Nossa Música
3 Tentando se recompor
Notas iniciais
O xerife tentou entrar pela porta da frente, como não obteve sucesso, tentou pela dos fundos, mas todas se encontravam trancadas, certamente Gold havia se certificado que ninguém atrapalharia seu momento com a garota.
— Regina, você ta aí? — perguntou Graham com uma voz de desespero. Mas a garota não ouvira nada, sua mente estava fora da cabeça, sua cabeça estava fora do corpo, seu corpo estava destroçado.
Graham se desesperou por não ouvir nem se quer um suspiro de vida naquele recinto. O xerife estava com Granny, pois foi ela que ouvira gritos enquanto passava em frente a mansão, e fez imediatamente um chamado a polícia. Ela havia reconhecido a voz, a voz que gritou era de Regina, ela tinha certeza, conhecia muito bem a garota, principalmente a voz que se sobressaltava das outras meninas.
— Abra essa porta Graham, pelo amor de Deus! — suplicava a senhora com a mão no coração.
— O que está havendo? — perguntou David se aproximando .
— Eu ouvi gritos de Regina quando passava pela frente da casa, todas as portas estão trancadas, com certeza não é Cora que está a maltratando, ate porque ela viajou. Regina sempre teve o pulso muito firme e não demonstrava tristeza em relação a mãe, ela não gritaria, não do jeito que eu ouvi — fala com o coração apertado.
— Como você sabe que ela viajou? — perguntou David.
— Eu contei a ela — responde Graham — Cora me avisou hoje cedo que viajaria pra resolver assuntos pendentes da prefeitura.
— Vamos ter que arrombar — falou David — eu e você chutamos a porta no três, combinado?
— Okay — respondeu Graham.
— Um... Dois... Três! — contou David. Os dois chutaram a porta com toda a força que conseguiam pôr no pé, finalmente a porta se abriu.
Graham, David e Granny adentraram a mansão olhando para os cômodos que os cercavam, procurando algum foco de vida, eles chamavam por Regina, mas ninguém respondia. Resolveram se separar, o xerife subiu as escadas, David foi olhar a biblioteca e o escritório da prefeita, o que chamou a atenção de Granny foi a cozinha, pois havia um cheiro forte de queimado. Quando entrou se deparou imediatamente com Gold estatalado no chão em cima de uma imensa poça de sangue que saíra de sua barriga, uma faca ao seu lado, e ali, no cantinho do chão da cozinha, próximo ao balcão, estava Regina, encolhida, abraçando fortemente as pernas, como se quisesse desaparecer.
— Minha menina! exclamou Granny, logo chamando a atenção de Graham que estava descendo as escadas e de David que não havia encontrado nada nos outros cômodos. Granny se ajoelhou próxima a garota semi-nua, olhou para as suas mãos cobertas de sangue, que ate então não se mexeu, não demonstrou nenhum sinal de vida. David e Graham foram em direção a cozinha e se depararam com a mesma cena que a pouco Granny havia visto. Eles se olharam horrorizados com aquilo, perceberam que a menina estava ao lado da senhora que ali lhe amparava.
— Precisamos tirar ela daqui — foi a única coisa que o xerife conseguiu falar naquele momento.
Granny se aproximou ainda mais da menina, passou a mão em seus cabelos — Vai ficar tudo bem minha menina — falou depositando um beijo na sua cabeça que continuava abaixada. Percebeu que o que tinha acabado de falar não era verdade, se levantou indo em direção ao quarto mais próximo, pegou um lençol qualquer e levou ate a garota colocando por cima do seu corpo curvado.
— Levem-na para o hospital — ordenou Granny.
David se aproximou cuidadosamente da menina e a levantou nos braços, Regina estava com os olhos fechados fortemente, não queria ver o que estava diante de si, não queria ver a situação que se encontrava. Foi então que David e Granny observou o corte na boca da garota, o sangue escorria entre seus lábios, eles se entreolharam e então saiu em direção ao carro do xerife que estava estacionado na frente da mansão. Graham o seguiu e guiou o carro pelo meio da noite ate chegar ao hospital que foi recebido pelo Dr. Whale.
— O que houve? — perguntou o Dr.
— Primeiro nos leve para um quarto onde ela possa descansar — respondeu David com a menina em seus braços.
Dr. Whale assentiu e os levou ao quarto mais reservado, para não atrair muita atenção das famílias que estavam ali. David colocou a menina cuidadosamente na cama e a cobriu com o cobertor que estava dobrado próximo a cama.
— As enfermeiras virão cuidar dela — falou o medico — agora me contem o que houve insistiu.
— Vamos para fora — pediu Graham. Todos concordaram e saíram de dentro do quarto.
♫♫♫
— Então você ta me dizendo que ela foi estuprada por Gold? — perguntou Dr. Whale incrédulo.
— É isso o que a as cenas indicam. Regina estava encolhida no canto da parede da cozinha, suas mãos estavam cheias de sangue, certamente ela acertou Gold com a faca para de defender do ato do homem — falou Graham — ele e Regina estavam sem as calças, com certeza Gold deve ter forçado ela a tirar — concluiu.
— Nós só vamos descobrir realmente o que aconteceu quando perguntarmos a ela — continuou o médico.
— Isso não vem ao caso agora, ela não conseguiu nem olhar para nós, imagina contar o que houve naquela casa — advertiu David.
— Mas precisamos — falou o medico sendo interrompido por Granny.
— Precisamos, mas não vamos — falou a senhora — eu ficarei com ela ate sair os resultados dos exames. Graham, avise imediatamente a Cora o que houve.
— Farei isso agora mesmo — falou o xerife.
No outro lado da porta Regina escutava tudo em silêncio, com seus olhos fechados, com uma enfermeira limpando o sangue que secara em suas mãos, outra limpando o corte em sua boca, ela informou que precisava levar alguns pontos para a cicatrização ser mais rápida, Regina balançou a cabeça negativamente, mostrando que a última coisa que queria naquele momento era sentir mais dor, a enfermeira não insistiu, aceitou a decisão da morena, agora passava um gel para as marcas roxas no pescoço da garota. Quando terminaram, levaram-na para uma sala de exames ginecológicos e constataram o que já sabiam, ela havia sido estuprada.
Quando voltou ao quarto, Granny estava esperando na poltrona ao lado de sua cama. Regina deitou e ficou imóvel, com os olhos voltados para o teto do quarto, estava entalada, tão entalada que não conseguia dizer nenhuma frase, nenhuma palavra, não conseguia transmitir um único som, um único ruído, só conseguia ficar parada, sem expressão.
A senhora olhou para a menina com solidariedade, certamente pensando em tudo o que a garota passara naquela noite.
— Regina, sua mãe deve estar voltando, não se preocupe — falou se levantando da poltrona e ficando mais próxima a cama da garota que não tirava os olhos do teto forrado do quarto — você está melhor? — perguntou passando a mão nos cabelos negros da garota. A porta abriu interrompendo a resposta que certamente não seria dada, era o Dr. Whale.
— Cora chegou, ela veio imediatamente assim quando Graham a informou do acontecimento — continuou — ela quer ficar a sós com Regina.
Granny assentiu e já ia pegar sua bolsa quando sentiu as mãos trêmulas e geladas da garota segurando seu braço.
— Por favor, não vá — desviou os olhos do teto para os olhos da senhora que estava ali — não me deixe aqui sozinha com Cora — respirou fundo, sentiu uma lágrima descendo em seu rosto.
— Você não quer vê-la? — perguntou Granny.
A garota balançou a cabeça negativamente, pois todas as forças que recuperou foram gastas em uma frase. O médico ouvira tudo em silêncio e saiu para falar com a mulher que estava do lado de fora do quarto observando-as atentamente. Regina voltou seus olhos para o teto.
— Depois de amanhã você terá alta — suspirou — sua mãe virá te pegar para ir pra casa.
Desceu mais lágrimas no rosto da menina.
— Eu... Eu posso tentar convencer Cora para deixar você passar um tempo na pensão — passou a mão delicadamente no rosto úmido da menina secando suas lágrimas — você quer?
Regina balançou a cabeça concordando com a decisão da senhora, virou-se de lado, agora seu olhar era para o canto da parede do lado oposto de Granny e ficou encarando melancolicamente ate pegar no sono.
♫♫♫
Regina passara o dia seguinte inteiro dormindo, a enfermeira já havia colocado o café da manhã o almoço e agora a janta em cima do criado-mudo, tentou chamá-la, mas Granny não deixou interromper seu sono. Depois de alguns instantes a garota abre os olhos vagarosamente e ver a senhora sentada na poltrona.
— Eu estava esperando você acordar. Eu conversei com sua mãe enquanto você estava dormindo, ela concordou em você passar um tempo comigo — deu uma pausa depositando um pouco de água na boca ressecada da menina — você está pronta? Se quiser amanhã mesmo já podemos ir.
A garota que estava atordoada balançou a cabeça positivamente.
— Vou começar a arrumar suas coisas — se levantou em direção a mala que Cora tinha deixado mais cedo — você deveria comer algo — falou olhando para a menina que já havia pegado no sono novamente.
♫♫♫
Regina acordou com Granny alisando seus cabelos.
— Minha menina, já está na hora de ir — falou.
Granny era quase uma avó para garota, ela que dava cobertura para suas saídas com Ruby (sua neta), Aurora e Mulan, e muitas vezes aos encontros com Killian. Aquela doce senhora era a única que possuía o respeito de Cora, a única que se opunha contra ela, e fazia com que a mulher repensasse seus atos sobre a menina.
— Se levante e troque sua roupa, quando chegar na pensão você fica mais a vontade, já separei um quarto para você, Ruby está nos esperando.
Regina se levantou e fez exatamente o que Granny havia falado, vestiu o primeiro vestido que encontrou, colocou um casaco por cima e um cachecol para esconder as marcas do pescoço, não precisou olhar no espelho para saber que as marcas ainda estavam ali intactas. O frio já havia começado a se alastrar pelo Maine, antes mesmo do verão acabar. Em alguns minutos já estava pronta, mas tonta, tonta por passar quase dois dias deitada, na maioria do tempo dormindo. Quando voltou para o quarto, Graham estava pegando sua mala para levar ate o carro, Regina agarrou o braço de Granny e juntas o acompanharam pelos corredores do hospital. Parecia que havia mais gente do que o normal, todos os olhares estavam voltados à garota, ela se encolheu, se encolheu de um jeito que desejava sumir diante daquelas pessoas, andava olhando para o chão, a cidade era pequena, certamente a notícia havia se espalhado entre os moradores sobre a filha da prefeita. Parecia os passos mais longos de sua vida. Finalmente chegaram e entraram no automóvel que estava parado bem na saída, Graham colocou a mala no banco do passageiro da frente e as duas foram no banco de trás, não deram uma só palavra durante o caminho.
Chegaram na pensão. O xerife levou suas coisas ate o quarto que Granny havia separado para a menina, deixou a mala em cima da cama, em seguida despediu-se dizendo que tinha que dar notícias a Cora. Granny entrou no cômodo com Regina, Ruby estava esperando elas no quarto.
— Você chegou — sorriu Ruby para a amiga.
— Querida, vá tomar um banho pra tirar esse cheiro de hospital do corpo — falou Granny passando as mãos nas costas de Regina.
— O cheiro que eu que eu gostaria de tirar ficará no meu corpo pra sempre — disse Regina como em sussurro, olhando para o chão.
Silencio absoluto.
Granny andou ate ficar de frente a morena, pegou em suas mãos frias.
— Tudo se resolverá, querida. Creio que você queira ficar sozinha por algum tempo, bom, eu vou fazer o almoço, espero que vá, você não comeu nada esses dias, desça ao menos para tomar água. Se não estiver com fome, coma uma maçã, não vou te obrigar a nada, mas de estômago vazio não dá pra ficar — soltou delicadamente suas mãos e olhou para sua neta Ruby — me acompanhe.
— Mas vó... — interferiu Ruby.
— Vamos — interrompeu a avó puxando o braço da menina com mexas vermelhas — ela precisa de um tempo Ruby, entenda isso — Ruby parou de falar e saiu com sua avó deixando a morena só no quarto.
♫♫♫
"REGINA"
Eu estava só. Eu finalmente estava só. Não que eu quisesse, mas eu precisava desse momento.
Olhei ao meu redor, vi a cama, uma cômoda, um abajur, algumas flores em um vaso sobre o criado-mudo, uma vista para a rua e uma porta que certamente me levaria ao banheiro. Abri minha mala, havia minhas roupas preferidas: meus vestidos floridos, minhas blusas de manga longa, algumas calças compridas que normalmente usara apenas para ir à escola, alguns cachecóis e o moletom que eu dormia nas noites de frio que um dia pertencera ao meu pai.
Peguei uma toalha e fiquei de frente a porta que me levaria ao banheiro. Respirei fundo. Naquele banheiro estaria o meu maior inimigo de hoje em diante, o inimigo que me mostraria as marcas físicas e que logo me lembraria das marcas psicológicas que aquela noite me trazia.
Entrei. Não pude encará-lo ainda. Por azar meu tinha ele em dois tamanhos, um pequeno acima da pia e um médio no lado oposto que reflete da cabeça a cintura, tentei ignorá-los. Sim, meu inimigo era o espelho. O qual me torturaria todas as vezes que meus olhos voltassem para ele.
Tirei o cachecol, depois o casaco, agora era vez do vestido, o vestido delicado e confortável que tanto gostara, mas que tinha certeza que não o usaria novamente tão cedo. Tive um pouco de dificuldade para tirá-lo, há dias não fazia esforço algum com os braços, percebi algumas marcas. Fechei meus olhos. Desabotoei o sutiã, desci a calcinha. Fiquei de frente ao espelho maior. Levantei meus olhos lentamente, permitindo que o bac fosse menor, mas não foi. Me deparei com a Regina que nunca pensei que um dia viria, que nunca passou pela minha cabeça que existia.
Estremeci com aquela imagem. Minhas pernas e meus braços estavam doloridos, pensei que fosse da posição que eu ficara na cama, mas não era, estavam roxos. Logo caiu a ficha, Gold havia apertado minha pele com sua mão, me chupado, me mordido durante o ato. Minha perna nem tanto, mas meus braços e minha cintura sim. Olhei mais para cima, e vi meu pescoço completamente roxo, raro era um espaço da cor da minha pele, passei levemente minhas mãos sobre os hematomas e senti um fio de dor, me lembrei das mordidas, as fortes e inúmeras mordidas que ele me dera por ter gritado. Agora estava de cara a cara comigo mesma refletida no espelho, minha boca estava cortada, tive sorte de não ter pegado nenhuma infecção por deixar o ferimento aberto, não estava sarado, apenas tinha criado uma ferida no corte, um bom sinal para uma cicatrização.
Fui em direção ao Box, liguei o chuveiro, a água caia na minha cabeça tentando me fazer esquecer o que houve, escorria como se tentasse limpar aqueles hematomas que agora fazia parte do meu corpo.
Desliguei o chuveiro, peguei o sabonete e comecei a esfregar freneticamente meu corpo, nos braços, pernas, abdômen, pescoço, rosto, como se fosse possível em um passe de mágica todas aquelas marcas sumirem. Me desesperei, aumentei a velocidade do sabonete sobre meu corpo, mas nada acontecia. Sentia minhas lágrimas descendo junto a água que descia no meu rosto. Despejei um pouco de shampoo em meu cabelo, enquanto massageava me lembrei dos puxões que o homem dera, os puxões fortes que senti fios caindo no chão. Eu já não estava mais lavando o cabelo, agora estava a ponto de arrancar meu couro cabeludo com as unhas, eu tentava me libertar do toque do homem, mas não percebia que era em vão.
Me lembrei que certa vez ele disse que amava meus longos cabelos. Liguei novamente o chuveiro, deixei a água escorrer tirando todo o shampoo e sabonete que havia em meu corpo. Saí do Box molhada, abri uma pequena porta por trás do espelho que ficava acima da pia, encontrei uma escova de dente nova, um tubo de pasta intacto, um batom, uma tesoura, absorventes e uma escova para cabelo. Retirei a tesoura, me olhei no reflexo, tudo o que eu via no comprimento do meu cabelo era suas mãos, eu não podia suportar aquilo. Não pensei duas vezes e comecei a cortar. Da cintura passou para a metade das costas, que passou para próximo dos ombros, que finalmente chegou onde não vi mais as mãos do homem. Agora estava curto, um pouco acima do ombro.
Tomei outra ducha rápida para poder tirar os fios do cabelo cortado que grudara em minha pele. Peguei a toalha e me sequei, sai do banheiro em direção a mala, ignorei todos os meus vestidos que ali estavam, peguei uma calça de jeans escuro, uma blusa de manga longa preta, um cachecol vermelho, juntos eles esconderiam meus machucados. Entrei no banheiro novamente, penteei meu curto cabelo de lado, então percebi que o único machucado que ficara a mostra era o da boca, abri novamente a portinha do espelho e retirei o batom que ali estava. Passei delicadamente em meus lábios, a cor era de um vermelho marcante, mas era exatamente a cor que eu desejara, pois tiraria a atenção do corte e depositariam o olhar em meus lábios.
♫♫♫
A menina trocou os vestidos floridos por roupas escuras que a cobria dos pés ao pescoço, trocara o batom coral por um vermelho sangue, os cabelos longos por cabelos curtos, o olhar cheio de vida e de brilho por um olhar frio e amargo. E agora estava ali uma nova garota, não uma melhor, apenas uma nova Regina. Uma Regina cheia de tristeza e de rancor no coração, esquecera tudo o que a mãe fez por muito tempo, os maus tratos, as humilhações, mas não poderia esquecer aquilo, não, não poderia mesmo, denegriu sua imagem, seu físico, seu emocional, boa parte era culpa da mãe por trazer aquele homem para dentro de casa, por deixá-los a sós. Talvez não passasse pela cabeça de Cora o que poderia acontecer naquele dia, mas aconteceu, ela não podia mudar, não poderia simplesmente voltar no tempo e evitar o inevitável.
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