Nossa Sina

1 Capítulo Único


Eu estava ali, triste, Liverpool não parecia mais tão encantadora.Ainda lembro-me de nós. Um grupo de crianças brincando pelos campos. Lembro da amizade, do carinho, da diversão, das competições de natação... Era tudo tão perfeito, pensei que nunca fosse acabar.

“Annabelle, eu trouxe isso para você, meu pai mandou de Londres!”. Londres, naquela época parecia um lugar tão mágico, tudo vindo de lá era maravilhoso “eles fazem tudo ao mesmo tempo, é incrível”. Sim, incrível. Olhava deslumbrada para aquele cachecol, tão bem feito, tão lindo. Era quase impossível imaginar que tinha milhares iguais aquele. E o mais importante: foi um presente dele. “Annabelle, você gostou?”, mas é claro, respondi-lhe, é o presente mais incrível que já ganhei! “Também não precisa exagerar, não é tudo isso”, depois que lhe assegurei que tinha adorado o presente, agradeci com um abraço. Notei que ficou envergonhado, Jim ficava tão lindo encabulado.

Essas lembranças! Abracei-me forte. Toda vez que lembrava um vazio aparecia, como se um buraco enorme tomasse conta de meu coração. Ainda não sei como consegui sobreviver, só sei que o fiz. Enxuguei as lagrimas e abracei aquele mesmo cachecol. Agora surrado, maltratado pelo tempo e por tudo que passou.

“Podemos conversar?”. Eu devia ter evitado. Devia ter corrido. Eu sabia que não podia ser coisa boa! Ele estava com aquele olhar preocupado. Era o perfeito sinal de aviso. Não consegui, sabia que ele precisava de ajuda. “Annabelle, meu pai ele, bem, ele pediu para que eu vá trabalhar. Algo sobre não contratarem mais homens ou sobre a eficiência de pessoas mais novas”, trabalhar com apenas 13 anos? Em uma fabrica? “são os tempos modernos e pense bem vou juntar muito dinheiro para que possamos comprar uma linda casa. Imagine Annie, eu, você, nossos filhos... todos nos divertindo a beira do mar...”, mas Jim! Não é perigoso? “Claro que não” disse com pressa e sorriu. Aquele sorriso que mais amava. Não consegui duvidar de sua palavra. Tola. Devia ter impedido. Devia dizer que preferia ser casada com um camponês. Devia ter dito que não queria uma casa. Mas estava tão planejado, desde aos cinco anos tínhamos esse plano, casarmos e sermos felizes para todo sempre. Agora percebo. Não existe felicidade eterna. Duvido até que possa existir qualquer felicidade.

Ouvi minha mãe gritando. Uma carta. Corri. Lembro-me que usei toda a minha energia. Uma carta só podia significar uma coisa. Jim estava voltando. Aprendi naquele dia a maior lição de minha vida. Nada é como gostaríamos que fosse.

Mãe, indaguei o que houve? Seus olhos estavam vermelhos e cheios de lagrimas. Mãe? A senhora abriu a carta? O que está escrito? Não me lembro de mais nada. Acho que desmaiei. Acordei mais tarde em minha cama. Ao contrário do que esperava, não era somente um pesadelo. Jim morreu prensado em uma maquina e o senhor seu pai morreu assaltado.

Uma semana após a noticia à senhora mãe do Jim se matou. Quis fazer o mesmo. Minha vida não tinha sentido sem ele. E ainda não tem.

Abracei mais uma vez aquele cachecol. Joguei-o na fogueira e inalei a fumaça. Tinha que ir me acostumando. Segurei as lagrimas e segui minha mãe. Liverpool já não é mais nosso lar. Mas tenho certeza que Londres nunca será. Olhei para trás uma ultima vez. Todas aquelas lembranças. Todos aqueles momentos. Tudo passado. Dessa vez não consegui controlar, uma lagrima solitária escorreu pelo meu rosto. Não podia deixar aquilo me impedir. A estação de trem nos espera. A nossa sina nos espera. A sina de todos os camponeses. Abandonar seus lares e ir trabalhar nas indústrias.

Notas finais
(trabalho de nota extra para História, acabei gostando xP)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!