Nossa Música

16 Duas pessoas e um destino


Notas iniciais
Não, jamais abandonaria a fic, o motivo dessa demora tão grande é a falta de tempo, eu to atolada com coisas da feira cultural, mas arrumei um tempinho e aqui estou eu postando. Me perdoem. Obrigada a todos os comentários que vocês deixaram, e também aqueles que me deram um puxão de orelha no privado. Cada um possui uma significância própria ♥

— Te achei – falou se aproximando da mesa do refeitório em que sua amiga se encontrava. Regina continuava comendo sem dirigir uma palavra a amiga – O que você tem?

— Acabei de descobrir que minha melhor amiga foi convidada pra trabalhar no Mercy West – encarou a ruiva a sua frente – Como você quer que eu fique? É o hospital concorrente do que trabalhamos, sem contar que fiquei sabendo através de um residente fofoqueiro. Nem pra você me contar!

— Eu não tive tempo – continuou – você já tava dormindo quando recebi um email ontem à noite. Acordei com meu bip e corri aqui pro hospital, tava na sala de cirurgia ate agora – tentou se justificar.

— Qual o prontuário? – perguntou sem desgrudar os olhos da comida.

— Uma adolescente de quinze anos grávida de gêmeos, um parto com 75% de risco, ela já estava ciente que perderia um dos bebês, mas...

— Mas você conseguiu salvá-los – a morena completou.

— Sim – assentiu.

— É por isso que gosto de ser amiga da melhor cirurgiã neonatal de Seattle.

— Olha quem fala, a senhorita salva corações – brincou, e finalmente Regina desfez a cara “emburrada”. As duas riram – Antes de qualquer coisa, não, eu não vou aceitar esse emprego – continuou – eu estou muito bem aqui, tenho minhas cirurgias, você, Joseph, os residentes puxa-saco, os fofoqueiros, os médicos gostosos, sem contar uns pacientes que me tira o ar – riu – tenho tudo tão pertinho da minha casa, que em nenhum momento pensei nessa possibilidade.

— Então você não vai aceitar? – perguntou.

— Claro que não – respondeu.

Um som agudo interrompeu a conversa.

— Droga – praguejou se levantando da mesa e atendendo o chamado do bip.

— Quem é? – a ruiva perguntou.

— Rony, dez anos, enfisema pulmonar. Se eu não for agora ele...

— Tudo bem, vai lá. Eu sei que você vai salvá-lo – falou enquanto a amiga desaparecia pelos corredores do hospital.

♫♫♫

— Elsa? – perguntou abrindo a porta de sua casa.

— Aqui, senhorita Mills – a voz vinha da sala.

Antes que andasse de encontro à garota, sentiu suas pernas serem enlaçadas por uma pequena silhueta.

— Mamãe, você chegou – ouvir aquela voz era muito mais do que confortante, sentir os bracinhos de seu filho lhe rodeando era algo que nem ela mesma sabia explicar.

— Meu amor – abaixou-se para retribuir o gesto e o abraçou – já são onze horas, você não deveria está dormindo, rapazinho?

— Eu falei exatamente isso, mas ele insistiu em te esperar acordado – a garota falou se aproximando.

— Isso é verdade? – a morena perguntou ao garotinho.

Ele assentiu.

— Eu estava com saudade – respondeu coçando o olho esquerdo com o dorso de seus dedinhos.

Era verdade, já fazia dias que ela não chegava a tempo de pôr seu filho pra dormir. Regina estava com mais cirurgias agendadas do que o normal. Parecia que todos os senhores e senhoras de idade resolveram ter AVC naquele período.

— Eu também, meu amor, estava com muita saudade de você – beijou seus cabelos bagunçados – Elsa – olhou para a garota que estava próxima – você já pode ir pra casa, amanhã tem aula e não quero prejudicar uma boa noite de sono.

— Imagina senhorita Mills, é um prazer ajudar vocês e é maravilhoso ter esse principezinho como companhia – falou bagunçando os cabelos de Joseph.

— Mesmo assim é melhor você ir – abriu a bolsa, retirou sua carteira e pagou a garota – Obrigada por sempre me ajudar, querida.

— O prazer é todo meu – sorriu. Aproximou-se do garoto e depositou um beijo em sua bochecha – Tchau, gatinho.

— Tchau – respondeu sorrindo.

Addison e Regina tentavam conciliar o horário para ficar com Joseph, um dia a morena vinha mais cedo pra casa e outro a ruiva. O garoto passava o dia na escola, pela manhã tinha aula, almoçava, dormia e brincava ate uma das mulheres irem buscá-lo, mas ultimamente não estavam conseguindo fazer essa conciliação, com isso, elas sempre recorriam para Elsa, a vizinha de dezessete anos que morava com seus pais. A garota era bastante paciente e pelo que ambas notavam, Joseph se dava muito bem com ela, pareciam ate irmãos. Porém, elas tinham medo que ele crescesse pensando que elas não tiveram tempo pra ele, tinham medo que ele se sentisse abandonado pela falta quase constante das mulheres de uns dias para cá.

— Preparado para dormir? – perguntou assim que a loira saiu. O garoto balançou a cabeça positivamente.

Eles subiram os degraus da escada ate chegar ao quarto de Joseph. O cômodo era azul, móveis brancos, uma estante com diversos livros de contos de fadas e ficção científica que sempre quando Regina tinha tempo fazia questão de ler pro seu filho, estrelas espalhadas pelo teto do quarto, foguetes e planetas desenhados nas paredes e alguns brinquedos no chão.

— Você vai querer ouvir uma história? – perguntou ao garoto enquanto vestia seu pijama.

— Sim – falou empolgado.

— Qual você quer? – perguntou deitando-o na cama.

— Da salvadora, mamãe.

— Tudo bem – cobriu Joseph com o edredom. Sentou ao seu lado na cama e suspirou – Há dez anos, uma garota que era tão feliz, tão cheia de vida, tão sorridente sofreu um triste acidente, o mesmo acidente que a tornou triste e a fez se distanciar de todos a sua volta.

— Acidente? – perguntou.

— Sim, querido. Algo que a magoou muito.

— Ah – falou tristemente.

— Tudo estava sendo tão difícil, ela não entendia porquê de ter acontecido aquilo com ela, ate que uma certa loira apareceu em sua vida.

— A salvadora – completou o garotinho.

— Sim, meu amor. A salvadora – continuou – ela fez com que a garota reencontrasse o seu objetivo de vida, o seu caminho, mostrou a felicidade que pensava que não existia mais. Elas se amavam muito.

— Como você e tia Addie? – perguntou inocentemente.

— Era um amor diferente, querido – respondeu. O garotinho ficou encarando as estrelas acima de sua cabeça como se estivesse tentando raciocinar o que sua mãe acabara de falar – Elas acabaram se separando.

— Por quê? – perguntou olhando sua mãe.

— Porque havia pessoas que não apoiavam o sentimento que elas tinham uma pela outra e as mesmas fizeram de tudo para separá-las – Regina percebeu o olhar triste de Joseph e resolveu contornar a história – mas o importante é que no final elas ficaram juntas.

— E viveram felizes para sempre – completou com um longo bocejo misturado a um sorriso, assim se entregando ao sono.

Regina acariciou os cabelos castanhos de seu filho por alguns segundos, ate ver o mesmo completamente rendido aos sonhos.

— Elas viveram felizes para sempre, por mais que o pra sempre tenha durado tão pouco tempo – sussurrou e beijou a testa do garoto.

— Você está bem? – Addison perguntou se aproximando da amiga.

— Sim – respondeu levantando-se da cama.

— Desça pra comer algo, eu trouxe sua vitamina de maçã.

— Certo – a morena assentiu e desceu as escadas com sua amiga.

— Aqui – colocou a bebida a sua frente – mereço agradecimentos eternos – brincou tentando mudar a expressão séria da amiga.

— Pobre iludida.

— Gina, se você tivesse demorado um pouco mais no hospital teria visto o barraco que o chefe fez.

— Sem enrolação, me conta logo.

— Tudo bem – falou – Você se lembra da Cleo, a assistente social?

— Aquela que de assistente não tinha nada, podia ate ser chamada de “traumatiza social”? Sim, infelizmente sei quem é. Por quê?

— O chefe descobriu que ela estava fornecendo vicodin pra dois pacientes viciados – respondeu.

— O que ele fez? – perguntou empolgada.

— A demitiu na frente de todos que estavam presente na recepção.

— Eu queria ter visto – falou com ar de decepção – eu tenho uma amiga que ela é assistente social, a Ruby, já te contei sobre ela.

— Sim, me contou, mas pelo que eu entendi o chefe já tem uma pessoa em mente.

— Que pena – lamentou – espero que essa saiba trabalhar de verdade.

— Ouvi dizer que é a melhor de Nova York.

— É o mínimo que ele pode fazer depois desse papelão – falou levantando-se da cadeira – vou dormir, e você Addison Montgomery faça o mesmo.

— Sim, mãe – brincou e levou um olhar de advertência da amiga – boa noite.

— Boa noite.

♫♫♫

— Tem certeza, Emma? – perguntou.

— Se é o que você quer, eu também quero.

— O que eu quero é saber sua opinião – falou seriamente encarando a loira.

— Você sempre quis ser assistente social de um hospital renomeado, não posso te proibir de realizar um sonho.

— Mas eu quero você do meu lado.

— Eu também quero estar com você, só que...

— É longe – Joana interrompeu.

— Sim, é longe – afirmou.

— Eu sei que tem seus pais e que você não quer ficar distante deles. Não posso te obrigar a ir – baixou o olhar e tornou a encarar o chão.

Emma respirou fundo vendo a tristeza que logo brotou no rosto de sua namorada.

— Por isso existe o avião, não é mesmo? – retrucou tentando mudar a expressão da outra.

Joana levantou o rosto abrindo um largo sorriso.

— É sério? – perguntou sem acreditar no que acabara de ouvir. Emma balançou a cabeça positivamente e a morena a abraçou – Você não existe – depositou um selinho nos lábios da loira.

— Eu sei que sou demais – brincou retribuindo o abraço.

— Como vai ficar seu trabalho? – Joana perguntou.

— Eu tive sorte em conseguir esse cargo de delegada aqui em Nova York.

— Não – interrompeu – você lutou muito pra chegar aonde chegou.

— Mas a concorrência foi muito maior, Jô.

— Sim, mas você conseguiu. Isso que importa – continuou – e cá entre nós, essa conquista deve está lindamente estampada no seu currículo – piscou o olho direito.

Emma soltou um sorriso tímido.

— Eu te contei sobre a oferta que ganhei há algum tempo atrás? – perguntou.

— Sim, mas você recusou – a morena completou.

— Isso – assentiu – mesmo dizendo que não seria possível aceitar o trabalho, o delegado Taylor que já deveria ter se aposentado há seis meses, me deu o prazo de um ano. Creio que ainda está de pé essa proposta pra assumir seu cargo.

— Então é isso. Seattle, lá vamos nós! – falou animadamente.

♫♫♫

“UMA SEMANA DEPOIS”

— Você a viu? – Addison se aproximou da amiga no vestiário.

— Quem? – perguntou sem tirar a atenção do tênis que estava calçando.

— A novata, a assistente – respondeu – ela já está por aqui. Fiquei sabendo que ela é cola velcro.

— Cola velcro?

— Sapatão, lésbica, cheira couro, que vive na PPKolândia, entendeu?

— Por Deus, Addie – encarou a amiga – Você entrevistou a mulher? A única coisa que me importa é que ela acompanhará meus pacientes, o resto não é da minha conta.

— Quanta grosseria, o dia acabou de começar, querida.

— Addison, você... – fora interrompida.

— Com licença – falou uma mulher adentrando o vestiário – Vocês devem ser a Dra. Mills e Dra. Montgomery, certo? – perguntou.

— Sim – ambas falaram em uníssono.

— Prazer, eu sou a nova assistente social, Joana Clark – estendeu a mão e cumprimentou as mulheres.

Regina segurou o riso ao ver sua amiga desconcertada. Certamente com medo de a mulher ter ouvido seus comentários recentes sobre sua sexualidade.

— Fizemos alguma coisa pra você vim nos procurar? – a ruiva perguntou com receio.

— Não – respondeu sorrindo – o chefe pediu pra eu procurar vocês, ele disse que me mostrariam o hospital já que suas cirurgias só começam daqui à uma hora.

— Eu não te conheço de algum lugar? – a morena perguntou cerrando os olhos – Você me parece familiar.

— Creio que não – respondeu – tenho certeza que me lembraria caso eu tivesse conhecido uma das melhores cirurgiãs cardiovasculares do país.

Aquele rosto não lhe era estranho. Regina já havia visto, só não se lembrava de onde.

— Eu já te vi em alguns documentários – a ruiva falou.

“Ah, claro, os documentários. Deve ser isso”, pensou Regina.

— Então, vocês podem me mostrar o hospital? – perguntou.

— Claro – respondeu Addie.

— Desculpe, preciso ver uns pacientes – a morena disse.

— Ela vai sim, é que Regina gosta de se fazer de difícil – retrucou.

— Addison! – reprimiu a amiga.

— Vocês formam um casal lindo – Joana falou. As mulheres gargalharam com o comentário – Desculpa, falei alguma coisa errada? – perguntou com as maçãs do rosto corando.

— Não somos um casal – a ruiva respondeu ainda rindo.

— Me perdoem, eu não...

— Não tem problema, isso já aconteceu outras vezes – Regina interrompeu.

— Agora vamos antes que nosso bip dispare – falou Addison puxando o braço da amiga e andando em direção à recepção.

♫♫♫

— O que achou dela? – perguntou sentando-se na mesa do refeitório.

— Novata – a morena respondeu.

— Eu sei que ela é novata, Regina.

— Não tenho o que falar, acabei de conhecê-la – continuou – lá vem ela, haja naturalmente.

— Eu sou a naturalidade em pessoa – respondeu.

— Aham, sei – ironizou.

— Posso me sentar com vocês? – perguntou aproximando-se das mulheres.

— Claro – Addison respondeu sorrindo – Então, está gostando daqui?

— Bom, só faz algumas horas que cheguei aqui no hospital, mas ate o momento sim, estou gostando – respondeu.

— Tenho certeza que vai adorar – continuou – já achou um lugar pra morar?

— Não, não, ela está dormindo na rua por enquanto – remendou Regina.

— Caramba, que bom que hoje você está mais bem-humorada do que o normal, fico feliz – colocou um sorriso sínico no rosto, tirando gargalhadas de Joana.

— E sim, eu e minha namorada compramos um apartamento há dois dias – nesse momento Addison cutucou a amiga por baixo da mesa.

— Que bom – respondeu.

— Na verdade eu vim fazer um convite a vocês – falou dirigindo o olhar às duas amigas – Queria saber se vocês gostariam de tomar alguma coisa comigo no Cover’s depois que saíssemos daqui.

— Por mim está marcado – a ruiva aceitou.

— Você vai Dra. Mills? – perguntou à Regina que estava beliscando a comida vez ou outra.

— Desculpa, mas pretendo chegar em casa antes do meu filho dormir – tentou se justificar.

— Como eu te disse, ela é difícil, dificílima – brincou – Nós iremos, não se preocupe.

— Ótimo – levantou-se da cadeira – então encontro vocês lá – sorriu e saiu deixando as amigas para trás.

— Você tem que parar de decidir as coisas por mim, Addison – esbravejou.

— Regina, precisamos nos divertir. Sabe há quanto tempo não vamos ao Cover’s? – pausou – Pois é, faz muito tempo, e olha que é quase do lado da nossa casa.

— Se você queria se divertir deveria ter escolhido outra profissão – continuou – sabe que mal temos tempo pra nós mesmas, imagina pra ir a um bar.

— Não começa – pediu.

— Começo sim! – retrucou.

O bip da ruiva apitou interrompendo a discussão.

— Salva pelo gongo – sussurrou levantando-se em seguida.

— Eu ouvi isso – advertiu a amiga.

— Vou ficar te esperando na saída.

— Eu não vou! – respondeu.

— Ah, vai sim! – falou antes de correr em direção à paciente que lhe esperava.

♫♫♫

Regina evitava frequentar o Cover’s, pelo simples fato daquele lugar lhe trazer tantas lembranças. Como o próprio nome já dizia, o bar levava bandas covers para se apresentar, cantavam de tudo um pouco, porém sempre quando a morena aparecia, o repertório insistia em conter músicas que lhe fazia lembrar alguém em especial, na verdade, era a pessoa mais especial que conhecera.

— Só você pra me trazer aqui – disse antes de beber a tequila a sua frente, fazendo careta após o liquido descer em sua garganta.

— Você está precisando relaxar.

— Eu estou relaxada – franziu as sobrancelhas.

— Não, você está tensa – retrucou a ruiva.

— Essas músicas não me ajudam em nada. Queria algo mais animado pra me divertir.

— Quem disse que precisa de músicas animadas pra se divertir? Basta uma boa companhia – olhou ao seu redor como se procurasse por algo – Olha ali – apontou disfarçadamente para uma garota que não tirava os olhos da morena. Tinha o cabelo castanho claro, pele branca, olhos azuis piscina, ela deveria ter em torno dos seus vinte anos.

— Você sabe muito bem que só fiquei com uma mulher na vida.

— Sim, eu sei – falou como se tivesse recebido um sermão – e que tal aqueles caras? O loiro é meu – falou antes de Regina olhar.

— Pode ser – respondeu insegura.

A porta do bar abriu. Os sinos que ficavam sobre a maçaneta avisara que pessoas haviam chegado ao local.

— Agora é tarde – continuou – lá vem a Joana e pelo visto, está acompanhada.

Regina estava de costas para a porta, assim impedindo a visão das duas mulheres recém-chegadas. Preferiu manter a postura e esperar que ambas se aproximassem.

— Que bom que vocês vieram – sorriu – trouxe uma pessoa a mais, espero que não tenha problema. Essa é Emma, minha namorada – apresentou.

A morena tomou sua última tequila antes de cumprimentar as mulheres. Quando se virou, encontrou os olhos que há quase dez anos não via, os mesmos olhos que a fazia esquecer seus problemas, que lhe encantava cada dia mais. Sua respiração parou, seu coração criou vida própria e estava a ponto de sair do peito, seus pulmões não trabalhavam mais, ela estava imóvel, acima de tudo surpresa, “não, não pode ser”, pensou. Não só pode como estava acontecendo, pois o que é destinado pelos deuses, nada nem ninguém é capaz de mudar.

Notas finais
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