Nosso Nome Na Lista.

46 Capítulo 46 – Piquenique.


Notas iniciais
OLHA EU POSTANDO CEDO AQUI *u* Não sei quanto a vocês... mas tô entediada '-' Agradeço aos reviews de: > Slipcon > Bia Rodrigues > Zabelita > Halloween Soul > Prin (x4) kkkkk > Elidabfr > Matry-chan (x3) > allinegmar > Elizabeth > Lanny Puckett > Patriciamelo > Lily Evans Potter > Lizzie > Brandi > LuuhRocha > Miss Herondale > Cleozinha!! > katp > Kami > Ingrid Herondale > Sheila Rayane > Conangeluna > Karry > La Lu > Palominha > Born to Die > Alonso > Kit Cath > Srt. Malfoy MUITO OBRIGADA! CURTAM AE!!! BISOU!!

Capítulo 46 – Piquenique.

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Entrei no nosso quarto sorrateiramente.

Nem me atrevi a ligar a luz quando vi que a silhueta da minha mãe estava coberta em sua cama, ao lado da minha intocada. Aproveitei que ela devia estar dormindo – apesar de ser cedo para isso –, abandonei o casaco pesado e me despi numa velocidade assustadora para alguém que havia bebido um pouco.

Eu acreditava piamente que havia conseguido me preparar para dormir sem acordar a madame da cama ao lado até que, quando encostei minha cabeça no travesseiro, ela perguntou:

– Onde você estava, Bruce?

Sua voz estava rouca e embargada. Imaginei que por conta do sono.

– Eu bebi e, sinceramente, tô nem um pouco a fim de conversar agora – eu disse secamente, enfiando meu rosto no travesseiro e desejando que ela voltasse a dormir.

Ao invés a ouvi mexer os lençóis e soltar um suspiro. Uma luz do lado oposto do quarto se acendeu. Como eu me deitei e costas para ela, só vi a luz do abajur fazer sombras na parede: de minha silhueta deitada na cama e a dela sentada na sua.

– Sabe que eu tenho que te falar sobre o como é ruim beber na sua idade, certo? – ela comentou, parecendo impaciente. Abri a boca para dizer que estou nem aí para um sermão dela, quando completou: — Bem, não que eu nunca tenha bebido quando tive a sua idade... Então, não torne isso um hábito.

Estreitei os olhos. Perguntando-me se aquilo era pegadinha. Minha mãe, na maioria das vezes, não perdia a chance de me provocar, todavia, aquilo não pareceu uma provocação. Pareceu, na verdade, um comentário de alguém que estava cansada. Com sarcasmo penso que realmente deve ser cansativo ser uma mãe ausente.

– Só espero que você não tenha feito pelo mesmo motivo que eu fazia – a ouvi murmurar para mim, antes de suspirar novamente, e apagar a luz do seu abajur.

Um arrepio percorreu a minha espinha. Uma vontade enorme de perguntar que motivo seria esse também apareceu, quase me fazendo sentir estranha. Eu deveria deixar de lado meu orgulho e minha decisão de odiá-la para o resto da minha vida só para saber o que ela quis dizer com aquilo?

“Ela só quer se fazer de coitadinha para mim” eu cogitei, desconfiada. “Por que não lhe convém ficar mal com a filha bem na frente do homem que paga a minha pensão”.

– Que... motivo fazia a senhora beber? – me ouvi perguntando, apesar de ter uma voz irritante na minha cabeça mandando-me calar a boca. – Sua vida não era perfeita no ensino médio? Você não era a rainha cheia de súditos? Duvido que o motivo para você fazer isso fosse outro que não para parecer “descolada”.

Ouvi que ela se remexeu na cama... Mas não voltou a aceder a luz.

– Ninguém tem a vida perfeita, Bruce – ela disse. – E governar sempre é solitário.

Fiquei em silêncio, esperando uma resposta direta.

– Já tem uns dias que eu venho querendo dizer... Que você estava certa – ela murmurou. Tão baixo que eu pensei ter ouvido errado. – Eu sou sozinha. Eu não consigo manter um relacionamento duradouro... E te envolvo nisso sem nem pensar. Só pensando em mim mesma... Custei a ver isso porque... Porque não queria admitir que uma garota tão mais nova, via coisas que eu me recusava a perceber.

Sentei-me na cama, sem entender o que era aquilo. O que era que ela queria dando-me a razão daquele jeito e falando besteiras? Até parecia que eu não era a única que havia bebido naquela noite.

“Ela está tentando me manipular?” questionei-me antes de voltar a me deitar. Cobrindo-me como um casulo que me protegeria de suas palavras sem sentindo.

– Pare de brincar comigo – pedi, fechando os olhos e tentando dormir.

Ela não respondeu.

...

“Bom dia, Letty :)”.

“Sua família vem para o piquenique da Anne?”

“Minha mãe quer saber...”.

Foi com essas três mensagens que eu acordei às dez horas da manhã de sábado. Uma moça, aparentemente, não podia ficar na cama até tarde nem no fim de semana e isso foi frustrante. A única coisa que me impediu de atirar o celular contra a parede depois de escrever uma resposta nada educada, foi quem mandou a mensagem.

O remetente mudou tudo.

Sentei-me na cama e varri o quarto com o olhar, só para me dar conta de que eu estava sozinha. Perguntei-me se minha mãe havia ido tomar café-da-manhã... Então me lembrei do que ela dissera ontem e um arrepio percorreu a minha espinha. Ela estava tão estranha. Tão fora dela que nem parecia a mesma pessoa.

Levantei-me, tomei um banho morno e vesti uma roupa casual arrumada.

Quando saí do banheiro, deparei-me com o meu pai e a minha mãe no quarto.

– Ah, vocês estão aqui! – exclamei um pouco surpresa. Observei meu pai, parado perto da madame fresca que chamo de “mãe”. – Juntos...

Sinceramente, meu plano envolvia pegar meu pai quando ele estivesse sozinho e convidá-lo para o piquenique de Anne. Assim, eu não precisaria convidar a senhora minha mãe e inventaria alguma mentira para a ausência de Victoria. Agora meu plano havia ido para o lixo. E tudo o que eu menos queria era que mamãe conhecesse os McCullogh.

Micha lançou um olhar desconfiado, até que sorriu.

– Eu estava dizendo para Victoria que seria lega se saíssemos para fazermos alguma coisa... Os três — ele sugeriu em tom gentil.

Foi a minha vez de estreitar o olhar e observar aqueles dois. O que diabos estava havendo? Papai sabia o quanto eu não queria saber daquela mulher... E mesmo assim estava tentando fazer com que nós duas nos entendêssemos?

O que ele tinha na cabeça?

– Bem... – eu respondi, sentando-me na cama e calçando tênis. Respirei fundo, tentando combater o nervosismo que se formava no fundo da garganta. – Na verdade eu ia convidá-los para um piquenique.

Os dois arregalaram os olhos, surpresos.

– Acontece que é aniversário da sobrinha do meu namorado... E a mãe dele me convidou para ir... E pediu para que eu convidasse vocês – admiti, sentindo meu rosto esquentar.

Um minuto se passou sem que eles dissessem nada. Por um instante, pensei em voltar atrás e dizer que foi somente uma brincadeira, quando os dois exclamaram:

– Namorado?!

Eu engoli em seco e dei de ombros.

– É... Eu tenho um namorado – eu respondi, tentando aparentar estar indiferente. – Eu só não quis dizer nada antes porque... Sei lá. Seria estranho... Com tudo o que aconteceu e tal.

Meu pai somente piscou em choque, antes de olhar para a minha mãe procurando algum indicativo no como ele deveria reagir àquela pergunta. Infelizmente, para ele, ela parecia tão incrédula e perdida quanto Micha poderia estar. Sinceramente, fiquei chateada. Até parecia que era tão feia que ia morrer sozinha.

– Não é o Duncan... – Victoria disse, lentamente.

– Não, – eu respondi. – É o Quentin. Quentin McCullogh.

Seu rosto ficou confuso até parecer se lembrar de já ter ouvido esse nome em algum momento de sua vida. É claro que ela já ouvira. Ele já fora em casa e ela já até havia sugerido que ele havia ido ver Ellen... Afinal, eram raros os garotos bonitos que apareciam na nossa casa querendo me ver.

– O garoto simpático! – ela exclamou, muito surpresa. – O que disse que era seu amigo e que te levou para aquela festa. VOCÊ ESTÁ NAMORANDO ELE?!

Fiquei constrangida com aquela boa memória, mas concordei com a cabeça. Ah claro, tratando-se de um garoto bonito e simpático, não havia como Victoria se esquecer dele. Meu pai olhou para a empolgação de sua ex-mulher com cenho franzido.

– Que tipo de nome é esse? – Micha perguntou.

Eu corei.

– Escocês... Eu acho – respondi, apesar de não ter certeza.

– Sabe o que dizem dos escoceses? – ele perguntou.

Eu neguei com a cabeça, encolhendo-me.

– Pare de implicar com o garoto, Micha – Victoria pediu, surpreendendo até mim. – O garoto é um amor de pessoa... É o tipo de garoto que eu iria querer que namorasse uma de minhas filhas-... – Ela se interrompeu, parecendo triste.

É claro que ela havia se afeiçoado com Ellen. Afinal, minha meia-irmã era a filha que Victoria sempre quis para si, certo? Ellen era melhor do que eu, afinal.

Lembrar-me disso me deixou frustrada. Ou irritada. Não soube distinguir.

– Bem, então agora mesmo é que eu quero conhecer esse garoto – meu pai disse ainda carrancudo. – Pode ter certeza que vamos nesse piquenique.

Minha mãe forçou um sorriso, concordando com a cabeça.

– Claro – ela concordou.

Olhei para minha mãe, ainda querendo que ela não conhecesse Quentin como o meu namorado e muito menos a família dele. Quase a imaginei enfartando diante dos irmãos dele, depois de babar sobre eles... Mas não antes de acabar comigo na frente deles. Mas o que eu ia fazer? Dizer na cara dura que não queria que ela fosse depois do que ela disse ontem à noite?

Faltava coragem... E eu não queria me sentir uma garota cruel.

– Então vou avisar que vamos – eu respondi, pegando meu celular e mandando uma mensagem ao meu namorado.

Aceitar esse convite foi a pior coisa que eu poderia ter feito.

Meu pai vivia em roupas formais (sinceramente, eu acho que se abrir o armário dele, apareceria um bando de camisas de botões brancas e calças pretas, como num desenho animado), então, vê-lo com as mangas dobradas e tentando parecer o mais casual possível, foi até engraçado.

Chegamos um pouco atrasados ao piquenique porque minha mãe estava meio fresca a respeito da roupa que ela ia escolher, mas quando enfim se decidiu, pudemos partir. Os cinco McCulloghs, mais a aniversariante, Helena (surpresa!) e Dona Christine estavam arrumados na sombra de uma árvore que já estava um pouco alaranjada e sobre uma toalha que não era xadrez – clichês devem ter limites.

Na verdade, Gilliam, Roland e Charles (eu acho) estavam brincando com Anne com bolhas de sabão. A garotinha estava doidinha correndo atrás delas e tentando pegá-las na mão. Quando elas estouravam, ao invés de chorar, ela sorria e corria atrás de outra. Enquanto Joseph, Christine, Helena e Quentin estavam sentados na toalha.

A expressão surpresa de Quentin a me ver com a minha mãe foi algo impagável. Ele até estreitou os olhos tipo: “Isso é sério mesmo ou é uma miragem?”.

Fiz apenas uma expressão emburrada. Que coincidiu com a do meu pai.

– Quantos garotos! Qual deles é o seu? – ele falou quase como se fosse indecente.

Eu ri nesse momento.

– Todos – eu brinquei.

Meu pai me olhou debochado, eu dei de ombros em resposta, provocando-o. Quando chegamos, abracei Quentin com força. E o apresentei ao meu pai e à minha mãe (mesmo que eles tecnicamente já se conhecessem). Depois apresentei os dois a enorme família de Quentin e a Helena.

– É um prazer conhecer vocês – Christine disse, toda sorrisos. – Letty é uma garota incrível. Gostamos muito dela.

Os irmãos de Quentin concordaram, quase cúmplices. E não entendi porquê. Malmente os via ou falava com eles. É muita gente bonita que me deixa complexada. Até parecíamos estar gravando um comercial!

– É uma pena que só hoje ela nos falou que tinha um namorado – Micha comentou, me olhando atravessado. Com ressentimento. – Não vou poder fazer o interrogatório na frente de todo mundo.

Roland e (eu acho que) Charles se mataram de rir, até eles ouviam, enquanto Joseph apenas ergueu uma sobrancelha, fofocando alguma coisa com Helena.

– Não precisa se conter só porque terá uma plateia – Gilliam provocou com um sorriso venenoso. Largando a garota com o outro tio e o pai. – Logo teremos uma garota para defender. Precisamos aprender como extorquir informações importantes dos namorados. Se precisar usar o caçula como cobaia... por favor, siga em frente.

Meu pai deu uma “risada simpática”. Tipo: “o que você disse não foi engraçado, mas vou rir porque tenho bom humor”, enquanto minha mãe observou Helena. Minha amiga nem fez questão de fingir gostar da minha mãe. Talvez fosse a ressaca, ou talvez ela só fosse assim mesma.

Esse foi o primeiro olhar direto que eu lancei a ela. E quando ela me olhou eu desviei. Como eu ia agir agora? Não estávamos mais falando sobre ela ser lésbica ou não... Mas sobre ela gostar de mim!

– Eu te conheço – mamãe disse à Helena.

– Sim. Eu dividi o quarto de hospital com Letty, no fim do semestre passado. Quando ela foi internada, se lembra? – Se Helena fosse uma arma, ela seria uma lança: afiada, precisa, e capaz de ferir numa única estocada.

– Lembro – mamãe respondeu, em tom de desprezo.

Meu pai olhou para nós.

– Quando você foi internada? Por quê? – quis saber.

Eu corei e alertei Helena com o olhar. Seria melhor se ela não fizesse mais tiradas como essas na frente dele. Eu preferia que ele ficasse sem saber sobre minha doença e essas coisas... Não queria preocupá-lo nem me fazer de coitadinha. Sem contar que ainda era vergonhoso.

– Não foi nada demais – eu disse. – Foi só coisa passageira... Vamos nos sentar!

Meus pais se sentaram perto de Christine e quando mamãe perguntou se todos eram filhos dela e ela respondeu que sim... Acho que nunca vi minha mãe tão assombrada em toda a minha vida. Apesar de eu estar perto deles, eu também estava perto de Helena, Quentin, Joseph e Gilliam.

– Obrigada por perdoá-la – sussurrei no ouvido de Quentin.

Ele sorriu, mas percebi que, no fundo, ainda estava puto com ela.

– Eu ainda não perdoei – ele disse com um sorriso duro. – Mas Gilliam e minha mãe insistiram para que ela viesse... Não quis criar caso.

Voltei a pensar que eu não queria que Quentin brigasse com Helena por algo que aconteceu quando ela estava bêbada... Ainda mais porque eu me senti culpada. Fui o pivô disso tudo. Mas também pensei que só o Quentin suportaria o que aconteceu e ainda trataria a garota com cordialidade. Muitos nem olhariam na cara dela.

Ele me beijou de repente. Suave e rápido. Tão rápido que esperei que meu pai não tivesse percebido. Eu sorri em resposta. Decidindo não me meter na briga dos dois. Quentin tinha direito de ficar puto com Helena. O que ela fez foi filha da putagem.

– Quem são os pais da Annelise? – minha mãe perguntou.

– Roland – Christine apontou para o homem muito forte que estava agora brincando de carregar a filha como um avião. – E a mãe... Bem, ela foi embora assim que deu à luz... Era um pouco jovem, cheia de sonhos, e não quis assumir a responsabilidade.

Quentin abaixou o olhar por um instante. Não entendi por quê, mas decidi não perguntar. Apenas dei uma cutucada no seu abdômen, fazendo-o me olhar.

– O que foi? – ele perguntou.

– Nada não – eu respondi.

Quentin fez uma expressão confusa, até revirar os olhos e sorrir.

– E o seu pai deles? – meu pai perguntou, chamando a nossa atenção, à Christine.

Talvez ele tenha se sentado perto da mãe do meu namorado para extorquir mais informações diretas da fonte e isso quase me fez rir. Erro dele. As mães nunca falavam mal de seus filhos... Exceto algumas. A minha, por exemplo.

– Ele está na Escócia – Christine respondeu meio nervosa. – Quase nunca passa o tempo aqui, a não ser nas férias... Ou quando quer fazer uma surpresa.

– Ah-há! Então você é metade escocês – eu disse, cutucando-o novamente.

Quentin se revirou, incomodado, como se isso não fosse motivo para se orgulhar ou para eu ficar surpresa. Cogitei que fosse porque era o pai dele. Eles não se davam bem e tudo o mais... Talvez não gostasse da outra nacionalidade.

– Você criou esses cinco garotos, sozinha? – minha mãe perguntou à dele.

– Não... Praticamente já eram crescidos quando me separei – a mulher respondeu. – Foi há, mais ou menos, dois anos.

Minha mãe começou a conversar sobre criar filhos sozinha (que fez Helena olhar para mim e revirar os olhos dramaticamente, eu só dei de ombros em resposta) e acho que foi a primeira vez que meu pai lhe deu um chega para lá.

– Victoria, não fale que você criou Letty sozinha como se eu fosse um pai ausente – ele dissera, obviamente controlado. – Preciso lhe lembrar do que você fez?

Victoria olhou para ele, pela primeira vez, parecendo envergonhada. Perguntei-me por que. Minha mãe, na maior parte do tempo, não se envergonhava de nada. Sempre achava que fazia as coisas de maneira perfeita e correta. Como se ela fosse a dona da verdade... Por que parecer tão culpada quando meu pai disse aquilo?

Ela sequer pareceu ter culpa quando eu lhe confrontei sobre a mentira.

Um silêncio tenso ficou entre os três adultos e até Anne, curiosa e observadora, parou de correr para observar aquele clima tenso. Quentin e Helena me olharam, sabendo ao que meu pai se referia.

E eu quis morrer ali.

Cogitei se eu poderia cortar meus pulsos com uma faca de plástico.

– Então... Não vai ter comida nesse aniversário, não? – eu mudei de assunto.

Tudo o que eu queria dizer era: “Ignorem os meus pais, eles nem sempre são assim!” – apesar de isso não ser totalmente verdade — e me enterrar no chão. Novamente, cogitei cortar meus pulsos com facas de plástico... Doeria, mas a dor seria de menos.

Minha mãe revirou os olhos para mim, mas não disse nada. Graças a Deus. Mesmo assim, senti minhas maçãs-do-rosto ficarem vermelhas.

– Boa ideia, Letty. Vocês não querem um sanduíche? – Gilliam perguntou com o sorriso mais fofo do mundo. – Minha mãe fez uns maravilhosos... Mas não compara ao bolo de aniversário da Anne.

– Claro – a mãe de Quentin disse, parecendo aliviada. – Eu deixei as coisas no carro... Você pode me ajudar a pegar, Letty?

Bem, já que eu não havia trazido nem presente, né? Era o mínimo.

Concordei com a cabeça e me levantei. Sussurrei um pedido ao Quentin para que, com toda a sua carisma e sua conversa fiada, ele apartasse qualquer indício de atrito entre meus pais. Apesar de que, para o meu gosto, meu pai está aceitando muito “de boa” o que minha mãe fez e está fazendo comigo.

Gostaria de entender o que ele está pensando.

Christine se levantou e eu também. Ela olhou para o filho mais velho e disse:

– Vem conosco, Gilliam. Precisaremos dos seus músculos.

– Mas, mãe, se quer músculos, peça ao Roland...

– Gill...

Ele soltou um suspiro, emburrado, e se levantou. Reprimi a vontade de rir ao ver um cara de vinte e poucos anos sendo mandado pela mãe. Ainda mais sendo Gilliam. Ele é uma pessoa normal, afinal. Ainda tem que obedecer à mãe.

– Sinto muito pelo clima tenso dos meus pais. Geralmente eles se controlam – eu pedi enquanto caminhei ao lado de Gilliam em direção ao carro.

Christine andava um pouco mais à frente e sorriu.

– Nah, já protagonizei muitas cenas assim – ela confessou, dando de ombros. – Não é fácil lidar com pais divorciados... Mas os seus até que parecem se dar bem.

Eu suspirei e dei de ombros.

– Vai-se entender – resmunguei.

Christine sorriu novamente. Quando chegamos ao carro, ela abriu o porta-malas e tirou um enorme bolo que só de ver me fez engordar cinco quilos. Ele era grande e cor-de-rosa, enfeitado com pequenas flores púrpuras que formavam um número 3 enorme. Ela me entregou o bolo, com muito cuidado, a Gilliam; pegou um cooler e me entregou uma cesta com comida.

– Letty, preciso te pedir uma coisa – ela disse, quando fechou o porta-malas do carro. Ela relanceou o olhar rapidamente para Gilliam, este desviou o olhar.

Ai, meu caralho... Estava bom demais pra ser verdade.

Pela primeira vez Christine não sorria. Pelo contrário, ela demonstrava um nervosismo que minutos atrás parecia não existir. Como quando o horizonte fica nublado por nuvens que parecem surgir do nada. Isso não me pareceu justo. Uma mulher boa daquelas não deveria ficar aflita... E isso me deixou perturbada.

– Eu... Não contei pro Quentin... Mas o pai dele ainda está na cidade. Ele insistiu para ficar até o aniversário da Anne e eu lhe disse que íamos fazer esse piquenique... Não sei se ele vai aparecer... Mas se ele vir...

– Você está preocupada que ele e Quentin briguem como sempre? – perguntei.

Ela assentiu com a cabeça.

– Quentin é um bom garoto, você sabe... Mas, quando ele vê o pai, ele se transforma – ela explicou. – Arnold o provoca demais e eu não quero que os dois discutam na frente de Anne... Então, se você puder... Quando ele começar a ficar nervoso, tente acalmá-lo.

Eu sei que ela estava falando sério. Sei que ela estava preocupada em como o filho iria reagir na presença do pai... Mas eu não pude evitar. Eu simplesmente comecei a rir. Gilliam arqueou uma sobrancelha como se, de repente, percebesse que sou estranha.

As pessoas deviam me dar um tapa logo para eu aprender a me conter.

– Desculpe.... É que, falando assim, até parece que Quentin vai se transformar no Hulk! – expliquei, tentando refrear as risadas que subiam pela garganta.

Christine riu, apesar de continuar um pouco preocupada.

– Bem... Por mais que Quentin odeie o pai... Eu tenho certeza de que ele vai saber se comportar – eu disse. – Acho que você não tem muito com o que se preocupar. Mas, se isso acontecer, pode ter certeza que eu vou tentar fazê-lo se comportar.

Talvez fosse muita pretensão minha dizer que Quentin não ia agir de tal maneira, ainda mais para a mãe dele (que o conhecia melhor do que eu), mas acho que foi válido. Válido para fazê-la sorrir agradecida e parecer um pouco mais relaxada.

– Obrigada, querida – ela disse, sorrindo.

Eu apenas dei de ombros, um pouco envergonhada, e caminhamos de volta para o parque. A princípio, ficamos num silêncio confortável e cúmplice... Até que eu pensei numa coisa que eu queria muito saber.

– Hum... – Os dois se viraram para mim e eu corei. – Sabem, ontem... Joseph disse “Quentin e suas namoradas problemáticas”... O que ele quis dizer com isso?

Gilliam deu uma risada que me deixou arrepiada – no mau sentido.

Christine apenas suspirou.

– Relaxa, ele só estava tirando com a sua cara – Gilliam disse, como se não fosse nada demais. – É que Quentin tem mania de fazer amizade com todo mundo. E, como ele é alguém confiável, as pessoas desabafam com ele. Ele sempre foi assim e eu sempre disse que ele ia ser psicólogo quando crescesse. – O rapaz relaxou sua postura ao continuar: – É muito comum as pessoas confundirem atenção e afeto, com amor... E eu não as culpo por isso. Quando você tem aquela pessoa que está do seu lado o tempo todo, lhe apoiando, lhe ouvindo... Não tem como não se apaixonar.

Eu abaixei o olhar, para a cesta que eu levava, e concordei com a cabeça.

– Não que ele esteja dizendo que o que você sente por Quentin, ou o que Quentin sinta por você, não seja sério nem nada disso – Christine atalhou rapidamente um tanto constrangida pelo filho. – Sabe... Mas Quentin nunca foi de namorar... Por isso eu sei que ele deve gostar muito de você. Não só porque você é bonita ou “problemática”... Mas tenho certeza que é porque ele sabe da pessoa maravilhosa que você é.

Eu forcei um sorriso e agradeci. Ela sorriu de volta e continuou a andar. Gilliam continuou parado, olhando para mim. E eu olhei para ele. Sem entender porque diabos ele estava me encarando daquele jeito que me fez encolher.

– Espero que você perdoe Helena, por ontem – ele disse. – Ela se deixou levar. Ela me disse que nem sabe se gosta de você de verdade. Foi só... Como eu disse. Confundiu atenção e amizade, com algo mais.

Franzi o cenho. Nunca pensei que ele se meteria nos problemas dos outros.

Talvez fosse de família.

– Eu... Acho que só estou constrangida – eu confessei. – Nem estou com tanta raiva.

Ele assentiu e, então, voltou a andar.

– Queria que meu irmão aprendesse a perdoar como você – ele resmungou.

Franzi o cenho e voltei a caminhar também. Ficamos num silêncio constrangedor. Então, aproveitando que Christine estava mais a frente e não podia ouvir, eu lhe disse:

– Obrigada... Por não contar ao Quentin sobre... Aquele beijo.

Um meio sorriso surgiu no canto dos lábios de Gilliam.

– Relaxa... Eu só gosto de deixar as pessoas constrangidas – ele disse, dando de ombros. – Além do mais, eu gosto do meu irmãozinho. Por mais debochado que eu seja, jamais diria algo que pudesse feri-lo. Ou roubar uma de suas namoradas... De novo.

Acho que a expressão que eu fiz foi engraçada, porque ele se matou de rir.

Notas finais
Eu tenho duas surpresas para vocês!! Que são o próximo capítulo e depois do próximo. Até lá, espero que consigamos atingir 1.000 comentários!! Para tudo ficar mais bonito *u* PREVIEW: "Mas como eu poderia dizer outra coisa se era verdade? Vai parecer clichê, mas desde o momento em que Letty apareceu na minha vida foi tipo: “Uau. Uma garota assim existia? Onde ela estivera esse tempo todo que eu nunca a havia encontrado?”. Tudo bem que, como toda pessoa que eu conheço, ela tinha sua “bagagem”. Sinceramente, se ela não tivesse, eu estranharia. Ninguém é tão feliz quanto parece. E acho que gosto disso. Gosto de como a Letty não se obriga a fingir sentir o que não sente. Tenho admirado isso desde a primeira vez em que nos falamos." ------------------------------------------------------------------------------- Conseguem advinhar a primeira surpresa??? KKKKKK