Nossa Música
17 O reencontro
Notas iniciais
Emma estava imóvel, suas expressões que há pouco estavam em seu rosto haviam sumido, haviam congelado. “Eu esperava qualquer pessoa, qualquer uma, menos ela”, pensou.
— Emma, não seja mal educada, cumprimente-as – Joana cochichou em seu ouvido.
— Prazer – estendeu a mão direita à ruiva – eu... eu sou... – voltou seu olhar à morena que estava próxima de si, próxima de um jeito que pensou que jamais estaria novamente. Parecia que o tempo havia favorecido sua beleza. Seus cabelos negros continuavam acima do ombro como da última vez que a havia visto, seu batom vermelho inseparável estava ali, na boca que tanto sentiu falta, a única coisa que mudara foram suas roupas. Regina trocou a calça jeans por saia de cintura alta, o allstar foi substituído por belos pares de salto altos e no lugar de sua blusa manga longa, estava uma blusa de seda branca social que ia ate a extremidade dos cotovelos. Suas palavras foram perdidas diante daquela imagem, diante daquela mulher, a mulher que um dia significou tanto pra ela e que continuava significando, por mais que não quisesse acreditar, aquela era a verdade, era a mesma garota que tirou noites de sono, que fez derramar tantas lágrimas, lágrimas de dúvidas, faltas de respostas, lágrimas de saudade, de perca, de dor. “O que ela está fazendo aqui?”, “Por que isso agora?”, “Por que ela não continuou escondida? Desaparecida?”, “Por que tinha que vim à tona em um momento em que tudo já está em seu devido lugar?”, “Por quê?”, pegava-se pensando.
— Você é a namorada de Joana – completou a frase da loira – é um prazer conhecê-la também, meu nome é Addison – apertou a mão da mulher cordialmente. Emma assentiu e deu um meio sorriso.
Regina tentou concertar a expressão que seu rosto acarretava, desviou o olhar para sua bolsa e sentiu seu celular vibrando.
— Com licença – pediu com a voz trêmula. Naquele momento agradeceu a quem quer que seja aquele telefonema – preciso atender. É de casa – falou olhando à ruiva. Levantou-se sem encarar nenhumas das outras mulheres e se dirigiu ao banheiro quase que em um passe de mágica. Sabia que caso encontrasse os olhos da loira, não teria sequer forças para tal coisa – Elsa? – perguntou atendendo a chamada.
— Sim, sou eu – respondeu no outro lado da linha.
— Está tudo bem? – perguntou receosa.
— Sim. Como você pediu, liguei apenas pra avisar como ele está e no momento Joseph está dormindo como um anjinho.
Regina sorriu ao ouvir aquilo.
— Obrigada, querida – agradeceu – você não sabe da fria que acabou de me tirar.
— Sério?
— Sim – confirmou – vou ficar te devendo uma.
— Isso é bom – a garota brincou.
— Já estou indo pra casa, daqui a pouco chego aí.
— Amanhã é sábado, vou dormir ate tarde. Não se preocupe, demore o necessário – falou.
— Novamente obrigada, mas o que eu mais quero é sair daqui – falou desligando em seguida.
Foi em direção ao espelho ver em que situação se encontrava. A imagem que viu refletida foi nada mais nada menos do que a da garota que há anos havia saído de si, a garota que desapareceu com o tempo, com a falta do amor, era a mesma que gritava para se libertar, ela queria voltar. Essa garota vai voltar.
Regina não podia lidar com aquela situação, não naquele momento, ela estava surpresa o bastante pra tropeçar em qualquer palavra, em qualquer gesto. “Eu preciso sair daqui”, pensou. E foi isso o que fez.
Saiu do banheiro. O lugar estava cheio, as pessoas certamente ajudariam na saída dela, porém, os olhos de águia de Addison avistaram a morena antes mesmo de chegar à saída.
— Regina! – chamou.
“Droga”, praguejou mentalmente. Deu meia volta e andou ate onde as mulheres se encontravam.
— Elsa me ligou, disse que Joseph perguntou por mim e que esperaria eu chegar para dormir – mentiu. Olhou a outra morena – Me desculpe Joana, prometo que sairemos mais vezes.
— Não tem problema – sorriu – seu filho vem em primeiro lugar.
Emma não estava lá, foi o que mais lhe chamou atenção. Quando percebeu que a loira estava se aproximando, tratou de se despedir e saiu em disparada à saída.
♫♫♫
— Joseph já está dormindo? – a ruiva que acabara de adentrar a casa perguntou.
— Já sim – respondeu.
— O que você está fazendo uma hora dessa aqui na cozinha?
— Torta de maçã.
— Aconteceu alguma coisa? – questionou novamente.
— Não, só estou com fome – respondeu.
— Mentira – retrucou – você só faz tortas de maçãs por dois motivos: ou tem visita, que não é o caso, ou você está nervosa e quer se acalmar. Meu voto é na segunda opção.
— Como foi no bar? – perguntou tentando desviar a atenção da amiga.
— Regina, você é péssima em mudar de assunto – continuou – sobre o bar, bom, ate que foi legal. Estranho, mas legal.
— Estranho? – perguntou enquanto colocava a torta no forno.
— Se Emma não fosse namorada de Joana, eu poderia jurar que ela estava interessada em você – respondeu.
— Em mim?
— Sim. Quando você foi ao banheiro, ela não demorou muito pra arranjar uma desculpa e ir ate lá. Enquanto Joana foi ao carro buscar o celular, ela me fez perguntas sobre você.
— Que tipo de perguntas? – encarava apreensiva a amiga.
— Perguntou se eu era sua namorada, disse que era amiga. Ela perguntou por que você tinha ido embora, respondi dizendo que Joseph estava te esperando. Emma perguntou quem era Joseph, falei que era seu filho. Ela me pareceu um tanto surpresa, mas não tivemos muito tempo pra falar sobre isso. Assim que Joana se aproximou, Emma mudou de assunto e começou a falar da música que estava tocando. Se eu estivesse sóbria, juraria que ela te conhece de algum lugar – falou pensativa.
“Será mesmo que ela foi ao banheiro atrás de mim?”, “E se foi, o que ela falaria comigo? O que faria?”, se auto perguntava como se seu subconsciente fosse capaz de responder. Regina começou a lavar os pratos em silêncio, sua amiga a olhava esperando por uma resposta, ou por apenas “Isso é coisa da sua cabeça”.
— Regina...
— É ela – interrompeu a amiga.
— Como? – perguntou.
— É ela, Addison – enxaguou as mãos, secou-as na toalhinha que ficava ao lado da pia e tornou a encarar a amiga seriamente – ela é a minha Emma. Talvez não tão minha – sussurrou a última frase.
— Sua Emma? A mesma que Cora quis te separar? A mulher da sua vida? A que você foi atrás, mas ela estava com outra mulher? Essa Emma e a Emma da Joana são as mesmas? – perguntou abismada, duvidando da resposta antes mesmo de vim – Eu não acredito – falou boquiaberta.
— Sim – respondeu em um tom quase inaudível, temendo as próprias palavras – Eu sabia que já tinha visto Joana em algum lugar e não foi em nenhum documentário, era ela que estava com Emma naquela noite, naquele restaurante – fechou os olhos lembrando-se da cena que a fez deixar a loira em paz de uma vez por todas – Não sei como isso pode ter acontecido, eu realmente não sei.
— Talvez o destino tenha trilhado esse reencontro, Regina – a ruiva estava em choque, porém, sabia que a amiga estava muito mais.
— Mas por que, Addie? Por quê? Tudo está bem, não está? Por que isso agora? – perguntava temendo a resposta, seus olhos já se encontravam marejados.
— Eu que te pergunto, está tudo bem? Você está feliz? – aproximou-se da amiga e segurou suas mãos – Não sei se ela queria falar algo pra você, não sei se ela foi atrás de ti pra ter certeza de que não foi uma miragem. Eu vi que estava desconfortável no momento em que me cumprimentou. Ela estava nervosa, não sabia o motivo, mas percebi que as palavras quase não saíram de sua boca – suspirou – talvez isso seja uma segunda chance dada a vocês.
— Se realmente fosse uma segunda chance, uma chance de recomeçar, de ser feliz, acho que não teria uma terceira pessoa na história – falou tristemente – Joana não merece isso, conheço ela há pouco tempo, mas foi o suficiente pra perceber que não é má pessoa e que se elas estão juntas ate hoje, deve ter um motivo. Minha aposta é que Emma a ama de verdade – sentou-se na cadeira, apoiou os cotovelos nas proximidades do joelho e descansou a cabeça sobre as mãos – Às vezes esqueço que éramos apenas adolescentes quando as promessas mais importantes da minha vida foram feitas – sorriu, um sorriso que acarretava mais tristeza do que propriamente uma lágrima – acho que ela não levou tão a sério.
Addison colocou uma cadeira ao lado da morena e tornou a acariciar as costas da amiga gentilmente, como se dissesse “Calma, tudo vai se resolver”, ficaram ali por alguns instantes ate a ruiva quebrar o silêncio.
— Você acredita em finais felizes? – perguntou. Regina assentiu com a cabeça ainda entre as mãos – Que bom, porque eu acredito no seu final feliz – sorriu – sinto que será maravilhoso e que no fim, tudo o que você passou, tudo o que aconteceu vai ter valido a pena. Eu acredito. Você acredita?
— Eu não sei – respondeu levantando o rosto – tudo está confuso.
— Sei que essa confusão vai se desfazer logo, logo.
— Não sei com que cara vou olhar Joana – indagou – não vou saber como agir.
— Você vai agir normalmente, como estava agindo hoje mais cedo – completou.
— Mas eu dormi com a namorada dela – justificou.
— Isso foi há quase dez anos atrás, Regina. Não pense em bobagens, okay?
— Okay – respondeu.
Addison olhou para o relógio da parede e estendeu a mão à amiga.
— Vem – levantou-se – acho melhor irmos dormir, já está tarde. Amanhã você vai acordar primeiro do que eu e não quero que seus pacientes sofram as consequências de uma Regina “tri mal humorada”.
— Muito engraçadinha senhorita Montgomery – sorriu com desdém.
Addison riu.
— Tenho certeza que tudo vai ficar bem – afirmou.
— Espero que suas palavras tenham um efeito mágico no futuro.
♫♫♫
Regina é uma médica renomada, aos vinte e sete anos era considerada a melhor cardiologista de Seattle, está entre as melhores do país. Sim, era uma adulta, tinha um filho o qual não sabia quem era o pai, dona do próprio nariz, às vezes dona de uma arrogância que parecia não ter fim, mas sabia o momento certo de usá-la. Levava nas costas o sobrenome que reinava pelos lugares, o peso que sua identidade acarretava, o peso com a saúde da sociedade em que vive, seja ela qual for.
Não ficou com outras mulheres a não ser a loira, fugia de qualquer tipo de relacionamento. O medo de se magoar vinha em primeiro lugar e de primeira deixava passar. Já havia ficado com outros homens, homens que se quer durou um ano, alguns se aproximavam pelo dinheiro, outros por sua beleza, a maioria não queria nada sério e nenhum conseguiu obter uma significância em sua vida, nenhum conseguiu fazer com que a morena se encantasse, se apaixonasse, nenhum. Resolveu preencher o vazio no peito com o hospital, passava mais tempo trabalhando do que na própria casa, suas férias estavam acumuladas, suas cirurgias tinham sido adiantadas e uma parte dos pacientes recebeu alta.
— O que custa passar uns dias em casa doutora Mills?
— Custa vidas, chefe – respondeu.
— Você está aqui a mais de vinte e quatro horas – concluiu – tem noção de quanto café já tomou? – perguntou sem obter respostas – Isso mesmo, dava pra reabastecer uma Starbucks.
— Mas...
— Mas nada – interrompeu – você vai pra casa e aproveitar esse tempo com seu filho, está entendido doutora Mills?
— Sim – assentiu com ar de raiva.
— E nada de fazer bico. Vou passar por todo o hospital daqui à uma hora, se eu te encontrar por aqui, vou mandar os seguranças levarem a senhorita ate sua casa, que graças a Deus não vai ser tão trabalhoso já que é praticamente vizinha ao hospital.
— Chefe, tenho um assunto para tratar com você – a assistente social disse se aproximando – interrompo?
— Não, a doutora Mills já está indo pra casa, não é?
— Sim, estão me expulsando – completou revirando os olhos.
— Então você vai ser minha salvação.
— Salvação?
— Sim – respondeu – é que a Emma está com uma enxaqueca desde o dia que fomos ao Cover’s e de lá pra cá só fez piorar. Faz dois dias que ela não vai trabalhar, to começando a ficar preocupada – franziu a testa.
— Por que ela não vem aqui? – perguntou o chefe.
— Porque Emma Swan é cabeça dura – respondeu. “Emma sendo Emma”, Regina pensou – Então, você pode ir? – voltou o olhar à morena.
— Eu preciso...
— Eu não tenho como ir agora, preciso falar com três famílias, confortar cada membro dela requer tempo – explicou.
— Eu realmente não posso – reforçou.
— Por favor, juro que nunca mais te peço nada – pediu.
Pensou por alguns instantes. Apenas deixaria o remédio e iria embora.
— Tudo bem – por fim aceitou.
— Muito obrigada – sorriu largamente – aqui está – estendeu a mão com o medicamento e o endereço – o apartamento é próximo a sua casa.
— Ah, sim, sei onde fica – respondeu.
— Então é isso doutora Mills, já pode ir embora – o chefe falou.
— Já estou indo – levantou as mãos em sinal de rendição e retirou-se do hospital.
♫♫♫
Emma estava com uma dor de cabeça insuportável, passou dias mantendo-se firme por causa do trabalho, mas nos dois últimos dias só fez piorar e acabou se entregando. Aquela dor nada mais era do que medo. Tinha medo que uma dor superior a enxaqueca envolvesse seu corpo, seu coração, a mesma dor que passara tanto tempo para ser esquecida, agora estava bem próxima de si, próxima o bastante para relembrar tudo o que passara, momentos bons e ruins, momentos inesquecíveis. As dúvidas eram constantes, questionava-se o que Regina poderia ter sentido, o que estava passando pela sua cabeça, o que faria caso a reencontrasse novamente.
Seus pensamentos foram interrompidos pela campainha. Levantou-se com certa dificuldade e se dirigiu à porta.
— Esqueceu as chaves de novo? – perguntou girando a maçaneta. Seu corpo imediatamente pesou quando viu aquela imagem reproduzida a sua frente, suas pernas fraquejaram, apoiou-se na porta como se fosse cair – O que... Como... – estava atordoada demais pra raciocinar uma pergunta.
— Joana estava ocupada – continuou – ela pediu pra que eu trouxesse seu remédio – falava sem encontrar os olhos da outra. Estendeu a pequena sacola que continha o medicamento.
Emma o pegou e apoiou sua mão esquerda na parede.
— Droga – sussurrou.
— O que foi? – perguntou preocupada.
— Minha cabeça vai explodir – respondeu fechando os olhos com força.
A morena aproximou-se da loira e tocou gentilmente sua testa com a costa da sua mão. Emma recuou do contato, sentiu um arrepio percorrendo toda sua espinha. Fazia quase dez anos que não sentia aquela pele próxima de si, muito menos contra seu corpo. Regina percebeu o que estava acontecendo, afinal sentiu o mesmo. “Você vai chegar lá, entregar o remédio e ir embora” repetiu para si mesma todo o caminho, como se fosse possível depois de todo esse tempo que passaram separadas fazer com que apenas isso acontecesse.
— Você está queimando – falou se afastando – esse remédio vai apenas diminuir sua enxaqueca, mas sua febre vai continuar – concluiu.
— Eu já tomei alguns, mas pelo visto não surtiram efeito – disse enquanto limpava a testa suada.
— Seu organismo deve ter criado resistência aos remédios – continuou – se não se incomodar, eu posso fazer um chá pra você – falava encarando o chão.
— Acho que não tenho ingredientes pra isso.
— Você tem laranja e água? – perguntou. A loira assentiu – É tudo o que preciso – “Regina, você só ia deixar o remédio e ir embora, esqueceu?”, “Não, eu não esqueci. Mas não posso deixá-la assim”, falava consigo mesma em pensamentos.
— Fique a vontade – abriu mais a porta dando passagem à morena.
Andou ate a cozinha juntamente com a loira. O apartamento era bastante aconchegante, não tão grande, não tão pequeno, era o essencial para um casal. Logo avistou o que seria necessário. Emma sentou-se em uma das cadeiras da mesa. Regina deixou sua bolsa sobre o balcão, pegou uma faca e tornou a descascar a laranja, em nenhum momento dirigiu se quer uma palavra a mulher, sentiu que cada movimento estava sendo acompanhado pelos olhos verdes da loira, sentiu que aquela cozinha, aquele apartamento, aquela cidade eram pequenos demais para as duas, pequenos para tantas histórias, tantas tristezas, tanto amor que ainda sentia uma pela outra.
Colocou as cascas na água que deixara fervendo e encostou seu corpo contra a pia, observando qualquer objeto a sua frente. Aqueles minutos mais pareciam à eternidade. Olhava constantemente o relógio em seu pulso. Suas pernas estavam pesando, não por está em pé, mas sim pela proximidade que estava tendo da loira depois de anos. Lutava com os próprios olhos para que não caíssem lágrimas. Lágrimas? Por que choraria se nem ao menos teve uma conversa concreta sobre tudo o que houve? Por que choraria por palavras que ainda não foram ditas? Por algo que não foi feito? Por um sentimento que nenhuma das duas sabia se existia uma na outra? Por quê?
Regina coou o chá e colocou em uma xícara grande, cortou um limão e deixou escorrer algumas gotas no líquido, encheu uma colher do mel que estava próximo de si e misturou dando um gosto agradável a bebida.
— Aqui está – colocou a xícara em frente à loira.
— Obrigada – agradeceu a encarando, mas percebeu que a outra evitava esse contato.
— Preciso ir – afastou-se, virou e pegou sua bolsa.
Andou em disparada pelos cômodos.
— Regina – conseguiu alcançar a morena. Segurou sua mão fazendo com que se virasse – fique aqui comigo – pediu.
A pronúncia do seu nome produzido pela voz doce de Emma lembrava que aquela loirinha de apenas dezessete anos ainda estava ali, bem pertinho de si.
— Acho melhor não – falou sem romper o contato. Ela podia ter desviado, podia não querer aquela mão junto a sua, mas a verdade é que queria e queria aproveitar o máximo do toque em seu corpo.
— Só ate eu terminar de beber – insistiu – não quero ficar sozinha. Prometo não falar nada, quero apenas companhia. Pode ser? – Regina assentiu. A loira que ainda estava segurando sua mão a conduziu ao sofá – Só um instante – soltou sua mão, voltou na cozinha, pegou a xícara e sentou-se ao seu lado ligando a TV no canal de músicas – Prontinho – a morena sorriu – O que foi? – perguntou bebendo o chá.
— Você ainda parece ter dezessete anos – respondeu.
— Só porque eu assisto ao canal de músicas?
— Também. Suas roupas não mudaram muito – completou.
— O que tem de errado com minha camiseta e minha calça?
— Nada – riu.
— Hm – cerrou os olhos.
— Você é delegada – afirmou.
— Você é cirurgiã.
— Você tem uma namorada.
— E você tem um filho – retrucou.
— Sim – sorriu ao lembrar-se do garoto.
— Você está casada? – perguntou.
— Não – respondeu.
— Separada? – arriscou.
— Também não.
— E onde está o pai dele?
— Eu não sei – respondeu quase em um sussurro.
A loira calou-se. Sabia que havia tocado em um ponto fraco na morena, um assunto delicado, sabia que era melhor mudar o rumo da conversa. Emma continuava aquela garota com camiseta branca e sua calça jeans, seu cabelo loiro ia ate a cintura com seus inseparáveis cachos nas pontas, seus olhos cintilantes ainda velavam por ela, seu corpo estava mais firme, mais forte, certamente por causa do trabalho, não sabia quando teria que enfrentar um bandido, mas precisava estar preparada, precisava manter a forma. Aquele rápido julgamento foi apenas um aquecimento para o que virá. O silêncio ecoou entre as duas. Tantas palavras a serem ditas, tantos esclarecimentos a serem dados e tudo que elas conseguiam fazer era ficar calada, evitar o inevitável.
— Eu te esperei – a loira finalmente quebrou o silêncio.
— Não o bastante.
— E quanto você queria que eu tivesse esperado? Mais dez anos? – sorriu sem um pingo de alegria nos lábios.
— Só ate eu ter tido a oportunidade de te contar toda a verdade – respondeu olhando a TV.
— Eu sei a verdade – falou – Ruby me ligou no dia seguinte em que você foi visitá-la, me contou tudo o que sua mãe fez, falou sobre o orfanato, os telefones grampeados e tudo o que conversaram. Ela me disse que você foi atrás de mim, mas não acreditei, ate porque você – pausou – nunca apareceu.
— Deveria ter acreditado.
— Por quê? – perguntou.
— Porque eu fui – respondeu – eu fui atrás de você, Emma.
A loira colocou a xícara na mesinha de centro que estava a sua frente e tornou a olhar confusa a mulher que estava alguns centímetros ao seu lado.
— Eu não entendo... Por que não te vi?
— Porque eu não dei chances.
— Mas devia ter dado – franziu as sobrancelhas – Tenho certeza que eu poderia ter mudado o rumo dessa história.
— Não – falou – você parecia tão feliz, a última coisa que eu queria era trazer dúvidas pra você, pra sua cabeça – suspirou – Eu te magoei tanto, Emma, que te deixar ali com ela me parecia o melhor a se fazer.
— Ela?
— Sim – assentiu – ela – apontou para o porta retrato que estava na estante com a imagem das duas mulheres – Eu vi vocês se beijando, vi ela segurando sua mão – fechou os olhos lembrando-se da cena – o pior foi ver um sorriso em seu rosto. Ver que você estava bem me confortou e ao mesmo tempo me entristeceu, pois eu acreditava que seu conforto estava em mim.
— Ele sempre vai está em você – percebeu que sua dor de cabeça havia passado, a moleza de seu corpo estava indo embora aos poucos. Era ela, ela fazia aquele show de sensações na loira, o efeito em seu corpo, ela fazia os momentos difíceis se tornarem fáceis, fazia coisas que só Regina Mills podia fazer. Aproximou-se da morena segurando suas mãos – Não te culpo por nada de ruim que houve entre nós duas, nada – reforçou – Aprendi que com o tempo os ferimentos são cicatrizados.
— Eu fui cicatrizada? – perguntara olhando as mãos da loira juntamente com as suas.
— Você nunca foi uma ferida – soltou a mão direita e levou ao rosto da mulher, fazendo com que levantasse seu olhar e a encarasse.
Gabrielle Aplin — Please Don't Say You Love Me ♪♫♪
Depois de todos esses anos sentiu o que mais ninguém fora capaz de lhe fazer sentir. Com apenas aquele olhar, Emma foi capaz de captar tudo o que estava acontecendo. Viu a solidão em seus olhos, viu o cansaço, a falta de amor, o vazio que jamais fora preenchido, viu um “me perdoa” no brilho dos olhos e principalmente um “não me abandona”, uma lágrima silenciosa desceu despercebida no rosto de Regina. Com o dorso dos dedos a loira limpou a pequena umidade que envolveu o rosto da outra, acariciou vagarosamente as bochechas da morena, fazendo com que a mesma fechasse os olhos aproveitando cada segundo daquele contato, daquela sensação. A pele continuava lisinha como da última vez que a tocou, o seu cheiro era o mesmo, o mesmo cheiro que guardava no seu subconsciente.
A loira deslizou a mão vagarosamente ate o pescoço da outra e a puxou delicadamente para si. Plantou um beijo calmo sobre a cicatriz que ficava no lábio superior da morena, um beijo molhado, com carinho, um beijo demorado, mostrando que estava ali, o mesmo que gritava para descer e ir de encontro a sua boca, mas sabia que não podia, sabia que não era o certo. Regina colou sua testa contra a de Emma, ambas mantendo os olhos fechados.
— Eu senti tanto sua falta – a morena confessou quase em um sussurro.
— Eu também senti – afirmou – você não imagina o quanto.
A morena pousou as duas mãos sobre o rosto branco da loira, o segurou com delicadeza e beijou sua testa, deslizou seus lábios ate sua bochecha depositando outro beijo, percorreu um caminho ate o canto de sua boca e a beijou novamente. Emma sentiu borboletas no estômago, toda a pele estava arrepiada, mas antes que o próximo movimento fosse feito, antes que o futuro fosse selado, a loira afastou-se por impulso, deixando a outra confusa.
— Emma...
— Não posso fazer isso com Joana – interrompeu – acho melhor você ir embora.
— Não te entendo, você me pede pra ficar e depois manda eu ir embora – falou levantando-se do sofá – Talvez isso seja o melhor a fazer no momento.
— Eu estou confusa – concluiu antes que a morena chegasse à porta.
— Você não é a única.
— E como ficamos? – perguntou.
— Como ficamos? Você que deveria responder essa pergunta – continuou – Eu estou disposta a fazer qualquer coisa por nós, mas já você – olhou a loira a sua frente – não tenho tanta certeza.
— Regina...
— O que você sente por ela? – interrompeu.
— Eu... – não conseguiu terminar a frase.
— Você a ama, não é? – engoliu em seco aquela pergunta. Recebeu um leve “sim” com a cabeça – Eu já imaginava – baixou o olhar para o chão. A decepção tomou conta de seu corpo. Seu coração batia fraco, parecia que suas forças estavam acabando. Bastava um “não” para que a morena segurasse sua mão e saísse dali, saísse rumo a qualquer lugar em que nada nem ninguém pudessem atrapalhar aquele sentimento. Mas precisava ser realista, precisava por o pé no chão, afinal não era mais uma adolescente, tinha responsabilidades a serem cumpridas, um filho pra criar e um amor pra recordar.
Oasis — Stop Crying Your Heart Out ♪♫♪
Emma deu alguns passos ate chegar próximo o bastante da outra.
— Mas eu ainda te amo – confessou.
— Não fala isso – pediu – não crie esperança em algo que talvez nem exista mais.
— Existe, está bem aqui – segurou a mão direita da morena e a levou ao peito.
— Você não pode amar duas pessoas – afastou-se do contato – eu fui apenas um amor adolescente, uma fantasia que duraram alguns meses. Já ela – suspirou – ela esteve com você por mais tempo, ela é real.
— Você foi real, você é real, tão real quanto ela, talvez ate mais.
— Eu sou seu passado, Emma. Joana é seu presente e provavelmente seu futuro – falou tristemente – Tenho certeza que ela não te fez sofrer o terço que eu fiz.
— Todo sofrimento valeu a pena, Regina. Não me arrependo de nada.
— Por que você não veio ate mim?
— Porque eu queria te esquecer – confessou – do mesmo jeito que me esqueceu.
— Mas eu nunca te esqueci – falou.
— Eu não sabia disso naquela época – continuou – eu passei tanto tempo tentando acreditar que você não me abandonou, tentando acreditar que a qualquer momento você apareceria, que a qualquer momento eu receberia uma ligação sua me dizendo o lugar e hora pra te encontrar, esperando o que jamais aconteceu – limpou uma lágrima que brotou no seu olho esquerdo – Eu passei tanto tempo sozinha, trancada no meu próprio mundo, no meu próprio espaço, com medo de coisas, de pessoas, mas Joana apareceu. A primeira coisa que notei foi a aparência entre vocês, o cabelo escuro, a pele morena, os olhos castanho vibrante, a voz um tanto rouca, ela me fazia lembrar de ti e fingir por um rápido momento que era você ali comigo, que não tinha me deixado. Com o tempo eu comecei a ver a própria Joana e não você. Ela me ajudou de um jeito que jamais pensei que alguém fosse capaz de ajudar, estendeu a mão para me erguer, deu seu ombro pra eu chorar, cedeu seus ouvidos a mim, me confortou e tudo isso fez com que eu me aproximasse mais ainda dela. Joana é, acima de tudo, uma amiga, uma grande amiga, a qual eu tenho muito mais carinho e respeito, do que propriamente paixão – respirou fundo – Ela tentou me fazer te esquecer, ela realmente tentou.
— Ela conseguiu? – perguntou.
— Nem por um segundo.
Regina manteve-se em silêncio por alguns instantes.
— Joseph significa aquele que acrescenta, que multiplica.
— Como?
— Esse é o nome do meu filho – respondeu – Como o próprio significado diz, ele foi um acréscimo, o melhor acréscimo que a vida me deu. Foi por ele que ergui minha cabeça e segui adiante, tentei levar a vida do melhor jeito possível. Eu tentei acreditar que o simples significado do seu nome, fosse suficiente para crer que ele se multiplicaria a ponto de preencher a falta que você me faz – pausou – mas isso não foi o bastante.
— Regina...
— Quero te ver feliz, alegre e sorridente – aproximou-se da loira e tornou a acariciar seu rosto com carinho – Você terá um final feliz com ela, um final feliz que jamais poderei te dar – sorriu tristemente – Swan, eu te amo e sempre vou te amar – pousou um selinho calmo em seus lábios, pegou sua bolsa e saiu do apartamento sem que houvesse se quer chance de um possível questionamento.
“Nós somos todas as estrelas
Nós estamos desaparecendo
Apenas tente não se preocupar
Você nos verá algum dia
Apenas pegue o necessário
E siga seu caminho
E faça seu coração parar de chorar”
Fale com o autor