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62 Capítulo 62 - A Vizinha do Quentin


Notas iniciais
OIIIIIII Espero que vocês gostem deses capítulo >.> Obrigada a todo mundo que comentou: > Carina > Brenda > Olhos Castanhos > sandrinha > Juuh Beauchamp > beea > leticiaAE > sophia > Uma Leitora Qualquer > Caroline MUITO OBRIGADA ♥ VOCÊS SÃO LINDAS;-; Bisou ♥ Belle.Époque

Capítulo 62 — A Vizinha do Quentin

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Eu queria apenas pegar o meu carro e dirigir sem parar.

Dirigir sem rumo para algum lugar bem longe da minha mãe. Era a segunda vez que eu me sentia assim e parte de mim acha que beija-flor é tão especial exatamente por causa disso. Não importa o que está acontecendo comigo, ele sempre está lá para ser o meu carro de fuga. Mas a verdade é que, quando vejo, eu estou em frente à casa de Quentin. Isso é tão humilhante quanto patético.

Não importa o que ele achasse ou o que houvesse dito: ele sempre seria a primeira pessoa que eu procuraria quando precisasse de um ombro para chorar. E eu nunca achei que fosse sentir tanta falta disso, quanto percebia naquele momento.

Não posso procurar ele” eu digo a mim mesma, recostando-me ao meu banco e fechando os olhos com força. Por mais que meu corpo desejasse muito que eu o procurasse.... Não só o meu corpo, numa questão física, mas numa questão mental e emocional. Eu queria tanto voltar nas últimas semanas e poder desabafar com ele. Nem que fosse apenas para chorar nos seus ombros e ouvi-lo dizer algo otimista.

Sinto que vou chorar de novo e baixo a cabeça no volante.

Quer merda, Letty. Você é uma garotinha emocional.

Penso nas palavras da minha mãe, no como ela agiu... E me pergunto se a estranha mudança dela havia sido apenas uma fachada mesmo. Pergunto-me se ela seria tão manipuladora a ponto de conseguir enganar todo mundo fingindo que mudou. Pensar nisso é tão decepcionante que eu queria chorar de novo.

Porque ela havia conseguido me enganar, mesmo que eu desconfiasse.

Eu estava começando a me acostumar com a ideia... a abraçar a ilusão...

“Você é a minha maior decepção” ela havia me dito e, querendo ou não, não importa quantas vezes eu ouvisse aquilo... eu acho que nunca me acostumaria com a dor que causava. Era latente. Tão chocante quanto um tapa na cara e tão doloroso quanto... ser atirada do 14º andar de um prédio, eu acho. Eu estava viva, estatelada no chão, agonizando. Sentindo a dor vibrar por todo o meu corpo.

Que merda.

Como alguém podia me atingir tanto? Da mesma forma, com as mesmas palavras, tantas e tantas vezes... como é que eu conseguia sempre cair nessa? Sempre ser ferida dessa forma? Como eu pude abaixar a minha guarda para ela sem perceber?

Batidas na minha janela fazem com que eu me sobressalte no banco do meu carro.

Quando ergo o olhar, vejo Gilliam.

Ele dá um sorriso quando percebe meu susto e acena para mim, fazendo um sinal para que eu abaixe o vidro. Há algo muito vergonhoso em ser pega do lado de fora da casa do seu namorado, chorando dentro do carro, então sinto meu rosto ficar vermelho quando o obedeço e abaixo a janela.

— Olá – ele diz.

O moreno se apoia no capô do meu carro e eu não consigo deixar de me surpreender com o como Gilliam parece uma dessas pessoas que se sentem muito confortáveis dentro de sua própria pele. Como se não houvesse nada nele que o irritasse ou deixasse inseguro. Chego a me preguntar como é possível que exista alguém assim.

— Oi – eu respondo, sem muita vontade.

— Procurando alguém para desabafar? – Ele pergunta arqueando uma sobrancelha.

Sinto um rosto ficar vermelho e dou de ombros.

— Eu acho que sim – eu respondo pateticamente. – Mas não é você.

— Quentin ainda está no parkour— ele responde com um meio sorriso, como se gostasse da minha resposta. – Quer sair daí? Parece desconfortável chorar dentro do carro.

Eu hesito. Não sei se Quentin quer me ver, para início de conversa. E não sei como vou agir se ele fugir de mim mais uma vez, principalmente agora que eu sinto que preciso tanto dele. Como se, ao soprar de um vento mais forte, eu pudesse me desfazer no ar. Mas antes que eu possa responder algo, Gilliam abre a minha porta e faz um gesto para que eu saia.

Soltei um suspiro pesado e fechei a janela do carro, antes de sair dele.

— É. Parece que vocês estão brigados mesmo – ele observa.

Reviro os olhos contra a minha vontade.

— Então você sabe – Eu comento sem surpresa nenhuma.

— Quando Quentin chega puto em casa é meio difícil não perceber – ele responde, como se achasse graça. – Ele é meio... explosivo.

Solto um sorriso sarcástico. Pelo menos ele havia chegado puto também.

Gilliam se senta na escada da varanda e puxa um cigarro. Ele pergunta se eu me incomodo e eu nego com a cabeça. Eu me surpreendo o como eles podem ser fisicamente parecidos, e ao mesmo tempo tão distintos. Acho que ele quer que eu me sente do seu lado então é o que eu faço.

Sento ao lado dele na escada e fico observando a rua pouco movimentada. Esperando por uma paz de espírito que nunca vem. Não há nada mais bagunçado que a minha cabeça e meu peito nesse momento.

— Ah, eu espero que você não se incomode, mas Quentin me contou do seu problema – Gilliam comenta de repente, enquanto equilibra o cigarro entre seus lábios. Não entendo o que ele quer dizer com “meu problema” (tipo, quais?) até que ele diz: — Sua “distorção de imagem corporal”.

Eu franzi o cenho. Sem saber se ficava puta ou confusa. Por via das dúvidas, encolho os ombros e fecho minhas expressões.

— É assim que ele chama? – Eu pergunto com sarcasmo.

— Não. É como eu chamo. Ele chama de anorexia mesmo – Gilliam responde, sem se deixar intimidar. – Mas a distorção de imagem corporal é um aspecto da bulimia e da anorexia... e é o que ele mais reclama em você, se é que tem algo que ele reclame...

Eu abaixei o olhar, sem saber o que dizer. Não sei se fico com raiva por Quentin contar para o irmão dele dos meus problemas, ou se eu fico com raiva da intromissão de Gilliam na minha vida. Justo ele. Que sequer faz parte dela. Novamente, sinto um misto de várias coisas que não se se consigo dar nome a cada uma delas.

— Então ele reclama de mim para você – eu observo com sarcasmo.

— Não exatamente – ele responde. – É só o jeito dele se preocupar.

Dou uma risada sarcástica. É um belo jeito de se preocupar.

— O que aconteceu entre vocês hein? – Ele pergunta.

Eu me viro para dizer a ele que não é da sua conta, mas... não sei. Só sinto como se algo dentro de mim estivesse muito errado. Fora do lugar. Sinto como se estivesse me afogando em um mar cheio de problemas e eu não conseguisse ver o fim deles. E quando vejo, eu começo a chorar de novo. Chorar muito.

E isso me envergonha tanto, que eu abaixo o rosto e o escondo em meus joelhos. Abraço minhas pernas. Gilliam parece um pouco desajeitado quando dá tapas nas minhas costas, como se quisesse me acalmar. A sensação não dá certo. Eu não me sinto nenhum pouco mais calma. Pelo contrário, me sinto como se estivesse sendo empurrada para um abismo.

Nada nunca iria dar certo na droga da minha vida?

— Eu não pedi para ser assim – eu murmuro. – Eu não pedi para ser tão ferrada.

— Ninguém pede – Gilliam responde.

— As coisas só não estão fáceis – eu confessei, enfim. – Elas estão insuportáveis e eu estou só... não sei, tentando seguir em frente. Mas... é tão... difícil. Sinto que toda hora que eu levanto... tem vinte pessoas para sentar na minha costa e... me esmagar contra o chão.

Eu ainda sinto sua mão em minhas costas, dando tapinhas desconfortáveis e ao mesmo tempo amigáveis. Ele fica em silêncio, e o ouço soltar a fumaça do cigarro.

— Você vai à uma psicóloga? – Ele pergunta. – Ao médico?

Eu concordo com a cabeça.

Ouço-o rir.

— E você fala disso para ela? – Ele pergunta.

Eu dou de ombros. Talvez eu houvesse falado alguma coisa, não muito. Acho que não facilito as coisas para ela também. Talvez Quentin tivesse razão: eu me recusava a falar dos meus problemas. Com seriedade. Ou talvez eu apenas quisesse resolver meus problemas sozinha. Por que as pessoas tratam isso como se fosse um absurdo?

— Acho que você deveria trocar então porque ela é muito ruim – ele responde, dando um trago no seu cigarro e soltando a fumaça. – Se você chegou a esse ponto em que está, e ela não te ajudou em nada... ela é incompetente, no mínimo.

Franzi o cenho. Não parecia justo ele falar de Rebecca assim. Quer dizer, o que ele poderia saber ou entender sobre competência? Ainda mais sendo aluno de direito, não era como se ele fosse uma autoridade no assunto. Sinto vontade de defender a psicóloga do colégio, até que ele puxa um cartão corporativo do bolso e o entrega para mim.

— Toma – ele diz. – Esse é o número de uma boa psicóloga. Você devia ligar e marcar uma hora. Você está precisando... muito.

Estreito meus olhos para ele, pegando o cartão da sua mão.

— Por que você anda com isso no bolso? – Questiono.

— Porque todo mundo tem problemas que não podem se resolver sozinhos – ele responde, dando de ombros, com aquele meio sorriso no canto de seus lábios. Então ele leva uma mão ao peito e faz uma expressão de coitado, completando: — E porque você não sabe como dói ser gostoso assim.

Faço uma expressão de desdém e reviro os olhos, fazendo-o rir.

— Brincadeira, é porque ela é gostosa – ele responde. – Sempre tenho o número de garotas gostosas nos meus bolsos. Quer ver?

— Não, obrigada – eu respondo fazendo uma expressão de nojo.

Ele dá um sorriso divertido e apaga seu cigarro. Jogando-o no chão e esfregando com a sola do pé. Pergunto-me como pessoas que fumam pareciam não ter consciência ecológica nenhuma.

— Você me lembra de uma pessoa – ele murmura, com um sorriso.

— Uma das garotas gostosas no seu bolso? – Pergunto com sarcasmo.

Ele ri.

— Não, não – ele respondeu. – Você é como a minha irmã. Eca.

Eu desvio o olhar e dou uma risada. Eu não tinha irmãos. Era legal ter alguém que me visse como uma irmã, eu acho. Eu tive Ellen, a mais próxima a isso. Mas me pergunto até quanto isso seria aceitável já que eu beijo o irmão dele. O que será que ele achava quando me via com Quentin? Ele sentia como se estivesse vendo um incesto? Eca.

— Olha lá quem está chegando – Ele diz de repente, fazendo-me erguer o olhar.

Observo Quentin caminhar em nossa direção... e ele não estava sozinho.

A garota ao seu lado é familiar. Talvez porque ela fosse “padrão”, comum de se ver pelos corredores do colégio, com seus cabelos castanhos e lisos, sorriso tímido e gentil e olhos verdes. Tento não me incomodar tanto com a situação, mas eu me incomodo. Me incomodo porque nós brigamos ontem e ele simplesmente está andando com outras garotas. Garotas que sequer conheço.

Eu me sinto mais idiota do que quando parei o carro ali.

Mas então percebo que talvez eu a conheça... revendo meu passado, tenho quase certeza de que já a vi porque ela me parece muito familiar. É quando eu me lembro, daquelas garotas cedo no colégio outro dia. Daquelas duas garotas brigando com a terceira. “Frannie” sua amiga havia lhe chamado.

— Letty! – ele diz, parecendo surpreso. E então preocupado. – Você está bem?

— Voltando com a vizinha Q? – Gilliam pergunta, olhando para a garota.

— Nos encontramos no meio do caminho – ela responde. – Engraçado né?

— Muito – ele responde, mas não esboça um sorriso.

Ao contrário, ele olha para Quentin e arqueia uma sobrancelha, como se esperasse uma explicação. Eu não acho que precise. Já estou me sentindo ridícula o suficiente sem aquilo. Só consigo olhar para a garota, e tentar decifrar quem ela era de verdade.

— Que engraçado nos encontrarmos de novo assim, Frannie— eu digo, querendo que ela saiba que eu sei quem ela é, e que eu me lembro dela.

Ela demora para me lançar um sorriso amigável e dizer:

— Realmente...

Por algum motivo, algo nela não me cheira bem. Talvez porque, Gilliam também parecesse desconfiado com ela e não me perguntem porque eu confiava no julgamento de caráter dele. Ele só parecia ser muito entendido no que diz respeito “intenções impuras” para saber farejar uma a quilômetros de distância.

— Vocês se conhecem? – Quentin pergunta com surpresa.

— Pode-se dizer nos esbarramos uma vez – ela responde apressadamente.

Por algum motivo ela está nervosa. Provavelmente não quer que eu conte à Quentin sobre ela e sua amiga empurrando aquela garota contra o armário. Sobre o que eu ouvi e que ela me disse que eu não sabia quem estava defendendo. Seu receio apenas me mostra que Quentin não faz ideia de quem ela é de verdade.

Então eu me lembro de tê-la visto com suas amigas muito cedo no colégio. Fora do horário “normal” em que as pessoas começavam a chegar e isso inesperadamente leva meus pensamentos para outro lado. Um lado que eu não esperava. Uma ideia tão simples que poderia dar certo. Tão simples que me pergunto como ninguém a teve antes.

— Bem... interessante – É tudo o que Gilliam diz, trazendo-me de volta dos pensamentos. – Eu preciso ir embora. Letty, lembre-se do que eu falei, está bem? Dá uma ligada lá. Vai te fazer bem.

Eu concordei de com a cabeça, apesar de não ter certeza se mudar de psicóloga iria melhorar alguma coisa, e ele acenou em despedida. Então Frannie arruma uma desculpa para ir embora também e, enfim, tenho Quentin para mim. Isso é, se ele não começar a me evitar de novo.

Eu desviei o olhar e olhei para os meus pés.

Eu não sei bem o que dizer a ele, porque eu sinto muita coisa.

— Por que você estava chorando? – A pergunta pula da boca dele com preocupação.

— Por que você estava com ela? – Eu pergunto.

Quentin estreita os olhos para mim.

— Encontramo-nos na rua. Ela é vizinha da casa da frente. Seria estranho se eu fingisse que não a conhecesse – ele responde. – E você? Qual a sua resposta?

Eu demoro para responder, primeiro estreito meus olhos para ele e então olho para onde a garota havia ido. “Vizinha da casa da frente” é? Por algum motivo, aquilo não me cheirava nada bem. Talvez porque eu soubesse que ela não era uma boa pessoa... Ela não teria problemas em ser a “amiga” que falou que eu beijei Gilliam, não é?

A ideia faz tanto sentido que sinto raiva. Como ele podia viver cercado dessas pessoas? Frannie, Yvonne...

— Você ficou com ciúmes? – Ele pergunta, com um meio sorriso.

— Eu? Imagina – respondi fingindo indiferença. Mas a verdade é que eu acho que estava com raiva sim. – Quer saber a verdade. Eu não faço ideia do porquê estou aqui. Só esqueça que eu estive.

Me viro para ir para o meu carro quando ele me segura pelo braço.

— Ei, não precisa se esconder debaixo dessa raiva – ele pede.

Olho para ele indignada.

— Eu não estou me escondendo debaixo de raiva – eu retruquei, puxando o meu braço. – Eu estou com raiva! Você simplesmente decide me ignorar hoje como se eu não fosse ninguém... E então aparece andando por aí com essa garota... E quer saber... não sei porque eu estou aqui.... Eu só... precisava falar com.... alguém...

E esse é o momento em que eu começo a chorar feito uma garotinha, de novo.

Talvez Gilliam tivesse razão: se minha psicóloga fosse boa eu não estaria nessa situação de total descontrole. De total abandono. Era isso. Eu me sentia muito abandonada. Precisava de alguém para conversar, e Quentin, a única pessoa com quem eu conversava, simplesmente decidir estar tão puto a ponto de não querer conversar comigo.... Me deixava sem ninguém.

Ele me puxa para um abraço, para tentar me acalmar.

E mesmo assim eu senti tanta falta daquilo.