Nossa Música
18 Dias de luta, dias de glória
Notas iniciais
“EMMA”
Eu não consegui ir atrás dela. Temi que tudo o que falara fosse verdade, que talvez não fossemos capazes de ser felizes juntas, que tudo o que vivemos, tudo o que passamos, fora apenas pra mostrar o quanto aquele sentimento era difícil, o quanto era impossível. Porém, eu amo o impossível, amo a cor dos seus cabelos, amo os olhos castanhos, amo o tom bronzeado de sua pele, as sobrancelhas arqueadas, a cicatriz, a boca. Amo o jeito que nossos lábios se encaixam, o efeito que uma causa na outra, sua pele quentinha próxima a minha, eu a amo por completo e não há tempo, pessoas, motivos, erros, ou seja lá o que for, não há nada que possa impedir nosso amor e se isso quer dizer que vou ser infeliz, sim, eu quero ser infeliz, quero ser a pessoa mais infeliz do mundo, contanto que ela esteja do meu lado, segurando minha mão e me causando efeitos que só Regina Mills é capaz de causar.
Já havia um tempo que eu não tocava em Joana, a mudança de estado, nossos trabalhos também contribuíram para isso, mas depois que reencontrei Regina isso piorou. Quando ela tocou meus lábios, por mais que tenha sido apenas um selinho, sem desejo, sem esperar algo em troca, apenas deixou claro o que ambas sentíamos. Aquele simples gesto não me deixou dormir, não me deixou parar de pensar nas palavras e carinhos trocados, não me deixou chegar perto da minha própria namorada, era como se eu estivesse fazendo algo de errado, como se estivesse traindo Regina.
— Bom dia – Joana falou aproximando-se de mim na cozinha. Levou a boca de encontro a minha, mas logo desviei o rosto, fazendo com que o beijo fosse depositado na minha bochecha. Não parei pra pensar no que fiz, foi um impulso, sabia que aquilo viria a ser questionado, não sabia quando, mas sabia que estava próximo – Chega – falou – o que está acontecendo? – o momento chegou.
— Nada – respondi virando-me para pegar o café.
— Está sim – continuou – já faz um tempo que você anda me evitando.
— Não estou te evitando – retruquei.
— Então por que você fica na sala ate eu pegar no sono? Por que não dorme comigo? Não me dá se quer um beijo? – perguntou sem obter respostas – Me responda!
— Eu não sei – menti, pois sabia muito bem o que estava acontecendo, sabia principalmente o que eu estava sentindo e quem era a causadora disso tudo.
— Se você mesma não sabe, quem vai saber? – perguntou retoricamente.
— Eu estou cansada – falei – o trabalho está tirando muito do meu tempo.
— Isso não era motivo quando estávamos em Nova York – continuou – você sempre arrumava um jeitinho de passar mais tempo comigo.
— Joana, eu preciso ir – falei bebendo meu café rapidamente.
— Hoje eu vou ficar em casa, te avisei a uns três dias pra que tirássemos folga juntas. Pelo visto você esqueceu.
— Desculpa, é que ultimamente eu estou tão atolada com o trabalho, casos a serem resolvidos, pessoas a serem ajudadas...
— Você fala como se eu não soubesse o que é trabalhar – interrompeu indignada – Não sei se você se lembra, mas eu trabalho em um hospital, no qual muitas pessoas dependem de mim pra preparar o psicológico.
— Eu não quero discutir com você – falei calmamente – ainda é muito cedo pra isso e eu preciso chegar à delegacia em alguns minutos.
— Sinto muito se sou uma perda de tempo pra você. Eu só queria um pouco de atenção, coisa que eu nem sei mais o que significa – me encarou – Quero saber o que está havendo.
— Eu já disse, não é nada – respondi.
— Estamos juntas há quase quatro anos e sei exatamente quando algo está errado, agora cabe você me dizer pra que eu possa te ajudar a resolver seja lá o que for – respirou fundo recuperando a calma – Isso tem alguma coisa haver com o calendário?
— Eu não quero falar sobre isso.
Sim, o calendário. O calendário foi a forma mais adolescente que lhe dei com a ida da mulher da minha vida. Foi nele que marquei cada dia que passei sem vê-la. Toda noite ao final do dia eu o encarava, marcava com uma caneta de tinta vermelha mais um dia, um dia que parecia faltar algo, que faltava o essencial, um dia de tristeza, de saudade, de luto, de dúvidas e de desespero. Uma vez Joana me perguntou o que significava, pois havia em torno de dez calendários guardados, eu tentei me sair dizendo que era apenas uma coleção, desde então ela não forçou mais o assunto.
— Mas eu quero! – retrucou – Você não disse que era apenas uma coleção? Qual o problema de falar sobre ela? – me mantive em silêncio – Eu sei qual é o problema. O problema é que todo esse tempo que passamos juntas, não foi o suficiente pra eu te conhecer.
— Eu vou indo – falei dando as costas.
— Você não vai pra canto algum – puxou meu braço fazendo com que me virasse e a encarasse – Me explica isso – apontou para o calendário que ficava na cozinha – Dois dias que você não marcou, dois dias que não tem nenhum significado pra mim, dois dias aleatórios – eram os mesmos dois dias que eu havia visto Regina. Eu não queria tocar naquele assunto, pelo menos não agora, não com Joana alterada, precisava explicar em uma conversa e não em uma briga – O que esses dois dias significam pra você? Me responda, Emma!
— Eu a encontrei – falei em um som quase inaudível.
— Quem? – perguntou sem obter respostas – Quem você encontrou? – reforçou.
— A garota que eu amei – respondi.
— Que garota? Aquela que te abandonou? A que te deixou sem ao menos dar uma explicação? A garota que te privou a vida? Essa garota? – tornou a questionar.
— Ela não me abandonou – retruquei.
— Ah não? Então o que foi? Ela quis dar um tempo na relação de vocês, é isso? – ironizou.
— Não – falei secamente a encarando – a culpa não foi dela.
— E de quem foi? Sua? Minha? Por que ela não veio atrás de você?
— É muito mais complexo do que você pode imaginar.
O silêncio pairou por alguns segundos. Joana respirava fundo tentando acalmar-se, tentando ignorar o que estava diante de si, o que estava estampado no meu rosto e nos meus atos.
— Onde você a encontrou? – perguntou.
— Aqui em Seattle – respondi impaciente.
— Onde? – questionou.
— A primeira vez foi quando fomos ao Cover’s.
— Vocês se viram mais vezes? – não consegui responder a tempo – Claro – pegou o calendário – duas vezes, vocês se viram duas vezes.
— Sim – afirmei.
— E onde foi a segunda vez?
— Aqui – respondi.
— Aqui na nossa casa? – perguntou incrédula – Como você ousou trazê-la para cá?
— Eu não a trouxe – continuei – você mandou-a vir.
Joana novamente correu os olhos pelas datas em branco. Encarou aqueles dias como se trouxessem respostas para as várias perguntas que fazia para si mesmo. Minha última frase fez com que a ajudasse a juntar o quebra-cabeça.
— A única pessoa que eu trouxe foi... – não conseguiu terminar a frase.
— Regina – completei.
— Por que você não me contou?
— Contar o que? Tudo o que aconteceu entre mim e ela você sabia – continuei – Te contei tudo desde o primeiro dia que a vi ao dia que jamais passou pela minha cabeça ser o último.
— Por que não me contou que era ela no bar? – questionou. Não respondi, pois nem eu mesma sabia o motivo de ter feito aquilo, de ter escondido de certa forma a verdade – Se você tivesse me contado nunca que eu teria a mandado vir aqui, muito menos deixar vocês duas sozinhas.
— Não se preocupe, não aconteceu nada – não aconteceu nada que fizesse minha consciência pesar, mas aquele dia, aquele momento, nós duas uma próxima da outra, cada contato, cada olhar traçado, cada sorriso bobo e cada lágrima derramada, foram mais que o suficiente para confirmar o que eu não queria acreditar, confirmar o que há tempos lutei pra esquecer, lutei pra enterrar e deixar no passado. Lutei em vão, pois ela sempre estaria em mim, seus lábios sempre estariam no meu pescoço, seus braços sempre estariam ao redor da minha cintura, seu cheiro sempre estaria me rodeando, suas mãos sempre encontrariam as minhas e na minha cabeça sempre viria “Nós vamos conquistar o mundo, vamos lutar contra tudo e todos”, e eu... Bom, eu sempre pertenceria a ela, não importa o lugar, muito menos com quem eu estivesse, não importava, nada importava, pois ela sempre estaria comigo, Regina sempre estaria cravada em mim.
— Desculpa Emma, mas não consigo acreditar que não aconteceu nada – falou.
— E o que acha que fizemos? Que transamos, é isso? – perguntei ironicamente – Sempre te tratei como eu gostaria de ser tratada, com respeito, com amor e principalmente com fidelidade. Já você Joana, eu não posso dizer o mesmo.
— Você vai voltar nesse assunto de novo?
— De novo? Acho que todas as vezes que toquei nenhuma surtiu efeito, pois você continuou me traindo! – acabei explodindo.
— Você sabe muito bem que foi apenas com a Luize.
— Sim, eu sei que foi apenas com ela, mas a pergunta é: Quantas vezes isso se repetiu? – Joana optou pelo silêncio – Isso mesmo, nem você sabe, pois foram muitas – conclui.
— Isso não importa mais, pois estamos recomeçando, o emprego que me ofereceram no Seattle Grace considerei como uma chance dada pra que eu possa reparar meus erros e realizar um sonho, longe de Nova York, longe das pessoas que faziam minha caveira pra você e principalmente longe de Luize – continuou – Emma, eu te amo e você sabe disso – aproximou-se e segurou meu rosto com suas mãos.
— Desculpa, mas há tempos eu não sei o que é essa frase vinda de você – desviei do contato – Quem ama não trai e eu tenho certeza que isso se repetirá, independente de onde estivermos – suspirei ao vê-la chorar – Eu sei que é difícil duas pessoas em um relacionamento de quase quatro anos serem fiel uma a outra e por um lado te entendo, muitas vezes me ausentei no nosso namoro, mas acredite, eu fazia meu melhor – me aproximei e a envolvi em um abraço calmo.
— Você ainda a ama? – perguntou limpando os olhos.
— Seria minha mentira se eu negasse – respondi.
— Mas eu te amo Emma – falou me abraçando fortemente.
— Eu também te amo – acariciei seus cabelos – Você é acima de tudo uma amiga, uma grande amiga, minha confidente, o medo da separação é de certa forma comum, pois passamos muito tempo juntas.
— Como assim? – perguntou distanciando-se de mim e tornando a me olhar.
— Eu vi as últimas ligações que você fez – silêncio – você ligou pra Luize.
— Emma...
— Joana, eu sei que ela é apenas uma garota de dezessete anos, eu, por exemplo, tinha essa idade quando conheci a mulher da minha vida – aquela última frase saiu sem que eu percebesse – desculpa, eu não...
— Tudo bem – ela assentiu conformadamente.
— O que eu quero dizer é que amor não tem idade, ela é uma garota e você uma mulher, mas isso não significa que o que ela sente é algo infantil, não, pelo contrário, muitas vezes é algo mais forte do que muitas pessoas casadas com quatro filhos são capazes de sentir – sorri com carinho – Eu sei que se distanciou dela pelo medo do que essa relação pode acarretar, também sei que ela deve estar sofrendo, do mesmo jeito que eu sofri ou do mesmo jeito que você está sofrendo, e se você acha que passar o tempo longe da pessoa que realmente ama é o certo, bom, você seria louca – consegui arrancar um sorriso de seus lábios – O tempo nos fez dependente uma da outra, mas não quer dizer que nascemos pra ficar juntas – continuei – Se você a ama, faça igual a mim, saia dessa casa – apontei para a porta – e vá em busca de quem merece seu sorriso, da pessoa que te faz feliz, que te faz bem, esteja pronta pra lutar por quem quer que seja e faça cada minuto, cada segundo perdido valer a pena, pois só Deus sabe quanto tempo nos resta – Joana sorriu de um jeito que jamais a vi sorrindo, o brilho nos olhos eram nítidos e aquilo era muito mais do que eu esperava, era muito mais do que um dia eu cheguei a imaginar como seria aquela conversa.
— Obrigada – me abraçou, foi de encontro a sua bolsa e se dirigiu a saída – Você não vem?
— Pra onde?
— Em busca de quem nos faz feliz – sorri em resposta, não imaginei que levaria todas as minhas palavras tão a sério.
Ela segurou minha mão, descemos pelo elevador e andamos ate o carro. Joana pediu para que eu a deixasse no aeroporto, em poucos minutos chegamos. Perguntei se ela era louca de viajar com apenas uma bolsa e a roupa do corpo, sem mala alguma, Joana apenas respondeu que para o alívio dela havia algumas roupas na casa de seus pais e de algumas amigas, sem contar que poderia muito bem comprar quando chegasse lá. Descemos do carro, ela agradeceu novamente e me deu um abraço, estendeu um post it onde estava escrito o endereço de Regina, eu sorri em agradecimento e a vi desaparecendo entre todas aquelas pessoas na recepção.
Voltei para o carro e dirigi ate o trabalho. Cheguei meia hora após o horário normal, por sorte ninguém cogitou meu atraso. Entrei no meu escritório e adiantei todo o trabalho que estava pendente para o restante do dia. Ao meio dia voltei para casa, tomei um banho e me troquei, vesti uma calça jeans, botas de couro, uma camiseta vermelha e uma jaqueta escura. Abri novamente o guarda-roupa, afastei minhas roupas e no cantinho, de um jeito escondido, peguei um casaco que há tempo não ousava tocar.
Saí do apartamento.
Comecei a andar na direção em que o post it indicava. Minhas pernas estavam trêmulas, meu coração disparava, talvez por ansiedade, ou talvez simplesmente por medo. Medo de encontrá-la e ouvir novamente tudo o que me disse há dias atrás, medo de que ela ache que não seremos felizes juntas, medo, eu tinha medo, mas estava disposta a enfrentá-lo.
Se eu sofri com nossa separação? Foi o maior sofrimento que passei na vida. Mas apesar de tudo, me considero uma garota de sorte. Conheci o amor, o meu amor, passei pouco tempo com ela, mas foi o suficiente pra me fazer acreditar em todos os meus sonhos, me instigar a batalhar por minhas vontades e me fazer viver de verdade.
Tudo o que conquistei foi com meu esforço, com minha força de vontade. Tentei não desistir e por fim consegui. Não me curvei, não me entreguei, não me deixei levar. E essa corrente que prendera meus pés por tantos anos, agora quebrei com os próprios dentes.
Acordei inúmeras vezes com vontade de olhar no fundo dos seus olhos castanhos e pedir perdão, por tudo que um dia pensei em falar, em gritar, em brigar, clamar por explicações. A condenei por não ter ido atrás de mim, mas nunca olhei pelo seu lado, Regina apenas queria me proteger, seja de Cora, de si mesma ou de quem quer que fosse.
Não me entreguei. Eu vim lutar. Ela é meu impossível e isso nunca vai mudar.
♫♫♫
— Eu preciso te contar algo – aproximou-se da amiga – não vou conseguir entrar na sala de cirurgia antes que você saiba o que está acontecendo.
— Meu Deus, Addison – falou nervosamente – assim você está me assustando.
— Desculpa, é só que – pausou – é melhor você sentar – apontou para as cadeiras de espera que ficavam em frente à recepção, como um pedido pra que ela o fizesse.
— Tudo bem – sentou-se – agora fala.
— Joana não veio.
— E...?
— Ela pediu demissão hoje pela manhã – respondeu temendo a reação da amiga.
Em resposta, Regina levou as mãos ao rosto em um gesto de incredulidade.
— Eu não acredito nisso – falou ainda afogada nos dedos.
— O chefe me falou que foi por causa de alguém.
— Emma – completou a resposta da ruiva.
— Creio que sim.
Como em um flash a morena lembrou-se do que havia dito à loira. Provavelmente ela havia contado à Joana sobre o reencontro. Por um lado a morena agradeceu por aquilo, por talvez Emma seguir em frente, por ser feliz de um jeito que jamais seria capaz de mostrá-la essa felicidade, ao menos era isso o que Regina pensava. A dor ainda estava em seu peito, na verdade, agora ela estava se alastrando por todo seu corpo. Novamente teve que dar adeus a pessoa que mais obteve significado em sua vida. Poderia passar minutos, horas, dias, meses, anos, ou ate mesmo uma década novamente, mas ela sempre continuaria ali, seu lugar jamais seria preenchido, jamais. Se ela pudesse escolher? Pode ter certeza que escolheria a amnésia, o esquecimento total e gradativo dos seus atos, sentimentos, ou seja lá o que envolver Emma Swan.
— Foi o melhor a ser feito – falou limpando rapidamente a lágrima que se formara.
— Você está bem? – perguntou.
— Sim – mentiu.
— Estou perguntando de verdade, Regina – reforçou encarando seus olhos – Você está bem?
A morena balançou a cabeça negativamente, fazendo com que a amiga a abraçasse em um gesto de conforto. Regina se afogou nos braços da ruiva como se estivesse buscando por forças, ficaram juntas por alguns minutos ate que o bip de Addison apitou avisando a cirurgia que estava prestes a fazer.
— Não se preocupa – falou a morena antes de ver a amiga se desculpando – eu estou bem, quer dizer, eu estou melhor – sorriu com certa tristeza.
— Você tem que ir pra casa – falou.
— Addison, eu não quero...
— Mais de vinte e quatro horas acordada – interrompeu – como sempre a base de café. Já passa da hora do almoço e você ainda não comeu, sinto pena do seu estômago. Não vai demorar muito pra que o chefe venha te dar uma bronca e mandar você fazer exatamente o que eu estou falando – o bip apitou novamente – Preciso ir – beijou a cabeça da amiga – deixa de ser cabeça dura e vai pra casa – falava enquanto afastava-se – Te vejo a noite – desapareceu nos corredores.
Regina fez o que a ruiva pedira. Dirigiu-se ao seu armário, trocou de roupa, pegou sua bolsa, seu guarda-chuva e já ia saindo se não fosse por uma silhueta que lhe chamara atenção na recepção, onde há pouco tempo se encontrava. A mulher estava encharcada pela chuva que jorrava no lado de fora, sua jaqueta enrolava algo, provavelmente para proteger o objeto da água. A mulher parecia pedir informação.
— Aí está ela – a recepcionista indicou na direção da morena.
Aos poucos a loira virou-se para encarar a morena que parou de imediato quando a identificou.
— Regina – falou em um sussurro. Aproximou-se da mulher que estava estática olhando-a. Por um momento Emma viu seu futuro com a morena a sua frente, não um passado cheio de mágoas, mas sim uma história totalmente inacabada, uma história na qual não foram ditas as palavras necessárias, muito menos atitudes. Mas agora estavam ali, uma de frente pra outra, uma esperando pela outra. Uma palavra, um gesto ou simplesmente um olhar seria o bastante pra continuar de onde haviam parado. A loira sorriu com os lábios roxos de frio, os olhos brilhavam como os de uma criança quando realiza um sonho. Regina não sabia ao certo o que estava acontecendo, não sabia como reagir, Emma estava tão próxima, tão linda por mais que estivesse ensopada, um sorriso jorrava entre seus lábios. Há quanto tempo ela não o via? Seus pensamentos foram interrompidos quando a loira segurou delicadamente sua mão – Você... – gaguejou – Você quer almoçar comigo? – perguntou hesitante.
— Você está congelando – segurou a mão gélida da loira com as duas mãos – Por que não veste? – perguntou referindo-se a jaqueta.
— Você quer almoçar comigo? – insistiu na pergunta.
— Emma, você precisa se trocar. Vai acabar pegando um resfriado ou ate mesmo uma pneumonia.
— Sim ou não? – persistiu.
— Vem – Regina sabia o quanto a loira era cabeça dura, e pelo visto não mudara nada. Andou com a mesma ate a saída principal do hospital, onde abriu o guarda-chuva protegendo-as da água que caia desenfreada sobre a cidade. Andaram por alguns minutos sem trocar uma só palavra. Por fim a morena chegou onde queria – Entra – falou depois de destrancar a porta. Emma adentrou e observou quão grande aquela casa era, os móveis um tanto luxuosos, tudo no seu devido lugar, nem parecia ter criança naquele ambiente – Já volto – subiu as escadas e em cinco minutos voltou trazendo uma toalha, roupas limpas e as entregou à loira – Tome um banho com calma, quando terminar me encontre na cozinha, vou pedir nosso almoço – falava sem encarar a mulher a sua frente.
Emma demorou em torno de vinte minutos no banho, vestiu as roupas que pareciam ter sido feitas sob sua medida. Uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta que desenhava bem sua cintura e possuía um pequeno decote, certamente aquelas roupas eram da morena, pois seu cheiro as envolvia completamente.
Saiu do banheiro e foi para a cozinha onde encontrou Regina pondo a mesa. Ela também havia trocado de roupa, estava com um suéter frouxo que mostrava o ombro esquerdo e um short que fez a loira lembrar perfeitamente de sua adolescência.
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— Você está linda – falou antes que a morena percebesse sua presença.
— Obrigada – agradeceu colocando os talheres sobre a mesa.
A campainha tocou.
— Quem era? – perguntou.
— Comida – levantou as mãos com as sacolas – Pedi comida japonesa, espero que goste.
— Está ótimo – concluiu. Parecia que as duas estavam guardando cada palavra possível. Por um lado, Emma temia o silêncio que pairava, e por outro, Regina temia as respostas de que suas perguntas poderiam ter. O almoço se seguiu em um perfeito vácuo, dando direito apenas aos olhares apreensivos da loira, enquanto a morena ignorava com naturalidade. Quando terminaram, Regina recolheu os pratos e os talheres, tornando a lavá-los – Fala alguma coisa – Emma pediu.
— Se alguém tem algo pra falar aqui, esse alguém é você – enxugou as mãos e tornou a olhar a loira que estava próxima de si.
— Você está com raiva de mim? – perguntou.
— Não – respondeu calmamente – Você tem alguma coisa a ver com a demissão de Joana?
— Sim – encarou o chão – Tanto eu quanto ela tivemos motivos pra essa decisão – voltou seu olhar para a morena – O meu motivo é você e as promessas que preciso cumprir.
— Já conversamos sobre isso.
— Conversamos sim, mas não tive oportunidade de dizer tudo o que eu queria – concluiu.
— Emma...
— Por favor – interrompeu – só me escute – respirou fundo recuperando a calma. Encarou profundamente a mulher à sua frente, como se aquele olhar fosse capaz de penetrar seu corpo, sua alma, sua cabeça e seu coração – Eu pensei em você dia após dia, mês após mês, ano após ano. Eu tentei seguir em frente, eu juro que tentei, mas eu simplesmente não consegui. Descobri que essa história de que podemos enterrar o passado não é verdade, porque de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar – aproximou-se sem quebrar a visão que uma tinha da outra – Ouvi dizer que sábio é o ser humano que tem coragem de ir diante do espelho da sua alma para reconhecer seus erros e fracassos. Regina, você é o meu espelho, o espelho da minha alma – segurou novamente sua mão que agora se encontrava aquecida – Eu reconheço que errei, reconheço que fracassei, que ao invés de ter perdido meu tempo me lamentando e te julgando, eu deveria ter ido atrás de você, deveria ter encurtado o tempo que ficamos separadas – entrelaçou seus dedos aos da morena – Acreditava que tudo seria mais fácil se não tivesse te conhecido, mas agora tenho a plena certeza de que se nós não tivéssemos nos encontrado, eu teria compreendido que minha vida não estava completa e provavelmente estaria nesse momento perambulando pelo mundo à sua procura, mesmo sem ao menos saber o que eu estava buscando – levou a mão que estava livre ao rosto de Regina e o acariciou sutilmente – Eu te peço perdão por tudo o que eu poderia ter feito e não fiz, por todas as palavras que eu poderia ter dito e não disse, por ter sido fraca ao ponto de desistir de você, de tentar te esquecer – as orbes verdes da loira agora brilhavam. Tentava em vão segurar as lágrimas que estavam próximas a surgir – Não é fácil viver com esse fardo nas costas, e eu espero profundamente que um dia você possa me perdoar.
— É claro que eu te perdôo e eu estou disposta a dividir esse fardo com você.
Bastou a última palavra ser pronunciada para que Regina a envolvesse em um abraço. Um abraço firme e forte, abraço no qual fundia seus corpos, suas preocupações, seus medos, tristezas e acima de tudo o amor. O amor que tanto lutaram para mantê-lo longe, mantê-lo escondido, esquecido, mas que no fim sempre estaria ali, dentro de cada uma, mostrando que apenas um ser maior seria capaz de mudar esse sentimento, mudar o que jamais seria mudado, o que era predestinado.
Ficaram abraçadas por longos minutos, não pensavam em se soltar, queriam apenas sentir o momento. Regina aos poucos retirou os braços que estavam ao redor do pescoço da loira, levantou o rosto para olhá-la, para ter certeza que aquilo não era uma miragem, sonho, ou qualquer outra coisa que sua mente poderia está criando. Aproximou seus lábios da mesma, mas Emma deu um passo para trás impedindo o contato.
— Eu quero ir com calma – falou antes de qualquer questionamento – dessa vez quero fazer o certo.
— Você nunca fez o errado – continuou – mas se é assim que você quer, vamos fazer o certo – segurou a mão da loira e a conduziu ate seu quarto. Abriu a porta e adentrou no cômodo.
— Eu falo que quero ir com calma e você me traz pro seu quarto, sério?
A morena riu.
— Estou cansada pra fazer qualquer coisa que tenha passado pela sua cabeça, Swan – falou enquanto a loira corava – Eu queria apenas que você ficasse comigo ate eu pegar no sono, pode ser? – a loira assentiu em resposta.
As duas se dirigiram à cama e deitaram juntamente. Emma ficou ereta observando o teto por alguns segundos, queria beijar a morena, queria sentir seu gosto, mas por precaução resolveu ficar parada e quem sabe fingir que Regina não estava ao seu lado. Por um momento pensou que o constrangimento pairaria entre elas, mas no outro, sentiu a morena se aconchegar sobre seu corpo. Enlaçou a cintura da loira e pousou seu rosto em seu busto, assim pudendo ouvir nitidamente os batimentos compassados da outra, fazendo-a abrir um largo sorriso por saber o efeito que causava em Emma. Automaticamente a loira relaxou. Era tão reconfortante tê-la em seus braços, saber que agora ela estava ali, sentir seu cheiro, seu corpo próximo de si. Pousou a mão esquerda sobre as costas da morena, beijou o topo de sua cabeça, com a mão direita tornou a acariciar sua nuca e de vez em quando brincava com seus cabelos.
— Eu sei que você quer saber o que houve com Joana – quebrou o silêncio – A verdade é que sentíamos mais necessidade de ter alguém por perto, do que propriamente amor – esperou algum comentário da morena, mas como não aconteceu, resolveu continuar – Ela tem outra pessoa, alguém que realmente a faz feliz, como você me faz. Que só o fato de existir já é o bastante pra tirar sorrisos bobos.
— Como assim? Ela te traia? – perguntou levantando o rosto com o semblante surpreso para a loira.
— Sim – Emma riu – ela me traia.
Regina pousou novamente a cabeça no corpo da loira.
— Pensei que ela te amasse.
— Nós nos amamos, de um jeito fraterno, mas amamos.
— Foram muitas vezes?
— Que ela me traiu? – a morena assentiu – Sim, nem ela mesma lembra – riu – e é por isso que eu interpretava o sentimento dela de outra forma, porque tenho certeza que se realmente gostasse de mim, teria sentido remorso, ficaria com a consciência pesada, ou seja lá o que for, coisa que não aconteceu – continuou – Ela nem ao menos me contou, eu que descobri.
— Não é a toa que você é delegada.
— Justamente – as duas riram.
— Você disse que um dos seus motivos pra ficar foram as promessas que precisa cumprir, certo? – a loira assentiu – Quais são elas?
— Quase me esqueci de te dar uma coisa – falou.
— O que? – perguntou curiosa.
— Espera – a morena afastou-se dando passagem para que ela saísse – já volto – Emma desceu as escadas e foi ate o banheiro onde havia deixado suas roupas molhadas, que incluía o embrulho improvisado que fizera com a própria jaqueta para o que havia dentro não entrar em contato com a água da chuva. Voltou a passos largos para o quarto e encontrou Regina sentada lhe esperando – Bom, são duas promessas – abriu o nó que havia feito com as mangas da jaqueta – A primeira é que eu preciso te devolver isso – retirou um moletom que possuía alguns respingos de água.
— O moletom do meu pai! – falou pasma com a situação.
— Sim – sorriu – ele tinha o seu cheiro, mas parece que saiu.
Regina andou ate a loira que a entregou a peça de roupa. Levou-a ate seu nariz, fazendo com que pudesse sentir o aroma que havia substituído o seu.
— Canela – falou – seu cheiro está nele.
— Desculpa – pediu enquanto lembrava-se das noites que passara com ele – é que eu o usava quando não conseguia dormir.
— Funcionava? – perguntou.
— Sim – respondeu com receio de ela perguntar o motivo.
— Pra mim também.
— Pra você?
— Sim – virou-se indo ao banheiro. Tirou o suéter e vestiu a peça de roupa que um dia pertencera a seu pai. Saiu e andou ate seu guarda-roupa – Você pode trazê-la, por favor – apontou para a cadeira da escrivaninha. Emma carregou a mesma ate Regina. A morena a usou como degrau. Subiu e abriu o último compartimento do seu guarda-roupa, retirou uma caixa branca e a entregou à loira – Ela me ajudou bastante nas noites que eu não conseguia dormir pensando em você – falou enquanto a loira abria a caixa – Acho que de alguma forma muito estranha, ela me trazia calma. Quando eu a vestia, era como se dissesse “tudo vai ficar bem”.
Emma sorriu abertamente quando percebeu do que se tratava. Sua jaqueta vermelha. A jaqueta que Regina prometera que devolveria e em troca lhe deu algo com a mesma importância. Ela estava intacta, quase perfeita se não fossem os danos do tempo.
— Não acredito que você achou! – disse incrédula.
— Não fui eu – retrucou – foi Cora – riu com a expressão de espanto que a outra demonstrou – Quando percebi que ela estava com sua jaqueta, pensei que cortaria em picadinho, mas pra minha surpresa ela apenas jogou contra mim.
Emma riu com o que a morena acabara de falar. Que ironia, não? A loira experimentou a peça e viu que ainda cabia perfeitamente em si. Regina que já estava deitada novamente, apenas a observava com um sorriso no rosto. Parecia uma criança quando ganha roupa nova, que no caso, era velha. Deixou a jaqueta sobre a poltrona.
— Dessa vez eu não perco.
— Assim espero – retrucou.
A loira andou de volta à cama, aproximou-se da morena e a beijou no rosto. Um beijo calmo, com ternura, em agradecimento por tudo que estava acontecendo.
— Obrigada – encarava seus olhos castanhos brilhantes.
— Obrigada digo eu – agradeceu – Obrigada por ter ido atrás de mim, por está aqui, por não ter desistido de nós – passou o dorso dos dedos delicadamente sobre a pele branca do rosto da loira – O que eu quero no momento é te beijar, dizer que te amo, dizer que você é e sempre foi a parte mais especial da minha vida, o lado mais bonito foi você quem fez, você que moldou, que cuidou e que agora floresceu. Floresceu do jeito mais lindo que existe, do jeito que só Emma Swan foi capaz de fazer. Mas eu sei que você quer ir com calma, eu sei e vou respeitar sua vontade. Passamos tanto tempo longe uma da outra, que ficar sem seu beijo por algumas horas, dias ou por quanto tempo for necessário, é o mínimo que eu posso fazer – continuou – Mais uma vez te agradeço, agradeço por tudo que você fez, por tudo que me tornou e por ter escolhido a mim pra fazer parte da sua vida.
— Você é minha vida, eu nunca tive escolha – foi tudo o que disse antes de puxá-la para cima de si e a abraçar novamente. Forte. Como se nada nem ninguém fosse capaz de separá-las.
Regina descansou seu corpo sobre a loira, pousou a cabeça entre o ombro e o pescoço de Emma, fazendo com que sentisse o cheiro de canela novamente, tão próximo, tão nítido, tão real. Beijou seu pescoço duas vezes, ambas às vezes fazendo com que a mesma se arrepiasse. Cada palavra, cada toque, por mais simples que tivessem sido, acarretaram uma grande importância para as duas. Importância na qual levariam pro resto da vida.
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