Nossa Família

28 Capítulo Vinte e Sete — Harvard


Notas iniciais
Capítulo dedicado a Fernanda Castro que recomendou Nossa Família, muito obrigada por isso, flor, amei ♥ Boa leitura! :)

— Capítulo Vinte e Sete —

— Harvard —

Isabella Cullen

Eu estava deitada em um dos quartos do hotel, a suíte presidencial para ser mais exata. Os macios lençóis, do enxoval do quarto, enrolavam-se em meu corpo nu, enquanto ao meu lado o corpo quente do meu marido contribuía para me manter aquecida. Ao longe podia ouvir o barulho da chuva na janela, algo baixo, toques quase imperceptíveis, quase.

Aos poucos o som se tornou algo incomodo, mas como eu xingaria a chuva e mandaria pará-la de fazer barulho que estava atrapalhando meu precioso sono? A única solução era a que mais odiava, acordar e desistir de dormir um sono que não continuaria graças aos ruídos.

Abri os olhos, piscando um pouco para me acostumar a luminosidade que me atingiu. Logo a realidade também me atingiu, eu não estava na suíte presidencial do hotel que gerenciava coisa alguma, sim no precioso Bugatti de Edward, na verdade Bugatti de Carlisle.

Desviei o olhar do painel do carro, olhando para meu marido, que estava sentado no banco do motorista desmaiado, a cabeça encostada na janela e a boca levemente aberta. Não foi uma surpresa ver que ele estava usando apenas sua cueca, assim como eu estava apenas enrolada em meu roupão, nossas roupas emboladas no chão do carro aos meus pés.

O barulho de antes voltou a chamar minha atenção, então desviei o olhar para o meu lado direito, vendo um policial batendo em minha janela. Paralisei a ver o homem ali. Ele não podia ver o interior do carro, certo? Se ele pudesse aquilo seria constrangedor demais, Edward estava só de cueca, porra e um dos meus seios não estavam devidamente cobertos pelo roupão.

— Edward, Edward, Edward! — Cutuquei as costelas dele, vendo-o se remexer, uma careta de dor tomando conta de seu rosto. Não era para menos, se eu estava sentindo-me dolorida não só por ter dormido sentada naquele carro pequeno, mas por termos feito sexo ali, ele devia estar do mesmo jeito. Tinha sido maravilhoso, mas as consequências não eram tão boas assim, nós usaríamos uma cama da próxima vez.

— O quê? — Ele abriu um pouco de seus olhos, esfregando o rosto de forma que seria muito apreciada por mim, já que ele era lindo até mesmo ao acordar, caso não estivéssemos seminus em um carro caro estacionado na frente da praia.

— Tem um policial ai fora — murmurei aflita, apontando para o homem barrigudo do outro lado do Bugatti. Eu o olhei rapidamente, ele era careca, mas todo o cabelo de sua cabeça parecia ter se acumulado em cima de sua boca, onde um volumoso bigode encontrava-se. Aquilo fazia parte do curso preparatório para policiais? Quer dizer, o bigode, eu já tinha visto muitos deles além do meu pai com bigodes, eu não achava mais que era uma coincidência.

— Porra! — Edward guinchou, acordando de uma só vez ao constatar o motivo do meu pânico, ele alcançou sua calça no chão do carro, a vestindo rapidamente, enquanto eu arrumava o roupão ao redor do meu corpo fazendo-o esconder tudo que o bigodudo policial de Chicago não poderia ver. — Não fale nada — Edward ordenou, vestindo sua camisa, abrindo em seguida a janela do meu lado. — Oficial, bom dia! — Saudou, lançando um sorriso para o homem.

Sério, ele ia jogar charme até para o policial? Aquela criatura não tinha limites.

— Bom dia — o homem disse em um tom de voz rígido, olhando atentamente para o interior do carro. — Senhorita. — Acenou com a cabeça para mim. Oh bom, ele pelo menos não me considerava tão velha assim, pontos para ele. — Posso ver a documentação do carro, senhor? — perguntou para Edward, que encolheu um pouco.

Ele não tinha o documento do Bugatti consigo? Aquele era o mal de estar por ai com um carro que claramente custava muito, as pessoas achariam que ele não devia estar circulando pelas ruas, muito menos estacionado de frente para a praia vazia as seis da manhã de um domingo nublado.

— Desculpe, oficial, o carro é do meu pai, ele é quem tem os documentos — Edward disse, voltando a sorrir rapidamente. Tão lindo...Foco, Bella!

— Seu pai, é? — O policial claramente não acreditou, eu também não acreditaria. Quem levaria a sério alguém que tinha uma mulher no banco do carona usando um roupão e cabelos totalmente desgrenhados por conta de todo o sexo? — E você, senhor, tem documentos? Ou a senhorita?

Eu não tinha saído de casa com mais do que duas peças de roupa e um roupão, não, não tinha documentos comigo. Mas, claro que não podia dizer aquilo, então apenas neguei com um aceno de cabeça. Nós seriamos presos? Bree nunca poderia saber daquilo, ou eu não poderia mais jogar na cara dela sua prisão. E se Nessie descobrisse? Matthew? Merda, a agência de adoção e o estado!

— Tenho algo que pode nos ajudar a provar quem sou eu — Edward falou, parecendo ter descoberto a eletricidade, remexeu em seus bolsos, tirando seu celular de lá, ele digitou por alguns segundos, então virou a tela do aparelho para o policial.

Sufoquei uma risada ao constatar que ele tinha colocado em uma matéria sobre a família que estava no Youtube, eu não tinha certeza de quando fizeram aquela, mas pelas fotos recentes de Carlisle, Rosalie, Esme, de Edward, minhas e até de Ness e das minhas sobrinhas passando ali, sabia que não era tão antiga assim. Edward e eu evitávamos aquele tipo de coisa, nós odiávamos reportagens que não seriam realmente benéficas de alguma forma, mas não podíamos impedir que todas as outras fossem feitas.

Aquela estava falando sobre a família ser uma das mais ricas do país, nada de novo, mas eles adoravam nos expor, por mais que tentássemos fugir disso.

— Você é Edward Cullen? — A expressão até então séria do policial se desfez instantaneamente, seus olhos arregalando-se para Edward.

— Sim, eu sou — Edward respondeu sorridente, ligando a luz interior do carro para que o homem pudesse o ver melhor. — Então, como eu disse antes, o carro é do meu pai, oficial. Minha esposa e eu, inclusive, temos de levá-lo de volta para lá agora mesmo.

— Claro, claro! — O homem concordou. — Eu vou escoltá-los até lá, é perigoso demais andar com um carro desses por ai sem segurança.

— Não, não precisa...

— Eu insisto! — ele interrompeu Edward, que revirou os olhos.

— Tudo bem — Edward resmungou, fechando a janela e me encarando por um segundo antes de começar a dirigir, o policial nos seguia de perto em sua viatura. — Não diga nada.

— Eu nem sei o que dizer Edward — falei, pegando a calcinha e vestindo, ficando um pouco mais decente. — Aliás, eu sei, você estava jogando charme para o policial não te prender. — Ele riu.

— Querida, se eu conseguir derrubar sua barreira de proteção na faculdade, consigo derrubar até a de um policial.

— Ei, ei, ei! — exclamei nervosa vendo o caminho que ele estava levando. — Nos leve para o nosso apartamento, não para a casa dos seus pais, Edward.

— Estamos a três minutos da casa deles, Bella — ele disse. — Eu estou exausto, tem um policial nos seguindo e você está usando um roupão, vamos aceitar que precisamos de um banho o quanto antes.

— Eles nunca vão nos deixar esquecer disso — choraminguei. — O encrenqueiro é você, não eu.

— Você se casou com o encrenqueiro, o aceitou em quaisquer condições, lembra? — Ergueu sua mão esquerda, mostrando a aliança.

— Se você não fosse tão bom transando eu estaria acordando na minha cama agora. — Cruzei os braços na frente do corpo, ouvindo-o rir.

— Melhor sexo do mês, querida, nós nos superamos! — Ele estendeu a mão para mim, foi impossível não bater de volta. Era isso, nós nos merecíamos, Esme não podia estar mais certa sobre sermos certos um para o outro.

Como esperado do Bugatti aliado a Edward o conduzindo, em questões de minutos nos estávamos chegando a mansão dos Cullen. Eu resmunguei baixinho sobre a vergonha que seria chegar ali naquele estado, mas era melhor do que cruzar a cidade com o policial nos seguindo, uma vez que ele até mesmo fez questão de ligar a sirene para mostrar seu poder.

Eu me perguntava se a policia de Chicago não tinha nada melhor para fazer do que sair por ai escoltando Bugatti de um herdeiro, a resposta era óbvia. Antes de Edward conseguir a abrir os portões que nos levariam a garagem e a distância do policial, ele deixou o carro por segundos para agradecer o homem pelo serviço prestado, eu duvidava de que o bigodudo lhe pediria por um autografo, mas não chegou a acontecer.

Recolhi a camiseta de Edward do Bugatti, então deixei o carro, seguindo pela porta que nos levaria a cozinha dos Cullen, ouvindo meu marido me seguir assobiando uma música. Claramente chegar naquelas condições na casa dos pais dele pela manhã não era algo que Edward achava tão ruim assim, ele já tinha feito pior, claramente.

— Ei, o que estão fazendo aqui a esse horário? — Ouvi a voz de Rosalie no momento que pisei na cozinha.

Levantei meu olhar, vendo-a com uma xícara de café em mãos sentada ao balcão junto ao pai. Carlisle tinha o jornal em mãos, mas sua atenção também se voltou rapidamente para seu filho e nora voltando de uma noite de sexo que terminou com escolta policial.

— Oh Deus, o que aconteceu com seu cabelo, Bella? — Rosalie gargalhou ao prestar mais atenção ao meu estado desgrenhado.

Mordi o lábio, passando a mão pela bagunça que meus cabelos estavam.

— Suas chaves. — Edward jogou a chave do Bugatti para o pai, que continuava nos encarando.

— O que diabos vocês fizeram com meu carro? — Carlisle indagou em um tom de voz baixo, mas sério.

— Nada demais. — Edward arranjou uma xícara e foi se servir de café.

— Claro, nada demais — Rose debochou. — Isso explica sua camisa estar do avesso. — Apontou para a roupa do irmão. — A senhora Cullen ali estar toda bagunçada e de roupão. — Gesticulou para mim. — Segurando uma camisa. Claro, claro, vocês não fizeram nada demais.

— Por Deus, digam-me que meu carro continua imaculado — Carlisle pediu, olhando para a chave em sua mão com uma careta nada boa.

— Ele com certeza não está mais — Edward sussurrou, fazendo a irmã rir alto e se engasgar com o café que bebia.

— Edward, não! — exclamei envergonhada.

— Arg, que nojo! — Carlisle soltou a chave sobre o balcão como se ela tivesse lhe dado um choque. — Vocês poluíram meu carro! — acusou. — Um carro que adquiri a menos de vinte e quatro horas. Não tinham o direito de batizá-lo, não é de vocês.

— Edward me convenceu, eu sou uma inocente — murmurei, Edward me olhou indignado. Pois, claramente eu tinha começado a coisa toda de sexo na noite passada, mas em minha defesa foi ele que me levou para o Bugatti, estava pronta para ficar o resto da noite lendo quando ele apareceu.

— Sim, sabemos o quão inocente você pode ser, eu devo lembrar de Long Island agora, ou mais tarde? — Rose provocou.

— Fica quieta, Rosalie — ordenei. Ela nunca esqueceria aquela viagem, nunca me deixaria esquecer que nos ouviu fazer sexo também.

— O que está acontecendo aqui? — Esme entrou na cozinha, nem ela usava roupão, eu estava no fundo do poço. — Por que vocês estão aqui tão cedo? — Olhou de mim para seu filhinho péssimo influenciador.

— Edward e Bella usaram o Bugatti do papai para transar — Rosalie contou ainda sorridente para nossa vergonha. — Ele é a prova de sons? Ou quem passou por eles ouviu tudo?

— Rosalie! — Edward e eu exclamamos juntos.

— O quê? Estou apenas contando a verdade, ela descobriria mais cedo ou mais tarde. —Deu de ombros.

— Deus, vocês não tem jeito mesmo, não? — Esme balançou a cabeça em negação. —Eu ouvi uma sirene, não digam que...

— Vocês foram presos? — Rosalie gritou. — Isso fica ainda melhor, puta merda!

— Rosalie, controle sua língua na minha cozinha! — Esme ordenou, Rose assentiu, mas ainda ria.

— Por que diabos você está com um humor tão bom hoje? — perguntei a minha cunhada, eu não a via tão pra cima desde antes seu divórcio, ela parecia radiante aquela manhã. Tudo aquilo era por conta da sua mudança?

— Ah, eu não tive tempo de te contar sobre a noite passada de Rosalie, não é? — Edward me olhou, um brilho em seu olhar refletia em seu sorriso travesso.

— É, porque vocês estavam fodendo no carro do papai — Rose disse, fazendo a mãe sufocar uma risada e o pai se lamentar.

Pobre Carlisle, eu me sentia mal por ele estar vendo seu carro ser usado daquela forma.

— O que aconteceu na noite de Rosalie? — perguntei a Edward, que me entregou uma xícara com café que foi muito bem aceita, talvez um pouco de café melhorasse aquela manhã.

— Ela estava contando a Emmett sobre sua flexibilidade — Edward falou, Carlisle lançou um olhar apavorado para a filha, muito parecido aos que Edward lançava a Nessie quando ela citava qualquer garoto.

— Você o que, Rosalie? — Carlisle a questionou, não havia um pouco de humor em sua voz.

— Não é o que estava pensando, papai. Eu só estava falando sobre quando fui ginasta no colegial — Ela se explicou, Esme riu baixinho enquanto preparava seu chá sagrado de todas as manhãs.

— Claro, era exatamente disso que você estava falando, irmãzinha inocente e pura — Edward continuou a provocar a irmã.

— Espera, não estou entendendo nada, onde Rosalie falou sobre sua flexibilidade para Emmett? — perguntei confusa sobre aquilo.

— Ele esteve aqui ontem — Foi Esme quem disse, soando muito animada com aquilo, eu sorri para ela, vendo-a entrar em seu modo cupido. Amava minha sogra, ela era demais. Amava Carlisle também, mas ele parecia estar em modo catatônico sobre seu carro e aquilo era em parte minha culpa. — Carlisle levou os meninos para darem uma volta no Bugatti e vieram beber aqui depois, Emmett e Rosalie passaram boas horas jogando sinuca e conversando. Estão se apaixonando!

— Mãe, não é nada disso — Rosalie insistiu, corando. — Nós jogamos por umas duas horas no máximo e ninguém está se apaixonando.

— Eles logo irão assumir o que sentem, não vai demorar muito — Esme disse para mim, Rose revirou os olhos. — Agora, Bella, vá tomar um banho e dar um jeito na bagunça que está, filha.

— Sim, eu preciso disso.

— Vamos, eu quero tomar um banho também — Edward falou.

— Banheiros separados, isso aqui não é o Bugatti do papai para ficarem brincando — Rosalie disse, Esme sufocou mais uma risada.

— Chega, não posso mais ouvir falar nesse carro — Carlisle reclamou, levantou-se, pegou a chave sobre o balcão e estendeu para Edward, que paralisou. — Você conseguiu garoto, o carro é todo seu.

— Isso é sério? — eu indaguei, Edward continuava em choque ao meu lado, encarando a chave estendida para ele. Coitadinho, era capaz de desmaiar diante aquilo. — Carlisle, esse carro custa muito...

— Isabella, quieta! — Edward se recuperou, tirando a chave da mão do pai.

— Não quero mais nem olhar para aquele carro — Carlisle resmungou. — Ele é todo de vocês, eu vou mandar os documentos amanhã para você, Edward.

— Porra, obrigado, pai! Muito, muito obrigado, esse é o melhor presente de todos os tempos!

— Não me agradeça, só pare de usar meus carros para fins indevidos, garoto. — Carlisle pegou seu jornal e voltou a se sentar. — Afinal, de onde era a sirene que Esme ouviu?

— Oh, conte essa história, não quero mais lembrar disso — falei para Edward, deixando a cozinha rapidamente, seguindo para o antigo quarto dele na casa, onde eu poderia tomar um banho e sentir-me mais decente naquela manhã de domingo.

Estava subindo para o terceiro andar, onde o quarto dele ficava, quando Anne começou a descer, ainda em seus pijamas, lançando-me um olhar curioso.

— Oi, tia!

— Oi amorzinho. — Sorri para ela.

— Você levou um choque, tia? Seu cabelo tá todo pra cima.

Ela não negava de quem era filha, não mesmo.

— Sim, um choque. — Forcei um sorriso.

— Um tipo de choque que eu espero que você não leve tão cedo, filha. — Ouvi a voz de Rose atrás de mim. — Vá tomar café com seus avós, certo? — falou com Anne, que concordou e terminou de descer. — Vamos cunhadinha, irei te arranjar algumas roupas, Edward aproveitou que agora ele é dono daquele bendito carro e vai para o apartamento de vocês e buscar Ness. — Ela me guiou até seu quarto, que ainda parecia muito com o de anos atrás quando fui até a casa dos Cullen pela primeira vez.

— Então, Emmett, né? — perguntei enquanto ela procurava por roupas para mim.

— Não é nada do que você está pensando — ela gritou do closet. — Nós só jogamos um pouco de sinuca e conversamos, ele é um cara bacana, mas é só isso. — Saiu do closet, me jogando algumas roupas. — Eu não estou apaixonada por ele.

— Okay, mas está nem que seja um pouquinho afim dele? — pressionei.

— Não — ela mentiu descaradamente. — Vá tomar seu banho, preciso de toda a ajuda possível para deixar aquele apartamento habitável.

— Pode deixar, cunhada. — Entrei em seu banheiro.

Algum tempo depois que deixei o banheiro, sentindo-me muito mais humana por estar com roupas limpas e o cabelo devidamente lavado, seco e penteado, Edward chegou trazendo Nessie consigo. Então, nós todos pudemos ir levar o que faltava das coisas de Anne, Lucy e Rose para o novo apartamento delas, que mesmo sendo grande, parecia estar tomado por malas e caixas, eu não fazia ideia como elas podiam ter acumulado tanta coisa em Chicago sendo que tinham chegado a poucos meses de Dubai.

— Lucy, esta é sua, linda. — Entrei no quarto dela puxando uma mala cor de rosa berrante da Barbie, Alice tinha uma exatamente igual.

— Ei, tia, essa é da Anne, na verdade. Eu não gosto mais da Barbie tem dois anos. — Sorriu de forma muito parecida que a mãe sorria, mas eu podia ver um pouco de tristeza no sorriso dela.

— Tudo bem? — Andei até o seu lado, ela arrumava sua mesinha de estudos metodicamente, quem me dera Nessie fosse um pouquinho mais organizada, ou Edward, ou até mesmo eu.

— Sim — ela mentiu, era tão boa naquilo como a mãe, ou seja, nem um pouco.

— Certeza, Lucy? — Ela suspirou, então me olhou. Os olhos eram exatamente como os de Carlisle e Rosalie, mas todos os Cullen para mim sempre pareciam ter o mesmo tipo de olhar intenso, independente da cor dominante.

— Só estou chateada — murmurou.

— É, por quê? — Sentei no chão perto da mesinha, ela parou de arrumar ali e sentou também, abraçando suas pernas e apoiando o queixo no joelho.

— É com meu pai, o que ele fez com a mamãe foi muito errado, né?

— Sim, foi.

Lucy respirou fundo, assentindo.

— É, eu sei. Não gosto de ver a mamãe triste, tia, mas também não gosto de ver ela longe do papai. A Anne vive falando nele e isso deixa a mamãe mais triste ainda, então eu fico de boca fechada, só que eu queria muito que eles se acertassem e que a mamãe ficasse feliz de novo.

— Lucy, eu não sei o que exatamente passa na cabeça da sua mãe, muito menos na do seu pai. Mas, eles se divorciaram e estão separados. Rosalie está iniciando uma nova fase da vida dela agora, com você, sua irmã e aqui em Chicago. Eu imagino o quanto sente falta do seu pai, mas ele sempre será seu pai, independente de estar junto a sua mãe ou não. Sabe, eu não via sua mãe tão animada desde o ano novo, hoje de manhã quando cheguei na casa dos seus avós, ela parecia radiante, ela está feliz, acredite. — Afaguei o rosto de Lucy, que sorriu para mim.

— Ela parecia mesmo, eu amo ver a mamãe feliz, tia.

— Eu sei que ela também ama te ver feliz, Lucy. — Beijei sua bochecha. — Sei que toda essa mudança pode parecer assustadora, lindinha, mas vai ficar tudo certo, okay? E se você quiser conversar com alguém pode me chamar, será uma honra ajudá-la no que for preciso.

Lucy sorriu, daquela vez de forma sincera, então me deu um abraço apertado.

— Obrigada, tia Bella, você é a melhor!

Não preciso dizer que meu ego inflou aquilo, eu era uma Cullen por anos, aquilo já tinha se tornado meu também.

— Vou levar a mala da sua irmã — falei para ela, que concordou, voltando a arrumar sua mesinha.

No momento que deixei o quarto, arrastando a mala da Barbie atrás de mim, deparei-me com Rose no corredor. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas ela sorria.

— Eu estou fazendo a coisa certa, né? Por mim? Pelas meninas?

— Está sim. — Afaguei seu braço, o sorriso dela aumentou e ela olhou ao redor do corredor.

— Gosto daqui — disse. — Estou mesmo feliz. — Então me abraçou. — Lucy está certa, você é a melhor, cunhada!

— Eu sou, não é? — brinquei, fazendo-a rir. — Essa mudança é necessária, Rose, mas não se preocupe, nós todos estamos aqui, somos um time.

— Somos uma família — ela corrigiu, ainda me abraçando. — Eu gosto de Emmett — sussurrou.

— Eu sei, vocês querem nosso Bugatti emprestado?

Rosalie gargalhou, soltando-me.

— Não. — Ela sorriu maliciosamente. — Não ainda, quem sabe algum dia.

***

Naquela noite, depois de deixarmos Rose e as meninas com um apartamento mais arrumado, nós voltamos para casa. Edward tinha ido com Nessie para a casa dos pais dele mais cedo no Bugatti, então quando precisamos fazer nós três caber naquele carro, não foi possível.

— Eu não vou pegar um táxi, seus pais já foram e não podem me dar uma carona. Você vai de táxi e eu vou com a Nessie no Bugatti — falei para um desesperado Edward, que se recusava a me deixar dirigir seu novo brinquedinho.

— Querida, amo você, mas sua direção não é a melhor. Quer dizer, você aprendeu a dirigir com sua mãe, ela não é muito boa no volante, a mãe dela não foi muito boa, deve ser genético, não duvido disso.

— Vamos logo, mãe! — Nessie reclamou do interior do Bugatti estacionado na vaga de garagem extra de Rosalie, Edward nunca o deixaria do lado de fora do prédio correndo perigoso, a nossa sorte era que tínhamos três vagas em nosso prédio, ou ele seria capaz de me mandar sumir com a Mercedes para proteger o Volvo e o Bugatti.

— Foi você quem teve a brilhante ideia de vir com esse carro, agora eu vou voltar nele. — Arranquei a chave de sua mão. — Te encontro em casa.

—Bella, cuidado — implorou, fechando a porta antes que eu a batesse com força demais, o que sempre acabava acontecendo.

— Vá pegar seu táxi, querido — ordenei, colocando o cinto e subindo a capota do carro querendo proteger meus cabelos de mais um estado bagunçado aquele dia.

— Tchau, papai! — Nessie gritou para ele antes que eu fechasse a janela, vi Edward amedrontado enquanto eu tirava o carro da garagem. — O que tem demais nesse carro? — Nessie perguntou para mim, mexendo no som.

— Nada, seu pai é apenas um aficionado por carros. Você não vai ser assim, não é, pequena?

Ela negou com uma careta.

— Eu vou ter uma moto.

— Ah, você com certeza não vai ter uma moto — declarei séria. — Talvez, quando eu morrer, você possa ter uma, mas antes disso? Nem pensar, filha.

— Motos são super legais, mamãe — ela insistiu. — Tenho certeza de que o Matt também vai querer uma, por favor, por favor, nos deixe ter motos.

— Não.

A ouvi suspirar alto.

— E nem mesmo um pinguim?

— Nem mesmo um pinguim.

— Matt vai poder ir a minha peça? — perguntou um tempo depois.

— Vou tentar conseguir uma liberação para isso até a terça-feira, mas não crie expectativas, é muito difícil que eu consiga.

— Tudo bem — ela disse chateada, tirei meus olhos por um instante da rua para olhar para Nessie e afagar seu rosto, quando ouvi uma buzina alta.

Parei com o Bugatti imediatamente, vendo um carro idiota me cortar.

— Você está bem, filha? — perguntei a Nessie, por sorte a freada ainda que brusca não foi o suficiente para nos machucar.

— Sim — ela murmurou, ainda confusa. — Papai...

— Ele não pode saber disso — completei. — Vamos torcer pra esse carro não ter um arranhão que seja.

Assim que chegamos ao prédio, eu estacionei o carro em segurança, Nessie e eu começamos a inspecioná-lo, procurando por qualquer sinal de um arranhão que fosse. Para nosso azar, mais meu do que dela, Edward chegou e nós ainda estávamos naquilo.

— O que aconteceu? — ele perguntou tenso.

— Um idiota nos cortou — murmurei, aproximando-me dele e tocando em seu peito. — Foi assustador, amor. — Fiz um biquinho e lhe lancei meu melhor olhar doce.

Senti a mão de Edward na minha cintura, então descer até a minha bunda e se infiltrar no bolso da calça que eu usava, tirando a chave do carro de lá.

— Você nunca mais usa o Bugatti, querida. — Bufei. — Algum arranhão? — perguntou para Nessie.

— Não, mas eu achei esse carro feio — ela comentou. — Laranja e preto não combinam, papai.

Edward a olhou horrorizado.

— Como você pode achar um Bugatti feio, Renesmee Carlie Cullen?

— Mãe, eu não sei o que aficionado significa, mas papai parece mesmo com um.

Eu ri, vendo Edward revirar os olhos.

— Você também nunca vai dirigir o Bugatti, Renesmee — decretou.

— Não quero, eu vou ter uma moto — ela disse confiante, indo em direção ao elevador.

Sério, como parar aquela garota na infância para sempre e mantê-la em controle?

***

Na manhã seguinte eu fui até nosso advogado quando consegui algum tempo de folga do hotel, graças a Emmett que talvez um dia se tornaria meu futuro cunhado. Eu precisava falar com Jenks sobre a possível ida de Matthew até a peça de Nessie e ver a quantas andava nosso processo, Edward estava cheio de trabalho e não pode ir comigo, mas ainda tínhamos uma visita a Matt programada aquele dia.

— Bella, como vai? — Jenks perguntou ao me recepcionar em seu escritório.

— Muito bem, obrigada — agradeci. — E você? Extorquindo outros clientes? — brinquei.

— Sempre — Ele riu. — Onde está o senhor Cullen? Eu adoraria falar sobre dinheiro com ele. — Jenks também brincou.

— Ele adoraria isso, ainda mais se conseguisse um desconto para a gente, mas estava cheio de trabalho hoje e não pode vir. Vai ter que lidar apenas comigo.

Ele concordou, sentando-se atrás de sua mesa.

— No que posso ajudá-la hoje?

— No sábado, minha filha irá se apresentar em uma peça na escola, ela gostaria muito que Matthew estivesse lá também. Os dois se conheceram no último fim de semana e foi um bom começo, de forma geral, posso dizer. Há alguma possibilidade que consigamos levar Matthew conosco para a peça? Ou isso é pensar alto demais?

— Vamos ver, eu entrarei com um pedido para o juiz ainda hoje e tentarei o apresá-lo o quanto for preciso para que até o fim do dia ele tenha nos dado uma resposta — ele disse, digitando em seu computador e voltando-se para mim. — Algumas vezes eles costumam liberar as crianças para passar o fim de semana na casa da família que está adotando, se dermos sorte isso será possível com Matthew.

Mordi o lábio, tentando conter minha ansiedade contra aquilo. Existia uma possibilidade, mas ela podia não acontecer conosco ainda. Eu não queria ficar chateada por me encher de planos para aquele fim de semana e ver tudo sendo jogado de lado, pois o juíz não concordou com nosso pedido.

— Bom, se aceitarem que o garoto vá ficar com vocês, mesmo que por um dia, isso me leva a dizer que ainda essa semana podem passar no apartamento de vocês para vistoria — Jenks falou, remexendo na papelada do nosso caso. — Como estão indo as entrevistas com a psicóloga até agora?

— Boas, Edward, Nessie e eu passamos por ela. E meus sogros também, minha cunhada será entrevistada ainda hoje — contei. — Mas, minha mãe não aceitou a adoção muito bem — murmurei, envergonhada por aquilo. — Eu não sei como será a conversa dela com a psicóloga.

Jenks levantou o olhar dos documentos para mim.

— Ela não será a primeira familiar que não reage bem, pense positivo quanto a isso, não acho que é algo que a psicóloga vá achar o fim do mundo. Ah não ser que sua mãe colocasse o garoto em perigo.

— Não, ela não seria capaz de machucá-lo. Não fisicamente, ela só fala as coisas sem pensar, eu só...

— Ela sabe que ele é negro? — Jenks me interrompeu.

— Eu não tive tempo de contar isso.

— Ela é racista?

— Ela nunca se mostrou como uma

— Ela não será um problema — Jenks disse com confiança. — Há alguma outra pessoa na família que é racista, Bella?

— Os avós maternos de Edward são absurdamente preconceituosos.

Jenks assentiu, recostando-se em sua cadeira.

— Eu fui para Harvard, sabia? — Ele mostrou o anel em sua mão com o símbolo da faculdade. — Há trinta anos, quando os negros ainda não eram bem vindos em qualquer lugar, principalmente em uma instituição como aquela. — Assenti, o deixando continuar a falar. — O preconceito vinha de qualquer lugar, até mesmo de professores. Algum tempo depois de formado, me casei com uma garota do sul do país, Louise, filha de fazendeiros extremamente racistas. Eles nunca aprovaram nossa relação e morreram sem aprovar, eu era negro, vinha de uma família pobre e eles não me queriam com sua filha descendente de europeus extremamente branca. Louise arrumou suas malas no dia seguinte que os pais disseram que nunca a deixariam casar comigo, então nos mudamos para Chicago.

— Ela parece uma mulher incrível.

— Ela é — concordou sorrindo. — O preconceito nunca é fácil de aguentar, Bella, nem nunca será. Você precisa ser forte por seu garoto, entende? Edward também e o máximo de pessoas da família, com toda certeza são uma boa ajuda. Mas, você e seu marido precisam apoiar esse menino diariamente, ele precisa crescer sabendo que não há nada de errado em ser negro, que ele pode ser um advogado, um médico, até mesmo um astronauta, que ele pode entrar e sair de qualquer lugar independente de sua cor de pele. Ele é uma pessoa, uma criança que um dia se tornará um adulto e precisa ter os valores certos sobre si mesmo. Vocês enfrentarão preconceito, não só por conta da adoção como sua mãe já está reproduzindo, mas por Matthew ser negro. Você e Edward são de uma das famílias mais ricas desse país, o mundo de vocês é muito distante do mundo que Matt nasceu e cresceu até aqui, talvez essas diferenças sempre estejam ai, só diminuam com o tempo, mas tudo que precisam é ser fortes junto com esse garoto, fazê-lo aprender a ser forte e mandar todos esses grandes filhos da puta pra bem longe quando necessário, pois ele é quem vai suportar muito mais de julgamentos em suas costas e precisa dos pais ao lado dele.

— Nós vamos estar ao lado dele — falei, surpreendentemente sem vontade alguma de chorar, mas sentindo-me em preparação para o que sabíamos que viria pela frente. — Você é um bom advogado, Jenks, merece seu preço. — Ele gargalhou.

— Bella, sabemos que eu cobro muito mais do que o valor de mercado.

— É o mundo dos negócios, aprendemos isso em Harvard, não?

— Com certeza, deixe-me dizer, comece a poupança da universidade de Matthew agora mesmo, um dia veremos aquele menino formando-se na maldita Harvard. — Sorri, concordando com um aceno de cabeça, eu tinha certeza quanto aquilo, ele era um garoto maravilhoso e venceria cada batalha.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 24.01.17