impedir de ir embora. Apesar de eu apenas estar me referindo a querer que as pessoas se esqueçam que eu exista e me deixem em paz. Ou ir para algum lugar que ninguém me conheça. Que ninguém me julgue ou se importe.

— Fica comigo – ele murmura, me abraçando forte. – Letty... eu entendo que isso tudo é uma merda e tudo bem... tudo bem você estar se sentindo assim..., mas você precisa entender que eu estou aqui. Não só eu, Ellen, Paloma e Olivia... nós todos gostamos de você. Nos importamos com você e te amamos.... Você pode confiar em nós.

Eu queria acreditar nele. Em suas palavras gentis e em seus braços fortes..., mas eu hesito. E nesse momento de hesitação, ele pega o meu rosto e me beija. Com suavidade e delicadeza. Sinto meu corpo relaxar e eu o beijo de volta, sentindo meus músculos relaxarem pela primeira vez.

— Você tem razão – eu me ouço dizendo. – Não estou cuidando de mim... não como deveria. Mas eu não queria admitir... porque eu não queria... parecer mais frágil para eles.

Não preciso especificar o “eles”. De algum modo, sei que ele sabe.

— Desculpa – eu peço enfim. Não sabendo que isso terminaria com um pedido de desculpas meu. – Ontem eu... eu não quis ver... que vocês só... estavam preocupados.

Ele encosta a testa na minha.

— Me desculpa também – ele pede. – Não devia ter.... te evitado hoje..., mas eu não te evitei só porque estava com raiva, o que foi um motivo idiota..., mas porque eu precisava ver se descobria algo sobre a lista.

Franzi o cenho e me afastei.

— A lista? – Perguntei desconfiada.

Ele concordou com a cabeça lentamente.

— Ellen me falou que podíamos descobrir algo novo que nos levasse aos responsáveis e pediu minha ajuda. Porque eu sou uma pessoa muito carismática – ele respondeu. – Ela me disse que falou com você sobre isso... não falou?

Eu concordei com a cabeça.

— Descobriu algo? – Perguntei.

Ele negou, com um suspiro de derrota.

— Nada além do que todo mundo já sabe – ele responde.

— Não se preocupe – eu digo. – Vamos encontrar eles.

Quentin arqueia uma sobrancelha para mim, como se quisesse saber de onde vem toda aquela certeza. Eu apenas enxugo os olhos e dou de ombros. Eu também não sei de onde vem, eu só acho que estou mais esperançosa.... Quero estar.

— Nós... estamos bem? – Pergunto para ele.

Eu me sinto uma garotinha insegura perguntando isso, mas acho que eu sentia a necessidade de saber. Precisava que ele dissesse com todas as palavras. Meu coração se acalma depois de ver um sorriso no seu rosto e receber um beijo rápido e leve nos lábios.

— Estamos bem – ele confirma. – Só se você prometer que vai se cuidar melhor.

Pelo olhar dele, eu sei o que ele quer dizer. Fico tão aliviada que não consigo conter a minha vontade de abraçá-lo e de ficar ali, encolhida contra o seu corpo suado.

— Eu prometo – respondi. – Seu irmão me passou o número de uma psicóloga que ele diz que é boa... E Martha anda de olho em mim também, então...

Terminei com um dar de ombros.

— É o número da Wanda? Ela é muito boa mesmo. Fez milagres comigo e com Gilliam – ele respondeu, parecendo aliviado.

— Com... vocês dois? – Eu pergunto surpresa.

Ele deu um meio sorriso, divertido com a minha reação.

— Por que essa surpresa? – Ele pergunta divertido, cutucando-me a costela. – É normal procurar psicólogos, Letty. Eu tive problemas para controlar a raiva com o divórcio dos meus pais e Gilliam..., bem, ele tinha os problemas dele.

Realmente, não sei porque fico surpresa, talvez porque Quentin e a família dele fossem perfeitos de mais para precisar de psicólogos ou ter problemas. De repente, eu me pergunto da onde tirei essa ideia que existem pessoas “perfeitas”. O tempo todo eu penso nisso quando o vejo, o quanto ele é perfeito...

Antes de qualquer coisa, ele era um ser humano.

— Como você consegue me abraçar? – Ele diz de repente. – Eu estou nojento.

— Você está gostoso— eu respondi.

Ele dá uma risada sem graça, então pede licença para tomar um banho. Então ele me abandona no seu quarto, algo que eu consideraria arriscado. Mas a verdade é que eu penso algo tipo: “poxa, bem que ele poderia me chamar para tomar banho com ele, né?”. Então eu percebo que eu estou me desvirtuando do meu caminho de boa garota, e escondo o meu rosto no cobertor da cama dele.

Mas a verdade é que isso é o suficiente para que eu fique inquieta e de repente me vejo pulando para fora da cama dele. Começo a vasculhar suas coisas, porque não tenho nada melhor para fazer. Há roteiros sobre sua escrivaninha, seu notebook estava em modo de espera e assim que fiz nada (além de esbarrar no scroll dele) acendeu a tela.

Não que houvessem planos secretos ali. Estava no youtube, em uma playlist.

Dei play apenas por curiosidade. E começava com um monólogo que dizia:

Então, eu estava sentado em um bar

E esse cara chegou para mim e disse:“Minha vida fede”

Então eu vi o cartão de crédito de ouro dele

O jeito como ele olhava para as pessoas através da sala

E olhei para o rosto dele, sabe um rosto quase bonito,

E eu disse: “cara, sua perspectiva de vida é um saco”.

Por algum motivo isso me fez rir e uma melodia animada tocou, antes da letra da música. Volto a vasculhar as coisas dele. Infelizmente, não havia nada de surpreendente ou novo. Então peguei o meu celular para checar se alguém havia mandado mensagem. Faço uma careta quando vejo “3 chamadas perdidas de Micha”. Será que Martha havia contado sobre a gritaria em casa e agora ele me ligava preocupado?

Fiz uma careta e desliguei o celular.

Provavelmente, meu pai me convenceria a voltar para casa e diria que minha mãe apenas havia surtado porque havia ficado muito triste com os cabelos caindo, a doença, a quimio.... Enfim, desculpas era o que não faltariam para defender a Sra. Victoria. Ele provavelmente diria: “você não sabe o quanto isso é difícil, Letty. Ela precisa de apoio”.

Dou um sorriso sarcástico quando percebo que o refrão da música diz:

Culpe as garotas que sabem o que fazer

Culpe os garotos que não param de dar em cima de você

Culpe sua mãe pelas coisas que ela disse

Culpe o seu pai, mas você sabe que ele está morto

Culpe as garotas

Culpe os garotos.

Eu me sinto culpada por um momento, confesso.

Não pela letra da música, mas por não ser forte o suficiente para apoiar minha mãe independente de tudo o que ela faça ou diga, como uma heroína de romances antigos. Quer dizer, digamos que, tudo bem, eu sei que ela está doente, sei que ela precisa de apoio e compreensão, mas a doença dela não é tão grave a ponto de mudar sua percepção do mundo, principalmente, a respeito do fato de que EU SOU UM SER HUMANO.

E... me magoo... choro... me decepciono... E ela não se importa.

Abaixo o olhar e me sento no chão, com as costas apoiada na cama do meu namorado. Continuo apertando o celular desligado contra o meu peito, perguntando-me se eu deveria ligar para ele, afinal de eu saber que terminaria da forma de sempre: “perdoe sua mãe, ela é doente”. Como se isso lhe desse carta-branca para tudo. “Perdoe sua mãe”. Ela é “sua mãe”.

Estou tão perdida nesses pensamentos, que não percebo que a música acabou. Só percebo quando Quentin volta para o quarto de cabelos molhados, usando uma camiseta preta com detalhes coloridos nas barras, bermuda azul, e cantando:

Clouds roll by (nuvens passam pela) / the black of night (escuridão da noite) / veils my certainty (velando minhas certezas) / of whats is left to see (do que foi deixado para ver) / It begins on delight (isso começa em prazer).

Ele faz um gesto para que eu continue, como se fosse um musical:

But it might end in wisdon (mas pode terminar em sabedoria).

Clouds move aside (nuvens se afastam) – ele responde.

This storm will raise a kingdom (essa tempestade vai erguer um reino)

Ele estende suas mãos em minha direção para me ajudar a levantar do chão e praticamente grita dramaticamente:

Agonyyyyy (agoniaaaaa)

Inhaled by black tornadoooooos (inalado por tornados pretos) – eu grito.

There’s something left for me (lá há algo deixado para mim)

Eu não sei porque eu começo a rir. Talvez fosse porque nós dois fôssemos um desastre cantando, o que me fez entender o que Helena falou sobre ele não ser bom em cantar e por isso ele era a Britney do musical que eles estavam preparando. Mesmo assim nós continuamos:

On and on... (adiante e adiante) / Still no wind blows (ainda nenhum vento sopra) / no wind blows tonight (nenhum vento sopra essa noite) / I move on, as I want to stay (eu sigo em frente, mesmo que queira ficar) / Deep inside (lá dentro).

Se antes nós estávamos gritando, eu não sei dar o nome para o barulho que nós fizemos quando começamos a cantar pulando feito dois retardados:

DANGERS IN MY HEAD are rising (perigos em minha cabeça estão aumentando) / from a darker land. DENYING (de uma terra distante. Negando) / What has been before. FOREVER (O que foi antes. Sempre) / Dangers rising HIIIIIGH (Perigos aumentando muito).

E foi quando ficou insuportável, que a mãe dele abriu a porta do quarto para encarar o que diabos estava acontecendo no quarto do filho. Seu olhar é no mínimo surpreso, quando ela pergunta:

— O que está acontecendo aqui?

Ela olha para nós: os dois retardados que estavam gritando e pulando ao som de Van Canto, e então para o notebook sobre a mesa tocando a música. Sinto meus músculos ficarem muito tensos. Vejo-a revirar os olhos com reprovação, mas ter um sorriso de diversão quando ela diz:

— Era só o que me faltava, mais uma maluca que curta os seus metal.

Hero-metal a cappella— Quentin tem a ousadia de corrigi-la.

Ela meneia a cabeça, com aquele sorriso ainda em seus lábios.

— Bem, vocês podem curtir esse estilo de música um pouco mais baixo, por favor? Eu consegui ouvir vocês dois gritando do meu escritório e, se Letty ainda não sabe, fica do outro lado do quintal – ela pede. – Isso significa que é muito longe.

Quentin se encolhe um pouco.

— Sim, senhora – ele responde. – Vamos tentar não nos empolgarmos.

Ela estreitou os olhos para ele, como se não acreditasse muito, mas então olhou para mim e sorriu novamente.

— Não sabia que você estava aqui, querida, vai ficar para jantar?

Eu penso nisso por um momento.

— Acho que... sim. Se não tiver problemas...

Ela fez um gesto displicente com a mão, como se dissesse “problema nenhum” e então se retirou do quarto. Foi preciso só ela fechar a porta para que caíssemos numa gargalhada. Como duas crianças que haviam pensado que estavam encrencadas, mas não estavam.

Quentin se virou para mim de repente e disse:

— Você nunca ficou para jantar aqui.

Senti um leve desconforto, mas eu sabia que era verdade. Eu nunca havia ficado para refeição nenhuma... não por vontade própria, pelo menos.

— Seria pedir muito... para dormir aqui... né?

Notas finais
Existem dois tipos de mim: o tipo que ouve "Blame on the girls - Mika" e "Dangers in My Head - Van Canto" AHUAHAUHAUAUA.